Leptotes é um género botânico pertencente à família das orquídeas (Orchidaceae). Foi proposto por John Lindley em Edwards's Botanical Register 19: t. 1625, em 1833, quando descreveu sua espécie tipo, o Leptotes bicolor. O nome deste gênero é uma referência à aparência delicada destas espécies. É composto por cerca de nove espécies do Brasil que existem nas matas secas do sul e sudeste, e também no Paraguai ou Argentina. São pequenas plantas epífitas de crescimento cespitoso, algumas das quais poderiam ser comparadas a pequenas Brassavola, pela semelhança que as folhas estreitas e roliças dos dois gêneros apresentam. No entanto são grupo irmão do gênero monotípico Loefgrenianthus (originalmente descrito também como Leptotes), e participam de uma linhagem antiga de Laeliinae que incluir diversos pequenos gêneros do leste do Brasil, tais como Adamantinia, Constantia, Isabelia e Pseudolaelia.

Algumas de suas espécies são amplamente cultivadas e formam conjuntos bastante vistosos quando bem floridas, todavia a maioria das espécies não é comum em cultivo, algumas são bastante rara ou quase totalmente desconhecidas. Cinco espécies somente foram descritas no século XXI. Não são plantas cujo cultivo está entre os mais fáceis. Existem poucos híbridos intergenéricos registrados envolvendo Leptotes. Além se serem cultivadas por seu valor ornamental, há registros da utilização ocasional das flores e frutos da Leptotes bicolor como aromatizantes para leite, sorvete, chá e doces, em substituição à baunilha.Lawler, L.J.: Ethnobotany of the Orchidaceae em Orchid biology:reviews and perspectives, Vol.3. J. Arditti Ed., Cornell University Press, Ithaca, New York, 1984.

Dispersão

As espécies de Leptotes são originárias da Mata Atlântica do Brasil, duas espécies encontradas em outros países também, a L. unicolor na Argentina, e a L. bicolor no Paraguai, sempre vivendo de forma epífita. Três espécies apresentam elevado grau de endemismo no sul da Bahia e não existem em outros locais. A distribuição de uma das espécies é apenas uma suposição. Os estados do sudeste do Brasil são os que apresentam o maior nível de ocorrência de espécies porém seus limites extremos de ocorrência são a Serra da Jibóia, na Bahia, e o norte do estado do Rio Grande do Sul.Van den Berg, Cássio: Leptotes em Genera Orchidacearum Vol.4, p. 273. Oxford Unity Press, 2006. ISBN 9780198507123.

As espécies do grupo de flores explanadas, como Leptotes tenuis e L. pauloensis, são mais frequentes em matas úmidas de encostas. A L. bicolor é a espécie com maior dispersão e adaptação tanto a florestas mais úmidas das montanhas, como às matas mais secas do planalto acima da Serra do mar. A Leptotes unicolor é planta de áreas mais frias, acima de 700 metros de altitude, preferindo hospedar-se em araucárias e Podocarpus nas áreas mais ao sul do Brasil.

Descrição

As espécies classificadas no gênero Leptotes são plantas de rizoma curto, de secção cilíndrica, com pseudobulbos muito pequenos que quase imperceptivelmente prolongam-se em uma, raramente duas, folhas carnosas teretiformes, curtas ou longas, eretas ou pendentes, de cores escuras, verdes ou purpúreas, frequentemente apresentando superfícies rugosas, com sulco mais ou menos profundo na face. A inflorescência é apical, geralmente curta, e brota diretamente do ápice do pseudobulbo, sem que seja protegida por espata, comportando de uma a sete flores, no entanto são mais comuns duas ou três. As flores são relativamente grandes quando comparadas às dimensões da planta, normalmente meio tombadas, em algumas espécies formando conjunto de aspecto muito vistoso.Van den Berg, Cássio: Leptotes em Genera Orchidacearum Vol.4, pp. 271-273. Oxford Unity Press, 2006. ISBN 9780198507123.

