Monã é o deus criador e ancestral supremo na mitologia tupi.THEVET, 1575, p. 913v-914v.
O mais antigo registro conhecido de Monã é do religioso e explorador francês André Thevet, que esteve no Brasil de novembro de 1555 a janeiro de 1556 registrando a sociedade tupinambá, em sua La Cosmographie Universelle de 1575.
Etimologia O nome "Monã" é uma corruptela de Umuã ou Umuana, do tupi Umûã, Umûan ou Umûana, “Antigo”, “Velho”.NAVARRO, 2013, p. 498.
Em guarani há a palavra YmãGLOSBE. Ymã. Dicionário guarani–português.NAVARRO, 2013, p. 529. com o mesmo sentido de Umûã, e um dos títulos do Criador guarani é Nhanderu Ymã,LADEIRA, Maria Inês. O caminhar sob a luz: o território Mbya à beira do oceano. São Paulo: [s.n.], 1992. 198 p. Dissertação de mestrado em Antropologia-PUC/SP. p. 103. “Nosso Pai Velho/Antigo”.
Descrição Monã é descrito como “um astro sem fim e princípio”, responsável por criar o céu, a terra, o fogo, os animais e os primeiros homens. Ele é uma divindade infinita e, devido a outra possível origem etimológica em munhang ou monhang (“fazer”, “fabricar”), é associado ao próprio ato de "fazer" e originar todas as coisas.MÉTRAUX, 1950, p. 68 (nota de Estevão Pinto).NAVARRO, 2013, p. 307.
Monã também era chamado pelos tupinambás de "Pai Grande"VAINFAS, Ronaldo. Idolatrias e milenarismos: a resistência indígena nas Américas. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 9, p. 29-43, 1992. ou, numa tradução mais correta, de "Avô" (cheramoin ou, em grafia atual, Xe Ramoï, "Meu Avô", de Tamoï, Tamũîa, em tupi), de acordo com o religioso francês Claude d'Abbeville no século XVII. Na tradução de d’Abbeville para o português de Dr. Cezar Augusto Marques na edição de 1874, aparece como "Pai Grande",D’ABBEVILLE, 1874 (1614), p. 365. confundindo o francês mon grand Père,D’ABBEVILLE, 1614 (em francês), p. 318. que é "meu Avô" em português, com "meu Pae grande", numa equivocada tradução ao pé-da-letra).MÉTRAUX, 1950, p. 57.
Xe Ramoï, "Meu Avô", é conhecido como Ñane Ramõi, "Nosso Avô", pelos guaranis e como Tamoï, "Avô", pelos guaraios.
Mitologia Criação do mundo e do homem O Criador a quem os tupinambás chamavam de Monã, atribuindo-lhe perfeições como as de um ser sem fim nem princípio, existindo desde todos os tempos, criou o céu, a terra, as aves e animais que neles habitam e, por fim, o homem. Como os homens viviam como bem entendiam, desfrutando do que a terra produzia, auxiliados pelo orvalho do céu, tornaram-se esquecidos em seus costumes, vivendo desordenadamente, e caíram em tamanha insensatez que começaram a desprezar Monã, que, diziam os nativos, ainda vivia entre eles e os visitava com muita familiaridade. Monã percebeu a ingratidão dos homens, sua maldade e o desprezo que lhe demonstravam, a ele que lhes havia trazido boa fortuna, e se afastou deles.
Incêndio e dilúvio Então, Monã fez cair fogo (tatá) do céu, que queimou e consumiu tudo o que havia na face da Terra. E esse fogo atuou com tanta intensidade que baixou a Terra de um lado e a elevou do outro, de tal forma que a remodelou na aparência que conhecemos hoje, com vales, colinas, montanhas e vastas extensões.
