thumb|upright+1.5|Hussardo polonêsPor Józef Brandt Hussardo, hússar ou hussar (do francês hussard, e este proveniente do sérvio gussar, passando pelo húngaro huszár) refere-se à classe de cavalaria ligeira, de origem sérvia e croata — mas, subsequentemente, via Hungria, imitada por vários países da Europa — que teve grande influência na estratégia militar dos séculos XVIII e XIX. Hoje, por tradição, algumas unidades militares ainda têm 'hussardo' como parte do seu nome.

História thumb|left|upright=1.0|Oficial hussardo polonês em 1577

Os ligeiros hussardos A palavra hussardo refere-se especificamente ao soldado da cavalaria ligeira e provavelmente deriva do sérvio e croata: gussar ('ladrão de beira de estrada' ou 'salteador'), um tipo de cavaleiro extravagante do século XV. A palavra também poderia ter sido emprestada pelos proto-magiares (húngaros), dos cavaleiros turcos, antes de sua chegada à Hungria, uma vez que os uigures turcos utilizavam esta palavra para designar um soldado da cavalaria. As primeiras unidades de cavalaria ligeira, com este nome, foram as formadas pelos membros da baixa nobreza sérvia que buscaram refúgio na Croácia húngara depois da derrota na Batalha do Kosovo em 1389. A palavra hussardo foi primeiro mencionada em um documento escrito de 1403. Lutando inicialmente em várias unidades menores, os hussardos húngaros foram reorganizados em uma unidade forte, altamente treinada e motivada durante o reinado de Matias I da Hungria. Sob seu comando as unidades participaram da guerra contra o Império Otomano em 1485 e tiveram sucesso contra os spahis turcos. Após a morte de Matias em 1490 muitos hussardos buscaram suas fortunas como mercenários em outros países da Europa Central e Ocidental e deram origem às formações de cavalaria ligeira desses países. Por exemplo, os príncipes da Áustria contrataram os hussardos húngaros como mercenários para as guerras contra seus oponentes europeus, enquanto outros hussardos húngaros serviram para defender o país contra a Turquia.

Origens sérvias e croatas É amplamente considerado que os primeiros hussardos foram influenciados pelas tradições da antiga cavalaria ligeira ,magiar em termos de armamento, táticas militares e vestimenta. Mas, de fato, os hussardos têm origem na Sérvia e na Croácia, surgindo por volta do final do século XIV. Os sérvios e os croatas, por sua vez, assim como os magiares, tiveram forte influência dos cavaleiros turcos com quem entraram em contato antes de sua chegada à Hungria. Esses gussars sérvios fugiram da Rascia (Sérvia) quando da violenta investida dos turcos otomanos, depois da Batalha do Kosovo (1389), à vizinha Croácia, que, naquela época, fazia parte do reino húngaro — daí a falsa ideia de que os hussardos teriam origem húngara. Na Croácia húngara, esses sérvios patrulhavam as fronteiras com o Império Otomano e logo tornaram-se parte da tradicional cavalaria ligeira croata e húngara.

Nos anos 1541–1699, durante as Guerras turcas, dois terços da Hungria foram tomados pelos turcos. Para conter esta ameaça, os húngaros construíram uma série de fortalezas na fronteira e colocaram os hussardos para protegê-las, a fim de manter os ataques dos turcos e dos tártaros longe do interior do país. Durante estes séculos, os húngaros empreenderam muito bem táticas de guerrilha. Ainda mais, os hussardos em muitos países eram tropas de voluntários e sendo assim eles mantinham sempre a confiança em alta. A mais famosa operação dos ligeiros hussardos foi o Saque de Berlim em 1757. Um conde húngaro, Andreas Hadik, marchou secreta e rapidamente através do território prussiano, saqueou Berlim e retornou sem baixas. Os dois tipos de táticas dos hussardos estavam baseados no mesmo princípio: um rápido golpe fatal.

