Scaphyglottis é um gênero botânico pertencente à família das orquídeas (Orchidaceae). Este gênero, que compreende pouco menos de setenta espécies, é o resultado da fusão de diversos gêneros descritos em épocas diversas. Caracterizam-se pelo hábito de seus pseudobulbos crescerem acrescentando novos pseudobulbos sobre o ápice dos antigos, e eventualmente também em sua base, e pelas flores cuja coluna apresenta prolongamento podiforme, ou seja, em formato de pé. Muitas das espécies são extremamente parecidas e difíceis de distinguir, sendo algumas poucas claramente distintas. Somente algumas possuem cores vistosas.
No Brasil existem espécies de todos os diferentes gêneros que hoje são considerados sinônimos de Scaphyglottis, exceto um (Platyglottis). São 15 as espécies de Scaphyglottis registradas para o Brasil.
Distribuição thumb|226px|left|O ambiente do Parque Internacional la Amistad, perto de Boquete, Panamá é um exemplo do habitat preferido por algumas espécies de Scaphyglottis. Este gênero compreende pouco menos de setenta espécies R. Govaerts, M.A. Campacci (Brazil, 2005), D. Holland Baptista (Brazil, 2005), P.Cribb (K, 2003), Alex George (K, 2003), K.Kreuz (2004, Europe), J.Wood (K, 2003, Europe) (Novembro 2008). World Checklist of Orchidaceae. The Board of Trustees of the Royal Botanic Gardens, Kew. distribuídas por ampla área que vai do sul do México até o sul da Bolívia e por todo o Brasil excetuada a região sul, desde o nível do mar até grandes altitudes nos Andes. Existem ainda em diversas ilhas do Caribe, sendo ali, usualmente, espécies endêmicas. Considera-se o sul da América Central, onde a maioria das espécies ocorre, o seu centro de dispersão.Robert Dressler (2001) Scaphyglottis. Em A. M. Pridgeon, P. J. Cribb, M. W. Chase, and F. N. Rasmussen eds., Genera Orchidacearum, vol. 4. Oxford University Press, Oxford, UK ISBN 0198507127.
São plantas epífitas, ocasionalmente rupícolas, que costumam formar grandes conjuntos desorganizados, mais ou menos ascendentes ou também pendurados dos ramos das árvores. Habitam tanto as florestas quentes e úmidas de baixa altitude do litoral e da Amazônia e, com menos frequência, florestas secas dos planaltos. Poucas espécies são ocasionalmente encontradas em florestas de altitude cheias de neblina matinal nos Andes e Costa Rica, geralmente em locais mais abertos e iluminados ou no alto das árvores.Hoehne, Frederico Carlos (1940) Flora Brasílica, Fascículo 1, Volume 12.1; 1 a 12 - Orchidaceae, introdução.
Descrição thumb|226px|left|Scaphyglottis modestaAqui se vêem os pseudobulbos destas plantas, que nascem uns sobre os outros, e inflorescências brotando de bulbos de anos anteriores, costumes raros entre as orquídeas. thumb|226px|left|Scaphyglottis brasiliensisO hábito pendente e as folhas quase cilíndricas dessa espécie fizeram com que fosse proposto o gênero Reichenbachanthus para ela. O tamanho das plantas varia bastante. Existem espécies muito delicadas ou bastante robustas, que pouco passam de alguns centímetros ou capazes de chegar a quase um metro de altura. Entretanto, todas apresentam pseudobulbos alongados e estreitos, protegidos na base por inúmeras Baínhas efêmeras, que permanecem por algum tempo depois de secas, sobrepostos em cadeias, nascendo uns dos ápices dos outros, ocasionalmente de suas bases, comportando até três folhas apicais. As folhas costumam ser pouco carnosas, estreitas e longas, algumas espécies apresentam folhas bastante carnosas e de secção quase perfeitamente redonda.
A inflorescência brota das extremidades dos pseudobulbos e, diferente da maioria das orquídeas que geralmente que só florescem uma vez por pseudobulbo, em Scaphyglottis brota novamente por diversos anos seguidos nos pseudobulbos mais antigos. Por outro lado, como os novos pseudobulbos também brotam do mesmo local nas extremidades dos antigos, formando uma série de pseudobulbos encadeados uns sobre os outros, acabando por assumir a aparência de um único caule, a impressão que se tem ao observar as flores é a de que estejam ao longo dos nós desse caule, e não nos topos dos pseudobulbos individuais. As inflorescências podem ser racemosas ou paniculadas, com uma, poucas ou muitas flores aglomeradas ou espaçadas, simultâneas ou em sucessão, de cores discretas, raramente vistosas.
