Pierre Jean de Béranger (Paris, 19 de agosto de 1780 — Paris, 16 de julho de 1857), poeta, libretista e autor da letra de canções. Foi participante activo do movimento de convulsão social que se seguiu à Revolução Francesa e ao fim do Império, escrevendo algumas das canções mais emblemáticas do fervor revolucionário da época. No auge da sua fama, na década de 1830, comparou-se em popularidade a homens como Victor Hugo e Alphonse de Lamartine. Tendo a atravessado os tempos conturbados da Revolução Francesa e do consulado de Napoleão Bonaparte, deixou uma obra lírica vibrante que ainda hoje desperta o interesse do público erudito. Biografia

Pierre Jean de Béranger nasceu em Paris a 19 de Agosto de 1780, filho de Jean-François Béranger de Mersix, comissionista e caixeiro-viajante, e de Marie-Jeanne Champy. Apesar do tom aristocrático conferido pela utilização da partícula de no apelido de família, em resultado do pai ter adoptado o pomposo apelido de Béranger de Mersix, na realidade era descendente de uma família de estalajadeiros rurais por um lado e de alfaiates pelo outro. Os primeiros anos Vivendo tempos conturbados em resultado da eclosão da Revolução Francesa, o jovem Béranger não teve uma educação inicial esmerada: apenas tendo sido enviado tardiamente à escola, onde nunca se sentiria à vontade. Terá assistido do tecto da sua escola à tomada da Bastilha.

Os seus verdadeiros educadores foram os avós maternos, a família Champy, a quem esteve confiado durante a maior parte da infância. Apesar da mãe gostar de teatro, bailes e piqueniques no campo, e de Pierre Jean de Béranger a ter acompanhado nessas actividades sociais, era uma criança doentia e reservada, mesmo tímida, que se entretinha só em casa, fazendo pequenas escultura em madeira.

Esses traços do seu carácter, melancólico e voltado para a paciente e metódica elaboração solitária, persistirão durante toda a sua vida, influenciando a sua produção poética.

A partir de 1789, depois de um período em que viajou frequentemente em trabalho, o seu pai fixa-se novamente em Paris e inscreve-o como pensionista em casa do abade Chantereau, um prestigioso preceptor da época.

No entretanto trava conhecimento com Charles-Simon Favart, criador do género lírico denominado opéra comique, o qual, apesar dos seus 79 anos de idade, ainda usava com orgulho o título de cantor dos exércitos que lhe havia sido conferido por Maurice de Saxe (1696-1750), o famoso Marechal de Saxe. Mais tarde, Béranger atribuirá o despertar da sua vocação como autor da letra de canções a este encontro.

Contudo, a frequência das lições pouco dura, já que o pai, um ardente realista, é perseguido durante a fase mais aguda da Revolução Francesa, sendo obrigado a passar à clandestinidade. Em consequência não pode pagar o preço da pensão cobrada por Chantereau, vendo-se a família obrigada a enviá-lo para casa de uma tia que tinha um albergue em Péronne.

Pouco interessado a trabalhar como ajudante de estalajadeiro, vai trabalhar para casa de M. de Ballue de Bellenglise, um notário que, entretanto, exercia funções de juiz de paz. Culto e discípulo apaixonado de Jean-Jacques Rousseau, M de Bellenglise dedica-se a educar para o patriotismo revolucionário os rapazes de Péronne, os quais recebe num escola primária gratuita, por ele denominada o Instituto patriótico. O seu objectivo é transformar estes jovens em cidadãos úteis à pátria.

No Instituto Patriótico, depois de aprenderem a retórica rousseana e revolucionária, os jovens recrutas entoam cânticos patrióticos. Foi aqui que Pierre Jean Béranger sentiu pela primeira vez o poder mobilizador e emocional da canção.

Entre as actividades do Instituto patriótico incluía-se também a aprendizagem do discurso político, tendo os jovem elaborado discursos que dirigiram aos membros da Convenção que passaram por Péronne, nomeadamente Jean Lambert Tallien e Maximilien Robespierre.

