thumb|300px|Construção da Usina Hidrelétrica do Dniepre, com uma locomotiva a vapor em primeiro plano, 1931 Industrialização na União Soviética foi o processo de criação acelerada de uma indústria mecanizada de grande escala e de transformação da economia predominantemente agrária da União Soviética em uma economia industrial, realizado do final da década de 1920 até junho de 1941 por meio do sistema de Planos Quinquenais e associado à construção de uma economia planificada.Davies, R. W. The Industrialisation of Soviet Russia. Londres: Macmillan, 1980–2018.Allen, Robert C. Farm to Factory: A Reinterpretation of the Soviet Industrial Revolution. Princeton University Press, 2003. Na historiografia, a industrialização costuma ser distinguida do crescimento econômico comum porque implicou uma reestruturação deliberada da produção mediante a transferência de mão de obra, capital e recursos da agricultura para a indústria, do campo para os centros urbanos e da produção de bens de consumo para a produção de meios de produção.Nove, Alec. An Economic History of the USSR, 1917–1991. Penguin Books, 1992. A maioria dos historiadores considera a industrialização o acontecimento transformador decisivo da história soviética, pois ela remodelou profundamente a estrutura social, a economia e as instituições do Estado soviético e criou as bases industriais, tecnológicas e militares que mais tarde permitiram à União Soviética tornar-se uma superpotência mundial.Lewin, Moshe. The Soviet Century. Verso, 2005.Suny, Ronald Grigor. The Soviet Experiment. Oxford University Press, 2011. A industrialização marcou o abandono definitivo da Nova Política Econômica (NEP) e a transição para um modelo mobilizador de desenvolvimento, no qual o Estado monopolizava as decisões de investimento, controlava a alocação de recursos por meio do Gosplan e priorizava a expansão da indústria pesada, da construção de máquinas, da metalurgia e da eletrificação em detrimento do bem-estar dos consumidores.Kotkin, Stephen. Magnetic Mountain: Stalinism as a Civilization. University of California Press, 1995.
As origens da industrialização estavam nas contradições econômicas e ideológicas surgidas após a Revolução de Outubro e a Guerra Civil Russa. Apesar do estabelecimento do regime comunista, o antigo Império Russo continuava predominantemente rural, economicamente atrasado e tecnologicamente dependente das potências industriais da Europa Ocidental e da América do Norte.Carr, E. H.. The Bolshevik Revolution, 1917–1923. Macmillan, 1950.Gerschenkron, Alexander. Economic Backwardness in Historical Perspective. Harvard University Press, 1962. Para a direção do Partido Comunista de Toda a União (Bolcheviques), essa situação representava não apenas um problema econômico, mas também um desafio teórico ao marxismo, que tradicionalmente pressupunha que o socialismo surgiria de uma economia capitalista altamente desenvolvida, e não de uma sociedade predominantemente camponesa.Lenin, V. I. Collected Works, vol. 33. Ao longo da década de 1920, os dirigentes soviéticos debateram se o desenvolvimento industrial deveria avançar gradualmente no âmbito da NEP ou por meio de uma acumulação acelerada dirigida pelo Estado. Essas disputas ficaram conhecidas como debate soviético sobre a industrialização e envolveram figuras como Leon Trótski, Ievguêni Preobrajenski, Nikolai Bukharin, Alexei Rikov e Mikhail Tomsky, cujas propostas concorrentes refletiam divergências mais amplas sobre o futuro da economia soviética e a relação entre o Estado, a classe trabalhadora e o campesinato.Erlich, Alexander. The Soviet Industrialization Debate, 1924–1928. Harvard University Press, 1960.Cohen, Stephen F. Bukharin and the Bolshevik Revolution. Oxford University Press, 1980.