As flores são pequenas, geralmente brancas, creme, verdes, róseas, mas sempre pálidas e discretas, com exceção anotada para as flores do anterior gênero Hexisea, em sua maioria vermelhas; as pétalas e sépalas apresentam comprimentos aproximados porém as pétalas costumam ser mais largas que as sépalas, e o labelo usualmente é o maior dos segmentos florais, em regra de extremidade reflexa, preso ao pé proeminente da coluna e apresentando mento, frequentemente articulado, algumas vezes soldado a ela. A antera é terminal e contém quatro ou seis polínias.
Distinguem-se do grupo de gêneros mais proximamente relacionados, do qual Jacquiniella é o mais conhecido representante, pois estes últimos apresentam pseudobulbos caulíneos recobertos de folhas alternadas espaçadas, e flores cujas colunas são ápodas, ou seja não apresentam prolongamento na base, onde fixa-se o labelo.
A maioria das Scaphyglottis é polinizada por insetos de língua curta, uma vez que quase todas as espécies produzem néctar, que acaba por se acumular no mento formado pela base do labelo e pé da coluna. As espécies provenientes do gênero Hexisea são possivelmente polinizadas também por beija-flores que, sabidamente, visitam principalmente plantas de flores vermelhas.
Histórico thumb|226px|right|Scaphyglottis confertaIlustração de Stephano Endlicher publicada ao propor este novo gênero, em 1835. O gênero Scaphyglottis foi proposto por Eduard Friedrich Poeppig e Stephan Ladislaus Endlicher,Eduardus Poeppig e Stephano Endlich (1835) Nova genera ac species plantarum, quas in regno Chilensi Peruviano et in terra Amazonica, (Leipzig) F. Hofmeister (Editor), 1835-45. 1: 58. em 1835. Em 1960 Robert Louis Dressler designou como espécie-tipo deste gênero a Fernandezia graminifolia Ruiz & Pavón, que então passou a denominar-se Scaphyglottis graminifolia.Robert Louis Dressler (1994) Proposal to conseve Scaphyglottis agaisnt Hexisea (Orchidaceae). Taxon 43: pp. 665-6. O nome do gênero vem do grego skaphe, côncavo ou oco, e glotta, língua, em referência ao formato do labelo de suas flores.
Taxonomia A presente definição de Scaphyglottis esteve incerta por muito tempo. Há um grupo grande de espécies claramente pertencentes a este gênero, além de algumas outras provenientes da extinção de três outros pequenos gêneros, a saber, Tetragamestus, Leaoa e Hexadesmia, que lhe foram subordinados décadas atrás. Cada um deles com algumas particularidades morfológicas. Em 1993, foi publicado um trabalho com a revisão de Scaphyglottis, o qual não inclui os gêneros submetidos a ele após esta data, mas que é útil para esclarecer muitas das espécies similares que compõem este gênero.Bryan Roger Adams (1993) A taxonomic revision of the genus Scaphyglottis (Orchidaceae - Epidendroideae). Southern University at Carbondale, IL.
Mesmo as espécies já pertencentes a Scaphyglottis antes desta unificação de gêneros, também são algo confusas e variáveis, algumas dispersas por grandes áreas, constituindo-se mais em complexos de espécies que espécies claramente reconhecíveis, com muitas intermediárias e apresentando pequenas variações endêmicas que foram descritas como espécies à parte. Seguindo as leis da parcimônia, em regra estas espécies variáveis estão agora classificadas sob um único nome, pois do contrário sua definição e identificação se tornariam muito complicadas. De fato constituem-se em complexos de espécies crípticas.
