Pérsio Arida (São Paulo, ) é um economista brasileiro, conhecido por transitar entre a academia, o governo e o setor privado. Estudioso da inflação brasileira, foi um dos idealizadores do Plano Real. Presidiu o BNDES (1993-1995) e o Banco Central do Brasil (janeiro a junho de 1995).
Biografia
Origens familiares e formação
Filho de Riad Arida e Alice Farah Arida, é descendente de libaneses. Concluiu seu bacharelado em Economia na Universidade de São Paulo (USP) em 1975. Posteriormente, obteve seu Doutorado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) em 1992.
Ainda na condição de estudante de ensino médio, Arida participou de movimentos clandestinos contrários ao regime militar durante a administração do general Emílio Médici (1969-1974). Preso e submetido a tortura em 1970 e posteriormente denunciado pela Justiça Militar em 1971, junto com outras 34 pessoas, por subversão e vinculação à VAR-Palmares.
Trajetória acadêmica
De 1978 a 1979, desempenhou atividades de professor visitante no Institute for Advanced Study. No período entre 1980 e 1984, lecionou na USP e na PUC-Rio, conduzindo investigações sobre fenômenos inflacionários na economia brasileira. Entre 1984 e 1985, atuou como pesquisador convidado da Smithsonian Institution em Washington, D.C.. Realizou também atividades de pesquisa no Institute for Advanced Studies em Princeton, Nova Jersey, e no Centre for Brazilian Studies da Universidade de Oxford.
Formação no MIT
Arida chegou ao MIT em 1976, aos 24 anos. Na instituição, beneficiou-se de uma conjuntura intelectual extraordinária, tendo sido aluno direto de diversos prêmios Nobel e economistas de grande influência: Paul Samuelson, Robert Solow, Franco Modigliani, Martin Weitzman e Stanley Fischer. Entre seus colegas de geração estava uma constelação de economistas que posteriormente ocupariam posições de liderança global, incluindo Mario Draghi, Ben Bernanke, Kenneth Rogoff e Lawrence Summers.
Uma influência particularmente significativa veio de Rudiger Dornbusch, professor de teoria monetária e internacional que estimulava seus alunos a aplicarem conceitos econômicos a problemas concretos de política pública. Dornbusch viajava frequentemente pela América Latina, conversando com formuladores de política, e comunicava essa perspectiva voltada para questões práticas a seus discípulos. Outro mentor importante foi Albert Hirschman, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, sob cuja supervisão Arida desenvolveu interesses em racionalidade limitada e inovação tecnológica — campos que posteriormente evoluiriam para as finanças comportamentais.
Inicialmente, Arida considerou fazer doutorado em Cambridge, Reino Unido, sob influência do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, recém-exilado do Brasil e trabalhando no Cebrap. Cardoso o recomendou após sugestão do economista Celso Furtado, mas a complexidade do processo de admissão britânico levou Arida a optar pelo MIT. Essa decisão revelou-se crucial para sua trajetória intelectual e profissional posterior.
Vida profissional
No setor público
Em 1982, publicou um influente artigo propondo uma abordagem heterodoxa para resolver a crise na economia brasileira, questionando a eficácia dos programas do FMI.CASTRO. L. B. "Esperança, Frustração e Aprendizado: A História da Nova República", in Giambiagi, F. & Villela, A. (org.). Economia Brasileira Contemporânea (1945-2005). Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.ARIDA, P. "Austeridade, Autotelia e Autotomia". Texto para Discussão . PUC-Rio. Setembro de 1982.
Nos anos 1980, formou-se um consenso sobre o caráter inercial da inflação brasileira. Arida, junto com André Lara Resende, distanciou-se da proposta de "Choque Heterodoxo" do economista Francisco Lopes, que incluía congelamento de preços. Analisando experiências de estabilização em Israel e Argentina, os dois economistas desenvolveram a "Proposta Larida", baseada em uma moeda indexada que circularia paralelamente à moeda oficial brasileira, permitindo desindexação da economia sem engessamento de preços.ARIDA, P. (org.). Inflação Zero: Brasil, Argentina, Israel. Paz e Terra, 1984.
Concepção e debate intelectual da Proposta Larida
A origem da Proposta Larida encontrava-se nas análises que Arida e Lara Resende realizavam sobre os problemas de sincronização de preços numa economia com inflação elevada. A fragmentação dos períodos de reajuste contratual criava distorções permanentes nos preços relativos, impedindo estabilização duradoura. Arida propôs inicialmente a sincronização de todos os contratos através de reajustes periódicos uniformes, preservando o valor real médio. A contribuição inovadora de Lara Resende foi sugerir a criação de uma moeda complementar, denominada ORTN pro rata die, com valor fixo em relação ao dólar e crescimento de poder aquisitivo automático. Essa moeda circularia voluntariamente lado a lado com a moeda oficial, criando um padrão estável de referência.
A proposta diferenciava-se fundamentalmente do "Choque Heterodoxo" pois evitava congelamento compulsório de preços e custos. Arida e Resende buscavam criar incentivos de mercado para que agentes privados adotassem voluntariamente a nova moeda indexada. A originalidade do mecanismo residia em sua aplicação a uma economia com indexação financeira generalizada — uma particularidade brasileira decorrente da forma como o Estado tinha organizado seus empréstimos desde a década de 1960.
