Sufiane ibne Uiaina (), cujo nome completo era Abu Maomé Sufiane ibne Uiaina ibne Maimune Alhilali (; 725/6–811 ou 814), foi um tradicionalista, exegeta e jurista muçulmano, maula dos hilalitas. Nascido em Cufa e estabelecido posteriormente em Meca, começou ainda jovem a estudar o hádice e recebeu tradições de mais de oitenta mestres, em sua maioria tabis. Tornou-se particularmente importante como transmissor de Ibne Xiabe Azuri e, juntamente com Sufiane Atauri, ficou conhecido pela designação al-Sufyānayn ("os dois Sufianes").
Considerado uma das principais autoridades do hádice de sua geração, Sufiane era reputado por sua memória e pelo vasto repertório de tradições que transmitia, estimado em mais de sete mil hádices. Entre seus numerosos discípulos estiveram Axafii, Abede Arrazaque Açanani, Ibne Sade, Ali ibne Almadini, Amade ibne Hambal e Abedalá ibne Almubaraque, e suas tradições foram incorporadas às seis principais coleções canônicas de hádice. Embora sua reputação se devesse sobretudo à atividade como tradicionalista, exerceu também influência na exegese corânica e na jurisprudência, particularmente nas cadeias de transmissão associadas à escola xafeíta.
Asceta e dedicado ao ensino, Sufiane passou grande parte de sua vida em Meca, onde morreu e foi sepultado em . As fontes divergem quanto ao ano de sua morte, situando-o em 196 A.H. (811) ou 198 A.H. (814). Nenhuma de suas principais obras parece ter sobrevivido integralmente em sua forma original, mas parte de suas tradições, interpretações corânicas e opiniões jurídicas foi preservada por discípulos e autores posteriores, permitindo a reconstrução parcial de sua produção intelectual.
Vida e formação
Sufiane ibne Uiaina nasceu em Cufa, em Xabã de 107 A.H. (dezembro de 725–janeiro de 726). Era maula dos hilalitas, aos quais se refere sua nisba Alhilali. Seu pai ou avô, que exercia o ofício de produtor de seda ou ourives, esteve a serviço de Calide ibne Abedalá Alcáceri, governador de Meca e do Iraque. Após a destituição deste e a nomeação de em 120 A.H. (738), a família mudou-se para Meca, segundo uma versão para escapar às perseguições do novo governador e, segundo outra, devido às dívidas contraídas pelo pai no exercício da ourivesaria. Seu pai encaminhou seus nove filhos aos estudos; entre os irmãos de Sufiane, , , e também se dedicaram à transmissão de hádices. Sufiane começou a frequentar círculos de hádice ainda jovem e procurou especialmente tradicionalistas de idade avançada, contribuindo assim para a preservação de suas transmissões. Teve mais de oitenta mestres, em sua maioria pertencentes à geração dos tabis, entre os quais Anre ibne Dinar, Atá ibne Açaíbe, Hamade ibne Zaíde, Mamar ibne Raxide, , Abu Isaque Açabii, , Mançor ibne Almutamir, Aiube Açaquetiani, Hixame ibne Urua, Humaide Atauil, Abederramão ibne Abi Laila e . A Encyclopaedia of Islam destaca ainda Anre ibne Dinar e entre seus mestres mais conhecidos. Ibne Xiabe Azuri percebeu precocemente sua inteligência e dedicou-lhe atenção especial; Sufiane tornou-se, ao lado de Maleque ibne Anas, uma das autoridades mais confiáveis na transmissão dos hádices de Azuri.
Hádice e atividade intelectual
Embora se tornasse conhecido como tradicionalista do Hejaz, Sufiane possuía também amplo conhecimento dos hádices transmitidos no Iraque. Era reputado por sua memória excepcional e teria transmitido mais de sete mil hádices. A Encyclopaedia of Islam afirma que Sufiane não escrevia aquilo que memorizava e que teria declarado possuir uma memória extraordinária, capaz de conservar tudo o que ouvira; sua própria coleção de tradições, contudo, não sobreviveu de forma independente. Juntamente com Sufiane Atauri, era conhecido pela designação al-Sufyānayn ("os dois Sufianes"). Alguns de seus próprios mestres e estudiosos mais velhos ou contemporâneos transmitiram hádices por sua autoridade, entre eles Alamaxe, Ibne Xiabe Azuri, Xuba ibne Alhajaje, Ibne Juraije e . Entre seus principais discípulos estiveram Abedalá ibne Azobair Alhumaidi, Abedalá ibne Almubaraque, Abederramão ibne Mádi, Ibne Uabe, Axafii, Abede Arrazaque Açanani, Ibne Sade, Ali ibne Almadini, Amade ibne Hambal, , , , , Califa ibne Caiate e . A extensão de sua rede de mestres e discípulos contribuiu para sua reputação como uma das grandes autoridades do hádice de seu tempo. Axafii, que estudou tanto com Sufiane quanto com Maleque ibne Anas, teria afirmado que, sem os dois, o conhecimento teria desaparecido do Hejaz.