Os sinônimos thumb|226px|right|Scaphyglottis imbricataEspécie da Amazônia, muito próxima da S. bidentata, dela se distingue pelo calo amarelo no labelo. thumb|226px|right|Scaphyglottis stellataEspécie mais comum de Scaphyglottis, foi descrita com inúmeros nomes diferentes. thumb|226px|right|Scaphyglottis reflexaO labelo torcido para trás motivou o nome em sua descrição Reichenbachanthus reflexus, homenagem também ao grande estudioso de orquídeas Heinrich Gustav Reichenbach. thumb|226px|right|Scaphyglottis lividaTem flores tão particulares que já esteve classificada em seis gêneros diferentes. thumb|226px|right|Scaphyglottis proliferaO nome desta espécie é uma referência ao fato de seus pseudobulbos nascerem do topo dos outros. Em 2004, outros gêneros foram subordinados a Scaphyglottis para atender aos conceitos filogenéticos utilizados hoje em dia. As diferenças que motivaram a criação desses gêneros, hoje seus sinônimos, são as seguintes:
Hexadesmia: Trata-se de um gênero que chegou a subordinar vinte sete espécies. Foi descrito por Adolphe Théodore de Brongniart,Adolphe Théodore de Brongniart (1842). Annales des Sciences Naturelles; Botanique, sér. 2, 17: 45. em 1842. Era composto por diversas espécies diferentes de Scaphyglottis porque as flores têm seis polínias em vez de quatro. Como todas aparecem em posicionamento basal no clado, aventa-se a possibilidade de ser esta a condição ancestral deste gênero. Diversos autores subordinaram espécies a Hexadesmia, entre eles Schlechter e Reichenbach.
Leaoa: Em 1922 Rudolf Schlechter e Paulo de Campos PortoRudolf Schlechter e Paulo de Campos Porto (1922). Archivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro 3: 292. descreveram este pequeno gênero para uma espécie que até então era denominada Hexadesmia monophylla, a qual apresenta inflorescência muito longa geralmente, em vez de curta e fasciculada, e com só uma flor na extremidade, também com seis polínias. Mais espécies foram acrescentadas a este gênero por Leslie Andrew Garay em 1955 Leslie Andrew Garay (1955). Archivos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro 13: 45. e por Brieger em 1976 Friedrich Gustav Brieger (1976). Orchideen 8(29-32): 488 elevando para quatro o número de espécies então classificadas neste gênero.
Tetragamestus: foi descrito em 1854 por Heinrich Gustav ReichenbachHeinrich Gustav Reichenbach (1854). Bonplandia (Hanover) 2: pp. 21. para o Tetragamestus modestus. Quatro foram as espécies atribuídas a este gênero, a última por Schlechter em 1818.Rudolf Schlechter (1818). Beihefte zum Botanischen Centralblatt 36(2): 400. As plantas deste grupo apresentam flores de labelo com mento muito menos evidente que nas espécies atribuídas aos outros gêneros. A espécie mais conhecida denominava-se Tetragamestus modestus, o que costuma causar confusão com o Reichenbachanthus modestus, que é um sinônimo da Scaphyglottis brasiliensis. Até hoje este nome é amplamente utilizado pelos orquidófilos, que ignoram a unificação deste gênero com Scaphyglottis.Arquivos da Coordenadoria das Associações de Orquidófilos do Brasil (2008). Consulta aos relatórios de exposições de 2008.
Reichenbachanthus: Foi proposto por João Barbosa Rodrigues,João Barbosa Rodrigues (1882). Genera et Species Orchidearum Novarum 2: pp. 164-5. em 1882 ao descrever o Reichenbachanthus modestus. Seis espécies epífitas pendentes que ocorrem da América Central ao sudeste do Brasil, em matas úmidas e sombrias estiveram subordinadas a este gênero em algum momento. A última o foi em 1997 por Dressler.Robert Louis Dressler (1997). Novon 7(2): pp. 124. Podem ser reconhecidas pelas suas folhas e pseudobulbos roliços quase indiferenciados, em vez de pseudobulbos claramente marcados com folhas delgadas como nos outros gêneros, as flores no entanto pouco variam das de Scaphyglottis.
Os Reichenbachanthus são plantas com pseudobulbos caulinos redondos ramosos, alongados, com entrenós algo espessados, com folhas também roliças, de ponta aguçada, arqueadas, dificilmente distintas dos caules. Apresentam curta inflorescência apical, na extremidades dos caules e em seus nós, uniflora ou fasciculada, com flores pequenas.