Os hussardos alados poloneses thumb|upright=1.5|left|Hussardo polonês com as asas visíveis Os hussardos poloneses, em contraste com os hussardos sérvios, croatas e húngaros, evoluíram para a cavalaria com armaduras pesadas durante a segunda metade do século XVI. Sua origem vem dos mercenários hussardos sérvios que serviram ao exército polonês a partir do final do século XV. Os hussardos alados poloneses não eram muito conhecidos na Europa Ocidental. Somente após a Batalha de Viena em 1683 e principalmente após os famosos filmes poloneses baseados nos romances de Henryk Sienkiewicz: Ogniem i Mieczem (Sangue e Fogo, 1884), Potop (O Dilúvio, 1886) e Pan Wolodyjowski (O Senhor de Wolodyjowski, 1887—1888), que descrevem as lutas polonesas do século XVII contra os povos cossacos, turcos, tártaros e suecos, foi que ganharam destaque no restante dos países.

Inicialmente as primeiras unidades de hussardos na União polaco-lituana foram formadas pelo parlamento polonês em 1503, que contrataram três unidades de mercenários sérvios. Existem porém, referências nos registros do tesouro polonês de que a contratação de hussardos sérvios ocorreu a partir de 1500, e é bem provável que eles já servissem no exército polonês anteriormente a esta data. Logo o recrutamento também começou entre os cidadãos poloneses e lituanos. Sendo mais ágeis que os lanceiros em armaduras anteriormente empregados, os hussardos se mostraram de vital importância nas esplêndidas vitórias polonesas em Orsza (1514) e Obertyn (1531). No reinado de Stefan Batory foram substituídos pelos lanceiros do estilo medieval no exército polonês e formaram a parte principal da cavalaria polonesa.

Os pesados hussardos thumb|upright=1.5|Muzeum Wojska Polskiego (Museu do Exército Polonês) em Varsóvia. Armadura e equipamentos dos hussardos poloneses (Towarzysz husarski), do século XVI (a placa atrás sugere que elas foram usadas na batalha de Obertyn, em 1531 A partir do ano de 1500, os hussardos na Hungria começaram a usar trajes mais pesados: abandonaram os escudos de madeira, adotaram os de metal, vestiram armaduras e elmos (os elmos vieram dos romanos para os árabes que os passaram para os turcos, que por sua vez os repassaram para os húngaros e poloneses. Eles deram origem ao elmo "Papenheimer" surgido na Inglaterra durante a Guerra Civil, e foi usado por Oliver Cromwell).

Quando Stefan Batory, um príncipe transilvano-húngaro, tornou-se rei da República das Duas Nações em 1576 ele achou que os hussardos poloneses de sua guarda real deveriam seguir o estilo das linhas croatas e húngaras, tornando-os uma formação mais pesada, tendo como principal arma uma longa lança. Por volta de 1590, a maioria das unidades de hussardos poloneses estavam formadas no mesmo estilo 'pesado' dos croatas e húngaros. Esses 'pesados' hussardos poloneses eram conhecidos em seu país como husaria.

Com a Batalha de Lubieszów, em 1577, começou a era dourada dos hussardos. Até a Batalha de Viena em 1683, os hussardos poloneses lutaram em incontáveis ações contra uma variedade de inimigos e raramente perdiam uma batalha. Nas batalhas de Byczyna (1588), Kokenhusen (1601), Kircholm (1605), Kłuszyn (1610), Gniew (1626), Chocim (1673) e Lwów (1675), os hussardos poloneses provaram ser o fator decisivo geralmente contra forças mais numerosas.

Como uma das pouquíssimas unidades do exército regular polonês (a maioria das outras unidades eram formadas como levée en masse), os hussardos eram bem treinados e bem equipados. Eram armados com um sabre, uma longa espada (para a luta sobre o cavalo), um machado de guerra, duas pistolas, uma lança de seis metros de comprimento com uma bandeirola e estavam às vezes armados com uma carabina ou arco e flechas.

