Ucaz () foi a mais célebre e importante feira da Arábia pré-islâmica, realizada a sudeste de Meca, entre Nacla e Taife, no território dos hauazinitas. Situada numa importante rota comercial da Arábia Ocidental, integrava com e um ciclo de mercados associado à peregrinação a Meca e realizado durante os meses sagrados.

Além de centro de intercâmbio de mercadorias, Ucaz desempenhava importantes funções sociais, políticas e culturais. Reunia numerosas tribos árabes, servia para a celebração de pactos, contratos e arbitragens e tornou-se particularmente conhecida pelas competições de poesia e oratória, nas quais figuram nas tradições poetas como Anabiga Adubiani, Alcança, Haçane ibne Tábite e Alaxa. A feira também esteve ligada a acontecimentos importantes da história pré-islâmica, sobretudo às Guerras Sacrílegas, vários de cujos confrontos ocorreram em Ucaz ou em suas proximidades, e aparece nas tradições relativas à vida de Maomé antes da Hégira.

A importância de Ucaz diminuiu após o estabelecimento do Islã, em meio às transformações das rotas comerciais e das estruturas políticas e tribais da Arábia, e a feira desapareceu no . Na época contemporânea, o sítio foi recuperado pela Arábia Saudita como festival cultural e atração turística inspirado na antiga feira, com atividades literárias e artísticas, artesanato e a recriação de um mercado histórico.

Localização

Ucaz situava-se a sudeste de Meca, entre Nacla e Taife, em território pertencente aos hauazinitas. Sua posição colocava-a numa das principais vias de comunicação da Arábia Ocidental, próxima da rota que ligava Meca a Taife e das rotas utilizadas pelo comércio de longa distância. Shahîd situa-a no meio da rota das especiarias da Arábia Ocidental e relaciona sua importância comercial no às guerras bizantino-sassânidas, que desviaram parte do comércio entre a Mesopotâmia e o Mediterrâneo para o oeste da Península Arábica.

Feira

Ucaz era a mais célebre e importante das feiras realizadas pelos árabes antes do Islã. Fazia parte de um ciclo que compreendia também e e estava relacionado ao calendário da peregrinação a Meca. Ucaz era realizada no mês de Dulcada, antes do início da peregrinação ao monte Arafate e Meca, sendo seguida pelas outras feiras à medida que os participantes se aproximavam dos locais da peregrinação. Embora o comércio constituísse uma de suas principais funções, a importância de Ucaz ultrapassava as atividades econômicas. A feira reunia membros de numerosas tribos árabes e servia como espaço para contatos políticos, sociais e culturais. Nela eram celebrados pactos e contratos, resolvidas disputas por arbitragem e realizadas competições de poesia e oratória. Os tamimitas, que participavam ativamente do mercado, exerciam algumas de suas funções institucionais, e certos chefes da tribo atuavam como árbitros em disputas comerciais. A natureza dessas prerrogativas, contudo, nem sempre é clara nas tradições preservadas. No caso de , relatos tamimitas atribuem-lhe um cargo hereditário de árbitro em Ucaz, enquanto outras tradições sustentam que recebeu essa designação apenas depois de solucionar uma disputa específica. Lecker relaciona essa divergência às controvérsias de prestígio entre os clãs e às tradições concorrentes transmitidas por informantes tamimitas e seus adversários.

Shahîd compara sua função cultural à dos festivais pan-helênicos da Grécia Antiga, considerando-a um centro unificador das tribos árabes no qual a literatura árabe recebeu alguns de seus desenvolvimentos mais importantes. A tradição atribui particular destaque às competições poéticas realizadas na feira. Anabiga Adubiani teria exercido a função de árbitro literário em Ucaz, recebendo os poetas numa tenda de couro vermelho e avaliando publicamente suas composições; entre aqueles que teriam apresentado poemas diante dele figuram Haçane ibne Tábite, Alcança e Alaxa. Alcança também aparece nas tradições como participante das competições de Ucaz e crítica de poesia. Embora seja considerado improvável o relato de que tenha recitado uma elegia diante de Anabiga, atribui-se a ela, em outro episódio ocorrido na feira, a identificação de oito defeitos num único verso de Haçane ibne Tábite, episódio posteriormente lembrado como um dos primeiros exemplos da crítica literária árabe. A concentração periódica de tribos de diferentes partes da península favorecia ainda a circulação de mercadorias e notícias e proporcionava oportunidades para o estabelecimento de relações entre grupos que, em outras circunstâncias, permaneciam separados por grandes distâncias. A realização da feira durante um dos meses sagrados contribuía para garantir a segurança dos participantes e das caravanas que se dirigiam ao local.

