Caladenia é um género botânico de plantas geófitas pertencente à família das orquídeas, Orchidaceae, formado por cerca de 265 espécies terrestres, e 19 híbridos naturais, algumas com flores muito vistosas, porém comparativamente pequenas. São, quase na totalidade, originárias da Austrália, poucas espécies em ilhas próximas. Caladenia é um dos gêneros classificados na tribo Caladeniinae, entre os quais se diferencia por ser o único gênero cujas espécies apresentam todas as seguintes características: folhas alongadas recobertas por pilosidades, labelo com calos alinhados pelo menos até a metade do disco, tubérculos apenas parcialmente recobertos por uma túnica fibrosa e flores que não reagem às condições climáticas. Uma vez retiradas de seu habitat natural, são plantas de difícil cultivo devido às dificuldades na reprodução das condições climáticas de seu ecossistema original. Boa parte das espécies é morfologicamente difícil de separar. Muitas apresentam grandes variações fitogeográficas de cores e forma, tornando-as muito parecidas com as espécies mais próximas, situação agravada pelos numerosos híbridos naturais, ainda mais variáveis. Alguns especialistas propõe a divisão de Caladenia em seis gêneros menores. Neste artigo adotamos o conceito mais amplo de Caladenia apoiado pela maioria dos autores.

Taxonomia e nomenclatura Etimologia Do grego calos (lindo) e aden (glândula), em referência ao labelo colorido e aos calos brilhantes que adornam a base da coluna de muitas das espécies deste gênero.Peggy Alrich e Wesley Higgins (2008). Illustrated Dictionary of Orchid Genera. Cornell University Press.ISBN 9780801447372. Comercialmente, é comum a utilização da abreviatura Calda. para designar este gênero.Royal Horticural Society: Standard Abbreviations of Orchid Genera.

Publicação e sinônimos thumb|240px|West Australia Orchids de Emily Pelloe: Ilustração que mostra a diversidade e das espécies de Caladenia. Caladenia R.Br., Prodr. Fl. Nov. Holl.: 323 (1810). Espécie-tipo: Caladenia carnea R.Br., Prodr. Fl. Nov. Holl.: 324 (1810),Clements MA. Catalogue of Australian Orchidaceae. Australian Orchid Research. 1989;1:1–160. não Caladenia catenata (Sm.) Druce (1917), conforme Nicolas Hallé;Hallè, Nicolas (1977). Flore de la Nouvelle-Caledonie et Dépendances. Vol.8, Orchidaceae. A.Aubreville & Jean-F.Leroy Publisher (eds). Museum National D'Histoire Naturelle (publ.) nem Caladenia flava R.Br. (1810), lectótipo supostamente designado por Pfitzer.Pfitzer (1889). Nat. Pflantezfam. 2(6): 104

Sinônimos heterotípicos: Petalochilus R.S.Rogers, J. Bot. 62: 65 (1924). Arachnorchis D.L.Jones & M.A.Clem., Orchadian 13: 392 (2001). Calonema (Lindl.) Szlach., Polish Bot. J. 46: 15 (2001), nom. illeg. Calonemorchis Szlach., Polish Bot. J. 46: 137 (2001). Drakonorchis (Hopper & A.P.Br.) D.L.Jones & M.A.Clem., Orchadian 13: 403 (2001). Jonesiopsis Szlach., Polish Bot. J. 46: 14 (2001). Phlebochilus (Benth.) Szlach., Polish Bot. J. 46: 14 (2001). Stegostyla D.L.Jones & M.A.Clem., Orchadian 13: 411 (2001). Caladeniastrum (Szlach.) Szlach., Ann. Bot. Fenn. 40: 144 (2003).

Histórico O gênero Caladenia foi proposto por Robert Brown em 1810, com base em espécies que encontrou na maioria dos estados australianos nas viagens que fez como membro da expedição do explorador Matthew Flinders que circum-navegou o país na tentativa de o cartografar. Ali Brown passou mais de três anos trabalhando em suas pesquisas botânicas.