Até o século XVIII, eles eram considerados a elite das forças armadas polonesas. Por causa da fama e prestígio que cercaram os hussardos, muitos deles foram aceitos na nobreza. Embora no século XVIII sua importância tenha diminuído pela introdução de modernas armas de fogo de infantaria e artilharia de tiro rápido, as táticas dos hussardos poloneses e armamento permaneceram quase inalterados e portanto, inadequadas. Quando eles finalmente foram dispensados em 1776 suas tradições foram oficialmente transferidas para os Uhlans.

Hussardos na Europa Ocidental thumb|left|uupright=1.0|Ilustração do 8º regimento de hussardos franceses em 1804 Os hussardos, fora da Europa Central e Oriental, seguiram uma linha diferente de desenvolvimento. Durante as primeiras décadas do século XVII os hussardos na Hungria deixaram de usar armaduras; e antes de 1640 a maioria pertencia agora à cavalaria ligeira. Foi este padrão de hussardos ligeiros que foi copiado pela Europa Ocidental, ao invés daqueles 'pesados' hussardos poloneses.

Estes ligeiros hussardos eram ideais para as missões de reconhecimento e procura por fontes de forragens e provisões no avanço do exército. Na batalha, eles eram usados no papel de cavalaria ligeira atormentando o inimigo com ataques sucessivos e escaramuças, ultrapassando as posições de artilharia e perseguindo as tropas em fuga.

Frederico II da Prússia usou unidades de hussardos extensivamente durante a Guerra de Sucessão Austríaca e eles foram largamente utilizados nos exércitos de vários estados alemães. A Grã-Bretanha contratou mercenários alemães dentre seus mercenários de Hesse para serviços na Guerra da Independência dos Estados Unidos da América. A França estabeleceu um número de regimentos de hussardos, originalmente de refugiados húngaros. Posteriormente recrutou jovens das regiões próximas de língua alemã, como a Alsácia e Lorena.

A imagem hussarda

Os uniformes coloridos dos hussardos de 1700 em diante foram inspirados na moda húngara. Este uniforme normalmente incluía uma jaqueta curta conhecida como dólmã, ou mais tarde uma jaqueta "Attila" de comprimento médio, ambas com uma pesada trança dourada horizontalmente no peito, e tranças amarelas ou galões dourados nas mangas; uma peliça (uma capa forrada de peles frequentemente usada atirada sobre um ombro); calças coloridas, às vezes com trançado amarelo ou galões dourados na parte da frente; uma barretina (um chapéu de pele alto com uma bolsa de pano pendendo de um lado; embora alguns regimentos usassem barretinas de estilos variados); e botas altas de equitação.

Os hussardos europeus (exceto os britânicos) tradicionalmente usavam longos bigodes (mas sem barba) e cabelos compridos, com duas tranças pendendo em frente das orelhas bem como um longo rabo-de-cavalo atrás da cabeça. Eles mantiveram este penteado, que era comum ser usado por todos os soldados, mesmo após outros regimentos terem deixado de usá-lo e adotado o cabelo curto.

Os hussardos tinham a reputação de serem animados, indisciplinados, e os aventureiros do exército. O personagem, brigadeiro Etienne Gérard dos hussardos franceses de Conflans, do romance de Arthur Conan Doyle veio descrever o hussardo da ficção popular — valente, convencido, amoroso, um cavaleiro e (de acordo com Napoleão Bonaparte) não muito inteligente. O brigadeiro Gérard gabava-se que os hussardos de Conflans poderiam por toda uma população para correr — os homens para longe deles e as mulheres em direção a eles, pode ser tomado como um resumo justo do espírito de corpo desta classe da cavalaria.

Menos romanticamente, os hussardos do século XVIII eram também conhecidos (e temidos) por seu tratamento rude dispensado aos civis locais. Além de apoderarem-se dos estoques de comida locais para o exército, os hussardos eram conhecidos também por aproveitar a ocasião para roubar e pilhar.

Hussardos no início do século XX