A Unra da Compensação (), também conhecida como Unra do Acordo (ʿUmrat al-Qaḍiyya), Unra da Paz (ʿUmrat al-Ṣulḥ) e Unra da Reciprocidade (ʿUmrat al-Qiṣāṣ), foi a unra realizada por Maomé e cerca de seguidores em Meca, em Dulcada de 7 A.H. (629). A peregrinação cumpriu uma das disposições do Tratado de Hudaibia, firmado no ano anterior, pelo qual os coraixitas haviam impedido os muçulmanos de entrar em Meca, mas concordado em permitir que retornassem no ano seguinte para visitar a Caaba e permanecessem na cidade durante três dias.
Maomé partiu de Medina quatro meses depois de seu retorno de Caibar. Embora tenha levado armamento e uma força de cavalaria como precaução, respeitou a condição do tratado que restringia as armas permitidas aos peregrinos e deixou o restante fora do harame. Os muçulmanos entraram então em Meca e realizaram publicamente os ritos da unra, incluindo a deambulação em torno da Caaba e o percurso entre Safá e Marua. Ao término dos três dias acordados, Maomé e seus seguidores deixaram a cidade e retornaram a Medina.
A Unra da Compensação assinalou o cumprimento da peregrinação que havia sido impedida em Hudaibia e constituiu uma demonstração pública da comunidade muçulmana em Meca. A permanência permitiu ainda o contato direto entre os emigrantes e seus parentes e antigos conhecidos na cidade e, segundo a interpretação das fontes modernas, contribuiu para diminuir a hostilidade de parte dos coraixitas em relação ao Islã. Pouco depois, figuras proeminentes de Meca, entre elas Calide ibne Alualide, e Anre ibne Alás, converteram-se ao Islã e seguiram para Medina.
Antecedentes
Em Dulcada de 6 A.H. (março de 628), Maomé deixou Medina acompanhado por seus seguidores com a intenção de realizar a unra em Meca. Os coraixitas, contudo, impediram a entrada dos muçulmanos na cidade, e as negociações subsequentes resultaram no Tratado de Hudaibia. Pelo acordo, Maomé e seus seguidores retornariam a Medina sem realizar a peregrinação naquele ano, mas poderiam voltar no ano seguinte para visitar a Caaba, desde que entrassem em Meca portando apenas as espadas próprias de viajantes e permanecessem na cidade por no máximo três dias.
A peregrinação realizada no ano seguinte tornou-se conhecida como Unra da Compensação , por ter sido entendida como a compensação da unra que não pudera ser realizada em Hudaibia. Também recebeu os nomes de Unra do Acordo (ʿUmrat al-Qaḍiyya) e Unra da Paz (ʿUmrat al-Ṣulḥ), em referência ao fato de ter sido estabelecida pelo Tratado de Hudaibia, enquanto alguns estudiosos a denominaram Unra da Reciprocidade (ʿUmrat al-Qiṣāṣ), por ter sido realizada em substituição à peregrinação impedida no ano anterior. A tradição atribuída a Ibne Abas relaciona ainda o episódio ao versículo 194 da sura Albacara, segundo o qual um mês sagrado corresponde a outro mês sagrado e as violações da inviolabilidade estão sujeitas à reciprocidade.
No ano seguinte, Maomé ordenou que os participantes da expedição de Hudaibia se preparassem para realizar a unra e anunciou que outros muçulmanos que desejassem acompanhá-los também poderiam fazê-lo, convocação que foi comunicada às tribos. Segundo Aluaquidi, nenhum dos que haviam estado em Hudaibia deixou de participar, exceto os que haviam morrido em Caibar ou posteriormente, enquanto outros muçulmanos que não haviam presenciado o acordo se juntaram à peregrinação. O contingente alcançou cerca de participantes, sem contar mulheres e crianças. A expedição ocorreu em Dulcada de 7 A.H. (629), quatro meses depois do retorno de Maomé de Caibar. Aluaquidi, igualmente preservando uma tradição atribuída a Ibne Abas, relaciona sua realização no mesmo mês do ano seguinte à prescrição corânica de que o mês sagrado fosse compensado pelo mês sagrado.
