O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (em alemão: Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik, 1872) foi o primeiro título dado por Nietzsche à sua obra também conhecida simplesmente por O Nascimento da Tragédia. Em 1886 seria reeditada com o título O Nascimento da Tragédia, ou helenismo e pessimismo (Die Geburt der Tragödie, Oder: Griechentum und Pessimismus) que, conforme as traduções, se reverte também como O Nascimento da Tragédia ou Mundo Grego e Pessimismo. Esta última edição viria acrescentada de um Ensaio de Autocrítica que fazia parte duma iniciativa de Nietzsche de prefaciar novamente todas as suas obras já editadas.

Introdução à leitura

A compreensão da filosofia de Nietzsche deve sempre ter em atenção que este filósofo nunca pertenceu aos círculos académicos da filosofia institucional. Não há razões para crermos que não o desejou, pelo menos ao princípio, mas o seu afastamento de Wagner afastá-lo-ía das correntes institucionalizadas da Alemanha. Num segundo momento, devemos reter que as suas preocupações começaram por ser religiosas. A sua especulação neste domínio vem de tenra idade, fruto de certas fatalidades que acometiam a sua família. Finalmente, tome-se nota de que Nietzsche não tinha formação filosófica. Os seus estudos compreendiam a teologia e a filologia. Por outro lado, foram precisamente os estudos teológicos e os filológicos que o colocaram frente a frente com os autores da Filosofia. Nesta medida, as suas influências são naturalmente clássicas. São os filósofos da antiguidade que o tocam e primeiramente o movem. Podemos confirmá-lo quer em O Livro do Filósofo, Introdução Teorética sobre a Verdade e a Mentira, quer em A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos, bem como nos seus escritos desta fase marcada pela leitura de Schopenhauer, pela amizade de Wagner e pelo vivo interesse pelas ciências.

Assim delimita-se habitualmente a época de influência e o período em que vigora a compreensão vigente em O Nascimento da Tragédia entre os anos de 1865 e 1875. Este período denota sobretudo a influência dos antigos, mas numa combinação frutífera e explosiva com as novas produções da cultura germânica via Wagner, Schopenhauer e Darwin. A leitura que Nietzsche faz começa normalmente por ser efusiva (salvo raras excepções, como por exemplo Hartmann), derivando na destruição e rejeição dos princípios de cada autor. Contudo, este era o próprio método que usava, preparando a criação a partir da destruição. Este método identifica-se com a noção de ironia socrática, tal como Kierkegaard a dissecou. Trata-se de uma concepção tal que exige a destruição dos pressupostos estabelecidos de modo a aplanar terreno de lançamento de novos fundamentos cognitivos.

Num primeiro momento, o acto de educar deve elidir as velhas estruturas cognitivas. As dificuldades em analisar este processo prendem-se com a característica do método. Se Sócrates jamais afirmava alguma coisa, Nietzsche parecia defrontar-se com a dificuldade de encontrar uma linguagem nova que não o envolvesse de novo na penumbra da tradição que considerava obsoleta.

Estrutura da obra A obra "O Nascimento da Tragédia" está divida em seis grandes partes. A primeira parte, que intitulamos, com base no texto mesmo de Nietzsche em "1. Os princípios artísticos: o apolíneo e o dionisíaco", essa parte é constituída pelas seis primeiras seções da obra, que possuem 25 no total. A segunda parte, que trata efetivamente do "2. A origem da tragédia grega", entre as seções de sete a dez. A terceira parte, intitulada "3. A tragédia ática: Eurípedes e Sócrates", está contida nas seções de onze a quinze. A quarta parte, trata de "4. O insaciável conhecimento otimista e a necessidade trágica da arte", ela está contida entre as seções dezesseis e dezenove. Depois, vem a quinta parte, onde acredita-se que deu origem, para Martin Heidegger pensar seu tema da origem da obra de arte, visto que Nietzsche trata de "5. O fenômeno do efeito de uma verdadeira tragédia musical", nas seções de vinte a vinte e dois. Por fim, na sexta e última parte, está contida "6. O mito como unidade de um movimento cultural", nas três últimas seções, de vinte e três a vinte e cinco. Esta obra apresenta uma dificuldade muitíssimo grande, o locus dos temas.

