O Livro Preto da Sé de Coimbra é um dos mais célebres e valiosos cartulários medievais portugueses, constituindo uma fonte documental de valor inestimável para o estudo da história política, social, económica e eclesiástica da região do Mondego entre os séculos VIII e XIII. Redigido maioritariamente no scriptorium da Sé de Coimbra ao longo do século XII, este códice em pergaminho reúne a transcrição sistemática de centenas de diplomas, incluindo bulas papais, forais (como o célebre Foral de Coimbra de 1111), testamentos, cartas de doação e contratos de permuta que visavam salvaguardar e legitimar juridicamente o vasto património territorial e os privilégios da diocese conimbricense frente ao poder senhorial e à Coroa. O manuscrito, cuja encadernação em pele escura lhe valeu o epíteto popular, destaca-se não apenas pela densidade dos seus registos que iluminam a transição do domínio moçárabe e a governação do conde Sesnando Davides para a consolidação do Condado Portucalense, mas também pela sua riqueza paleográfica, evidenciando o uso de caligrafias visigótica e carolina e ostentando anotações marginais de época, conhecidas como manículas, que funcionavam como índices visuais para os parágrafos mais cruciais. Atualmente preservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo em Lisboa, o documento continua a ser alvo de profundas investigações filológicas e codicológicas, subsistindo como um pilar fundamental para a compreensão da Reconquista e da génese identitária e institucional do Portugal medieval.

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