Durante o século XIX, poucas espécies de Caladenia foram descritas. Botânicos como Lindley, Reichenbach e Schlechter, responsáveis por milhares de descrições de orquídeas não tiveram acesso à maioria das espécies de orquídeas australianas, nesta época Fitzgerald é que descreveu algumas espécies. Durante a maior parte do século XX apenas mais algumas espécies foram descritas, Quase todas por botânicos australianos, particularmente dezessete espécies por Rogers, catorze por Nicholls, cinco por Rupp e sete por George. Somente por volta de 1990, as espécies deste gênero chamaram a atenção, primeiro de Carr que descreveu 22 espécies, depois de Clements e Jones e, mais recentemente, da dupla Hopper e Brown. Os quatro últimos descreveram talvez mais de três quartos das espécies. além de serem responsáveis por amplas revisões e esclarecimentos a respeito das espécies descritas anteriormente.

Em 2001, Clements e Jones, baseando-se tanto em estudos moleculares como na morfologia das plantas, propuseram a divisão de Caladenia em gêneros menores, tornando mais fácil a identificação das espécies, a serem divididas em gêneros mais homogêneos, mantendo em Caladenia apenas seis espécies. Nesta publicação, de acordo com as normas de publicações botânicas,McNeill J, Barrie FR, Burdet HM, et al. (2006). International Code of Botanical Nomenclature (Vienna Code). Regnum Vegetabile. Königstein: Koeltz Scientific Books. Vol, 146. determinaram as espécies-tipo de cada um dos gêneros propostos, no entanto, mudaram algumas das espécies-tipo anteriormente determinadas alegando detalhes e sutilezas das determinações originais, tais como a ausência da palavra tipo. Tão logo seu trabalho foi distribuído, o botânico polonês Szlachetko publicou uma nova revisão alegando que os autores do primeiro trabalho não seguiram as regras, que sua interpretação era equivocada, e mudou novamente os nomes de grande parte dos gêneros recém publicados. Logo Clements e Jones revisaram novamente os gêneros criando ainda mais nomes, alguns deles supérfluos uma vez que Szlachetko já publicara nomes baseados naqueles tipos.Jones DL, Clements MA. (2002). Nomenclatural notes arising from studies in the tribe Diurideae (Orchidaceae): Calonemorchis. Orchadian 14: 33– 42 O maior problema na aceitação de sua divisão em diversos gêneros consiste nessa disputa pela correta tipificação de cada um desses gêneros, mesmo do próprio gênero Caladenia, e subsequentes decisões sobre a prioridade dos nomes e das publicações. As pequenas diferenças entre as revisões resultaram na discussão sobre a prioridade e validade de cada um dos novos gêneros propostos. Enquanto mais análises moleculares são necessárias para clarificar o posicionamento de cada espécie nos clados de Caladenia,Farrington L, MacGillivray P, Faast R, Austin A. 2009. Evaluating molecular tools for identification of Caladenia (Orchidaceae) species identification. Australian Journal of Botany 57;276:286 a tentativa de consenso sobre o sistema de classificação a ser adotado ainda prossegue.

Os herbários, entre outras instituições, normalmente são bastante conservadores ao adotar mudanças de nomes logo depois que estas são propostas, na esperança de mais testes sejam analisados e que a comunidade científica chegue primeiro a um consenso sobre sua aceitação ou não, de modo a evitar o duplo trabalho de mudar e depois voltar aos nomes anteriores.Entwisle. T.J. & Weston, P.H. (2005). Majority rules, when systematists disagree. Australian Systematic Botany 18: 1–6. Como o caso das mudanças propostas para o gênero Caladenia tanto por D.L.Jones & M.A.Clem. como por Szlachetko, suscitou um debate ainda não resolvido sobre possíveis irregularidades no atendimento das regras do código internacional de nomenclatura botânica, o Council of Heads of Australasian Herbaria (CHAH), tomou a decisão de, por hora, não adotar as propostas de divisão de Caladenia. Naturalmente os nomes alternativos, desde que em acordo com as regras, continuarão disponíveis para utilização pois o fato de um herbário o banco de dados não os adotar não implica que sejam incorretos ou não embasados cientificamente.R.M. Barker & R.J. Bates J. (2008). New combinations in Pterostylis and Caladenia and other name changes in the Orchidaceae of South Australia in J. Adelaide Bot. Gard. 22:101-104