Embora tenha-se acreditado ter estruturado os temas principais, as partes fundamentais da obra, resta ainda uma outra dificuldade de igual calibre, ou talvez, ainda maior: determinar o tema principal de cada seção, pois cada uma delas apresenta mais de um desenvolvimento. Visto que efetuamos essa dissecação da obra de Nietzsche. Se tomarmos cada uma delas em separado, verifica-se que é possível encontrar argumentos que diz ser uma obra também fragmentária, mas devido ao modo como o texto é elaborado, com poucas divisões numéricas, é sim, com grande força de argumentação, uma obra, talvez a menos fragmentária ao lado de A Genealogia da Moral (1887).

Isso pode ser verificado se tomarmos a interpretação dos filósofos portugueses Manuel Tavares e Manuel Ferro em "A Origem da Tragédia de Nietzsche: a época e influência, os grandes temas nietzschianos, sínteses e propostas de trabalho", pela Editora Presença, Lisboa, 1995. Temos então, em rápido sumário: 1. Os princípios artísticos: o apolíneo e o dionisíaco: 1§ O mundo do sonho e da embriaguez (1.1 Apolo e Dioniso; 1.2; 2§ Descrição da evolução da cultura grega; 3§ A tragédia antiga como síntese das pulsões dionisíaca e apolínea; 4§ Da superação do princípio de individuação; 5§ Gênese da tragédia ática: Homero e Arquíloco; 6§ O domínio da música pela palavra e o domínio da palavra pela música; 2. A origem da tragédia grega: 7§ Da origem da tragédia grega; 8§ O sátiro representa a aspiração do grego; 9§ A linguagem de Sófocles; 10§ Objeto da tragédia grega: a paixão de Dionísio; 3. A tragédia ática: Eurípedes e Sócrates: 11§ A morte das artes da antiguidade; 12§ A duplicidade na tragédia grega; 13§ As profundas afinidades entre Eurípedes e Sócrates; 14§ Sócrates recusa os abismos dionisíacos; 15§ A influência socrática na história do pensamento ocidental; 4. O insaciável conhecimento otimista e a necessidade trágica da arte: 16§ Entre o otimismo do conhecimento e a aspiração a uma arte trágica indispensável; 17§ O verdadeiro alcance do mito trágico; 18§ A tríplice ilusão da vontade socrática; 19§ A cultura socrática como cultura de ópera; 20§ A recuperação do espírito grego: Goethe, Schiller e Winckelmann; 5. O fenômeno do efeito de uma verdadeira tragédia musical: 21§ A necessidade de voltar aos gregos; 22§ A dupla essência da tragédia; 6. O mito como unidade de um movimento cultural: 23§ A compreensão do espectador estético; 24§ A aliança entre Apolo e Dionísio; 25§ Da inseparabilidade entre música e mito.

Figuras de O Nascimento da Tragédia O Nascimento da Tragédia, no computo geral da produção de figuras filosóficas nietzscheanas, representa um momento decisivo da filosofia de Nietzsche: o aparecimento de Dionísio. Como se viria a tornar comum na sua filosofia, Dionísio surge numa dialéctica de movimentos e velocidades típicos de uma luta, neste caso, face a Apolo.

A obra foi publicada quando o seu autor tinha vinte e sete anos. Uma das razões que pronunciaram a sua estrutura e edição, foi a fundamentação teórica e académica (Nietzsche era já professor universitário) da ópera wagneriana enquanto obra total. Num segundo momento, o jovem autor desejava publicar a sua exaltação pelas teorias dO mundo como vontade e representação, de Schopenhauer. Esta influência de matriz neokantiana dava-lhe o ensejo de esboçar uma metafísica próxima de uma dualidade fenómeno - coisa em si.

