O planejamento econômico de tipo soviético constituem o modelo específico de planejamento centralizado empregado pelos Estados comunistas, com origem na economia da União Soviética e formalmente baseado no centralismo democrático.
A análise posterior à perestroika do sistema de planejamento econômico soviético descreve-o como um sistema administrativo de comando, devido à prioridade de facto da administração altamente centralizada sobre o planejamento. Um exemplo de abordagem analítica das diversas etapas do modelo político-econômico soviético pode ser encontrado nas obras do economista soviético Lev Gatovsky.
Características Instituições As principais instituições do planejamento de tipo soviético na União Soviética (URSS) incluíam uma agência de planejamento, o Gosplan, uma organização responsável por distribuir suprimentos estatais entre as diversas organizações e empresas da economia, o Gossnab, e empresas envolvidas na produção e fornecimento de bens e serviços na economia. As empresas compreendiam associações de produção e institutos vinculados entre si pelos planos formulados pelo Gosplan.
Nos países do Bloco de Leste — Bulgária, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental, Hungria, Polônia, Romênia e Albânia — o planejamento econômico era realizado principalmente por meio do Conselho para Assistência Econômica Mútua (CAEM), uma organização internacional destinada a promover a coordenação da política econômica soviética entre os países participantes. O conselho foi fundado em 1949 e trabalhou para manter o estilo soviético de planejamento econômico no Bloco de Leste até a dissolução da União Soviética, em 1991.
Há poucas informações nos arquivos estatais sobre a fundação do CAEM, mas documentos do arquivo estatal da Romênia sugerem que o Partido Comunista Romeno foi fundamental para iniciar o processo que levou à criação do conselho. Originalmente, a Romênia pretendia criar um sistema econômico colaborativo que reforçasse os esforços do país para se industrializar. Entretanto, os representantes tchecos e poloneses queriam implantar um sistema de especialização, no qual os planos de produção fossem compartilhados entre os membros e cada país se especializasse em uma área diferente de produção. A URSS incentivou a formação do conselho como resposta ao Plano Marshall dos Estados Unidos, na esperança de manter sua esfera de influência na Europa Oriental. Também havia a expectativa de que os Estados-membros menos desenvolvidos alcançassem economicamente os mais industrializados.
Balanços materiais O planejamento por balanços materiais era a principal função do Gosplan na URSS. Esse método de planejamento envolvia a contabilização dos suprimentos materiais em unidades físicas, em oposição a termos monetários, utilizados para equilibrar a oferta de insumos disponíveis com as metas de produção. O balanceamento material envolvia um levantamento dos insumos e das matérias-primas disponíveis na economia e, em seguida, a utilização de um balanço para compatibilizá-los com as metas de produção especificadas por setor, com o objetivo de alcançar equilíbrio entre oferta e demanda. Esse balanço era utilizado para formular um plano para a economia nacional.Comparing Economic Systems in the Twenty-First Century, 2003, de Gregory e Stuart. . "Material Balance Planning", p. 127.
Análise do planejamento de tipo soviético
Há duas formas fundamentais pelas quais estudiosos analisaram o planejamento econômico de tipo soviético. A primeira consiste em adaptar modelos e teorias econômicas neoclássicos convencionais para analisar o sistema econômico soviético. Esse paradigma enfatiza a importância do padrão de eficiência de Pareto.
Em contraste com essa abordagem, estudiosos como Pawel Dembinski argumentam que as ferramentas neoclássicas são, em certa medida, inadequadas para avaliar o planejamento de tipo soviético, porque tentam quantificar e medir fenômenos específicos de economias baseadas no capitalismo. Eles sustentam que, como os modelos econômicos convencionais dependem de pressupostos que não se verificavam no sistema soviético — especialmente o pressuposto de racionalidade econômica subjacente à tomada de decisões —, os resultados obtidos por uma análise neoclássica distorcem os efeitos reais do sistema de planejamento. Esses estudiosos seguem outro caminho, procurando analisar o sistema de planejamento do Estado comunista em seus próprios termos, investigando as influências filosóficas, históricas e políticas que deram origem ao sistema e, ao mesmo tempo, avaliando seus sucessos e fracassos econômicos, teóricos e efetivos, à luz desses contextos.
A URSS praticou alguma forma de planejamento central a partir de 1918, com o Comunismo de guerra, até sua dissolução em 1991, embora o tipo e a extensão do planejamento fossem de natureza diferente antes da introdução do planejamento centralizado imperativo na década de 1930. Embora houvesse muitas sutilezas nas diversas formas de organização econômica empregadas pela URSS durante esse período de aproximadamente 70 anos, havia características comuns suficientes para que estudiosos examinassem amplamente as vantagens e desvantagens do planejamento econômico de tipo soviético.
O planejamento de tipo soviético não é o mesmo que planejamento econômico em geral, pois existem outros modelos teóricos de planejamento econômico e as modernas economias mistas também o praticam em certa medida, mas não estão sujeitas a todas as vantagens e desvantagens enumeradas aqui. Além disso, a economia soviética e sua organização passaram por várias mudanças importantes, especialmente durante a reforma econômica soviética de 1965, algo que pode ser observado nas obras de economistas soviéticos como Lev Gatovsky.