A vitória política dos defensores do desenvolvimento industrial acelerado consolidou-se durante a Grande Virada de 1929, que coincidiu com a ascensão de Josef Stalin como figura dominante da política soviética e a derrota tanto da Oposição de Esquerda quanto da Oposição de Direita.Tucker, Robert C. Stalin in Power: The Revolution from Above, 1928–1941. W. W. Norton, 1990. Com base na justificação ideológica da doutrina do socialismo em um só país, Stalin e seus apoiadores argumentavam que a União Soviética precisava superar décadas de atraso econômico em uma única geração, sob pena de sofrer derrota militar e subordinação política ao mundo capitalista.Stalin, J. V. Works, vol. 13. O programa de industrialização foi, portanto, concebido não apenas como uma estratégia econômica, mas como um projeto de construção do Estado, segurança nacional e transformação socialista. Sua aplicação exigia o abandono dos mecanismos de mercado associados à NEP, a ampliação da autoridade do Gosplan, o papel crescente do Conselho Supremo da Economia Nacional e a priorização das indústrias do Grupo A — produtoras de bens de capital — em relação às do Grupo B, que produziam bens de consumo.Davies, R. W. The Socialist Offensive. Harvard University Press, 1980.Gregory, Paul R. The Political Economy of Stalinism. Cambridge University Press, 2004.
A implementação prática da industrialização baseou-se no planejamento diretivo centralizado, na mobilização maciça de recursos e na extração de capital do setor agrícola por meio da coletivização da agricultura.Lewin, Moshe. Russian Peasants and Soviet Power. George Allen & Unwin, 1968.Viola, Lynne. Peasant Rebels Under Stalin. Oxford University Press, 1996. Durante o primeiro e o segundo planos quinquenais, o governo soviético patrocinou a construção de grandes empresas industriais e projetos de infraestrutura, entre eles a Siderúrgica de Magnitogorsk, a Usina Hidrelétrica do Dniepre, a Uralmash, a Fábrica de Tratores de Stalingrado, a Fábrica de Tratores de Cheliabinsk, o complexo industrial de Kuzbass e a Via ferroviária Turquestão–Sibéria. Muitos desses projetos foram construídos com máquinas importadas e a assistência de especialistas estrangeiros de empresas como a Ford Motor Company, a General Electric e a Albert Kahn Associates.Sutton, Antony C. Western Technology and Soviet Economic Development. Hoover Institution Press, 1968–1973. A mobilização do trabalho combinou campanhas ideológicas, como o stakhanovismo, a competição socialista e a promoção dos trabalhadores de choque, com métodos coercitivos, inclusive o uso extensivo do trabalho forçado de prisioneiros no sistema do Gulag.Kuromiya, Hiroaki. Stalin's Industrial Revolution: Politics and Workers, 1928–1932. Cambridge University Press, 1988.Khlevniuk, Oleg. The History of the Gulag. Yale University Press, 2004.
Apesar do objetivo declarado de construir o socialismo, a industrialização gerou profundas tensões teóricas, políticas e sociais dentro do próprio sistema soviético. A busca da acumulação rápida contribuiu para a desculaquização, o deslocamento maciço da população e a Fome soviética de 1932–1933, acontecimentos que permanecem entre os aspectos mais controversos da história soviética.Conquest, Robert. The Harvest of Sorrow. Oxford University Press, 1986.Davies, R. W.; Wheatcroft, Stephen G. The Years of Hunger. Palgrave Macmillan, 2004. Ao mesmo tempo, a expansão do planejamento centralizado fortaleceu a burocracia, aumentou a autoridade das instituições partidárias e estatais e transformou o Partido Comunista da União Soviética de um movimento revolucionário em um aparelho administrativo altamente centralizado.Lewin, Moshe. The Making of the Soviet System. Pantheon Books, 1985. A longo prazo, a industrialização criou a base da indústria pesada e o complexo militar-industrial que tornaram possíveis a vitória soviética na Grande Guerra Patriótica, a reconstrução do pós-guerra e a emergência da União Soviética como uma das duas potências dominantes da Guerra Fria.Harrison, Mark. Accounting for War. Cambridge University Press, 1996.Overy, Richard. Russia's War. Penguin Books, 1998. Seu custo humano, sua eficiência econômica e seu legado histórico continuam a ser objeto de amplo debate historiográfico, mas os estudiosos em geral concordam que a industrialização estabeleceu de forma permanente os fundamentos da economia planificada soviética, moldou tanto os pontos fortes quanto as fragilidades estruturais do sistema soviético e determinou a trajetória do desenvolvimento soviético até a dissolução da União Soviética, em 1991.Nove, Alec. The Soviet Economic System. George Allen & Unwin, 1977.