As flores geralmente são de coloração rósea, esverdeadas ou brancas, com labelo manchado de amarelo claro, púrpura ou lilás, bastente perfumadas e duram cerca de dez a vinte dias.Miller, David; Richard Warren; Izabel Moura Miller & Helmut Seehawer: Serra dos Órgãos sua história e suas orquídeas, p. 240. Rio de Janeiro, 2006. As pétalas e sépalas são parecidas, alongadas, da mesma cor, as pélatas ligeiramnete mais estreitas que as sépalas. O labelo se posiciona ao longo da coluna, é trilobado, com lobos laterais pequenos, erguidos ao lado da coluna, porém nunca envolvendo-a, ou explanados; o lobo intermediário é bem maior que os laterais, apresenta formato lanceolado ou obovado, ocasionalmente carnoso, explanado ou curvado para trás; em algumas espécies com margens serrilhadas, em outras lisas; raramente apresenta calos e possui garras que se prendem aos lados da coluna. Esta é curta, espessa e ereta, normalmente esverdeada, biauriculada, e possui seis polínias de tamanhos desiguais, duas grandes no centro e quatro pequenas em dois pares presas por caudículo bastante curto, em um arranjo sem similares entre as orquídeas. Seus frutos são arredondados, suculentos e perfumados como os de Vanilla.Withner, Carl Leslie: The Cattleyas and Their Relatives, Vol. 3, pp.94-95. Timber Press, Oregon. ISBN 0881922692

Sua polinização nunca foi observada e as suposições sobre seus agentes são diferentes, Cássio van den Berg supõe que, pelas cores e morfologia de suas flores, devam ser polinizadas por abelhas, outros orquidólogos indicam a possibilidade de serem os beija-flores seus polinizadores.

Taxonomia Em abril de 1833, floresceu na estufa da Sra. Arnold Harrison, colecionadora de orquídeas inglesa homenageada em diversas descrições de conhecidas espécies tais como Bifrenaria harrisoniae e Cattleya harrisoniana uma espécie desconhecida que recebera da Serra dos Órgãos, no Brasil. Pouco tempo depois, a Sra. Harrison enviou um desenho e uma muda desta planta para o botânico John Lindley, que verificou tratar-se de um novo gênero. Em sua descrição, datada do mesmo ano, Lindley propõe o nome de Leptotes, do grego, suave, delicado, em referência à aparência das flores desta planta. Afirma que Leptotes é um gênero similar e próximo a Tetramicra do qual distingue-se pela estrutura das polínias; pelos lobos laterais do labelo de suas flores, muito menores; e por não apresentar calcar preso ao ovário e que de Brassavola diferencia-se também pelas polínias e pelo labelo trilobado. Descreve em seguida sua espécie-tipo, a Leptotes bicolor.Lindley, John: Leptotes bicolor em Edward's Botanical Register Vol.19, t.1625. James Ridgway & Sons Ed. London, 1833. Publicado na internet, em inglês.