Preparativos e marcha para Meca
Maomé partiu de Medina em 6 de Dulcada de 7 A.H. (7 de março de 629), seguindo pela rota de em direção a Meca. Durante sua ausência, deixou como representante em Medina ; outras tradições atribuem essa função a ou Abu Darre Alguifari. Para o sacrifício, mandou preparar sessenta ou setenta camelos. Segundo as tradições reunidas por Aluaquidi, foi encarregado, juntamente com um grupo, de conduzir os animais, embora sejam transmitidos relatos divergentes acerca dos responsáveis por essa função. O próprio Maomé teria marcado e adornado pessoalmente seu animal sacrificial. Embora o Tratado de Hudaibia permitisse aos muçulmanos entrar em Meca apenas com as armas próprias de viajantes, isto é, espadas mantidas nas bainhas, Maomé considerou a possibilidade de um confronto e ordenou que fossem levadas também outras armas, incluindo arcos, lanças e armaduras. Designou Maomé ibne Maslama para comandar uma força de cem cavaleiros encarregada de transportar o armamento e para cuidar de sua guarda, enviando esses grupos à frente do contingente principal.
Ao alcançar , o micate dos habitantes de Medina, Maomé e seus companheiros assumiram o irame, começaram a recitar a e prosseguiram em direção a Meca. Enquanto isso, a chegada da força de cavalaria que transportava as armas a Marre Azarã alarmou os coraixitas. Estes enviaram Micraz ibne Háfece para indagar se Maomé pretendia descumprir o tratado entrando armado em Meca. Maomé respondeu que respeitaria as condições acordadas, explicando que as armas haviam sido levadas por precaução e que não entraria com elas no harame. Depois de acampar em Marre Azarã, Maomé mandou transferir todas as armas, exceto as espadas permitidas pelo tratado, para , situado a cerca de 3 milhas de Meca, nas proximidades dos marcos que delimitavam o harame. Duzentos homens, comandados por , foram encarregados de guardá-las. Os animais destinados ao sacrifício, por sua vez, foram mantidos em enquanto Maomé se preparava para seguir de Marre Azarã para Meca.
Peregrinação
Quando os muçulmanos se aproximaram de Meca, os coraixitas deixaram livre a Mesquita Sagrada e parte deles se retirou para as elevações próximas, de onde observou a chegada dos peregrinos, enquanto outros deixaram a cidade para não presenciar a entrada de Maomé e seus seguidores. Maomé entrou em Meca montado em sua camela Caçuá, cercado pelos companheiros, que recitavam a . Cerca de duzentos homens permaneceram junto às armas deixadas em Bátene Iajaje, sob o comando de Auce ibne Cauli, enquanto os demais prosseguiram para cumprir os ritos da unra. Posteriormente, os grupos se revezaram, permitindo que os encarregados da guarda também realizassem a peregrinação. Ao chegar à Caaba, Maomé tocou o canto do edifício com seu bastão enquanto permanecia montado. Abedalá ibne Rauá conduzia sua montaria e recitava versos enquanto os muçulmanos iniciavam a deambulação em torno do santuário. Segundo a tradição preservada pela TDV, os coraixitas haviam difundido a afirmação de que as febres de Medina haviam debilitado os muçulmanos. Maomé, ao tomar conhecimento disso, ordenou aos companheiros que demonstrassem vigor durante a deambulação. Os homens passaram, assim, a caminhar rapidamente nas três primeiras voltas e em ritmo normal nas quatro restantes, prática posteriormente conhecida como ramal. Os coraixitas, que observavam os peregrinos, teriam se surpreendido com sua força e concluído que as notícias acerca de sua debilidade eram infundadas.