Em sua obra A Revolução Traída, Trótski argumentou que o autoritarismo excessivo sob Stalin havia prejudicado a implementação do Primeiro plano quinquenal. Ele observou que vários engenheiros e economistas que haviam elaborado o plano foram posteriormente julgados como "sabotadores conscientes que agiam sob instruções de uma potência estrangeira". Trótski também sustentou que as desproporções e os desequilíbrios que se tornaram característicos do planejamento stalinista na década de 1930, como a base de consumidores pouco desenvolvida e a prioridade dada à indústria pesada, resultaram de vários problemas evitáveis. Ele argumentou que o esforço de industrialização havia sido realizado em circunstâncias mais severas, vários anos depois e de maneira menos racional do que a proposta originalmente concebida pela Oposição de Esquerda.
Aspectos alt=Кто кого? Догнать и перегнать|left|thumb|"Alcançar e ultrapassar" (em russo: Кто кого? Догнать и перегнать). Cartaz de propaganda soviética de 1929, baseado em uma paráfrase de Lenin de 1917, exaltando a superioridade econômica do socialismo estatal.
As características singulares da economia de estilo soviético eram uma tentativa ideologicamente orientada de construir um plano econômico total para toda a sociedade, bem como um paradigma incontestado da superioridade do sistema de socialismo estatal. As tentativas de modificar ou otimizar o primeiro com base em análises pragmáticas dos resultados econômicos eram dificultadas pelo segundo. Dembinski descreve a abordagem soviética da economia marxista como "quase religiosa", com as publicações econômicas de Marx e Lenin sendo tratadas como uma "Escritura".
Michael Ellman descreve características específicas do planejamento econômico soviético em termos econômicos e matemáticos, destacando principalmente seus desafios computacionais. O objetivo teórico do planejamento econômico soviético, executado pelo Gosplan, era a alocação racional de recursos de modo a resultar na produção da variedade desejada de bens e serviços. O plano era elaborado e executado em ciclos anuais: a cada ano eram determinadas metas de produção de bens específicos e, usando estimativas dos recursos de entrada disponíveis, o Gosplan calculava balanços que planejavam a produção de todas as fábricas. À medida que o número de mercadorias chegou às centenas de milhares, foram feitas diversas agregações e simplificações para facilitar os cálculos, que, até o fim da década de 1960, eram realizados manualmente.
Desempenho efetivo
Inicialmente, o crescimento do PIB per capita da URSS comparava-se favoravelmente ao da Europa Ocidental. Em 1913, antes da revolução de 1917, o Império Russo tinha um PIB per capita de 1.488 dólares internacionais, que cresceu 461%, para 6.871 dólares, em 1990. Em comparação, a Europa Ocidental partiu de uma base mais alta, de 3.688 dólares internacionais, e cresceu 457%, para 16.872 dólares, no mesmo período, chegando a 17.921 dólares em 1998. Após a queda da URSS em 1991, seu PIB per capita caiu para 3.893 dólares em 1998.Maddison. 2001. The World Economy Volume 1: A Millennial Perspective, p. 183. https://www.stat.berkeley.edu/~aldous/157/Papers/world_economy.pdf
Uma publicação de 1986 comparou o Índice de Qualidade Física de Vida (PQLI), baseado em mortalidade infantil, expectativa de vida e taxa de alfabetização — com dados do Banco Mundial — e outros indicadores, como o número de pacientes por médico, e argumentou que países que utilizavam predominantemente planejamento econômico de estilo socialista alcançavam indicadores ligeiramente melhores em níveis de renda baixos e médios do que países com economias predominantemente orientadas pelo mercado nos mesmos níveis de desenvolvimento econômico. A diferença diminuía nos países de renda média e alta. Além disso, todos os países da categoria de alta renda eram classificados pelo estudo como "capitalistas", e nenhum como "socialista".
A partir da década de 1960, após as reformas orientadas para o mercado da reforma Kosygin, a economia soviética sofreu com a estagnação e tornou-se cada vez mais dependente de empréstimos não divulgados de países capitalistas membros do Clube de Paris, ao mesmo tempo que continuava a apresentar o marxismo como progressista e superior à economia de mercado. No momento da moratória e da dissolução da URSS, apenas a Rússia devia 22 bilhões de dólares ao clube, enquanto outros países do Bloco de Leste contraíam empréstimos por conta própria.
A escassez generalizada de bens e as falhas na cadeia de suprimentos eram apresentadas pela propaganda oficial como "dificuldades temporárias", mas numerosos estudiosos do Bloco de Leste argumentaram que se tratava de falhas sistêmicas da economia soviética. János Kornai cunhou o termo "economia de escassez" para descrever o estado da economia soviética. Leszek Kołakowski apresentou o estado político e econômico do autoritarismo do Bloco de Leste como uma consequência lógica do marxismo-leninismo, e não como um "desvio". Nikolay Shmelyov descreveu a economia soviética dos anos 1980 como marcada por ineficiências sistêmicas em grande escala e produção desequilibrada, com determinados bens constantemente em falta e outros permanentemente em excesso e desperdiçados. Esses problemas eram naturalmente observados pelos economistas soviéticos, mas quaisquer propostas para alterar os paradigmas básicos de funcionamento do planejamento econômico em resposta às ineficiências observadas eram bloqueadas por setores ideológicos linha-dura, que as consideravam um desvio inaceitável do marxismo-leninismo, modelo econômico que julgavam ter sido "cientificamente" comprovado como superior.
A Nova Política Econômica (1921–1928) foi um breve período de pragmatismo econômico na economia soviética, introduzido por Lenin em resposta às deficiências amplamente observadas do sistema de comunismo de guerra após a revolução de 1917. A NEP, porém, foi criticada como reacionária e revertida por Stalin, que retornou ao planejamento econômico total.