Re-Invention World Tour (ou Re-Invention World Tour 2004) foi a sexta turnê da cantora estadunidense Madonna, feita em suporte ao seu nono álbum de estúdio, American Life (2003). A excursão teve início em 24 de maio de 2004, no The Forum, em Inglewood, nos Estados Unidos, e terminou em 14 de setembro, no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, Portugal, após 56 concertos realizados na América do Norte e Europa. Rumores sobre uma nova série de apresentações começaram a circular em outubro de 2003, mas sua realização só foi oficialmente confirmada em março do ano seguinte. A turnê foi inspirada, em parte, pela instalação artística X-STaTIC PRO=CeSS, desenvolvida por Madonna em colaboração com o fotógrafo Steven Klein. Foi também a primeira vez que a artista se apresentou na Irlanda, enquanto as datas previstas para Tel Aviv acabaram canceladas por questões de segurança.

A concepção da Re-Invention surgiu, em parte, da decisão de Madonna de retomar uma parcela maior de seu repertório, após fãs criticarem a ausência de seus principais sucessos na Drowned World Tour (2001). O título aludia à recorrente ideia de que a cantora estaria constantemente se "reinventando"; segundo a própria, o objetivo era dar uma nova abordagem a canções de diferentes fases da carreira. Das trinta músicas ensaiadas, 24 foram mantidas na seleção definitiva. Sob direção criativa de Jamie King, o espetáculo explorava o contraste entre unidade e violência e foi estruturado em cinco segmentos temáticos: Marie Antoinette, Military, Circus, Acoustic e Scottish-Tribal. Os figurinos foram desenvolvidos por Arianne Phillips, com colaborações de Stella McCartney, Christian Lacroix e Karl Lagerfeld, enquanto a estrutura cênica incluía uma plataforma giratória, cinco telões móveis e uma passarela suspensa em formato de "V".

A Re-Invention World Tour recebeu avaliações predominantemente positivas da crítica, que destacou a espontaneidade de Madonna, sua condição vocal e a retomada de sucessos de fases anteriores da carreira, embora alguns analistas tenham questionado a coesão temática e os novos arranjos de determinadas canções. No Billboard Touring Awards de 2004, foi reconhecida como Melhor Turnê. Comercialmente, reuniu cerca de 897 mil espectadores e arrecadou aproximadamente 125 milhões de dólares, tornando-se a turnê de maior receita de 2004. A digressão também foi alvo de repercussão após Elton John acusar Madonna de recorrer ao playback; a equipe da musicista negou a acusação, e John mais tarde afirmou se arrepender do comentário. A excursão também deu origem ao documentário I'm Going to Tell You a Secret, dirigido por Jonas Åkerlund e exibido pela MTV em 2005; no ano seguinte, a obra foi lançada em uma edição de dois discos, acompanhada por um álbum ao vivo com 14 faixas, e posteriormente recebeu uma indicação ao Grammy de Melhor Filme Musical.

Antecedentes miniatura|direita|Madonna se apresentando em uma loja da HMV, em Londres, em maio de 2003, como parte da divulgação de American Life. Em agosto de 2002, Madonna e Steven Klein trabalharam juntos na instalação artística X-STaTIC PRO=CeSS, criado para "desconstruir" a idolatria em torno da artista enquanto explorava seu estrelato. Filmado em ambientes austeros, apresentava a cantora em trajes enigmáticos que evocavam a figura de uma "rainha bizantina". Estreou em Nova Iorque, em 27 de março de 2003, seguindo depois para Londres, Paris, Düsseldorf e Berlim, antes de realizar sua última exibição em Florença, em 3 de maio. O nono álbum de estúdio de Madonna, American Life, foi lançado em 21 de abril. Para promovê-lo, realizou uma série de apresentações nos Estados Unidos e na Europa, entre elas nos estúdios do Total Request Live, em Nova Iorque, e na loja da HMV da Oxford Street, em Londres, além de participações nos programas Friday Night with Jonathan Ross, da BBC One, e Top of the Pops. Em 27 de agosto, abriu o MTV Video Music Awards de 2003 ao lado de Britney Spears e Christina Aguilera, interpretando uma sequencial musical de "Like a Virgin (1984) e "Hollywood", segundo single de American Life. Em outubro, durante uma sessão de perguntas e respostas com os fãs da musicista, sua empresária, Caresse Henry, confirmou os planos para uma turnê no verão de 2004 ou no início de 2005. Em janeiro de 2004, Madonna afirmou que já tinha idealizado o espetáculo e esperava o "momento certo para voltar aos palcos". Ainda naquele mês, o Las Vegas Sun anunciou que ela iniciaria, em 1.º de junho, em São Francisco, uma excursão mundial cuja etapa norte-americana incluiria 32 apresentações, mas o anúncio nunca foi oficialmente confirmado.

Em março, o gaiteiro escocês Calum Fraser, que havia se apresentado no batizado de Rocco, filho de Madonna, declarou que a própria o havia convidado para integrar uma digressão de cinco meses, provisoriamente intitulada Whore of Babylon World Tour 2004. Ainda naquele mês, a MTV divulgou que a cantora estava "ensaiando para uma turnê de verão". Em 23 de março, Caresse Henry confirmou oficialmente a Re-Invention World Tour. No comunicado à imprensa, afirmou-se que "[Madonna] estava ansiosa para voltar aos palcos. Não há dúvida de que esta turnê representará o auge de sua consolidada e merecida reputação como uma das mais eletrizantes artistas de nosso tempo". De acordo com Dirk Timmerman, autor de Madonna Live! Secret Re-inventions and Confessions on Tour, a produção de X-STaTIC PRO=CeSS inspirou a cantora a idealizar a turnê. Foi sua primeira série de apresentações em três anos, prevista para começar em maio e terminar em agosto, com passagens por cidades dos Estados Unidos e da Europa. A ocasião também marcou sua estreia na Irlanda. Os concertos em Tel Aviv estavam previstos, mas foram cancelados após a cantora receber ameaças de morte de um "grupo palestino não identificado". Em entrevista ao Access Hollywood, Madonna afirmou que seu empresário a orientou a não ir a Israel devido ao ataque contra o líder do Hamas. Mesmo assim, disse que, "se fosse por mim, eu iria". A Re-Invention World Tour teve início em Los Angeles, em 24 de maio, e foi finalizada em Lisboa, em 14 de setembro de 2004.

Desenvolvimento Concepção e repertório

Segundo Caresse Henry, uma das "grandes reclamações" dos fãs sobre a Drowned World Tour (2001) era a ausência dos "grandes sucessos" de Madonna, motivo pelo qual "ela chegou à conclusão de que era hora de revisitar um número maior de canções de seu repertório". Durante uma entrevista ao TRL, Madonna disse: "Estamos falando tanto de canções antigas quanto de novas, vou apresentá-las como nunca antes. Porque é disso que a vida se trata". Segundo a Christianity Magazine, Re-Invention era um título que ironizava, de forma "ambivalente e autoconfiante", aqueles que, durante anos, afirmaram que Madonna estava sempre "se reinventando". A cantora explicou que o escolheu porque queria dar uma nova perspectiva a seus antigos sucessos, acresetando: "A única maneira de interpretá-las era reinventando-as, sob uma nova perspectiva". Em contraste com a Drowned World Tour, a turnê foi descrita como "muito mais leve", tendo "unidade em contraste com violência" como tema central. Henry afirmou que se tratava de "um espetáculo brilhante [...] extravagante, mas concebido nos moldes mais tradicionais, embora mais contido e visualmente impressionante". O concerto foi dividido em cinco segmentos temáticos, formato recorrente nas turnês da cantora: Marie Antoinette, Military, Circus, Acoustic e Scottish-Tribal.

