Saíde Buranadim Muaquique Atirmidi (; Termez, 1166 ou 1169 – Caiseri, ) foi um sufi e mestre religioso originário de Termez, conhecido sobretudo por ter sido mestre espiritual de Jalaladim Maomé Rumi. Discípulo e sucessor de , pai de Rumi, participou da educação deste ainda durante sua juventude e, após a morte de Baadim, assumiu sua formação espiritual. Depois de viver e ensinar em Termez, estabeleceu-se na Anatólia, onde permaneceu ligado a Rumi até se retirar para Caiseri, cidade em que morreu.
Buranadim atribuía especial importância à disciplina ascética, ao jejum e à experiência mística, sendo descrito pelas fontes como frequentemente entregue a estados de êxtase e absorção espiritual. Seus ensinamentos são preservados no Maʿārif, obra predominantemente em persa que reúne suas conversações sobre o caminho espiritual e o conhecimento de Deus e revela particularmente a influência de Sanai. Sua formação de Rumi e as correspondências entre seus ensinamentos e temas posteriormente desenvolvidos no Masnavi conferem-lhe posição importante na formação da tradição espiritual associada ao poeta.
Vida
Saíde Buranadim Muaquique Atirmidi nasceu em Termez, em 561 A.H. (1166) ou 565 A.H. (1169). Era filho de Saíde Alhaçane Atirmidi e neto de Saíde Alcácime Atirmidi. Sua linhagem era atribuída a Huceine ibne Ali, razão pela qual era conhecido pelas designações Saíde e Huceini. Recebeu ainda o epíteto Muaquique, em referência à sua condição de sufi dedicado ao taḥqīq, e outras designações relacionadas à percepção de segredos espirituais e ao papel que lhe foi atribuído como mestre religioso. Depois de estudar em Termez, dirigiu-se em 605 A.H. (1208) a Bactro, onde se tornou discípulo de . Permaneceu quarenta dias em sua companhia, recebeu autorização de seu mestre e regressou a Termez. No ano seguinte voltou a Bactro, onde permaneceu por dois ou três anos e assumiu a educação do ainda jovem Jalaladim Maomé Rumi. Quando Baadim Ualade e sua família deixaram Bactro, Buranadim estabeleceu-se novamente em Termez, em 616 A.H. (1219). Segundo as fontes mevlevis, Buranadim passou os anos seguintes entregue a estados de êxtase e embriaguez espiritual e viveu durante algum tempo em isolamento. Depois de retornar a um estado de sobriedade espiritual, teria se dedicado durante cerca de oito anos ao ensino e à orientação religiosa antes de partir para a Anatólia. As narrativas hagiográficas apresentam diferentes explicações para essa viagem. Uma delas afirma que, enquanto ensinava em Termez, percebeu espiritualmente a morte de seu mestre Baadim Ualade em Cônia, ocorrida em 628 A.H. (1231), e posteriormente sonhou com ele, que o teria censurado por deixar Jalaladim Rumi sem proteção. Outra tradição afirma que decidiu viajar ao saber que Baadim se encontrava em Cônia, enquanto também se aventou que as invasões mongóis que então atingiam a Transoxiana e o Coração contribuíram para sua partida.
Buranadim chegou a Cônia aproximadamente um ano depois da morte de Baadim Ualade e retirou-se inicialmente na mesquita de Sincari. Rumi encontrava-se então em Laranda, e Buranadim teria escrito para chamá-lo de volta a Cônia. Segundo algumas fontes, antes de chegar à cidade passou por Caiseri, onde permaneceu algum tempo na residência de . Buranadim explicou a Rumi que seu pai havia alcançado a perfeição tanto nas ciências exteriores quanto no conhecimento dos estados espirituais e que, embora Rumi já tivesse atingido elevada posição nas primeiras, precisava alcançar o mesmo grau nas últimas. Rumi tornou-se então seu discípulo. No ano seguinte, Buranadim enviou Rumi à Síria para aprofundar seus estudos nas ciências exteriores e teria acompanhado o discípulo até Caiseri durante a viagem, provavelmente em 630 A.H. (1233). Uma tradição afirma que Buranadim encontrou Xabadim Surauardi, mas a cronologia conhecida das viagens dos dois torna improvável que esse encontro tenha ocorrido na Anatólia. Depois do regresso de Rumi de seus estudos em Alepo e Damasco, Buranadim teria considerado que o discípulo já ultrapassara o próprio pai nas ciências exteriores e que deveria então dedicar-se intensamente à vida espiritual. Segundo , submeteu Rumi sucessivamente a três períodos de retiro, num total de 1 001 dias, após os quais reconheceu sua maturidade espiritual e lhe concedeu autorização para orientar outras pessoas.
A Encyclopaedia of Islam apresenta de forma mais sintética a relação entre ambos, afirmando que, depois da morte de Baadim Ualade, Buranadim assumiu a educação religiosa de Rumi, que estudou sob sua direção durante nove anos. Posteriormente, quando Rumi partiu para a Síria, Buranadim estabeleceu-se em Caiseri. Ballanfat observa que ele já possuía um círculo de discípulos em Termez antes de se tornar discípulo e depois sucessor de Baadim Ualade. Buranadim permaneceu algum tempo em Cônia hospedado na casa de seu discípulo . Posteriormente decidiu estabelecer-se em Caiseri, apesar da oposição de Rumi. Uma tradição afirma que justificou sua decisão dizendo que «um leão poderoso» se dirigia a Cônia e que dois leões não poderiam permanecer juntos, frase interpretada posteriormente como uma previsão da chegada de . Outras interpretações relacionaram sua mudança à situação política da Anatólia e às relações entre os grupos urbanos, turcomanos e mongóis, embora a TDV considere inadequadas as tentativas de explicar sua atitude perante esses grupos essencialmente por motivações políticas e sociais, ressaltando o caráter sufista e esotérico de sua interpretação dos acontecimentos.
