O lémure-de-cauda-anelada (lêmure-de-cauda-anelada em PB) (Lemur catta) é um primata estrepsirrino de grandes dimensões e o lémure mais reconhecível devido à sua cauda anelada de cores preta e branca. Pertence à família Lemuridae, uma das quatro famílias de lémures. É o único membro do género Lemur. Tal como os outros lémures é endémico da ilha de Madagáscar. Denominado localmente por hira (malgaxe) ou maki (francês e malgaxe),Mittermeier, pp. 246 habita florestas de galeria e zonas arbustivas de espinhosas, nas regiões mais a Sul da ilha. É herbívoro e é o mais terrestre dos lémures. O animal é diurno, estando ativo exclusivamente em horas com luz de dia.

O lémure-de-cauda-anelada é altamente social, vivendo em grupos de até 30 indivíduos. Quem domina são as fêmeas, uma característica comum nos lémures mas pouco comum entre outros primatas. Para permanecerem quentes e para reafirmar os laços sociais, amontoam-se formando uma bola de lémures. O lémures-de-cauda-anelada também expõe o seu corpo ao Sol, sentando com postura ereta encarando a superfície inferior, com o seu pelo branco mais fino exposto em direção à luz solar. Como outros lémures, esta espécie depende fortemente do sentido do olfato e marca o seu território através de glândulas odoríferas. Os machos têm uma forma peculiar de marcação por odores e participam num comportamento de luta de cheiros, impregnando a sua cauda com o seu odor e provocando lufadas de cheiro contra os oponentes.

Sendo uns primatas mais vocais, o lémure-de-cauda-anelada utiliza numerosas vocalizações, incluindo avisos de alarme e de coesão de grupo. Apesar de não possuir um cérebro muito grande (em relação aos primatas simiformes), experiências mostraram que o lémure-de-cauda-anelada pode organizar sequências, perceber operações aritméticas básicas e selecionar preferencialmente ferramentas com base nas suas qualidades funcionais.

Apesar de estar listada como espécie quase ameaçada pela Lista Vermelha da IUCN e sofrendo de destruição de habitat, o lémur-de-cauda-anelada reproduz-se de maneira expedita em cativeiro e é o lémure com maior população em jardins zoológicos de todo o mundo, atingindo números superiores a dois mil indivíduos. Vive tipicamente 16 a 19 anos em estado selvagem e 27 anos em cativeiro.

Etimologia O termo lémur foi selecionado pelos biólogos porque os chamamentos de algumas espécies de lémures traziam à mente os lamentos dos espíritos dos mortos, ou lemures, da mitologia romana.Garbutt, pp. 85–86 O nome específico, catta, deriva da semelhança entre as vocalizações destes lémures e as dos gatos domésticos

História evolutiva Todos os fósseis de mamíferos de Madagáscar são de tempos recentes.Mittermeier, pp. 23–26 Por isso, pouco é conhecido acerca da evolução do lémures-de-cauda-anelada. De referir que a infraordem Lemuriformes compreende a inteira população primata endémica da ilha. No entanto, evidências cromossómicas e moleculares sugerem que os lémures são mais relacionados entre si do que com outros primatas estrepsirrinos. Para que isto possa ter acontecido, pensa-se que uma pequena população ancestral chegou a Madagáscar através de uma única dispersão do tipo rafting há entre 50 e 80 milhões de anos. Subsequente radiação evolutiva e especiação criaram a diversidade de lémures observada atualmente em Madagáscar. Pensa-se que o próprio lémur-de-cauda-anelada partilhe afinidades mais próximas que o resto da subfamília Lemurinae, com os lémures do género Hapalemur,Garbutt, pp. 146–148Mittermeier, pp. 237 que pode ser um grupo irmão da família Lemuridade.

Classificação taxonómica O género Lemur contém uma única espécie, o lémur-de-cauda-anelada.