As fontes divergem quanto à prática de tadlis por Sufiane. A Encyclopaedia of Islam afirma que ele a praticava, transmitindo ocasionalmente tradições provenientes de pessoas das quais não as ouvira diretamente e omitindo do isnad aqueles que efetivamente lhas haviam transmitido. A TDV, por sua vez, observa que essa acusação, reproduzida pela própria Encyclopaedia of Islam, não encontra confirmação nas fontes clássicas. Também se transmitiu, por autoridade de Iáia ibne Maine, que Sufiane teria sofrido ikhtilāṭ, com deterioração de sua capacidade de transmissão e enfraquecimento da visão, no último ano de vida; Adaabi, contudo, considerou essa informação incorreta. Seus hádices foram incorporados às seis principais coleções canônicas. Além de tradicionalista, Sufiane é mencionado como exegeta e jurista, embora sua principal especialidade fosse o hádice, e tornou-se uma figura importante nas cadeias de transmissão associadas à escola xafeíta. Seu comentário do Alcorão não sobreviveu como obra independente, mas parte de seu conteúdo é conhecida através de citações preservadas em fontes posteriores. A Encyclopaedia of Islam afirma não haver evidência de que tenha escrito uma obra de fiqh, embora opiniões jurídicas suas tenham sido conservadas numa coleção de masāʾil compilada por , conhecido como Alcausaje, a partir de perguntas dirigidas a Amade ibne Hambal e . Nessas tradições, suas posições jurídicas aparecem por vezes próximas das de Maleque ibne Anas e, em outros casos, das de Axafii.
Últimos anos e morte
Sufiane era descrito como um estudioso asceta e pobre e, segundo a TDV, nunca se casou. Perdeu a visão de um dos olhos e teria realizado a peregrinação a Meca setenta ou oitenta vezes. Atribui-se a ele a concepção de que o aprendizado se desenvolvia sucessivamente por meio da escuta, do silêncio, da aplicação prática do conhecimento e de sua transmissão aos demais. Embora uma tradição posterior afirme que participou do cerco de Constantinopla comandado por Maslama ibne Abedal Maleque, morreu como mártir diante da cidade e foi ali sepultado, a cronologia torna essa identificação impossível. Um cenotáfio situado na Mesquita Subterrânea de Istambul chegou a ser associado a Sufiane, mas as fontes clássicas situam sua morte e sepultamento em Meca. Há divergência nas fontes modernas quanto à data de sua morte. A Encyclopaedia of Islam registra 196 A.H. (811), enquanto a TDV, seguindo as fontes clássicas que cita, dá 1 de Rajabe de 198 A.H. (25 de fevereiro de 814). Segundo esta última, Sufiane morreu em Meca e foi sepultado na região de , situada a aproximadamente um quilômetro da Mesquita Sagrada.
Obras
A produção atribuída a Sufiane está ligada principalmente ao hádice e à exegese corânica. O Juzʾu fīhi ḥadīthi Sufyān ibn ʿUyayna reúne cinquenta tradições procedentes de 28 fontes e contém relatos breves, relativos a atos e pronunciamentos, tanto marfūʿ quanto mawqūf. As fontes mencionam ainda uma obra de hádice intitulada al-Jāmiʿ. Embora seu comentário corânico original não tenha sobrevivido, suas interpretações de diferentes versículos foram reunidas a partir de fontes posteriores por Aḥmad Ṣāliḥ Muḥāyirī e publicadas como Tafsīru Sufyān ibn ʿUyayna. Também se atribui a Sufiane uma obra denominada al-Muwaṭṭaʾ, destinada a demonstrar que tradições mursal e munqaṭiʿ presentes no Muwatta de Maleque ibne Anas podiam ser transmitidas por outras vias mediante cadeias contínuas. Uma obra que lhe atribuiu sob o título Jawābāt al-Qurʾān provavelmente corresponde ao Kitāb al-Jawābāt fī al-Qurʾān, de , transmitido por Sufiane. Suas opiniões jurídicas também foram preservadas nas Masāʾil Aḥmad ibn Ḥanbal wa-Isḥāq ibn Rāhawayh, compiladas por Abu Iacube Isaque ibne Almançor Almaruazi, e fontes posteriores mencionam ainda compilações de seus hádices com cadeias de transmissão elevadas.
Bibliografia
Categoria:Naturais de Cufa Categoria:Hilálios Categoria:Árabes do século VIII Categoria:Árabes do século IX Categoria:Pessoas do Califado Omíada Categoria:Pessoas do Califado Abássida