Em 1838, Lindley recebeu duas plantas levemente diferentes entre si, provenientes de Macaé de Cima e da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, considerando-as diferentes da espécie previamente descrita, pois os lobos laterais do labelo eram levemente serrilhados, suas flores maiores, e apresentarem ainda uma segunda folha ocasional por pseudobulbo, propôs uma nova espécie com o nome de Leptotes serrulata.Lindley, John: Leptotes serrulata em Sertum orchidaceum, t.11. James Ridgway & Sons Ed. London, 1838. Publicado na internet, em inglês. Cinco anos mais tarde, o conde alemão Johann Centurius von Hoffmannsegg, considerando que as folhas de uma planta que cultivava apresentavam um tom verde-azulado diferente, descreveu a planta denominando-a L. glaucophylla.Hoffmannsegg, Johann Centurius von: Leptotes glaucophylla em Botanische Zeitung Vol.1, p. 833. Berlin, 1843. Ao rever as espécies até então conhecidas de Leptotes, em 1990, Carl Leslie Withner, contrariando diversos taxonomistas anteriores que já haviam notado a grande semelhança de todas as espécies até então descritas, vai ainda mais longe e, baseando-se nos desenhos publicados por Lindley, encontra diferenças adicionais entre a L. bicolor e a L. serrulata, afirmando que a segunda é muito mais florífera, com até sete flores por inflorescência, a qual é muito mais longa.Withner, Carl Leslie: The Cattleyas and Their Relatives, Vol. 3, p.96. Timber Press, Oregon. ISBN 0881922692 Hoje sabemos que ambas descrições são de pequenas variações da L. bicolor, que, pela sua ampla dispersão e multiplicidade de populações, é planta bastante variável.Govaerts, Rafaël et al: World Checklist of Orchidaceae. The Board of Trustees of the Royal Botanic Gardens, Kew. (consultada em janeiro de 2009).

Em 1865, Heinrich Gustav Reichenbach, recebeu, de local desconhecido do Brasil, a segunda espécie hoje aceita a ser descrita, uma planta muito diferente da Leptotes bicolor, por ter folhas curtas e aglomeradas, e poucas flores pequenas e mais arredondadas, de segmentos amarelados bem explanados, publicou-a com o nome de L. tenuis.Reichenbach, Heinrich Gustav: Leptotes tenuis em Hamburger Garten Blumenzeitung Vol.21, pp. 296. Hamburg, 1865. Doze anos mais tarde, a terceira espécie, a Leptotes unicolor foi descrita pelo botânico brasileiro João Barbosa Rodrigues. Segundo o autor, tratava-se de espécie muito perfumada e pequena, da qual encontrara mais de uma centena de exemplares vivendo epífitas às margens dos rios Dourado, das Antas e Sapucaí, perto da cidade mineira de Alfenas.Barbosa Rodrigues, João: Leptotes unicolor em Genera et species orchidacearum novarum Vol.1, p.74. 1877. Publicado na Internet, em francês e latim. Em 1881, Barbosa Rodrigues encontrou uma outra planta com folhas mais longas e pequenas diferenças na estrutura da flor, em Joinville, na época situada no Paraná pois o estado de Santa Catarina ainda não havia sido criado, e descreveu-a com o nome de L. paranaensis.Barbosa Rodrigues, João: Leptotes paranaensis em Genera et species orchidacearum novarum Vol.2, pp.163. 1881. Publicado na Internet, em francês e latim. Atualmente é considerada uma variação da L. unicolor já descrita por ele quatro anos antes.Pabst, Guido & Dungs, Fritz : Orchidaceae Brasilienses vol. 1 p. 148, Brucke-Verlag Kurt Schmersow, Hildesheim, 1975. ISBN 3871050106

Oito anos mais tarde, Robert Allen Rolfe recebeu, também de localidade ignorada do Brasil, uma planta similar à Leptotes tenuis que Reichenbach descrevera em 1865, porém com folhas bem mais grossas e curtas, descreveu-a com o nome de L. minuta.Rolfe, Robert Allen: Leptotes minuta em Gardeners' Chronicle Vol.1889-2: p. 323. London, 1889. Em sua revisão das plantas do Brasil, publicada em 1903, Célestin Alfred Cogniaux, ignorando a variabilidade a que estavam sujeitas as espécies de Leptotes, tanto pela existência de diversas populações isoladas, bem como por diferenças no comprimento e espessura das folhas devido a variações decorrentes de maior ou menor exposição à luz, aceitou como boa esta espécie que sabe-se ser uma variação da L. tenuis, bem como a maioria das outras até então descritas.Cogniaux, Célestin Alfred: Leptotes em Flora Brasiliensis Vol.3 Part.6: pp. 254-259. K.F.P. von Martius Ed., 1903. Publicado na Internet, em latim.