Scuticaria é um género botânico pertencente à família das orquídeas (Orchidaceae). É composto por nove espécies de flores vistosas e longas folhas cilíndricas geralmente pendentes, epífitas, ocasionalmente rupícolas ou terrestres, de crescimento cespitoso e pendente, ou reptante e ascendente, que existem em diversos pontos isolados da América do Sul, no Equador, Serra do Mar e da Serra da Mantiqueira e Amazônia, tanto em lugares sombrios como ensolarados.

O gênero Scuticaria esteve classificado junto às Maxillaria por décadas mas estudos recentes parecem indicar que na realidade relacionam-se mais com as Bifrenaria. Apesar de sua aparência interessante, são espécies raramente vistas na natureza, e, por seu cultivo complicado, também incomuns em coleções particulares e exposições. Não se conhecem utilizações para estas plantas além de sua cultura ornamental. Por ser um gênero bem estabelecido, formado por poucas espécies, sobre as quais quase não pairam dúvidas de identidade, pouco se tem estudado ou publicado sobre elas nas últimas décadas.

Distribuição e hábito Apesar de poucas, as espécies de Scuticaria habitam climas variados e encontram-se distribuídas de maneira bastante irregular em todos os países do norte da América do Sul ao norte da Bolívia, esta excluída, e também áreas da mata atlântica no Brasil. Nenhuma das espécies é encontrada em abundância na natureza, sendo apenas ocasionais ou raras.

A espécie com maior área de dispersão é a Scuticaria steelei que habita as campinas abertas nas áreas mais elevadas da Amazônia central, as chamadas matas de terra firme, até oitocentos metros de altitude.Miranda, Francisco: Orquídeas da Amazônia Brasileira, pp. 43. Ed. Expressão e Cultura, 1996. ISBN 8520802087 Apesar da extensa área ocupada por esta espécie, não se trata de planta frequentemente encontrada. Outra espécie encontrada na Amazônia, porém em área bem mais restrita, apenas na Guiana e em locais cuja altitude é menor e umidade maior, é a Scuticaria hadwenii variedade dogsonii.

Em área quase contínua da Amazônia porém já no sudeste do Equador, quase no início dos Andes, em florestas úmidas ligeiramente mais frias, nas encostas das montanhas até 1.300 metros de altitude encontra-se endêmica, a Scuticaria salesiana. Nas mesmas condições porém em área maior, que abrange o sudeste do Equador e nordeste do Peru, a S. peruviana. Todas as espécies amazônicas são sempre epífitas.

As espécies restantes habitam a área ocupada pela mata atlântica brasileira. A única espécie dispersa por diversos estados é a Scuticaria hadwenii, nas matas úmidas da Serra do Mar desde Santa Catarina até a Bahia,Toscano de Brito, Antônio & Cribb, Phillip: Orquídeas da Chapada Diamantina, pp. 284. Ed. Nova Fronteira, 2005. ISBN 8520917828 geralmente encontrada vivendo epífita a meia altura nos grossos troncos das árvores.Miller, David; Richard Warren; Izabel Moura Miller & Helmut Seehawer: Serra dos Órgãos sua história e suas orquídeas, pp. 294. Rio de Janeiro, 2006. Outra espécie ocasionalmente encontrada, porém em regra vivendo de modo rupícola sobre pedras e amontoados de folhas nas áreas montanhosas e iluminadas de São Paulo e Rio de Janeiro, é a S. strictifolia.

A Scuticaria irwiniana, segunda e última espécie rupícola, existe apenas nas montanhas do estado de Minas Gerais, encontrada em locais iluminados ou mais sombreados até cerca de dois mil metros de altitude.Guido Pabst & Fritz Dungs: Orchidaceae Brasilienses vol. 2 pp. 187, Brucke-Verlag Kurt Schmersow, Hildesheim, 1977. ISBN 3871050107 Duas são as espécies do Estado do Espírito Santo, S. novaesii e S. kautskyi, endêmicas de áreas restritas nas matas secas do interior. A espécie restante, S. itirapinensis, foi encontrada apenas uma ou duas vezes nas matas secas do centro-oeste do estado de São Paulo, em local já amplamente desmatado pela agricultura, próximo de Itirapina. Não há registros ou relatos desta espécie, seja na natureza, seja em cultivo, nos últimos vinte cinco anos. Especula-se sobre a possibilidade de estar extinta.Registros de espécies expostas. Arquivos da Coordenadoria das Associações Orquidófilas do Brasil - CAOB. Consultados em outubro de 2008.