Família Lemuridae Subfamília Lemurinae Género Lemur: the Ring-tailed Lemur Género Eulemur: brown lemurs Género Varecia Subfamília Hapalemurinae Género Hapalemur Género Prolemur

Mudanças na taxonomia O lémure-de-cauda-anelada partilha muitas características com os membros da sua subfamília, Lemurinae, e o seu esqueleto é praticamente indistinguível do dos membros do género Eulemur. Por estas razões, o lémure-de-cauda-anelada, e os membros dos géneros Eulemur e Varecia eram antes todos agrupados no género Lemur. No entanto, os membros do género Varecia foram colocados num género à parte, em 1962, e devido a semelhanças entre o lémur-de-cauda-anelada e os membros do género Eulemur, particularmente no que diz respeito a evidências moleculares e semelhanças nas glândulas odoríferas, estes últimos foram movidos para um género próprio, em 1988. O género Lemur é agora monotípico, contendo apenas o lémur-de-cauda-anelada. Apesar de nem todas as autoridades concordarem, a maioria dos primatólogos favorece atualmente está classificação.

Anatomia e fisiologia thumb|left|A cauda do lémur-de-cauda-anelada é maior que o seu corpo Um lémure-de-cauda-anelada adulto pode ter um comprimento corporal entre 39 e 46 cm e um peso entre 2,3 e 3,5 kg.Mittermeier, pp. 246–249 A espécie tem uma estrutura esguia e um focinho estreito, reminiscente do focinho vulpino. Como todos os lémures, as patas traseiras são mais compridas que as patas dianteiras. As fêmeas possuem dois pares de glândulas mamárias. mas apenas um par é funcional.

Glândulas odoríferas não cobertas de pelo estão presentes nos machos e nas fêmeas. Os dois sexos apresentam glândulas apócrinas e sebáceas nas suas regiões genitais, assim como glândulas antebraquiais localizadas na superfície interna do antebraço, na proximidade do pulso. No entanto, apenas o macho possui um espigão coreáceo que se sobrepõe a esta glândula odorífera. Os machos também possuem glândulas braquiais na superfície axilar dos ombros.

A imagem de marca do lémure-de-cauda-anelada é a sua cauda longa e espessa, anelada alternativamente com riscas pretas e brancas, com número de 13 a 15 para cada cor, terminando sempre numa ponta de cor preta. A sua cauda é mais comprida que o seu corpo, medindo até 64 cm de comprimento. A cauda não é preênsil e apenas é usada para balanço, comunicação e coesão de grupo.

A sua pelagem é densa. A cobertura ventral e a garganta são de cor branca ou creme, e a cobertura dorsal é cinzenta a castanho rosado. O topo cranial é cinzento escuro, enquanto as orelhas e bochechas são brancas. O focinho é cinzento escuro e o nariz é preto. A região dos olhos possui uma mancha em forma de losango.

A pele preta é visível no nariz, genitais, nas palmas e solas dos membros. O lémure-de-cauda-anelada partilha várias adaptações com outros lémures. Os dedos são esguios, almofadados, possuindo unhas semelhantes aos seres humanos. Catam-se oralmente, lambendo e raspando com os dentes através de caninos e incisivos estreitos, formando uma fileira de dentes em fuso chamado pente dental. A finalizar, possui uma garra higiénica no segundo dedo de cada pata traseira, especializada para a autocatação, especificamente para esquadrinhar através do pelo que não pode ser alcançado pela boca.

Os olhos da espécie podem ter uma coloração amarela brilhante ou laranja. Ao contrário da maioria dos primatas diurnos, mas semelhante a todos os primatas estrepsirrinos, o lémure-de-cauda-anelada possui um tapetum lucidum ou camada reflexiva por detrás da retina, que melhora a visão noturna.

Ecologia O lémure-de-cauda-anelada é diurno e semi-terrestre. É a espécie de lémure mais terrestre, passando até cerca de 33% do tempo no solo. No entanto, é ainda consideravelmente arborícola, passando 23% do tempo na copa florestal de nível médio, 25% do tempo na copa superior, 6% na camada emergente e 13% em pequenos arbustos. As movimentações em grupo são 70% terrestres.