Em Caiseri, Buranadim teria ensinado na madraça construída por , esposa do sultão , junto à . Aflaqui afirma ainda que exerceu a função de imame numa mesquita local, mas, devido aos prolongados estados de absorção espiritual que experimentava durante as orações, pediu desculpas à congregação, abandonou a função e retirou-se numa cela próxima. A data exata de sua morte não é conhecida. Com base nas informações de e Aflaqui — segundo as quais chegou a Cônia um ano depois da morte de Baadim Ualade e permaneceu durante nove anos como mestre de Rumi —, a TDV considera provável que tenha morrido no final de 638 ou no início de 639 A.H. (1241), em Caiseri. Ballanfat registra a tradição de Aflaqui que situa sua morte em 638 A.H. e acrescenta que Jami oferece outra data. Também observa a existência em Caiseri de uma türbe tradicionalmente identificada como seu túmulo. A atual estrutura sobre a sepultura foi construída em 1892 com o auxílio do governador de Ancara, , por iniciativa do governador distrital de Caiseri, . Após a morte de Buranadim, Saíbe Ispaã enviou uma carta a Rumi, que viajou a Caiseri cerca de quarenta dias depois para recolher os livros de seu mestre. Segundo Sultão Ualade, a morte de Buranadim deixou Rumi sem mestre e foi seguida por aproximadamente cinco anos de intensa disciplina ascética, até a chegada de Xame Atabrizi a Cônia. Buranadim aparece na cadeia espiritual mevlevita registrada por Aflaqui, embora esteja ausente da cadeia apresentada por outra fonte antiga. Uma interpretação posterior chegou a considerá-lo o único verdadeiro mestre espiritual de Rumi, distinguindo sua função daquela desempenhada por Xame Atabrizi como companheiro espiritual.
Pensamento e prática espiritual
As fontes apresentam Buranadim como um sufi profundamente dedicado à disciplina ascética. Atribuía particular importância ao jejum e à prática de exercícios espirituais e era associado a frequentes estados de êxtase, absorção e embriaguez mística. Considerava o sufismo o verdadeiro conhecimento e o ápice das ciências. Suas conversações continham expressões extáticas e numerosas citações dos versos de Sanai, e as tradições também lhe atribuem conhecimentos de medicina, humor espirituoso e forte inclinação para a malamati. Sua relação com Baadim Ualade ocupava posição fundamental em sua concepção da vida espiritual. Em seu Maʿārif, Buranadim elogia o mestre e afirma tê-lo contemplado no grau mais elevado da santidade. Segundo ele, não chegou a pedir que Rumi alcançasse posição superior à do pai, pois considerava que nenhum grau existia acima daquele atingido por Baadim. Rumi, por sua vez, evocou Buranadim no Masnavi como modelo de transformação espiritual e atribuiu a eficácia de seu mestre não apenas ao estudo dos livros e segredos dos xeiques, mas sobretudo à intensidade de sua disciplina ascética e de sua luta espiritual. Sultão Ualade também afirmou ter recebido benefício espiritual de Buranadim. A Encyclopaedia of Islam destaca a amplitude dos interesses intelectuais revelados em seus ensinamentos. Buranadim cita poesia mística, particularmente a de Sanai, e aborda diferentes questões teológicas. Entre elas figura a predestinação, acerca da qual sustentava que os místicos ainda não haviam alcançado plenamente a verdade, mas que as escolas filosóficas tampouco haviam conseguido fazê-lo.
Maʿārif
A única obra conhecida de Buranadim é o Maʿārif, formado pelo registro de suas conversações sufistas e escrito predominantemente em persa, com algumas passagens em árabe. A obra trata principalmente do caminho espiritual e do conhecimento de Deus, apresentando esses assuntos por meio de formulações concisas. Inclui versos de Sanai, Atar e Nezami, bem como ensinamentos atribuídos a numerosos sufis, desde Haçane de Baçorá até Baadim Ualade. Os temas nela desenvolvidos apresentam estreitas correspondências tanto com o Maʿārif de Baadim quanto com ideias posteriormente expostas no Masnavi de Rumi. Entre os temas do Maʿārif que reaparecem desenvolvidos no Masnavi estão narrativas e reflexões relativas a Ali ibne Abi Talibe, Jesus, Facradim Arrazi, e diferentes estágios do caminho místico. A obra distingue, entre outras coisas, o fim da jornada em direção a Deus da ausência de um término para a jornada com Deus. Sua parte final contém interpretações esotéricas de alguns versículos das suras Maomé e al-Fath. Ballanfat igualmente caracteriza o Maʿārif-i Sayyid Burhān al-Dīn Muḥaqqiq-i Tirmidhī como testemunho da amplitude dos conhecimentos teológicos de Buranadim e das correntes intelectuais de sua época. O manuscrito mais antigo conhecido da obra é datado de 5 de Moarrão de 687 A.H. (10 de fevereiro de 1288) e foi copiado por . A obra foi posteriormente editada por Badiuzamã Furuzanfar e traduzida para o turco por Abdulbaki Gölpınarlı e Ali Riza Karabulut.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Termez Categoria:Álidas Categoria:Árabes do século XII Categoria:Árabes do século XIII