300px|thumb|Transporte de escravos na África. Gravura de 1890
O estudo do processo de escravização dos povos africanos é essencial para que se compreenda a história atual de desigualdade no planeta. Revela uma longa história de exploração e subjugação de populações fragilizadas por outras, mais equipadas, embora por vezes num grau de civilização inferior. Demonstra também que a desestruturação econômica e cultural tem efeitos desastrosos de longa duração.
Do ponto de vista econômico, a escravidão foi uma forma eficiente de acumulação primitiva. Parte do atual contexto socioeconômico da África de miséria e exclusão é consequência de fatos passados. Muitos analistas comparavam a escravidão africana em menor escala associada a servidão linhageira com as economias orientais.WITTFOGEL, Karl A Despotismo oriental: estudio comparativo del poder totalitario. Madrid: Guadarrama, c1966. 582p A escravatura na África contemporânea ainda é praticada, apesar de ilegal.
Escravidão na África: uma antiga forma de exploração A escravidão esteve presente no continente africano muito antes do início do comércio de escravos com os europeus na costa atlântica.
Desde por volta de 700, prisioneiros capturados nas guerras que expandiram o Islã da Arábia pelo norte da África e através da região do Golfo Pérsico eram vendidos e usados como escravos. Durante os três impérios medievais do norte da África (séculos X a XV), o comércio de escravos foi largamente praticado.
O historiador canadiano Paul Lovejoy apresenta o conceito de modo de produção escravista (de E. Terray ) como fundamental para uma compreensão mais completa do funcionamento político, econômico e social da ÁfricaLOVEJOY, Paul E. A escravidão na África. Uma história e suas transformações, tradução Regina Bhering e Luiz Guilherme Chaves, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002; cap. 1 - "A África e a escravidão", pp 29-56; cap 12 - "A escravidão na economia política da África", pp 395-411. - e também das colônias nas Américas. Segundo sua definição, o modo de produção baseado na escravidão é aquele em que predominam a mão de obra escrava em setores essenciais da economia; a condição de escravo no mais baixo nível da hierarquia social; e a consolidação de uma infraestrutura política e comercial que garanta a manutenção desse tipo de exploração. Formas de escravidão
Múltiplas formas de escravidão e servidão involuntária existiram na história africana e foram formadas pelas práticas nativas de escravidão assim como a instituição de escravidão romana (e depois a visão cristã sobre a escravidão), a visão islâmica da escravidão por meio do Tráfico de Escravos Islâmico e por último o tráfico de escravos do Atlântico para as Américas. A escravidão foi parte da estrutura econômica por muitos séculos, ainda que a extensão variasse. Ibne Batuta, que visitou o antigo Império do Mali em meados do , descreve que os habitantes locais viam uns aos outros de acordo com o número de escravos e servos que tinham, e ele mesmo ganhou um garoto escravo como um "presente de hospitalidade."Noel King (ed.), Ibn Battuta in Black Africa, Princeton 2005, p. 54.
Na África subsariana, as relações de escravos eram muitas vezes complexas, com diferentes níveis de direitos e liberdades dadas aos indivíduos mantidos em escravidão e restrições a venda e tratamento pelos seus mestres escravagistas. Muitas comunidades tinham hierarquias entre diferentes tipos de escravos: por exemplo, diferenciando entre aqueles que nasceram na escravidão e aqueles que foram capturados e guerra. Diferentemente do que se pensava, a escravidão na África não era realizada somente com cunho doméstico. As relações entre escravagistas e escravos, tanto nas Américas como na África, sempre se basearam em punições disciplinares, castigos e violência. Os capturados eram retirados de suas terras, separados de suas famílias, obrigados a aprenderem outros idiomas e costumes além de terem sido humilhados e torturados, o escravo se encontra em posição de subordinação e nunca tratado em igualdade, questionando a visão de que seriam formas mais brandas com todas as formas de escravidão sendo violentas e desumanizadoras. Segundo a historiadora Marina de Melo e Souza, a escravidão africana é cruel e desumanizadora.
As formas de escravidão na África eram fortemente relacionadas com as estruturas de parentesco. Em muitas comunidades africanas, onde a terra não poderia ser mantida como propriedade privada, a escravidão de indivíduos era usada como forma para aumentar a influência de uma pessoa tinha e expandir suas conexões. Isso fez com que os escravos se tornassem parte da linhagem de um mestre e os filhos dos escravos se tornavam bem conectados com os laços de família maiores em diversos casos. Crianças de escravos nascidos nas famílias poderiam ser integrados ao grupo de parentesco do mestre e subir para posições proeminentes na sociedade, até ao nível de chefe em algumas instâncias. No entanto, o estigma frequentemente continuava aderido e poderia haver separações estritas entre membros escravos de um grupo de parentesco e aqueles relacionados com o mestre.
Durante o tráfico transaariano de escravos, os escravos da África Ocidental eram transportados através do deserto do Sara até ao Norte de África para serem vendidos às civilizações do Mediterrâneo e do Médio Oriente. Os eunucos eram necessários para a guarda dos haréns, como criados, como funcionários do palácio e também como guardiães de mesquitas, túmulos e outros locais sagrados. As mulheres escravas eram principalmente concubinas ou simples servas. Um proprietário de escravos tinha direito legal ao usufruto sexual das suas escravas. Embora as mulheres livres pudessem possuir escravos do sexo masculino, não lhes era admitido, obviamente, direito equivalente.