Também a sua tia, empolgada pelo ambiente revolucionário, lhe incutiu princípios republicanos e da porta da sua hospedaria ouviu ao longe o troar dos canhões na batalha de Valenciennes. Neste período desenvolveu um amor ardente pela França e uma viva aversão pelas coisas estrangeiras.

Apesar da frequência do Instituto Patriótico, não aprende latim ou grego, as matérias preparatórias então obrigatórias a qualquer jovem que pretendesse prosseguir estudos, e mesmo a aprendizagem da leitura e da escrita e a gramática da língua francesa foram deficientes, ministradas pela tia.

Para melhorar a sua educação, aos 14 anos de idade emprega-se como aprendiz na oficina do impressor Laisney, onde se inicia na leitura e escrita da poesia e aprofunda os seus conhecimentos de gramática.

A nostalgia deste período de permanência em Péronne inspirará Béranger na escrita da sua obra lírica Souvenirs d'enfance. Apesar de não ter feitos estudos humanísticos que lhe permitissem ler Horácio no original, leu uma tradução de Telémaco, obras de Jean Racine e alguns dramas de Voltaire.

Em 1759 volta a Paris, passando a trabalhar com seu pai, que entretanto tinha iniciado um negócio de prestamista. Contudo, apesar das expectativas paternas, que aliavam a esperança no retorno da família real ao poder com um excessivo optimismo nos negócios, vêm-se obrigados a abrir falência.

Depois de mais esta desilusão, o pai resolve investir os restos das suas economias numa pequena livraria e espaço de leitura. Pierre Jean Béranger passa a viver nas falsas da livraria, onde trabalha, solitariamente dedicando os seus tempos de ócio a alinhavar rimas onde glorifica as mulheres e o vinho e ensaiando a escrita de sátiras.

Nesta fase de experimentalismo, tenta uma variedade de géneros, do idílio ao ditirambo e à comédia, demorando a fixar-se no género literário que o imortalizaria: a canção. À noite isolava-se na sua mansarda, numa vida de solidão e penúria que retrata no seu poema Le Grenier, escrito por esta altura.

O arranque da carreira literária Em 1802 entrou em ruptura com o pai, e começou uma vida independente, tentando a vida em empregos vários e lutando para conseguir lanças a sua carreira literária. Durante dois anos tentou sem sucesso público a escrita de idílios pastorais, poemas épicos e muitos outros géneros. Neste período, depois de ler as obras de Salomon Geßner, decide compor poemas idílicos, conseguindo um, intitulado Glycère, que é finalmente publicado no periódico literário Les Saisons du Parnasse.

Após esta pequeno sucesso, escreve o poema Clóvis, em estilo grandiloquente, a que se seguem, ainda sem estilo e gosto definidos, várias tentativas de editar comédias satíricas.

Começa a frequentar a tertúlia artística que se reunia em Montmartre, em casa de um doutor Mellet, onde a canção era o género mais cultivado. Nesse ambiente faz a primeiras tentativas públicas de compor especificamente para canção, ainda muito ao jeito da tradição francesa do século XVIII. Colabora com alguns compositores, vendo algumas das suas árias, como a intitulada Les Adieux de Marie Stuart, musicada no ritmo dolente típico da canção séria da época.

Por volta de 1804 decide procurar um mecenas que pudesse ajudar no lançamento da sua carreira artística. Escreve a Lucien Bonaparte, enviando-lhe algumas das suas produções literárias, num total de mais de cinco centenas de versos, entre os quais o poema Le Déluge.

Por esta altura estava mal de saúde e vivia na pobreza. O seu enxoval consistia num par de botas, em um sobretudo, em um par de calças rotas no joelho, e três camisas de má qualidade que uma mão amigável se afadigou para as remendar. Esta mão amigável era de Judith Frére, que conhecia desde 1796, e de quem continuou a ser companheiro fiel até morte, três meses antes da sua. Judith Frére não é a Lisette das canções; os poemas que lhe são dedicados, como La Bonne Vieille e Maudit printemps, têm um tom totalmente diverso.