O tamanho dos grupos, a área do território e a densidade populacional variam de região para região e também segundo a disponibilidade de comida. Os grupos são tipicamente formados de 6 a 25 indivíduos, apesar de terem sido registados grupos com mais de 30 indivíduos. O número médio de indivíduos num grupo é de cerca de 13. A área do território varia entre 6 e 35 hectares. Os grupos de lémure-de-cauda-anelada mantêm o seu território, mas a sobreposição é muitas vezes elevada. Quando encontros ocorrem, possuem comportamento agonístico ou hostil na natureza. Um grupo ocupa normalmente a mesma parte do seu território por três ou quatro dias antes de se afastarem para outros locais. Quando se move, a distância de viagem média ronda um quilómetro. A densidade populacional varia entre 100 indivíduos por quilómetro quadrado em florestas secas e 250-600 indivíduos por quilómetro quadrado em florestas de galeria e florestas secundárias.

O lémure-de-cauda-anelada possui predadores nativos e predadores introduzidos. Os predadores nativos incluem a fossa (Cryptoprocta ferox), as aves das espécies Polyboroides radiatus e Buteo brachypterus e a espécie de serpente Boa madagascariensis. Predadores introduzidos incluem o viverrídeo Viverricula indica, o gato doméstico e o cão doméstico.

Área de distribuição e habitat thumb|right|lémures-de-cauda-anelada no Parque Nacional Isalo em Madagáscar. Endémico das regiões Sul e Sudoeste de Madagáscar, o lémure-de-cauda-anelada ocupa terras altas mais que outros lémures. Habita florestas decíduas, zonas arbustivas secas, zonas florestais húmidas de montanha e floresta de galeria (junto a margens de rios). Prefere largamente as florestas de galeria, mas tais florestas têm sido quase totalmente destruídas da maior parte de Madagáscar de maneira a serem transformadas em pastagens para o gado. Dependendo da localização, as temperaturas dentro da área de distribuição podem variar entre −7 °C e 48 °C.

Esta espécie pode ser encontrada tão a Leste como a região de Tôlanaro, a Norte até Belon'i Tsiribihina, e ao longo da costa Oeste e das zonas montanhosas de Andringitra no planalto Sudeste. Pode ser encontrada também na Reserva Berenty, Parque Nacional Andohahela, Parque Nacional Isalo e Parque Nacional Zombitse-Vohibasia.

Relações simpátricas As seguintes espécies de lémure são simpátricas com o lémure-de-cauda-anelada, significando que são espécies relacionadas, dentro da sua área de distribuição:

Propithecus verreauxi Lepilemur ruficaudatus Lepilemur leucopus Eulemur rufus Cheirogaleus major Cheirogaleus medius Daubentonia madagascariensis (Aie-aie) Hapalemur griseus

Na região Oeste de Madagáscar, o lémure-de-cauda-anelada e Eulemur rufus foram estudados juntos. Pouca interação existe entre as duas espécies. O lémure-de-cauda-anelada passa mais tempo no solo do que a espécie Eulemur rufus. As dietas das duas espécies sobrepõem-se, mas os alimentos são consumidos em diferentes proporções, uma vez que o lémure-de-cauda-anelada possui uma dieta mais variada.

Comportamento Dieta O lémure-de-cauda-anelada é um omnívoro oportunista, comendo primariamente frutas e folhas, com particular destaque para os da espécie Tamarindus indica, denominada localmente por kily. Quando disponível, esta espécie vegetal proporciona até 50% da sua dieta, especialmente durante a época seca de inverno. O lémure-de-cauda-anelada pode alimentar-se a partir de três dúzias de espécies vegetais diferentes, e a sua dieta inclui flores, herbáceas, casca e seiva de vegetais. Foi observado a comer madeira apodrecida, terra, teias de aranha, casulos de insetos, artrópodes (aranhas, lagartas, cigarras e gafanhotos) e pequenos vertebrados (aves e camaleões).. Durante a época seca aumenta o seu comportamento oportunista.

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