Depois da deambulação, Maomé realizou duas unidades de oração junto à e prosseguiu para Safá e Marua, onde realizou o percurso ritual entre as duas elevações. Ao completar o percurso em Marua, mandou trazer os animais destinados ao sacrifício e declarou que aquele seria o lugar do abate. Os animais foram então sacrificados. Aluaquidi distingue os participantes de Hudaibia, que sacrificaram em cumprimento da peregrinação compensatória, daqueles que haviam se juntado à expedição sem terem participado da tentativa de peregrinação do ano anterior. Depois do sacrifício, os peregrinos rasparam ou encurtaram os cabelos, encerrando o estado de irame. Aluaquidi preserva ainda a relação dos participantes de Hudaibia que não puderam realizar a Unra da Compensação por terem morrido em Caibar ou posteriormente. Em outro trecho de sua obra, ao enumerar as peregrinações realizadas por Maomé, afirma que nessa ocasião ele sacrificou sessenta camelos e novamente situa o sacrifício e a raspagem dos cabelos em Marua.
Permanência em Meca e partida
Concluídos os ritos, Maomé permaneceu em Meca durante os três dias permitidos pelo Tratado de Hudaibia, alojando-se numa tenda instalada em . Durante esse período, Bilal subiu ao teto da Caaba ao meio-dia para proclamar o adã, fato que, segundo as tradições reunidas pela TDV, alegrou os muçulmanos e provocou manifestações de desagrado entre alguns dos coraixitas que os observavam. Durante os três dias, o adã foi proclamado e as orações foram realizadas na Mesquita Sagrada, enquanto os muçulmanos se mantiveram reunidos em torno de Maomé e agiram de acordo com suas instruções. A permanência também possibilitou que os emigrantes revisitassem seus antigos bairros e casas e procurassem obter notícias dos parentes que haviam permanecido em Meca, enquanto os coraixitas que acompanhavam os acontecimentos das elevações próximas igualmente buscavam informações sobre seus parentes entre os muçulmanos.
Segundo a avaliação de Küçükaşcı, a conduta disciplinada dos peregrinos impressionou alguns dos politeístas, contribuiu para diminuir sua hostilidade em relação ao Islã e despertou maior interesse pela nova religião. Maomé também demonstrou interesse por alguns habitantes de Meca e perguntou particularmente por Calide ibne Alualide, manifestando o desejo de que fosse a Medina. Como Calide havia deixado a cidade para evitar encontrar-se com Maomé, seu irmão Alualide ibne Almuguira, que participava da unra, deixou-lhe uma carta informando-o de que Maomé perguntara por ele e afirmara que seria melhor empregar suas capacidades ao lado dos muçulmanos. De acordo com a tradição reproduzida pela TDV, a mensagem contribuiu para a decisão posterior de Calide de abraçar o Islã; ele seguiu para Medina juntamente com e Anre ibne Alás, onde os três se converteram.
Durante a permanência em Meca, Maomé também contraiu seu último matrimônio, com Maimuna binte Alharite. Pretendia celebrar ali o casamento, oferecer um banquete e convidar os coraixitas, aproveitando a ocasião para conversar com eles. Ao término dos três dias estipulados, contudo, Suail ibne Anre e foram até Maomé em nome dos coraixitas e exigiram que os muçulmanos deixassem a cidade. Maomé propôs permanecer por mais tempo e oferecer-lhes o banquete, mas os representantes coraixitas recusaram a proposta e insistiram no cumprimento do acordo. Maomé ordenou então que seus seguidores deixassem Meca e partiu da cidade. Seguiu até , na estrada entre Meca e Medina, onde se reuniu com Maimuna e consumou o casamento. A viagem da Unra da Compensação durou aproximadamente um mês, e Maomé e seus seguidores retornaram a Medina no início de Dulrija.
Significado