Durante os ensaios, chegou-se a um repertório provisório, que contava com "Material Girl" (1984), "Dress You Up" (1985) e "I'm So Stupid", do álbum American Life. Contudo, Madonna teve dificuldades para executar os acordes das duas últimas canções na guitarra, que acabaram sendo descartadas. Assim como uma remixagem de "Love Profusion" (2004), "Swim", de Ray of Light (1998), "Take a Bow" (1994) e "Live to Tell" (1986). Originalmente, "Vogue" (1990) havia sido escolhida como número de abertura, até que a cantora decidiu substituí-la por "The Beast Within". "Nobody Knows Me" foi inicialmente ensaiada em uma versão remixada por Peter Rauhofer. A princípio, Madonna pretendia encerrar o espetáculo com "Die Another Day" (2002), mas decidiu substituí-la por "Holiday" (1983). A canção "Imagine" (1971), de John Lennon, também passou a integrar o repertório. Ao ser perguntada sobre a escolha, ela afirmou: "Queria fazer uma declaração por meio do maior hino à paz". "Don't Tell Me" (2000) foi ensaiada em duas versões: uma com a projeção de um horizonte urbano francês ao fundo, apresentada na etapa norte-americana e nos concertos de Paris; e outra que incorporava um trecho de "Bitter Sweet Symphony" (1997), do The Verve, sendo adotada no restante da turnê. Durante os ensaios, "Ray of Light" chegou a ser considerada, mas Madonna decidiu descartá-la por considerar que interpretá-la no início do espetáculo comprometeria sua voz. Ao final, vinte e quatro das trinta canções ensaiadas foram mantidas. Segundo Dirk Timmerman, duas faixas inéditas foram compostas para a turnê: "The Devil Wouldn't Recognize You", escrita por Madonna e Joe Henry, e "I Love New York", também de autoria da cantora em colaboração com Stuart Price. A última foi retrabalhada em uma versão dance para Confessions on a Dance Floor (2005), ao passo que a primeira foi incluída em Hard Candy (2008).

Ensaios e palco Jamie King foi novamente encarregado da direção criativa. Entre os demais profissionais estavam Donna De Lory, vocalista de apoio e dançarina de longa data de Madonna; Siedah Garrett, também vocalista; Lorne Cousin, gaiteiro; Monte Pittman na guitarra; Stuart Price nos teclados; e 12 dançarinos, incluindo três trapezistas. As audições para dançarinos ocorreram entre fevereiro e março, em Nova Iorque e nos estúdios Culver, em Los Angeles, com os ensaios sendo realizados no Great Western Forum. Allan Dekko foi designado para coreografar a apresentação de "Express Yourself" (1989), de temática militar. Sobre trabalhar com a cantora, Dekko disse: "Não vou dizer que ela tenha talento nato para isso, mas fez bem o que lhe foi pedido. Achei-a agradável de se trabalhar".

Orçada em 1 milhão de dólares, a produção contava com um palco equipado com uma plataforma giratória central de de diâmetro, capaz de elevar-se até de altura e atingir velocidades de até . A estrutura também incluía uma esteira embutida em toda a parte frontal, utilizada por Madonna para se deslocar entre uma extremidade e outra em determinados números. Cinco telões de vídeo móveis compunham o cenário de fundo: três de grandes dimensões, sendo o maior deles com 7 toneladas, e dois ligeiramente menores, todos controlados por 160 motores. A estrutura também contava com 130 pontos de suspensão, diversos refletores móveis e um sistema de som da Claire Brothers, com quatro toneladas de peso. Além disso, havia uma passarela em formato de "V", com de comprimento, que era suspensa a partir do teto sobre a área dianteira da plateia. O espetáculo contava com uma rampa de skate e uma cadeira elétrica como elementos cênicos. Registros audiovisuais de X-STaTIC PRO=CeSS compuseram os elementos visuais da apresentação. A produção não contou com uma atração de abertura.

Figurinos

Os figurinos da turnê esteve a cargo de Arianne Phillips. Na criação dos trajes, Phillips explicou: "[Madonna] reapresenta suas canções antigas em novas versões, então adotamos a mesma filosofia". A figurinista confirmou que a cantora faria cinco trocas ao longo do espetáculo. A excursão contou com a colaboração dos estilistas Stella McCartney, Christian Lacroix e Karl Lagerfeld, então diretor criativo da Chanel. Tendo colaborado com a cantora em X-STaTIC Pro=CeSS, Lacroix foi convidado novamente para recriar um dos espartilhos usados por Madonna no projeto.