Esta contextualização ajuda-nos a projectar a totalidade do significado estético e metafísico desta obra, expresso nas figuras de Dionísio e Apolo, ou nos génios Apolíneo e Dionisíaco, a partir dum pano de fundo marcado pelo romantismo filosófico.

Apolo Apolo é apresentado por Nietzsche como o deus do sonho, das formas, das regras, das medidas, dos limites individuais. O apolíneo é a aparência, a individualidade, o jogo das figuras bem delineadas.

Apolo representa domínio da imagem, da metáfora, isto é, da dissimulação. Esta categorização identifica a conceptualização com a aparência. Mas Apolo representa também o equilíbrio, a moderação dos sentidos e, num certo sentido, a própria civilidade, ou melhor, o modo como esta é ordinariamente compreendida.

Dionísio Dionísio é apresentado como o gênio ou impulso do exagero, da fruição, da embriaguez extática, do sentido místico do Universo, da libertação dos instintos. É o deus do vinho, da dança, da música e ao qual as representações de tragédias eram dedicadas. Dionísio representa, portanto, o irracional, a quebra das barreiras impostas pela civilização, à dissolução dos limites dos indivíduos e o eterno devirem.

Dionísio é o princípio metafísico do ser que é assim, paradoxalmente, compreendido como eterno fluir.

Fenómeno Estético Nas palavras de Nietzsche, só como fenômeno estético se vê legitimada a existência do mundo. Esta pequena frase é apresentada, 14 anos após a primeira impressão, como a frase chave, a ideia central d'''O Nascimento da Tragédia. Com ela, o mundo era reduzido a um fenómeno estético, sem fim, portanto, segundo os cânones neokantianos. A moral, destituído o mundo de um telos, ficava sem lugar num Universo que seguia o seu caminho ao sabor da própria luta interna de si mesmo consigo próprio. Este estudo que pretendia apresentar-se como um texto filológico, científico, saltava os seus limites e expressava-se numa linguagem filosófica e metafísica. Nietzsche viria mais tarde a ser um soldado contra a metafísica, mas no início da sua produção escrita, ele usa com pretextos filológicos teses metafísicas. Em termos académicos, os seus textos seriam atacados. Mas as teses que ele aqui delineia viriam a manter-se nele e mais tarde a implodir. Deste modo, é possível encontrar alguma continuidade entre esta primeira obra editada e as seguintes, ainda que estas se projectem bastante mais longe.

A Tragédia A tragédia, desde a sua dramatização inicial e até Eurípedes é compreendida por Nietzsche como o género artístico que melhor exprime os dois instintos dionísiaco e apolíneo. A tese exposta apresenta a tragédia como surgindo do coro trágico. Esta tese, comumente partilhada pela comunidade filológica da época, embora apresentado alguns detalhes de debate, não oferecia resistência ao leitor esclarecido que, naquele tempo, lia obras deste género. A história da escola de Cambridge tende para esta mesma opinião.

A polêmica estabelecia-se não relativamente à tese do nascimento da tragédia a partir do coro, mas na interpretação que Nietzsche fazia dessa asserção. A música e o êxtase, associados no Ditirambo teriam a capacidade de quebrar com a regência das estruturas do logos. Esta interpretação resultaria em posições completamente contrárias à tradição filológica.

Rompimento Contrariando toda uma tradição que avaliava a cultura helênica pela sua qualidade harmoniosa, Nietzsche sublinha a necessidade dos gregos, e de qualquer grande cultura em geral, de romper com o cotidiano, com as regras estabelecidas pela civilização. Deste modo sugeria um lugar fundamental para o elemento irracional do humano como impulso dissolvente da rigidez normativa e gênio de anulação da individualidade (impulso dionisíaco).

A atitude de Nietzsche parece destacar o instinto dionisíaco relativamente ao elemento apolíneo. Contudo, no final da obra ele hesita em atribuir uma prevalência ou em reconhecer uma predominância. Nem um domina o outro, nem um deve substituir o outro. O instinto dionisíaco foi descurado durante dezenas de séculos, mas a entrega total a ele equivale à destruição absoluta do indivíduo.