right|150px|thumb|Alcança, retratada por Khalil Gibran em março de 191

Alcança (; c. — após 637) foi uma poetisa árabe da tribo dos soleimitas, considerada a mais importante representante feminina da poesia árabe clássica e a maior autora de elegias (). Integrante da geração dos mucadrames, viveu durante a Arábia pré-islâmica e os primeiros tempos do islã, tornando-se célebre sobretudo pelas elegias dedicadas a seus irmãos e , mortos em conflitos tribais. Oriunda de uma família rica e influente, destacou-se desde jovem por sua inteligência, eloquência e talento poético. Após converter-se ao islã, encontrou-se com Maomé, que, segundo a tradição islâmica, apreciava seus poemas e frequentemente lhe pedia que os recitasse. Embora tenha abandonado diversos costumes da Jailia, continuou compondo elegias para seus irmãos, preservando em sua obra a visão de mundo e os valores da antiga sociedade árabe. As tradições também lhe atribuem a participação na Batalha de Cadésia, na qual seus quatro filhos teriam morrido combatendo pelo exército muçulmano. A poesia de Alcança exerceu profunda influência sobre a literatura árabe posterior. Suas elegias aperfeiçoaram um gênero já existente mediante o emprego de novas imagens, refinamento estilístico e intensa expressão do sofrimento, tornando-se modelo para as gerações seguintes. Reunido durante o período abássida, seu divã foi amplamente comentado, traduzido e estudado, consolidando sua reputação como uma das maiores figuras da poesia árabe de todos os tempos.

Vida

Alcança nasceu por volta de 575 e pertenceu aos soleimitas, tribo que produziu numerosos poetas. Seu nome verdadeiro era Tumadir binte Anre, sendo conhecida pelo cognome "Alcança", forma feminina de aḫnas, termo que significa "nariz arrebitado" ou "ligeiramente achatado" e que, entre os antigos árabes, também designava a gazela como ideal de beleza feminina. Criada em uma família rica e influente, é considerada uma das principais representantes dos mucadrame, poetas que viveram tanto na Arábia pré-islâmica quanto nos primeiros tempos do islã. A Encyclopaedia of Islam acrescenta que ela nasceu na região elevada de Négede, onde seu clã costumava acampar. Ainda jovem, destacou-se por sua beleza, inteligência e elegância. Entre os pretendentes que solicitaram sua mão encontrava-se o célebre poeta e guerreiro Duraide ibne Acima, chefe dos juxamitas. Alcança recusou a proposta por considerá-lo demasiado idoso e, apesar da insistência de seu irmão , compôs versos satíricos ridicularizando tanto o pretendente quanto sua tribo. As fontes registram igualmente que rejeitou anteriormente a proposta matrimonial do chefe da tribo de Bedr, afirmando preferir um primo e aproveitando a ocasião para exaltar sua própria tribo na célebre Rāʾiyya.

Alcança casou-se inicialmente com , ou, segundo outras tradições, com seu pai, ambos pertencentes aos soleimitas, união da qual nasceu seu filho Abedalá, posteriormente destacado na repressão aos movimentos de apostasia que sucederam à morte de Maomé. Após ficar viúva, casou-se com seu parente , com quem teve três filhos — Iázide, Moáuia e Anre — e uma filha chamada Anra. A Encyclopaedia of Islam atribui-lhe, de forma mais geral, seis filhos desse casamento. Alcança tinha dois irmãos, Moáuia, seu irmão germano, e , seu meio-irmão por parte de pai. Ambos morreram em conflitos tribais, o primeiro numa luta contra os murraítas e o segundo em combate contra os açaditas. A morte de Sacre, por quem nutria especial afeição e de quem recebera constante apoio, marcou profundamente sua vida. Visitando repetidamente os túmulos dos irmãos, passou a compor elegias nas quais exaltava sua coragem, generosidade e nobreza de caráter, poemas que lhe asseguraram fama duradoura na literatura árabe.

Quando o islã surgiu, Alcança converteu-se juntamente com seus filhos e outros membros de sua tribo, encontrando-se posteriormente com Maomé e, depois de sua morte, com Omar ibne Alcatabe. Segundo as fontes islâmicas, Maomé apreciava sua poesia e frequentemente lhe pedia que recitasse seus versos, enquanto Omar elogiava tanto sua eloquência quanto seu talento poético. Apesar da conversão, continuou compondo elegias para seus irmãos e para outros membros dos modaritas, preservando um costume característico da Jailia. Quando Omar lhe observou que seus irmãos haviam morrido como pagãos, ela respondeu que essa constatação apenas tornava sua tristeza ainda maior. Nem mesmo as recomendações de Aixa a convenceram a abandonar completamente antigas práticas de luto, como o uso de uma veste de pelos em memória de Sacre. Segundo a tradição preservada pelas fontes islâmicas, Alcança participou da Batalha de Cadésia em 16 A.H. (637), acompanhada de seus quatro filhos. Antes do combate, exortou-os a lutar até a morte em defesa do islã e da recompensa prometida na vida futura. Todos morreram durante a batalha e, ao receber a notícia, ela agradeceu a Deus por lhes haver concedido o martírio e rogou que um dia fosse reunida a eles em Sua misericórdia. A Encyclopaedia of Islam observa, contudo, que tanto sua presença em Cadésia quanto esse episódio são considerados historicamente duvidosos por parte da crítica ocidental moderna. Segundo as tradições, Alcança morreu já em idade avançada, durante os últimos anos do califado de Omar ou, conforme outra versão, no início do governo de .