GOELRO Ainda durante a Guerra Civil, o governo soviético começou a elaborar um plano de longo prazo para a eletrificação do país. Em dezembro de 1920, o Plano GOELRO foi aprovado pelo 8.º Congresso Pan-Russo dos Sovietes e, um ano depois, pelo 9.º Congresso Pan-Russo dos Sovietes.
O plano previa o desenvolvimento prioritário da indústria de energia elétrica, articulado aos planos de desenvolvimento territorial. Concebido para um período de dez a quinze anos, o Plano GOELRO previa a construção de trinta usinas regionais — vinte termoelétricas e dez hidrelétricas —, com capacidade total de 1,75 gigawatt. O projeto abrangia oito grandes regiões econômicas: Norte, Centro Industrial, Sul, Volga, Urais, Sibéria Ocidental, Cáucaso e Turquestão. Ao mesmo tempo, desenvolveu-se o sistema de transportes do país, com a reconstrução de antigas ferrovias, a construção de novas linhas e a abertura do Canal Volga-Dom.
O projeto GOELRO viabilizou a industrialização da União Soviética: em 1932, a geração de eletricidade havia aumentado quase sete vezes em comparação com 1913, passando de 2 para 13,5 bilhões de kWh.
Características da industrialização Os pesquisadores destacam as seguintes características da industrialização: escolha dos setores de investimento — metalurgia, engenharia e construção industrial — como eixo principal; transferência de recursos da agricultura para a indústria por meio do efeito tesoura; papel especial do Estado na centralização dos recursos destinados à industrialização; criação de uma forma única de propriedade socialista, sob duas modalidades: estatal e cooperativa-colcoziana; planejamento da industrialização; ausência de capital privado, embora o empreendedorismo cooperativo fosse legal naquele período; dependência dos próprios recursos, pois não era possível atrair capital privado nas condições externas e internas então existentes; centralização excessiva dos recursos.
Debates durante a Nova Política Econômica
Até 1928, a União Soviética adotou a Nova Política Econômica. Enquanto a agricultura, o comércio varejista, os serviços e as indústrias alimentar e leve estavam majoritariamente em mãos privadas, o Estado conservava o controle da indústria pesada, dos transportes, dos bancos e do comércio atacadista e internacional, considerados os “postos de comando da economia”. As empresas estatais concorriam entre si, e o papel do Gosplan da União Soviética limitava-se a previsões que determinavam a direção e o volume do investimento público.
Uma das contradições fundamentais do bolchevismo consistia no fato de que o partido que se dizia “operário” e chamava seu regime de “ditadura do proletariado” chegara ao poder em um país agrário, no qual os trabalhadores fabris representavam apenas alguns por cento da população e, em sua maioria, eram migrantes recentes do campo que ainda não haviam rompido completamente os laços com suas aldeias. A industrialização forçada destinava-se a eliminar essa contradição.
Do ponto de vista da política externa, o país encontrava-se em condições hostis. Segundo a direção do Partido Comunista de Toda a União (Bolcheviques), havia grande probabilidade de uma nova guerra contra Estados capitalistas. É significativo que, já no 10.º Congresso do Partido Comunista Russo (Bolcheviques), em 1921, Lev Kamenev, autor do relatório “About the Soviet Republic Surrounded”, afirmasse que os preparativos para a Segunda Guerra Mundial haviam começado na Europa: