Desigualdade social ocorre quando os recursos em uma determinada sociedade são distribuídos de forma desigual, tipicamente através de normas de alocação dentro de padrões específicos, favorecendo categorias de pessoas socialmente definidas. Compreendida como um fenômeno multifacetado e multidimensional, as definições contemporâneas de desigualdade social são centradas em disparidades sistemáticas e duráveis no acesso a bens sociais, oportunidades e resultados. É a preferência de diferenciação de acesso aos bens sociais na sociedade provocada pelo poder, religião, parentesco, prestígio, etnia, gênero, idade, orientação sexual e classe. Nesse sentido, as abordagens interseccionais destacam como esses eixos de diferenciação se cruzam e se articulam, impactando de forma complexa a vida dos indivíduos e grupos sociais.
A desigualdade social geralmente implica falta de igualdade de resultados, mas pode alternativamente ser conceituada em termos de falta de igualdade de acesso a oportunidades. Os direitos sociais incluem mercado de trabalho, fonte de renda, saúde e liberdade de expressão, educação, representação política e participação.
Refere-se ainda a processos relacionais na sociedade que têm o efeito de limitar ou prejudicar o status de um determinado grupo, classe ou círculo social. As áreas de desigualdade social incluem o acesso aos direitos de voto, a liberdade de expressão e de reunião, a extensão dos direitos de propriedade e de acesso à educação, saúde, moradia de qualidade, viajar, ter transporte, férias e outros bens e serviços sociais. Além de que também pode ser visto na qualidade da vida familiar e da vizinhança, ocupação, satisfação no trabalho e acesso ao crédito. A desigualdade social desde o século XXI tem se mostrado como um fator de retrocesso no crescimento econômico,Growth and equity: Dismantling the Kaldor–Kuznets–Solow consensusInequality and Unsustainable Growth: Two Sides of the Same Coin? uma constatação que tem sido consistentemente reforçada por análises acadêmicas recentes que exploram suas raízes estruturais, institucionais e interseccionais.
Dimensões da desigualdade A desigualdade social não se manifesta de forma monolítica, mas sim através de uma complexa rede de disparidades sistemáticas e duradouras que afetam o acesso a recursos, bens sociais e oportunidades. Embora frequentemente associada à dimensão econômica, as ciências sociais contemporâneas compreendem a desigualdade como um fenômeno multifacetado e multidimensional, que se expressa em diversas esferas da vida social, como no acesso à educação, saúde, justiça, oportunidades no mercado de trabalho e participação política. Essas dimensões não operam isoladamente; ao contrário, frequentemente se entrelaçam e se reforçam mutuamente.
Nesse sentido, a análise interseccional tem aparecido como uma abordagem importante para entender essa complexidade, evidenciando como as categorias socialmente construídas, como gênero, etnia, classe, idade e outras, interagem para produzir experiências únicas de privilégio e desvantagem. Essa perspectiva permite compreender que a posição de um indivíduo ou grupo na estrutura social é determinada pela confluência de múltiplos fatores, e não apenas por um único eixo de diferenciação. Assim a desigualdade de gênero, por exemplo, não afeta todas as mulheres da mesma forma, sendo influenciada por sua raça, classe social e nível de escolaridade, assim como faz com que a experiência de um homem seja também distinta quanto a essas outras dimensões e suas interrelações.
Essa abordagem multidimensional permite uma análise mais aprofundada das distintas categorias de pessoas socialmente definidas – como as baseadas em gênero, etnia, idade e classe – e, de modo crucial, como essas categorias se interligam e influenciam mutuamente. A compreensão de como esses múltiplos eixos se cruzam é o foco das abordagens interseccionais, essenciais para compreender a complexidade das desvantagens e privilégios de cada sociedade.
Desigualdade econômica Ver artigos principais: Desigualdade econômica, desigualdade de renda e desigualdade de riqueza
A desigualdade econômica refere-se à distribuição desigual de renda e riqueza entre indivíduos ou grupos em uma sociedade. É uma das dimensões mais estudadas da desigualdade social e frequentemente serve como um indicador primário do nível de disparidade em um país ou grupo social. As medidas de desigualdade mais comuns para sua mensuração incluem o Coeficiente de Gini, que avalia a concentração de renda, e a participação dos 1% mais ricos, que indica a parcela da riqueza ou renda total detida por uma pequena elite.MEDEIROS, Marcelo. Medidas De Desigualdade E Pobreza. Brasília: UNB, 2007.
No cenário global, o Brasil se destaca como um dos países com os mais altos níveis de desigualdade econômica, com índices de Gini historicamente elevados (frequentemente superiores a 0,5) e uma significativa concentração de renda no topo.SOUZA, Pedro H. G. Ferreira de. Os ricos no Brasil: o que sabemos, o que não sabemos e o que deveríamos saber. BIB - Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, n. 85, p. 5–26, 1 fev. 2018. Embora tenha havido períodos de redução da desigualdade de renda no Brasil no início do século XXI, impulsionados por políticas de mercado de trabalho e programas redistributivos, análises recentes apontam para uma persistência e, em alguns casos, uma reversão dessa tendência, reforçando a necessidade de abordagens que considerem as raízes estruturais e institucionais dessas disparidades. A desigualdade econômica não opera isoladamente, mas interage e se retroalimenta com outras dimensões da desigualdade, como as de gênero, raça e classe, moldando o acesso a oportunidades e a bens sociais.
Desigualdade de gênero miniatura|350px|esquerda| Mapa de países conforme Índice de Desigualdade de gênero (dados de 2019) A desigualdade de gênero é um dos fatores centrais na construção das disparidades sociais, enraizada em distinções sociais e culturais que historicamente convertem as diferenças sexuais biológicas em hierarquias de poder, status e renda.Reygadas, l. (2004): Las redes de la desigualdad: un enfoque multidimensional, Política y Cultura Essa discriminação se manifesta na divisão de tarefas, postos de trabalho e profissões, com consequências significativas como a disparidade salarial — onde mulheres frequentemente ganham menos que homens, mesmo exercendo as mesmas funções e com qualificações equivalentes.Las nuevas fronteras de la desigualdad: hombres y mujeres en el mercado de trabajo. Icaria Editorial; 2000. ISBN 978-84-7426-465-4. p. 419.Desigualdad y globalización: cinco conferencias. Ediciones Manantial; ISBN 978-987-500-060-5. p. 17. Além dos rendimentos, a desigualdade de gênero impacta o acesso a bens sociais como educação e cultura, e se reflete na sub-representação feminina em esferas políticas e de tomada de decisão na maioria dos países.
Em uma perspectiva multidimensional e interseccional, a desigualdade de gênero não pode ser analisada isoladamente. Ela se cruza e é amplificada por fatores como raça, classe social e nível de escolaridade, criando experiências diversas de desvantagem. Por exemplo, mulheres negras enfrentam desvantagens cumulativas no mercado de trabalho e no acesso a oportunidades, resultado da interação entre discriminação de gênero e racial. Pesquisas recentes têm quantificado a contribuição do gênero, em conjunto com raça e educação, para a composição da desigualdade de rendimentos em diversos países, incluindo o Brasil.BOTTEGA, Ana et al. Quanto fica com as mulheres negras? Uma análise da distribuição de renda no Brasil: Notas de Política Econômica. São Paulo - SP, Brasil: Made- Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, 2023. Disponível em: <https://madeusp.com.br/wp-content/uploads/2021/12/npe018.pdf>.
Desigualdade racial A desigualdade racial resulta de distinções sociais hierárquicas e sistemáticas entre grupos étnicos dentro de uma sociedade, frequentemente estabelecidas com base em características como cor da pele, origem ou cultura. Este tratamento desigual afeta as oportunidades e o acesso a recursos, manifestando-se em diversas esferas, desde práticas de contratação discriminatórias no mercado de trabalho até a disseminação de estereótipos e preconceitos por meio de diferentes canais de comunicação, que marginalizam grupos e perpetuam a xenofobia. Parte desses tipos de práticas discriminatórias resultam de estereótipos, que partem de visões simplistas e suposições sobre as características essenciais (imanentes) de determinados grupos sociais, muitas vezes justificadas por suposições de superioridade baseadas na biologia, capacidades cognitivas, ou mesmo falhas morais inerentes a eles. A pesquisa contemporânea em ciências sociais tem aprofundado a compreensão da desigualdade racial sob uma ótica multidimensional e interseccional. No Brasil e em outros contextos globais, estudos demonstram como a cor da pele interage com o gênero, a classe social e o nível educacional para moldar os resultados de vida, particularmente no acesso ao mercado de trabalho e nos rendimentos. A desigualdade racial não é apenas um resultado de preconceitos individuais, mas também de mecanismos estruturais e institucionais que limitam ou promovem a mobilidade social de determinados grupos. Análises comparativas entre países com legados históricos de estratificação racial, como Brasil, Estados Unidos, África do Sul e Índia, revelam padrões específicos de fechamento de oportunidades para graduados universitários, por exemplo, onde a cor da pele continua a ser um fator determinante para o acesso a ocupações de alto prestígio.
Desigualdade etária
A desigualdade etária, também conhecida como etarismo ou discriminação por idade, refere-se ao tratamento injusto de indivíduos ou grupos baseado em sua idade, impactando aspectos como promoções, recrutamento, acesso a recursos ou privilégios.Kirkpatrick, George R.; Katsiaficas, George N.; Kirkpatrick, Robert George; Mary Lou Emery (1987). Introduction to critical sociology. Ardent Media. p. 261. ISBN 978-0-8290-1595-9. Retrieved 28 January 2011. Trata-se de um conjunto de crenças, atitudes e normas que justificam o preconceito e a subordinação. Uma manifestação específica é o adultismo, que consiste na discriminação contra crianças e pessoas em idade legal inferior à adulta.Lauter And Howe (1971) Conspiracy of the Young. Meridian Press.
Considerada uma dimensão relevante da desigualdade social, o etarismo frequentemente se interliga com outras formas de discriminação. A análise interseccional revela que indivíduos podem enfrentar desvantagens compostas pela interação de sua idade com seu gênero, raça, classe social ou nível de escolaridade.SANTOS, José Alcides Figueiredo. Desigualdade racial na transmissão intergeracional da herança de classe social. Sociologias, v. 24, p. 328–360, 2022. <https://www.scielo.br/j/soc/a/NVWQfq9JdwcyVRByTTrtTZj/?format=html&lang=pt> Por exemplo, uma mulher idosa negra pode experienciar múltiplas barreiras no mercado de trabalho ou no acesso a serviços de saúde que não seriam enfrentadas por um homem branco jovem, ilustrando como as diferentes dimensões da desigualdade atuam em conjunto para moldar as experiências de vida.
Desigualdade de classes
thumb|upright=1.4|Mapa dos países por por IDH ajustado à desigualdade (dados de 2022, publicada em 2024). thumb|upright=1.4|Coeficiente de Gini segundo o Banco Mundial entre 1992 e 2018 thumb|upright=1.3|Participação global da riqueza por grupo de riqueza, Credit Suisse, 2021