Descrição thumb|left|Scuticaria novaesiiEspécie endêmica do Estado do Espírito Santo, descoberta apenas em 1981. As espécies subordinadas ao gênero Scuticaria caracterizam-se por serem plantas de grossas raízes cilíndricas recobertas por espesso velame. O caule é formado por rizoma ordinariamente curto, levemente alongado em poucas espécies; e por pseudobulbos cilíndricos quase imperceptíveis, por serem do mesmo diâmetro que a única folha, também roliça, que nasce em sua extremidade, ou levemente mais espesso que elas, e geralmente por estarem recobertos por pequenas bainhas secas escamiformes e imbricantes. As folhas podem ser eretas, ou pendentes, medindo até cerca de um metro de comprimento. A inflorescência nasce das citadas bainhas e quase sempre comporta apenas uma flor, excepcionalmente duas em uma espécie, sempre muito mais longa que os pseudobulbos, com flores vistosas amareladas, esverdeadas, alaranjadas ou purpúreas, com pétalas e sépalas lisas, maculadas ou listradas, em regra de castanho claro, mas também em diversas combinações e matizes das cores citadas. Ordinariamente o labelo apresenta cores contrastantes, frequentemente com áreas brancas.

As flores são grandes, abrem-se bem e duram cerca de duas semanas.Freitas Luz, Francisco J.: Orquídeas na Amazônia, pp. 59. Instituto Brasileiro de Cultura, Ed. On Line, 2001. ISBN 8520802087 Têm sépalas de tamanhos similares e formam um mento quase imperceptível com o pé da coluna. As pétalas, podem ser parecidas com as sépalas, mas pouco menores, ou bastante menores e com a base bem mais estreita, ocasionalmente com padrões diferentes de cores ou desenhos. O labelo articula-se com o pé da coluna, é trilobado, com lobos laterais comparativamente pequenos e terminal ampliado, em formatos variáveis, em regra com desenhos diversos e calo sob a coluna. Esta é semi-cilíndrica, levemente arqueada, ereta e espessa, sem qualquer tipo de apêndice, terminando em antera apical e prolongada em pequeno pé na base. As flores apresentam dois pares justapostos de polínias de tamanhos diferentes. O caudículo é estreito e o retináculo, pequeno. Os frutos lembram, os de Maxillaria. Não há registros da observação dos agentes polinizadores em atividade mas supostamente são polinizadas por abelhas Euglossini.

Taxonomia thumb|220px|right|<center>Scuticaria steelei<center>Ilustração da publicação original de 1837. Em maio de 1837, o botânico inglês, William Jackson Hooker recebeu um desenho e uma amostra seca de uma planta, enviados por um orquidófilo de Liverpool, junto com um bilhete explicando que a mesma chegara de Demerara, na Guiana, em julho do ano anterior. Hooker descreveu a planta, classificando-a no gênero Maxillaria, com o nome de M. steelei, em homenagem as seu descobridor. Em sua descrição Hooker afirma ser uma planta altamente interessante e uma excelente adição às epífitas já conhecidas por apresentar longas folhas cilíndricas de quase um metro, diferentes de qualquer espécie jamais encontrada.Hooker, William Jackson: Scuticaria em The Botanical magazine 64: t. 3573. Ed. William Curtis, London, 1837. Publicado na internet. No mesmo ano John Lindley volta a publicar a espécie descrita por Hooker, porém com informações mais completas. Diversas plantas haviam sido enviadas de Demerara dois anos antes e Lindey afirma que havia classificado informalmente a espécie como Maxillaria flabellifera a qual, com este nome, poderia ser encontrada em muitas coleções na Inglaterra. Como não havia descrito a espécie até então, reconhece a prioridade do nome escolhido por Hooker. Acrescenta ainda suas dúvidas quanto à classificação desta espécie, tão diferente de qualquer outra conhecida, no gênero Maxillaria, .Lindley, John: Scuticaria steelei em Edward's Botanical Register Vol.2, t.1986. James Ridgway & Sons Ed. London, 1837. Publicado na internet.