A proposta foi apresentada em artigo acadêmico em 1983, circulando posteriormente entre pesquisadores por meio de documento de trabalho da instituição econômica da PUC-Rio. Com apoio do economista norte-americano John Williamson, professor visitante que reconheceu a sofisticação intelectual da proposta, Arida e Resende prepararam versão em inglês para conferência sobre inflação e indexação agendada em Washington para dezembro de 1984. Foi nessa conferência internacional que o economista alemão Rudiger Dornbusch, comentarista da apresentação dos brasileiros, criou o acrônimo "Larida" — junção de partes dos dois nomes — tornando-o referência consolidada na literatura.
A resposta da comunidade econômica brasileira foi controversa. Críticos argumentavam que tratar-se-ia de engano que desviaria das necessidades de ajuste fiscal e monetário severo. Outros temiam que a completa indexação econômica a um único parâmetro eliminaria defasagens nominais e causaria espiral inflacionária. Notavelmente, o economista Mário Henrique Simonsen, então fora da PUC-Rio, reconheceu a sofisticação intelectual da proposta, entendendo-a como facilitadora de estabilização apenas em cenários de hiperinflação clássica. Larry Summers, em seminário no MIT com moderação de Franco Modigliani, ressalvou que a proposta era inteligente mas condenada ao fracasso político, pois gestores públicos sempre preferem gastos irrestitos. Philip Cagan, historiador de hiperinflações, ofereceu interpretação mais favorável: a proposta funcionaria porque representava "padrão-ouro sem lastro metálico".
Durante o Governo José Sarney (1985-1989), Arida ocupou a função de secretário da Coordenação Econômica e Social em 1985. Posteriormente, assumiu responsabilidade pela gestão de operações bancárias do Banco Central do Brasil, participando da concepção do Plano Cruzado. O Plano, anunciado em 28 de fevereiro de 1986, fundamentava-se na teoria da inércia inflacionária e incorporava ações de reforma econômico-monetária, criação de nova moeda e controle de preços e salários. Embora tenha alcançado resultados positivos inicialmente ao reduzir a inflação, enfrentou posteriormente diversos problemas de ajuste.
Implementação e desafios do Plano Cruzado
Arida chegou ao governo em 1985 com o propósito de contribuir para o processo de redemocratização brasileiro, após morte de Tancredo Neves e posse de José Sarney. O presidente designou João Sayad ministro do Planejamento, que ofereceu a Arida uma secretaria especial para elaboração de propostas econômicas. A dinâmica política criou espaço para Arida e Lara Resende apresentarem a Proposta Larida ao presidente, que demonstrou interesse genuíno. Sarney indicou José Saulo Pereira Ramos, consultor-geral da República, para avaliar a viabilidade jurídica da moeda indexada virtual. Ramos descartou a proposta como constitucionalmente impossível, argumentando que o Brasil não poderia manter duas moedas simultâneas pois as funções monetárias são indivisíveis.
Diante desse impasse jurídico, Arida e Resende reconsideraram a proposta do "Choque Heterodoxo" de Francisco Lopes como alternativa viável. O plano seguiria modelo israelense bem-sucedido, com congelamento de curta duração acompanhado de contração dos gastos públicos e política monetária austera. O Plano Cruzado foi executado com dupla estrutura administrativo-bancária que criou dificuldades significativas. O Banco Central enfrentava restrições políticas que impediam decisões técnicas autonomamente: o Conselho Monetário Nacional tinha composição excessivamente pulverizada, incluindo representantes do setor privado e até do Ministério do Trabalho, nenhum deles comprometido com a estabilização. O diretor do Banco Central não possuía poder de voto nas decisões relativas à política monetária.
Os maiores desafios ocorreram na gestão bancária estadual. Diversos bancos estaduais operavam com deficiências de caixa e insolvência, continuando a efetuar saques sobre compulsórios mesmo sob ameaça de intervenção. Os governadores consideravam qualquer supervisão federal como intromissão de Brasília nas competências estaduais, bloqueando ações necessárias. Arida tentou mecanismos alternativos, como bloqueio de transferências do Fundo de Participação dos Estados, mas encontrou resistência de outras instituições federais alinhadas com as práticas estaduais. O congelamento de preços enfrentou colapso por excesso de demanda acumulada, pois não havia como elevar as taxas de juros sem contradizer as diretrizes políticas de manutenção do teto de preços. Em novembro de 1986, o presidente do Banco Central Fernão Bracher realizou pequena desvalorização cambial unilateral, o que resultou em sua saída do cargo, acompanhado por Arida.
Setor privado (1987-1993)
Após deixar o Banco Central, Arida ingressou no setor privado em 1987, ocupando o cargo de diretor na Brasil Warrant, onde atuou até 1993. Também como sócio e diretor da HE Participações, desempenhou a função de vice-presidente do Unibanco, que se destacava como um dos maiores bancos privados do país, mantendo essa posição até 1993.
Participação no debate constitucional
Em meados de 1993, tomou parte em iniciativa do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP voltada para revisão constitucional. Integrando o grupo responsável pela análise da Ordem Econômica e Financeira, realizou contribuições relacionadas a função social da propriedade e disparidades socioespaciais.
Presidência do BNDES (1993-1995)
Arida foi indicado por Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, ao presidente Itamar Franco para comandar o BNDES, em substituição a Luís Carlos Delben Leite. Tomou posse em setembro de 1993. Sua nomeação foi vista como reforço importante para a execução do programa de privatização do Estado. Enquanto conduzia o BNDES, desempenhou papel central na concepção do Plano Real, estratégia de estabilização econômica implementada de forma incremental na fase final do mandato de Itamar Franco, lançado em 28 de fevereiro de 1994.