Bonaparte, impressionado com a quantidade e qualidade dos poemas enviados, autoriza-o a receber o estipêndio de 1 000 francos a que tinha direito como membro do Institut de France, encomendando-lhe uma obra que recontasse a morte de Nero. Em 1809, também por influência do mesmo patrono, passou a exercer as funções de amanuense da Universidade de Paris, recebendo outros 1 000 francos.

Como distracção do seu tedioso trabalho administrativo na secretaria da Universidade, passou a compor canções alegres e picantes. No início da década de 1810 era já bem conhecido, sendo frequentemente convidado para animar, com as suas canções, banquetes e outros eventos sociais.

Algumas das composições desse tempo, mostrando uma veia galharda e livre dos ditames da moda, chegaram aos nossos tempos, entre elas a canção Les Gueux, inspirada num bem-humorado refrão do século XVII. A inclusão no Caveau e a popularidade Em finais de 1805, a antiga colectânea de cançonetas denominada Caveau ressuscita, passando a ser publicada anualmente uma adenda intitulada La Clé du Caveau. Esta recolha de canções e árias permite a Béranger, cujas composições foram incluídas pela primeira vez no Caveau modern no fim de 1813, a Marc Antoine Désaugiers e aos seus amigos de tertúlia, dar a conhecer ao público as suas composições.

Por esta altura algumas das composições já tinham sido publicadas por seu pai, sem que Béranger se parecesse interessar muito pelo assunto, já circulando muitas cópias manuscritas. Algumas das suas obras eram já particularmente conhecidas e apreciadas: Le Sénateur, Le Petit Homme gris, e, acima de todas, Le Roi d'Yvetot.

Le Roi d'Yvetot, uma sátira a Napoleão Bonaparte, passava manuscrita, ou de ouvido, de mão em mão, com grande aplauso do público, até ser cantada em toda a França.

Foi apenas quando esteve a acompanhar um amigo que estava doente que concebeu a ideia de reunir algumas dessas obras dispersas, nalguns casos sendo obrigado a proceder à sua reconstituição de memória por não ter mantido cópia.

Em Novembro de 1815, Béranger tenta a publicação de algumas árias, reunidas numa colectânea que sugestivamente intitulou Chansons morales et autres. O seu imediato sucesso deu-lhe confiança para continuar. Esta sua primeira colectânea escapou à censura, mas, mais tarde, depois de instalado no trono, o rei Luís XVIII de França, quando instado a comentá-la, terá dito: Nós temos de perdoar muitas coisas ao autor do Le Roi d' Yvetot.

Reacendida a turbulência política, Béranger resolve aderir ao liberalismo, tomando partido, como a maioria dos intelectuais da época, na disputa ideológica que da França alastrava a toda a Europa.

Após o regresso do rei Louís XVIII, em 1815, Béranger começa a produzir canções em torno de temas como o respeito pela liberdade, a opressão no Antigo Regime, a supremacia clerical, o relembrar das antigas glórias e a esperança num ajuste de contas social.

Quando a imprensa deixa de ser livre, ele renova a canção, fazendo dela uma arma política e um instrumento de propagam da: ataca a restauração francesa e celebra as glórias da República e do Império. É o tempo de La cocarde blanche e do Marquis de Carabas. Béranger fornece o suporte ideológico, e o meio de mobilização, de que precisam aqueles que desiludidos abandonam a causa realista. Nesta fase, a sua influência social cresce e o círculo dos seus amigos alarga-se, passando a ser presença em múltiplas reuniões sociais.

Aceita colaborar no La Minerve, de parceria com Étienne Jouy, Charles-Guillaume Étienne e Benjamin Constant.

A adesão ao movimento revolucioário Em 1820, a canção patriótica Le Vieux Drapeau foi distribuído clandestinamente pelas casernas. Nas palavras de Alphonse de Lamartine, esta canção de Béranger torna-se no verdadeiro hino do homem-nação, isto é do povo revolucionário francês. Nesta fase a sua obra de poeta panfletário é já considerável: ataca a magistratura com Le Juge de Charenton, os deputados com Le Ventru e produz múltiplas obras anti-clericais, em especial contra a Companhia de Jesus.