Em 1843, Lindley publicou a revisão de um grupo de orquídeas denominado tribo Maxillaridae, então subordinado à Vandeae, uma das subfamílias em que Orchidaceae era dividida na época. Nesta revisão indica ser necessário muito trabalho até que se pudessem estabelecer os limites entre cada um dos gêneros de Maxillaridae, e afirma que enquanto estava em dúvidas quando a alguns dos gêneros que propunha, de outros estava bem seguro. Sugeriu sua divisão em 25 gêneros, sendo Scuticaria um dos gêneros que considerava bem estabelecidos. Ao propor o novo gênero, baseou-se nas características morfológidas da até então Maxillaria steelei Hook., que passou a ser a espécie-tipo de Scuticaria com o nome de Scuticaria steelei.Lindley, John: Scuticaria em Edward's Botanical Register Vol.29 (miscelanea), pp.14. James Ridgway & Sons Ed. London, 1843. Publicado na internet. O nome vem do latim scutica, flagelo, em referência às longas folhas cilíndricas que as espécies deste gênero apresentam, similares às correias de couro utilizadas para flagelar.Hoehne, Frederico Carlos: Scuticaria em Flora Brasilica, Vol 12, 7 pp.342. Instituto de Botânica de São Paulo, 1953.

Estranhamente, pois publicara o gênero Scuticaria muitos anos antes, em 1851, Lindley publicou outra espécie, hoje classificada neste gênero, classificando-a no gênero Bifrenaria. Especula-se que possivelmente por ser proveniente da mesma região do Brasil onde abundavam as Bifrenaria, ou por não acreditar que duas espécies separadas por distância tão grande pertencessem ao mesmo gênero. Tratava-se da Scuticaria hadwenii.Lindley, John: Bifrenaria hadwenii em Paxton's Flower Garden. John Paxton Ed., London ,1851. Poucos meses depois, Jules Émile Planchon corrigiu o engano de Lindley transferindo-a para o gênero ao qual hoje se encontra subordinada.Planchon, Jules Émile: Scuticaria hadwenii em Flore des Serres et des Jardins de l'Europe vol.7: pp.239. Ghent, 1852. Em 1851, as duas únicas espécies comuns de Scuticaria estavam descritas e o gênero bem estabelecido, de modo que posteriormente não houve mais qualquer confusão na classificação das espécies a ele subordinadas.R. Govaerts, M.A. Campacci (Brazil, 2005), D. Holland Baptista (Brazil, 2005), P.Cribb (K, 2003), Alex George (K, 2003), K.Kreuz (2004, Europe), J.Wood (K, 2003, Europe) (Novembro 2008). World Checklist of Orchidaceae. The Board of Trustees of the Royal Botanic Gardens, Kew. (consultada em janeiro de 2009).

thumb|left|Scuticaria strictifoliaO taxonomista Guido Pabst considerava ser esta espécie apenas uma variedade da S. hadwenii.Quase um século se passou sem que muito fosse acrescentado ao que se sabia. Em 1881 Heinrich Gustav Reichenbach descrevera a Scuticaria dogsonii, originária da Guiana,Reichenbach, Heinrich Gustav: Scuticaria dogsonii em Gardeners' Chronicle vol.15: pp.9. London, 1881. mas em 1892, Berthold Stein, considerando o fato desta somente ser diferente da Scuticaria hadwenii por apresentar duas flores por inflorescência, reduziu-a a uma variedade da segunda.Stein, Berthold: Scuticaria hadwenii var. dogsonii em Orchideenbuch, 1892. Em 1903, Célestin Alfred Cogniaux, ao revisar todas as as espécies de orquídeas conhecidas do Brasil, cita outras duas variedades descritas para a Scuticaria hadwenii mas que, por serem diferentes apenas na cor, não podem hoje ser aceitas como tais.Cogniaux, Célestin Alfred: Scuticaria em Flora Brasiliensis Vol.3 Part.6: pag. 78-81. K.F.P. von Martius Ed., 1903. Publicado na Internet. Finalmente, em 1947, Frederico Carlos Hoehne descreveu uma nova espécie, Scuticaria strictifolia, ainda similar à Scuticaria hadwenii, porém com algumas pequenas diferenças na estrutura do labelo, além de normalmente rupícola e com folhas eretas.Hoehne, Frederico Carlos: Scuticaria strictifolia em Arquivos de Botânica do Estado de Sao Paulo, n.s, f.n.2, pp.88. Instituto de Botânica de São Paulo, 1947.