História

miniatura|300px|Miniatura islâmica retratando multidões de Meca, lideradas por Abu Laabe, tentando apedrejar Maomé e Abu Becre em Ucaz

A tradição associa Ucaz a diversos acontecimentos da história árabe anterior ao Islã. A feira foi um dos principais cenários das Guerras Sacrílegas, série de conflitos que envolveram, sobretudo, os coraixitas e quinanaítas, de um lado, e diferentes grupos hauazinitas, de outro. Alguns dos primeiros episódios teriam ocorrido na própria feira. Segundo a tradição apresentada pela TDV, em um deles Badre ibne Maxar, dos , proclamou-se o mais honrado dos árabes e desafiou quem reivindicasse posição superior a golpeá-lo na perna com uma espada; Amar ibne Mazine, dos ou, segundo outra versão, dos naceritas, aceitou o desafio e o feriu, embora o incidente não tenha assumido maiores proporções. Outro confronto teria começado quando jovens quinanaítas atacaram uma mulher dos amiritas em Ucaz, enquanto um terceiro resultou da recusa de um quinanaíta em reconhecer uma dívida para com um nacerita.

O mais importante dos conflitos esteve diretamente relacionado ao comércio de Ucaz. O rei lácmida de Hira, , enviava uma caravana anual à feira e confiou sua condução e proteção a , dos amiritas. , um quinanaíta que também pretendia obter a incumbência, assassinou Urua. Quando a notícia chegou a Ucaz, Harbe ibne Omaia encontrava-se na feira com outros chefes coraixitas e, prevendo a reação dos amiritas, os coraixitas e quinanaítas partiram em direção a Meca. Os hauazinitas perseguiram-nos e alcançaram-nos em Nacla, onde ocorreu o . Nos anos seguintes, a região de Ucaz continuou a servir de cenário aos combates. As duas coalizões enfrentaram-se em Xameta ou Xameza, nas proximidades da feira, no , e no ano seguinte novamente em Ucaz, no . No quarto ano ocorreram o , também chamado , e o , travado numa harra próxima da feira, antes do restabelecimento da paz.

Ucaz aparece ainda em tradições relativas à circulação e venda de escravos na Arábia pré-islâmica. Zaíde ibne Harita, posteriormente ligado a Maomé, teria sido levado ainda jovem à feira e ali vendido. As fontes divergem sobre as circunstâncias de sua captura e sobre o grupo responsável por ela, mas convergem em situar sua venda em Ucaz e em atribuir sua aquisição a Haquime ibne Hizame, que agia em favor de Cadija. fWSegundo as tradições islâmicas, Maomé frequentou Ucaz antes da Hégira, quando diferentes tribos se reuniam na feira, e aproveitou essas concentrações para entrar em contato com seus integrantes. A partir do quarto ano de sua missão, teria comparecido às feiras realizadas durante os meses sagrados para divulgar sua mensagem entre as tribos, procurando em Ucaz, entre outros grupos, membros dos quindaítas. A tradição associa igualmente à feira o orador cristão , a quem se atribui um célebre discurso pronunciado em Ucaz e que Maomé teria ouvido.

Ucaz continuou a ser frequentada depois do estabelecimento do Islã, mas sua importância diminuiu gradualmente. Azizova relaciona seu declínio à expansão do Islã para além da Península Arábica, às alterações das rotas comerciais, ao desenvolvimento de outros centros mercantis, como de Baçorá, e ao enfraquecimento das antigas rivalidades e estruturas tribais que haviam contribuído para a importância das feiras pré-islâmicas. Shahîd também atribui o declínio às transformações das rotas comerciais e do papel desempenhado pelas tribos árabes após as conquistas islâmicas. As duas fontes divergem, contudo, quanto ao momento de seu desaparecimento definitivo. Shahîd afirma que Ucaz chegou ao fim em 127 A.H. (744–745), quando os carijitas saquearam a feira, enquanto Azizova situa seu desaparecimento após a ocupação de Meca pelo carijita em 129 A.H. (746–747).

Recuperação contemporânea

Ucaz foi recuperada na Arábia Saudita como um festival cultural e atração turística inspirado na antiga feira. A localização adotada para o evento foi determinada a partir do estudo dos vestígios arqueológicos e dos acidentes geográficos dos vales e montanhas circundantes, juntamente com a análise da documentação histórica disponível. O festival procurava recuperar a função cultural atribuída à antiga Ucaz por meio de seminários, palestras, atividades literárias e competições, além da promoção das artes e do artesanato tradicionais. Cada edição homenageava um dos poetas associados às Mu'allaqat, e eram concedidos prêmios em áreas como poesia em árabe clássico, artesanato, fotografia, teatro, artes plásticas e folclore. Depois de dez anos sob a supervisão da Província de Meca, a administração do evento foi transferida para a Comissão Saudita de Turismo e Patrimônio Nacional (SCTH). Em 2019, durante a 13.ª edição do festival, foi construído um mercado histórico numa área de 41 000 metros quadrados. O projeto contou com 67 jovens sauditas e 247 trabalhadores de diversas nacionalidades, que atuaram em áreas como arte, engenharia, desenho, carpintaria, ferraria e instalações. O mercado compreendia cerca de 200 lojas destinadas à venda de cerâmica, prataria, objetos de vidro, manuscritos históricos, tecidos, artesanato e artigos de couro, além de restaurantes e cafés.

Bibliografia

Categoria:Sítios arqueológicos da Arábia Saudita Categoria:Soco (mercado)