Dialeto é uma banda brasileira de rock pós-punk e rock progressivo formada na cidade de São Paulo em 1987. A banda sempre se exercitou num som rico de referências e climas, que emergiu do punk jazz/no wave surgido na virada dos anos 1970 para os 1980. Foi quando músicos da ala mais radical do progressivo se reinseriram no pós-punk com uma musicalidade mais direta, mas ainda assim bastante experimental. Um exemplo disso é a volta do King Crimson, após uns anos de hiato, com um som bastante atualizado, em 1981.

História

A partir de 1978, os estudantes da FAU-USP Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo, Nelson Coelho e Fabio Golfetti, começaram a conversar sobre música, a ensaiar e depois a montar grupos musicais. Ambos guitarristas, lideraram um núcleo pelo qual passaram o baixista Beto Birger, o baterista Cláudio Souza e os saxofones de Gilles Eduar e Renato Mello (todos arquitetos de formação – esses músicos viriam a fundar importantes bandas do pós-punk paulistano, como Violeta de Outono, Nau com Vange Leonel, Kafka e o grupo Luni com Marisa Orth). As raízes da sonoridade dessa turma podem ser rastreadas até encontros como o de Daevid Allen, o gênio por trás do grupo Gong, com o baixista norte-americano Bill Laswell, do Material .

Enquanto circulavam baixistas, bateristas e saxofonistas, esse grupo, sempre instrumental, se chamou, seguidamente, Lux, AMT-1, e finalmente Ultimato. Com a entrada de Guilherme Isnard nos vocais, o Ultimato se tornou a primeira formação do Zero (banda). O lançamento de um single por uma gravadora ("Heróis", pela CBS Records), depois de uma participação no primeiro disco da cantora May East, Remota Batucada, na faixa "Caim e Abel", culminou um processo desgastante. Golfetti e Coelho resolveram formar grupos próprios (respectivamente Violeta de Outono e Sotaque, logo renomeado Dialeto), mas sempre mantendo a colaboração em projetos paralelos (Ópera Invisível (Versão Tropical), Stereotrips). O primeiro release do Dialeto anuncia a intenção de voltar a uma certa mistura multicultural do progressivo (incluindo a própria diversidade étnica de seus novos membros), recuperar influências como a de Jimi Hendrix e King Crimson, e mais uma boa pitada de música oriental .

A parceria segue com Golfetti atuando como produtor do primeiro disco do Dialeto, Dialect, gravado em 1990 (e adicionando sua glissando guitar em uma faixa). Golfetti produziria, mixaria e masterizaria o Dialeto em outras ocasiões. O disco foi saudado internacionalmente com comentários bastante positivos ("Se a formação original do King Crimson dos anos 80, por algum motivo, tivesse ficado presa no Oriente Médio, imagino que seus álbuns teriam um som parecido com este", "Dialeto é a melhor coisa que aconteceu ao rock progressivo desde o Primus. Não estou brincando", ""Mme. Blavatsky" é sombria e misteriosa (...), "Enigma" é sombria e assombrosa, com a entrada de palavras faladas. É muito bom enquanto Coelho conta essa história (...), "Gunga Din" tem uma introdução assustadora". Em 2008 o disco teve partes regravadas, foi remixado, remasterizado e relançado, como Will Exist Forever . A mesma formação, com Andrei Ivanovic no baixo e Miguel Angel na bateria, gravou ainda Chromatic Freedom em 2010 (com backing vocals de Nice Juliano, a esposa de Coelho, em algumas faixas). O conceito musical do disco segue a escala cromática, com cada música a um semitom de distância da anterior.

Mudanças de formação, a pesquisa em Bartók e a colaboração com David Cross, ex-King Crimson (2013-2018)

Em 2013 veio The Last Tribe, com Jorge Pescara, baixista de carreira internacional, especializado em touch guitars (o Megatar, inspirado no Chapman Stick). O disco foi o primeiro lançamento internacional do grupo, dessa vez pela MoonJune Records, baseada em Nova York. A distribuição permitiu que o grupo recebesse críticas de veículos variados, ressaltando a qualidade do trio, em um disco instrumental com toques de fusion e rock clássico. Mas uma abertura para o Dialeto foi a possibilidade de convidar David Cross, o violinista e ex-King Crimson, para participar em uma faixa de um projeto ousado: Bartók In Rock, uma releitura do compositor húngaro Béla Bartók. A nova formação trouxe o baixista e vocalista Gabriel Costa (Violeta de Outono, Gong Global Family, Ópera Invisível (Versão Tropical)) e o baterista e vocalista Fred Barley (Violeta de Outono, Gong Global Family, Ópera Invisível (Versão Tropical), O Terço, Pedro Baldanza Trio). Esse e todos os próximos discos do grupo seriam lançados por selo próprio, Chromatic Music .