De todos os homens da Terra, apenas um foi poupado, cujo nome era Irãmajé ("Irin-magé" na grafia fonética do francês de Thevet), a quem Monã transportara para o céu, ou algum outro lugar, para que ele testemunhasse a fúria daquele fogo devorador. Irãmajé viu tudo destruído e dirigiu-se a Monã, dizendo-lhe com lágrimas e suspiros: "Desejas destruir também os céus e os seus ornamentos? E onde, então, será a nossa morada? De que me serve viver, não tendo ninguém como eu?" Diante dessas palavras, Monã foi profundamente comovido por compaixão: querendo remediar o mal que causara à Terra por causa dos pecados dos homens, fez chover tão abundantemente que todo o fogo se extinguiu, e como as águas do dilúvio (iporunCLASTRES, 1978, p. 24. ou 'yporu em tupi, “água que come gente”NAVARRO, 2013, p. 531.) não podiam retornar ao céu, foram obrigadas a ficar na superfície e seguir seu curso pelas partes mais profundas da Terra, onde se acumularam por todos os lados: essa massa de água chamavam os tupis de paranan, que significa "amargor", o que chamamos de "mar". Os nativos afirmavam que o mar tem o sabor tão salobro e amargo por causa das cinzas da terra calcinada pelo grande incêndio.
Uma nova humanidade Monã, vendo que a terra recuperara sua beleza original e que o mar lhe embelezava a face, cercando-a por todos os lados, e achando inconveniente que todo aquele belo ornamento permanecesse sem alguém para cultivá-lo, chamou Irãmajé e lhe deu uma esposa, a primeira mulher,PINTO, Camille Nascimento da Silva; NEVES, Ivânia dos Santos. Sobre o manto tupinambá em Mairi: irrupções de memórias e pluralização do contemporâneo. Acta Semiótica et Lingvistica, [S. l.], v. 31, n. 2, p. 90–111, 2024. p. 94. DOI: 10.20873/actasemiticaetlingvistica.v31i2.20400. para que repovoasse o mundo com homens melhores do que aqueles que haviam sido os primeiros habitantes da terra.
Segundo André Thevet, ao ouvir a quantidade de luas (meses) que os nativos lhe disseram que haviam passado desde o dilúvio, calculou que este teria acontecido 500 anos antes.THEVET, 1878 (1557), p. 268.
Retiro final Monã, o "Avô" da humanidade atual, nascida de Irãmajé, se retirou para o poente, onde estabeleceu o Guajupiá, paraíso terrestre "além das montanhas" no qual os mortos vão encontrar-se com ele e o qual os vivos também esperam alcançar. Lá, os merecedores se reúnem com o Avô e com seus antepassados após a morte, segundo os tupinambás, e vivem eternamente em festas, danças e fartura, divertindo-se sem cessar.D’ABBEVILLE, 1874 (1614), p. 372.
Bibliografia CLASTRES, Hélène. A terra sem mal: o profetismo tupi-guarani. Tradução: Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 1978. 140 p. D'ABBEVILLE, Claude (1614). História da missão dos padres capuchinhos na ilha do Maranhão e suas circumvisinhaças. Tradução e notas de Dr. Cezar Augusto Marques. São Luiz: Typ. do Frias, 1874. D'ABBEVILLE, Claude. Histoire de la Mission des Peres Capucins en l'Isle de Maragnan et terres circonuoisines. Paris: François Huby, 1614. MÉTRAUX, Alfred. A religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis. Tradução de Estevão Pinto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. 412 p. (Brasiliana, v. 267). NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil: vocabulário português-tupi, dicionário tupi-português, tupinismos no português do Brasil, etimologias de topônimos e antropônimos de origem tupi. São Paulo: Global, 2013. THEVET, André (1557). Les singularitez de la France Antarctique. Nouvelle édition avec notes et commentaires par Paul Gaffarel. Paris: Maisonneuve & Cie, 1878. 459 p. THEVET, André. La cosmographie universelle. Paris, França: Pierre l’Huillier, 1575.
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