As revisões taxonômicas do início dos anos 2000, aumentaram grandemente o número de espécies aceitas, tanto por meio da elevação de subespécies à categoria de espécies, como por melhor entendimento dos limites de cada espécie, de modo que o que se pensavam ser variações não descritas frequentemente tornaram-se novas espécies. Citamos como exemplo o caso do complexo então conhecido como uma única espécies bastante variável, a Caladenia filamentosa, de onde foram reconhecidas cerca de quarenta novas espécies ou variedades.Hopper SD, Brown AP. (2001). Contributions to Western Australian orchidology: 2. New taxa and circumscriptions in Caladenia (spider, fairy and dragon orchids of Western Australia) Nuytsia.;14:27–314 Apesar de justificadas pelos autores, a elevação dessas variações ou subespécies ao âmbito de espécie dificultou a nomenclatura e reconhecimento de inúmeros híbridos naturais, dos quais já não se sabem a correta identidade, por exemplo, a Caladenia × ericksonea tornou-se um hibrido natural tanto entre Caladenia doutchiae e Caladenia filamentosa como entre a Caladenia cairnsiana e a variedade vermelha da Caladenia filamentosa vermelha.

Filogenia

Caladenia é o tipo nomenclatural da subtribo Caladeniinae. Não há consenso sobre quais os gêneros que devem ser classificados nesta subtribo. Alguns autores preferem incluir mais gêneros,Kores PJ, Molvray M, Weston PH, et al. (2001) A phylogenetic analysis of Diurideae (Orchidaceae) based on plastid DNA sequence data. American Journal of Botany 88:1903–1914. enquanto outros propõe mais subtribos para classificar alguns desses gêneros. Por exemplo Jones e Clements, classificam Eriochilus e Adenochilus em suas própria subtribos.Clements M.A, Jones D.L. (2002). Nomenclatural notes arising from studies in the tribe Diurideae (Orchidaceae): additions and a correction. Orchadian. 13:502–503. A tendência parece ser a de manter um conceito mais amplo de Caladeniinae, incluindo os gêneros citados.Hopper SD, Brown AP. Robert Brown's Caladenia revisited, including a revision of its sister genera Cyanicula, Ericksonella and Pheladenia (Caladeniinae: Orchidaceae) Australian Systematic Botany. 2004;a 17:171–240. Como Caladênia é o gênero-tipo desta subtribo, certamente a classificação de Caladenia não é duvidosa. Entre os gêneros de Caladeniinae, o gênero mais proximamente relacionado a Caladenia é Cyanicula.Alcock J.(2005). An enthusiasm for orchids: sex and deception in plant evolution. New York: Oxford University Press.

Descrição thumb|240px|A Caladenia carnea foi uma das primeiras espécies a serem descritas, em 1810. Nesta ilustração, publicada pelo Curtis Botanical Magazine em 1898, podemos observar diversas características do gênero: sua única folha por planta, o par de tubérculos subterrâneos, a pubescência das folhas e inflorescências, e também algumas particularidades do subgênero Caladenia, como suas folhas muito longas e estreitas e os detalhes florais. São orquídeas terrestres de tamanho médio a pequeno, de sistema subterrâneo quase sempre composto por raízes ausentes ou, se presentes filamentosas, e um par de tubérculos globosos, carnosos encapado por diversas camadas de túnicas persistentes fibrosas, túberculos de resposição formam-se no ápice de brotos curtos; e sistema aéreo anual formado por caule, folha, e inflorescência, recobertos por tricomas de células basais intumescidas.Jones, David: (2001) Caladeniinae em A. M. Pridgeon, P. J. Cribb, M. W. Chase, and F. N. Rasmussen eds., Genera Orchidacearum, vol. 2, Orchidoideae part 1. Oxford University Press, Oxford, UK ISBN 0198507100.