Segundo a crítica, o Dialeto percebeu em Bartók elementos que podiam ser expandidos pela formação guitarra-baixo-bateria: ritmos assimétricos, ostinatos, escalas exóticas, acentos percussivos e melodias da música folclórica. A adaptação, portanto, não foi simplesmente acrescentar distorção: foi traduzir a estrutura rítmica e melódica para a gramática do rock instrumental. O resultado foi descrito pela própria banda como adaptações livres, plenas de improvisações intensas. E Cross, que tocou inicialmente no "Mikrokosmos 113", entrou perfeitamente nesse espírito: "São melodias provocantes que vêm na sua direção e depois fogem. São familiares, mas não exatamente daquela forma de dar e receber. Elas ficam na sua frente, e depois se escondem num canto, antes de saltar de repente para cima de você. Bartók era um mestre nisso, e o Dialeto captou essa essência. Eu adorei e aprendi muito com eles" .

O fato é que, no mesmo ano, Cross veio ao Brasil tocar todo um repertório de Bartók, e mais várias músicas do King Crimson (nas quais o Dialeto também se revelou especialista). E o disco resultante, Live With David Cross, saiu no ano seguinte, 2018. É curioso que, na trajetória do King Crimson, tenha sido usada algumas vezes a metáfora “Hendrix tocando os quartetos de Bartók”. O que faz sentido, porque Robert Fripp e Cross compartilham o gosto não só por Bartók, mas por compositores como Stravinsky e Gustav Holst. E essas influências se fizeram presentes nos discos do King Crimson em que Cross tocou, notadamente Larks' Tongues In Aspic e Starless And Bible Black (1973-74).

A crítica foi entusiástica: "Um álbum que também será um documento para a posteridade; cavalheiros de mente aberta, isto está repleto de magia e não pode ser desperdiçado" , "Meu Deus, o que deu nesses caras! Junte os dois (Dialeto e Cross) e, de repente, você tem uma explosão incrível, um caso clássico em que o todo é maior que a soma das partes. O violino de David certamente evoluiu ao longo dos anos e, neste ponto, seus solos incendiários quase o transformam no Jimi Hendrix do instrumento", "Simplesmente incrível" , "Cross adiciona seu violino delicado a essa poderosa mistura, e a partir daí, torna-se um deleite para os ouvidos. "The Young Bride: For Children Vol 1 No. 17" é simplesmente um rock instrumental sombrio e ardente, completo com linhas de guitarra e violino intrincadas e irregulares. Se você não soubesse que se trata de uma peça de Bartók, juraria que é um clássico perdido do King Crimson" .

COVID e o Pandelirium, a volta de David Cross, os Arquitetos do Invisível (2020-2026)

No início da Pandemia de Covid-19, em março de 2020, Coelho contraiu a forma grave da doença, aos 60 anos de idade, quando muito pouco se sabia sobre a doença. Intubado e sedado, o guitarrista teve sonhos e visões intrigantes. Ao longo da recuperação, e nos próximos anos, ele pintou uma série de quadros com essas imagens, escreveu um livro e finalmente gravou um novo disco do Dialeto, de novo ao lado de Costa e Barley. Pandelirium foi o nome desse pacote multimídia. A obra foi lançada em duas noites no Sesc Belenzinho, São Paulo, com os convidados Fernando Cardoso (teclados; Violeta de Outono, Pedro Baldanza Trio, Som Nosso) e Fernando Alge (guitarra; Ópera Invisível (Versão Tropical), Violeta de Outono) .

Em outubro de 2025, David Cross voltou ao Brasil para se apresentar com Dialeto em Porto Alegre e em São Paulo (ele já tinha voltado em 2018, para uma participação com os Stick Men de Tony Levin, e em 2024, com a David Cross Band, para tocar o Larks' Tongues In Aspic do King Crimson, em apresentações em São Paulo). Tocaram de novo o repertório de Bartók – e de novo com a inclusão de Mikrokosmos nº 78 – Five-Tone Scale, que não estava no disco original de estúdio, por sugestão e escolha do violinista. David Cross também participou de uma audição pública e comentada de Larks' Tongues no Centro Cultural São Paulo, na qual revelou bastidores pouco comentados da gravação do disco – como a de que houve um trio de improviso de ragas Fripp-Cross-Jamie Muir que antecedeu a reforma do King Crimson –, com a presença do Dialeto. .

Em maio de 2026, no Centro Cultural São Paulo, o Dialeto tocou Pandelirium e outras músicas no festival Arquitetos do Invisível, com participação de Cardoso e Alge, e Alex Antunes lendo trechos do livro, com abertura de Stereotrips (o duo Coelho e Golfetti). Nas outras duas noites, o Violeta de Outono tocou com abertura de Ópera Invisível/ Lux Æterna (o duo de Golfetti e seu filho, o tecladista Gabriel, do grupo Stratos Luna), e Lucy (a banda atual de Beto Birger) tocou com abertura de uma rara reunião do Ultimato (Golfetti, Coelho, Birger, Claudio Souza e Gilles Eduar). Guilherme Isnard subiu ao palco, para uma participação. Foi uma celebração dessa longa herança daqueles encontros da FAU 78..

Discografia

Álbuns 1991: Dialect 2006: Will Exist Forever 2010: Chromatic Freedom 2013: The Last Tribe 2017: Bartók In Rock 2018: Live With David Cross 2024: Pandelirium

Compilações 2005: Progshine Collection #1 Inclui a faixa "Unimpossible".

Referências

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