Élia Gala Placídia (Ravena, 392 - Roma, 27 de novembro de 450) foi uma imperatriz-consorte romana do ocidente, esposa do imperador Constâncio III entre 417 e 422. Antes disso, ela era casada com o rei dos visigodos, Ataulfo, entre 414 e a morte dele no ano seguinte. Gala Placídia era filha do imperador Teodósio, e atuou como regente de seu filho, Valentiniano III, entre 423 e 437. Por toda a vida foi uma das principais forças políticas do Império Romano.
Família Gala Placídia era filha do imperador Teodósio com sua segunda esposa, Gala, que, por sua vez, era filha do imperador Valentiniano I e sua segunda esposa, Justina. O irmão mais velho de Gala, Graciano, morreu jovem e sua mãe morreu no parto de João, que também morreu, em 394. Placídia era uma meia-irmã mais nova pelo lado paterno dos imperadores Arcádio e Honório. Sua meia-irmã mais velha, Pulquéria, morreu antes dos pais segundo Gregório de Níssa, o que nos permite inferir que ela teria morrido antes de Élia Flacila, a primeira esposa de Teodósio I, em 385.Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology
Primeiros anos thumb|esquerda|300px|Díptico de Estilicão e Serena com o filho Euquério. 395. No Duomo of Monza, na Itália Gala Placídia recebeu propriedades do pai no início da década de 390 e já era independente financeiramente dele ainda menor de idade. Ela foi convocada para a corte do pai em Mediolano em 394 e estava presente quando o pai morreu em 17 de janeiro de 395. Ainda na infância ela recebeu o título de nobilissima puella ("garota mais nobre").
Ela passou a maior parte dos seus primeiros anos na corte de Estilicão, o vândalo, e sua esposa Serena, uma prima de Arcádio, Honório e Placídia. Presume-se que ali aprendeu a bordar e costurar e é possível que tenha recebido um educação clássica, mas não se conhecem os detalhes. O poema "Elogio a Serena", de Claudiano, e a "Historia Nova", de Zósimo, clarificam que o pai de Serena era um outro Honório, mais velho, irmão de Teodósio I.Zósimo, "Historia Nova, Book five, 1814 translation by Green and Chaplin De acordo com o "De Consulatu Stilichonis", de Claudiano, Placídia foi prometida a Euquério, o único filho conhecido de Estilicão e Serena e este planejado casamento seria a terceira união entre a família do vândalo com membros da Dinastia teodosiana, seguindo-se ao de Serena com Estilicão e ao de Maria, filha deles, com Honório.
Estilicão era o mestre dos soldados (magister militum) do Império Romano do Ocidente, a única pessoa conhecida a deter a patente de "mestre dos soldados na presença" ("magister militum in praesenti") entre 394 e 408 tanto no ocidente quanto no oriente. Ele também era "mestre da cavalaria e infantaria" ("magister equitum et peditum"), encarregado tanto das forças de infantaria quanto de cavalaria do Império do Ocidente.Prosopografia do Império Romano Tardio, vol. 1 , p. 1114 Em 408, Arcádio morreu e foi sucedido por seu filho Teodósio II, de apenas sete anos de idade. Estilicão planejava ir até Constantinopla para "se encarregar da gestão dos assuntos de Teodósio", convencendo o próprio Honório a não fazê-lo pessoalmente. Logo depois, Olímpio, "um oficial de patente entre os guardas da corte" tentou convencer Honório que Estilicão estava na verdade conspirando para depor Teodósio II e colocar Euquério no seu lugar. Olímpio liderou um golpe de estado militar que o colocou no controle sobre Honório e sua corte. Estilicão foi preso e executado em 22 de agosto do mesmo ano. Euquério tentou se refugiar em Roma, mas foi preso por Arsácio e Tarêncio, dois eunucos a serviço do imperador, que o executaram logo em seguida. Honório nomeou Tarêncio seu camareiro imperial, com Arsácio como seu primeiro subordinado. A queda da família de Estilicão deixou Placídia livre de contratos matrimoniais.