Na Carta de Curucã Fuga, (1235) a constituição do Império do Mali, reconstruída a partir da tradição oral, veementemente proíbe maus-tratos ao escravo em seu artigo 20. Muitos dos povos africanos adotaram o Islã que, por sua vez, prescreve aos religiosos tratar os escravos “generosamente” (Alcorão, Sura An-Nissa, 36) e considera, embora não ordene, a alforria como um gesto merecedor e uma obra de beneficência ( Alcorão, Sura Al-Baqarah, 177). Vários escravos, em especial os escravos militares, puderam, assim, alcançar posições de poder e influência; outros, a maioria, viviam e morriam em condiçoes terríveis nas minas, drenagem de pântanos e outros trabalhos esgotantes; nas minas de sal do Saara nenhum escravo teria uma esperança de vida de mais de cinco anos. No Egito temos o exemplo de Abu Almisque Cafur, originalmente um escravo negro de origem etíope que se tornou regente do Egito.Abū al-Misk Kāfūr." Encyclopædia Britannica. 2008. Encyclopædia Britannica Online. Jul. 2008 Em Marrocos, destaca-se o político ibne Marjã (d. 1728), um eunuco negro encarregado da tesouraria, bem como dos servos negros no palácio durante a vida do Mulei Ismail.Black Morocco: A History of Slavery, Race, and Islam, por Chouki El Hamel No Império do Mali, Mansa Sacura , escravo de nascimento, foi libertado e tornou-se um general do exército de Sundiata Queita posteriormente nomeando-se o sexto imperador do império mande.Davidson, Basil. Africa in History. Nova Iorque: Simon & Schuster, 1995. No entanto, foi a criação do tráfico de escravos muçulmano que ampliou as dimensões do comércio de escravos que antes era de pequena dimensão entre os africanos.
Escravos como propriedade thumb|right|140px|Atestado de compra de 467 escravos em Moçambique, com destino a Santos, a mando de Antônio da Silva Prado. APESP
A escravidão em que os escravos são tratados como uma propriedade do mestre é uma forma específica de escravidão. Assim sendo, o dono é livre para vender, comercializar ou tratar o escravo como ele faria como outras propriedades suas e os filhos dos escravos eram mantidos como propriedades dos mestres (a semelhança da escravidão de negros nas Américas). Existem evidências da longa história dessa prática de escravidão com os escravos sendo propriedades no Vale do Rio Nilo, grande parte do Sahel e Norte da África, as evidências sobre a extensão dessa prática no resto do continente (África sub-saariana) vêm principalmente dos relatos escritos de mercadores árabes e europeus sobre a forma que existia antes do contato com eles, com poucos registros escritos antes desses relatos, as novas evidências arqueológicas demonstram que provavelmente era uma forma comum e muito abusiva de escravidão. Relatórios apontam que essa prática continua na África do Norte islâmica em países como o Sudão e Mauritânia (apesar de ambos os países participarem da Convenção sobre a Escravidão da ONU de 1956), um desses casos é o de Francis Bok que foi sequestrado e usado como escravo em 1986 após sua vila no sul do Sudão ter sido atacada, ele foi escravizado por 10 anos no norte do Sudão até fugir. O Sudão nega a existência continuada da escravidão no seu terrritório.
Serviço doméstico
Muitas relações de escravos na África giravam em torno da escravidão doméstica, onde escravos trabalhariam primariamente na casa do mestre, mas reter algumas liberdades. Escravos domésticos poderiam ser considerados parte do vínculo doméstico do mestre e não seriam vendidos a outros sem causa extrema. Os escravos nesse sistema poderiam ter lucros do seu trabalho (em forma de terra ou produtos) e podiam casar e passar sua terra para seus filhos em muitos casos. Na África Ocidental, o jonya (do termo mande jon, que significa cativo) era um escravo ligado a uma linhagem. Nas sociedades em que reinou esse sistema, ele pertencia a uma categoria sociopolítica integrada a classe dominante; era então cidadão exclusivo do Estado e pertencia a seu aparelho político. Enquanto sistema e categoria social,o jonya desempenhou um papel considerável e original nos Estados e impérios de Gana, Tacrur, Mali, Canem, Axânti e Iorubá.História Geral da África - Volume V: África do ao XVIII, ISBN 978-85-7652-127-3 Os soberanos sudaneses também importavam escravos. Ibne Batuta nos relatou que quando o imperador do Mali sentava no trono em praça pública, atrás dele postavam-se cerca de 30 mercenários mamelucos, comprados para ele no Cairo.http://www.fordham.edu/halsall/source/1354-ibnbattuta.asp
Também havia os worossos que eram escravos "nascidos no meio" descendentes dos jons (escravos capturados ou comprados) sendo que ambas as classes de escravos tinham direito de trabalhar em seu próprio benefício por determinado período. Era possível para eles juntar sua própria propriedade pessoal havendo, inclusive, o termo 'jon ma jon' para definir o escravo pertencente a outro escravo.Traders Without Trade: Responses to Change in Two Dyula Communities, de Robert Launay, p. 40, 2007, ISBN 9780521040310
Escravidão por dívida ou penhor Escravidão por dívidas por penhor usando pessoas como garantia para o pagamento de dívidas. Nessa forma o trabalho escravo é feito pelo devedor ou um parente do devedor (geralmente uma criança). Penhor era uma forma comum de garantia na África Ocidental. Envolvia o penhor de uma pessoa ou membro da família servindo outra pessoa provendo crédito. O penhor era relacionado, no entanto distinto, da escravidão na maioria das conceptualizações pois o arranjo poderia incluir termos específicos ou limitados de serviço que seriam providos, e porque os laços de parentesco protegeriam a pessoa de ser vendida para a escravidão. Antes do contato com europeus o penhor era uma prática comum na África Ocidental praticada por povos como os acãs, jejes, Gas, Iorubás e os Edos (em formas modificadas também existiu entre os efiques, Ibos, os ijós e os Fons).
Escravidão militar miniatura|220px|direita| O sultão Mulei Ismail rodeado da sua Guarda Negra (quadro de Eugène Delacroix)