Os amilaítas ou Banu Amila () foram uma tribo árabe historicamente associada ao sul do Levante. As tradições genealógicas árabes classificaram-nos entre os árabes meridionais, atribuindo-lhes ascendência de , e relacionaram-nos estreitamente aos judamitas e a outras tribos catanitas. Sua história mais antiga permanece obscura: fontes árabes preservaram tradições que os vinculavam aos amalequitas, ao Iraque e à Síria dos séculos anteriores ao domínio romano tardio, enquanto evidências epigráficas foram utilizadas para propor possíveis conexões com grupos mencionados na Mesopotâmia assíria e em Palmira. Nenhuma dessas identificações, contudo, permite estabelecer com segurança a origem ou a trajetória inicial da tribo.
Entre os séculos e , os amilaítas aparecem associados ao sistema de tribos árabes que protegiam a fronteira oriental do Império Romano e, posteriormente, do Império Bizantino. Estabelecidos sobretudo no sul da Palestina, nas regiões de Hisma e Midiã e no território que viria a constituir a Palestina Tércia, provavelmente serviram como federados árabes, desempenhando funções militares e de proteção das rotas fronteiriças. Mantiveram relações particularmente estreitas com os judamitas e estiveram sucessivamente associados às principais confederações árabes clientes do império, entre elas os saliítas e os gassânidas. No , integravam o conjunto de aliados árabes de Bizâncio no sul do Levante e participaram das disputas entre gassânidas e lacmitas.
Durante a expansão islâmica do , os amilaítas inicialmente combateram ao lado dos bizantinos e de outras tribos árabes sírias, aparecendo nas tradições relativas à Batalha de Muta e aos confrontos que antecederam a conquista muçulmana da Síria. Posteriormente integraram a ordem política do Califado Omíada, concentrando-se sobretudo no Junde da Jordânia e, em menor medida, no Junde da Palestina. Sob os omíadas, tornaram-se uma importante força militar associada aos grupos iemenitas da Síria e apoiaram a casa maruânida em conflitos como as batalhas de Sifim e Marje Raite, além de participarem das guerras civis do período. Sua fidelidade aos maruânidas persistiu até os últimos anos do califado, quando combateram ao lado de contra outros agrupamentos tribais sírios e contra as forças que ameaçavam seu governo.
Com o estabelecimento do Califado Abássida, os amilaítas perderam a importância política e militar que haviam alcançado sob os omíadas, embora integrantes da tribo continuassem documentados em diferentes regiões do mundo islâmico. Entre os primeiros séculos do período abássida, seu nome passou a ser associado cada vez mais à região montanhosa situada entre a Galileia e o sul do atual Líbano, posteriormente conhecida como Jabal Amil. A tribo acabou desaparecendo das fontes como unidade política distinta, enquanto o topônimo permaneceu e adquiriu uma história própria. Jabal Amil tornou-se posteriormente um importante centro do xiismo, especialmente do xiismo duodecimano, embora a tradição que faz remontar essa identidade religiosa aos primeiros tempos do islã não encontre sustentação nas evidências examinadas pela historiografia moderna.
História
Origens
Os amilaítas eram uma tribo árabe presente no sul do Levante antes do advento do islã. As tradições genealógicas árabes posteriores classificaram-nos entre os árabes meridionais e fizeram-nos descendentes de . H. Lammens e W. Caskel consideram pouco confiáveis os relatos relativos ao passado mais remoto da tribo, que qualificam como antiga, e situam seu habitat pré-islâmico no noroeste da Península Arábica. Rihan, contudo, considera que os relatos tradicionais sobre o passado pré-islâmico dos amilaítas não podem ser completamente descartados, pois algumas de suas informações encontram possível apoio em evidências epigráficas e na reconstrução histórica. Ao abordar a história antiga da tribo, Rihan ressalta que ela permanece praticamente desconhecida e examina como sua possível menção mais antiga uma inscrição do rei assírio , do , conservada numa laje de Ninrude, na qual Amelatu aparece entre numerosos grupos submetidos pela Assíria. A inscrição inclui os Amelatu entre grupos que o texto identifica coletivamente como arameus das margens do Tigre, do Eufrates e do Surapi até as proximidades do golfo Pérsico. Rihan salienta, porém, que identificar esses Amelatu com os amilaítas é apenas uma hipótese especulativa e que a semelhança entre os nomes não basta para estabelecê-la. Observa que alguns dos grupos enumerados na inscrição possuem nomes que poderiam ter raízes árabes, embora os grupos mencionados tenham sido identificados por um especialista em história assíria sobretudo como arameus. Rihan considera possível que o próprio nome Amila tivesse origem aramaica, mas conclui que, sem novas evidências epigráficas ou arqueológicas, não é possível confirmar nem excluir a existência dos amilaítas já no .