Obra

Alcança é tradicionalmente considerada a maior poetisa da literatura árabe clássica e a principal representante feminina do gênero da elegia (). A maior parte de sua produção foi composta antes da conversão ao islã, razão pela qual seus poemas conservam integralmente a visão de mundo, os valores e a sensibilidade da Jailia. Embora a tradição a apresente como uma muçulmana devota e lhe atribua discursos de incentivo aos filhos antes da Batalha de Cadésia, sua poesia permanece essencialmente pré-islâmica em seus temas e concepção da vida e da morte. Sua reputação literária fundamenta-se sobretudo nas elegias compostas em memória de seus irmãos Moáuia e, principalmente, Sacre, mortos em conflitos tribais. Embora a elegia fúnebre fosse um gênero antigo e amplamente difundido entre os árabes, Alcança é considerada a autora que levou essa forma poética ao seu mais elevado grau de desenvolvimento. Segundo a Enciclopédia do Islão, ela aperfeiçoou de maneira decisiva um gênero até então relativamente convencional, enriquecendo o repertório tradicional de imagens e fórmulas utilizadas para exaltar os mortos — como a generosidade, a coragem em combate, a justiça, a sabedoria e a eloquência — mediante novas expressões, recursos estilísticos e soluções métricas que passaram a servir de modelo para as gerações posteriores.

Além do refinamento técnico, sua poesia distingue-se pela intensidade emocional. As elegias de Alcança combinam profundo sentimento de perda com grande domínio formal, razão pela qual a crítica literária árabe lhe atribuiu posição insuperável dentro do gênero. A própria poetisa reivindicava publicamente essa primazia, afirmando em encontros literários, como os realizados no soco de Ucaz, que ninguém superava a sinceridade de sua dor nem sua capacidade de expressá-la poeticamente. Segundo a TDV, seus poemas caracterizam-se por linguagem simples, forte carga emotiva e descrições de feitos heroicos observados nos campos de batalha sob uma perspectiva marcadamente feminina. Embora sua produção inclua panegíricos, descrições de guerra e da natureza, foi a elegia que a transformou em símbolo permanente da literatura árabe. Ao contrário da longa cássida típica da Jailia, muitos de seus poemas consistem em composições breves, formadas por versos isolados, pequenas cássidas e fragmentos. Essa preferência formal, contudo, não diminuiu seu prestígio literário. A tradição preserva ainda seu papel como crítica de poesia. Embora seja improvável o relato segundo o qual teria recitado uma elegia diante de Anabiga Adubiani, morto antes de seu irmão Sacre, considera-se verossímil sua participação nas competições poéticas da Feira de Ucaz. Um episódio particularmente célebre atribui-lhe a identificação de oito defeitos em um único verso de Haçane ibne Tábite, fato frequentemente citado como um dos primeiros exemplos da crítica literária árabe.

Legado

A fama de Alcança manteve-se viva ao longo de toda a tradição literária árabe. Seu divã, constituído principalmente pelas elegias dedicadas a Sacre, foi reunido durante o período abássida, provavelmente por Ibne Aciquite, e passou a ser considerado modelo do gênero elegíaco. Seus poemas foram amplamente citados por autores dos séculos IX e X, como Ibne Salame Aljumai, Ibne Cutaiba e os compiladores do Livro das Canções, sendo preservados em diversos manuscritos de valor desigual. A primeira edição impressa de seu divã foi publicada por Louis Cheikho em Beirute, em 1888. O mesmo estudioso lançou posteriormente uma edição comentada sob o título Anīs al-Julāsāʾ fī Sharḥ Dīwān al-Khansāʾ. A obra recebeu ainda edições de Hasanain Muhammad az-Zaidani, Kerem al-Bustani e Ibrahim Awadain, além de diversas reimpressões comerciais. O divã também foi traduzido para o francês por Victor de Coppier e para o italiano por Giuseppe Gabrieli, enquanto o comentário de foi editado modernamente por Fâyiz Muhammed. A vida e a produção literária de Alcança continuaram a despertar interesse na pesquisa moderna, tornando-se objeto de numerosos estudos dedicados à sua biografia, à sua personalidade literária e à sua poesia. Seu prestígio como poetisa jamais foi superado na tradição árabe, sendo reconhecida tanto pela intensidade emocional de suas elegias quanto pelo papel decisivo que desempenhou no aperfeiçoamento e na consolidação da mártia como um dos principais gêneros da poesia árabe clássica.

Bibliografia

Categoria:Soleimitas Categoria:Poetas árabes do século VI Categoria:Poetas árabes do século VII Categoria:Mortos no século VII Categoria:Mulheres do século VI Categoria:Escritoras do século VII