Primeiro casamento Nas convulsões que se seguiram à queda de Estilicão, esposas e filhos dos federados foram assassinados por toda a península Itálica, pois eles eram considerados aliados dele. A consequência natural foi que todos os homens, que chegavam a , correram para o lado de Alarico I, rei dos visigodos, clamando por alguém que os liderasse contra seus covardes inimigos. Alarico se dispôs a fazê-lo e os liderou na travessia dos Alpes Julianos e, em setembro de 408, acampou de frente para as Muralhas Aurelianas iniciando o cerco à capital.<ref>Encyclopædia Britannica 1911</ref> Roma ficou cercada, com breves interrupções, de 408 até 24 de agosto de 410. Zósimo relata que Placídia estava na cidade. Quando Serena foi acusada de conspirar com Alarico, "todo o senado, por isso, juntamente com Placídia, irmã uterina do imperador, acharam por bem que ela deveria ser executada". As razões de Placídia não foram esclarecidas no relato.
Antes da queda e saque de Roma, Placídia foi capturada por Alarico. Seu cativeiro foi relatado por Jordanes e Conde Marcelino, embora nenhum deles esclareça como isso aconteceu. Ela seguiu com os visigodos quando eles deixaram a península e entraram na Gália em 412. O líder deles, Ataulfo, sucessor de Alarico, selou uma aliança com Honório contra Jovino e Sebastiano, imperadores rivais que reinavam na Gália. Ele conseguiu derrotar e executar os dois no ano seguinte.
Depois que a cabeça de Joviano e Sebastiano chegaram à corte de Honório em Ravena no final de agosto - elas seriam depois enviadas para Cartago para serem exibidas com as cabeças de outros usurpadores nas muralhas - as relações entre Ataulfo e Honório melhoraram e foram cimentadas com o casamento do rei visigodo com Gala Placídia em 1 de janeiro de 414. Segundo Hidácio, as núpcias foram celebradas com grandes festividades romanas e com presentes retirados de todo o espólio que os godos levaram de Roma. Prisco Átalo fez o discurso de casamento, um clássico epitalâmio. O historiador Jordanes afirma que eles se casaram antes, em 411, em Fórum de Lívio (Forum Livii; atual Forlì), mas ele pode estar se referindo à data em que os dois deixaram de ter uma relação de captor e cativa e passaram a se relacionar.
thumb|300px|esquerda|Gala Placídia e seu meio-irmão Honório, 425Atualmente no Cabinet des Médailles, em Paris
Placídia e Ataulfo tiveram apenas um filho, chamado Teodósio. Ele nasceu em Barcelona no final de 414, mas ele morreu no início do ano seguinte, eliminando assim a possibilidade de uma linhagem romano-visigoda. Anos depois, o cadáver foi exumado e re-enterrado no mausoléu imperial na Antiga Basílica de São Pedro, em Roma. Na Hispânia, Ataulfo aceitou imprudentemente entre seus seguidores um homem identificado como Dúbio ("Dubius") ou "Ebervolfo", um antigo seguidor de Saro, um chefe militar germânico que fora morto lutando por Jovino e Sebastiano. Desde então, Dúbio tinha um ardente desejo de vingar seu antigo mestre e, assim, no palácio de Barcelona, Ataulfo foi assassinado enquanto se banhava em agosto/setembro de 415.
A dinastia dos Amalos rapidamente proclamou Sigerico, um irmão de Sarus, como próximo rei dos visigodos. De acordo com a "A História do Declínio e Queda do Império Romano", de Edward Gibbon, o primeiro ato do reino de Sigerico "foi desumano assassinato" dos seis filhos de Ataulfo de um casamento anterior "que ele arrancou, sem dó, dos esquálidos braços de um venerável bispo" (Sigesar, bispo dos godos). Quanto a Gala Placídia, sendo viúva de Ataulfo, foi "tratada de forma insultosa e cruel", tendo sido forçada a andar quase vinte quilômetros a pé juntamente com uma multidão de prisioneiros que seguiam à frente de Sigerico, que vinha a cavalo. A visão dos sofrimentos da viúva, porém, tornou-se um dos fatores que atiçaram os indignados adversários do usurpador, que rapidamente assassinaram Sigerico e o substituíram por Vália, um parente de Ataulfo.