Rihan ressalta igualmente a obscuridade das origens e da ascendência dos amilaítas. Embora a maioria dos genealogistas e historiadores árabes os associasse a Catã, considerado o ancestral epônimo dos árabes meridionais, não havia consenso acerca de uma genealogia precisa da tribo: diferentes linhas de descendência foram registradas, e as próprias tradições divergiam quanto à origem do nome Amila, que algumas faziam remontar a um homem e outras a uma mulher. Segundo essas tradições, os amilaítas figuravam entre os grupos aparentados de Calã, juntamente com tribos como os azeditas, taiítas, madijitas, hamedanitas, quindaítas, muraditas, anemaritas, judamitas, lacmitas e . Nos últimos anos do reinado de Heráclio, pouco se sabe sobre os amilaítas enquanto unidade independente; segundo Rihan, integravam então a confederação mais ampla dos gassânidas, que liderava o agrupamento tribal catanita dos calanitas. Irfan Shahîd, por sua vez, considera que tanto os amilaítas quanto os judamitas eram provavelmente muito mais antigos no Oriente romano do que pressupunham os genealogistas árabes posteriores. Shahîd associa ambas as tribos ao setor meridional do Oriente romano, particularmente às regiões de Hisma e Midiã e às áreas situadas a leste da província da Arábia e da Jordânia. O autor considera possível que sua presença na região remontasse inclusive aos tempos bíblicos e aventa a possibilidade de identificar os amilaítas com os amalequitas.
Rihan examina extensamente essa possível associação, observando que historiadores árabes como Atabari, Almaçudi e Ibne Caldune preservaram tradições que relacionavam Amila aos amalequitas. Segundo ele, os amalequitas eram incluídos pela tradição historiográfica árabe entre os chamados árabes extintos, grupo no qual também figuravam povos como e , mas admitia-se que sobreviventes desses povos pudessem posteriormente reintegrar sua identidade à de tribos catanitas ou adenanitas. Rihan considera que as tradições que vinculam especificamente os amilaítas aos amalequitas merecem investigação e observa que fontes antigas enfatizaram a possibilidade dessa relação. Atabari, com base em Hixame ibne Alcalbi, apresenta como rei dos árabes na Jazira e nas proximidades da Síria e o identifica como pertencente a Amila dos amalequitas. Segundo a narrativa, Jadima Alabraxe reuniu numerosos árabes contra Anre, que foi morto em combate, enquanto suas forças foram dispersadas. Almaçudi, por sua vez, afirma que era filha de Anre e que ambos pertenciam à casa de Amila dos amalequitas. As fontes tradicionais apresentam Azaba como uma rainha árabe chamada Naila, conhecida pela alcunha de Azaba, e Anre como rei da Jazira. Segundo Hixame ibne Alcalbi, seus domínios compreendiam uma extensa área entre Hira, Ambar, , Hite, Aine Atanre e regiões desérticas adjacentes. As mesmas tradições atribuem a Azaba e aos amilaítas associados a ela uma área ainda mais extensa, adjacente aos domínios de Jadima e compreendida entre o norte da atual Síria e, ao sul, a Palestina, Balca e Dumate Aljandal.
Ao examinar especificamente a possível relação entre os amilaítas e os amalequitas partidários de Azaba, Rihan observa que Hixame ibne Alcalbi descreveu as forças da rainha como compostas por sobreviventes dos amalequitas e dos árabes extintos, além de tribos favoráveis aos cudaaítas, enquanto a própria Azaba era apresentada como descendente da casa amilaíta dos amalequitas. Rihan conclui que, até esse ponto, não há razão para negar uma conexão entre Amila e os amalequitas e chama atenção para o fato de que os primeiros historiadores árabes que registraram essa relação não consideraram necessário explicar qualquer distinção entre a tribo iemenita de Amila e a Amila dos amalequitas, como se a conexão lhes parecesse evidente. Assinala ainda que os , um grupo dos amilaítas, eram reconhecidos pelos historiadores árabes como descendentes dos amalequitas, embora Albacri já registrasse apenas sua genealogia amilaíta no , o que Rihan interpreta como possível indício de que a ascendência amalequita deixara de ser relevante ou passara a integrar um passado esquecido. Como possível explicação, aventa que os dois grupos teriam unido suas forças e se mesclado para formar uma única tribo após a migração de Amila do Iêmen para o Iraque e, posteriormente, para o norte da Síria. Com base numa tradição de Hixame ibne Alcalbi segundo a qual integrantes dos azeditas, lacmitas, judamitas, amilaítas e cudaaítas se estabeleceram em Hira durante o reinado do rei persa , Rihan considera possível assumir que Amila, ou ao menos um de seus grupos, tenha inicialmente migrado e se estabelecido no Iraque. Rihan considera que a antiga narrativa sobre as origens amalequitas pode ter sido lendária, mas sustenta que os primeiros historiadores árabes tinham razões para acreditar na existência dos amilaítas no sob Azaba, que nessa passagem identifica provavelmente com Zenóbia. Em sua reconstrução, após a conquista da região pelos persas, os amilaítas teriam abandonado o Iraque com outros cudaaítas, deslocando-se para a Síria e unindo-se aos palmirenos. Essa aliança teria produzido um Estado semiautônomo que provavelmente subsistiu por algumas décadas, e sua derrota pelos romanos pode ter levado os cudaaítas, entre eles os amilaítas, a se deslocarem para o sul da Palestina. Os udainaítas podem ter deixado Palmira antes dos demais e buscado refúgio no sul da Palestina no final do .
Palmira e evidências epigráficas