Segundo casamento De acordo com o Chronicon Albeldense, parte do Codex Roda, Vália estava desesperado para conseguir alimento para seu povo. Ele se rendeu para Constâncio III, que era, na época, o mestre dos soldados de Honório, negociando nos termos um status de federados para os visigodos. Placídia foi devolvida a Honório como parte do tratado, e o imperador forçou-a a se casar com Constâncio em 1 de janeiro de 417. A filha dos dois, Justa Grata Honória nasceu provavelmente no mesmo ano ou no seguinte. A história de Paulo, o Diácono, menciona-a primeiro entre os filhos do casamento, sugerindo que ela seria a primogênita. O filho deles, Valentiniano, nasceu em 2 de julho de 419.
Placídia interveio na crise sucessória que se seguiu à morte do papa Zósimo em 26 de dezembro de 418. Duas facções do clero romano haviam eleito seus próprios papas, a primeira elegendo o Eulálio, em 27 de dezembro, e a outra, Bonifácio no dia seguinte. Eles atuaram como papas rivais, ambos em Roma, e suas facções provocaram grandes tumultos na cidade. Símaco, o prefeito de Roma, enviou um relato à corte imperial em Ravena requisitando uma decisão sobre o assunto. Placídia e, presume-se, Constâncio apoiaram Eulálio, na que foi, provavelmente, a primeira intervenção imperial numa eleição papal.
Honório inicialmente confirmou Eulálio como legítimo papa. Contudo, o ato não foi suficiente para encerrar a controvérsia e Honório convocou um sínodo de bispos italianos a ser realizado em Ravena para decidir a questão. Ele se realizou entre fevereiro e março de 419, mas não conseguiu chegar num consenso. O imperador chamou um outro sínodo para maio, desta vez incluindo bispos da Gália e da África. Em paralelo, os dois papas rivais receberam ordens para deixar Roma. Conforme a Páscoa se aproximava, porém, Eulálio retornou para a cidade e tentou tomar para si a Arquibasílica de São João de Latrão para "presidir as cerimônias pascais". Tropas imperiais conseguiram impedi-lo e as cerimônias foram conduzidas por Aquileu, bispo de Espoleto. O conflito custou a Eulálio as graças imperiais e Bonifácio foi proclamado o papa legítimo em 3 de abril de 419, retornando a Roma uma semana depois. Placídia havia escrito pessoalmente para os bispos africanos convocando-os para o sínodo e três destas cartas sobreviveram.
Em 8 de fevereiro de 421, Constâncio foi proclamado augusto e se tornou um coimperador com Honório, que não tinha filhos. Placídia foi proclamada augusta e era a única no ocidente, pois Honório havia se divorciado de Termância, sua segunda esposa, em 408, e jamais se casou novamente. Nenhum dos títulos foi reconhecido por Teodósio II, o imperador no oriente. Constâncio teria reclamado da perda de liberdade e privacidade que sobreveio com o título de imperador e morreu doente em 2 de setembro de 421, encerrando o período de Placídia como imperatriz-consorte.
Viúva thumb|300px|Soldo mostrando no anverso o busto de Valentiniano III, filho de Gala Placídia. No reverso o casamento dele com a filha de Élia Eudócia, Licínia Eudóxia. Abraçando os dois está o imperador do oriente (e pai da noiva) Teodósio II.
A própria Gala Placídia agora foi forçada a deixar o Império do Ocidente. Embora o motivo ainda seja obscuro, o que se discutia eram as cada vez mais escandalosas carícias em público que ela recebia do irmão Honório - pelo menos foi essa a interpretação de Olimpiodoro de Tebas, um historiador utilizado como fonte por Zósimo, Sozomeno e, provavelmente, Filostórgio, como demonstrou J.F. Matthews.J. F. Matthews, "Olympiodorus of Thebes and the History of the West (A.D. 407-425)" The Journal of Roman Studies; 60 (1970:79-97) Gibbon tinha uma opinião diferente: "O poder de Placídia; e a indecorosa familiaridade com o irmão, que pode não ser nada mais do que um sintoma de uma afeição infantil, foram universalmente atribuídas a um amor incestuoso".