O gavião-pega-macaco (nome científico: Spizaetus tyrannus), também referido popularmente como apacanim, cutiú-preto, gavião-de-penacho, papa-mico, uiruucotim, urubutinga ou urutaurana, é uma águia da família dos acipitrídeos (Accipitridae) que ocorre do México à Argentina e em todo o Brasil. O gavião-pega-macaco, o gavião-pato e o gavião-de-penacho são as únicas três espécies de águias-açores presentes no Brasil.
Etimologia
O nome do gênero Spizaetus deriva do grego spizías (), "falcão", e áetós (), "águia". O epíteto específico tyrannus deriva do latim tyrannus, "tirano", que por sua vez derivou do grego túrannos (), com o mesmo sentido. Os nomes populares "gavião-pega-macaco", "papa-mico", "papa-macaco" e "pega-macaco" são referências à sua predileção por se alimentar de macacos. "Uiruucotim" tem origem tupi, mas o étimo que lhe é incerto. "Apacanim", segundo o Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi (DHPT), se originou do tupi yapaka'ni, que também originou o designativo japacanim, aplicado a outras aves. Foi citado a primeira vez em 1777 como yapacani e em 1783 como japocani. "Cutiú-preto", segundo Antenor Nascentes, derivou do tupi kuti'u, no sentido de "gavião preto do Amazonas", e -una (que pode variar para -m ou -u), que significa "preto". "Urubutinga", por sua vez, derivou de uruwu'tinga, < uru'wu, no sentido de urubu, e -tinga, no sentido de branco. Foi registrado em 1594 como urubutĩga e 1610 como urubatinga.
Taxonomia e sistemática
O gavião-pega-macaco pertence à família dos acipitrídeos (Accipitridae) e à subfamília dos acipitríneos (Accipitrinae). Seu gênero, Spizaetus, foi descrito por Louis Jean Pierre Vieillot em 1816. Em 2007, a União Americana de Ornitólogos aprovou a incorporação do gênero Spizastur, originalmente descrito por René Lesson em 1839, ao gênero Spizaetus. Tradicionalmente, Spizaetus é considerado um gênero pantropical composto por 10 espécies, sendo um dos vários com tarsos revestidos por penas — as chamadas águias-calçadas —, e ocasionalmente tratado como uma tribo, os aquilinos (Aquilini).
Duas análises filogenéticas independentes, baseadas em sequências de DNA mitocondrial e nuclear, chegaram a conclusões convergentes sobre as relações evolutivas de Spizaetus. Os resultados indicam que, embora os aquilinos como um todo formem um grupo monofilético, os gêneros politípicos dentro desse grupo (Spizaetus, Aquila e Hieraaetus) não são monofiléticos, o que exige a revisão dos limites genéricos tradicionais. Três clados basais compõem os aquilinos: um grupo do Velho Mundo formado por Spizaetus e Stephanoaetus, que juntos são grupo irmão do restante da tribo; um clado neotropical que inclui o gavião-de-penacho (S. ornatus), o gavião-pega-macaco, o gavião-pato (S. melanoleucus) e o gavião-bicolor (S. isidori); e um clado do Velho Mundo composto por Aquila e gêneros aliados. Estima-se que os aquilinos tenham divergido há cerca de 12 a 15 milhões de anos, e que o clado neotropical tenha se separado das linhagens do Velho Mundo entre 8 e 11 milhões de anos atrás. Dentro do clado neotropical, o gavião-de-penacho e o gavião-bicolor são espécies irmãs, o gavião-pato é um grupo irmão e o gavião-pega-macaco ocupa uma posição basal.
Duas subespécies de gavião-pega-macaco são conhecidas:
Spizaetus tyrannus serus - do sul do México ao nordeste da Argentina e Brasil; ilha da Trindade. Spizaetus tyrannus tyrannus - do leste e sul do Brasil ao extremo nordeste da Argentina (Misiones).
Descrição
Adultos do gavião-pega-macaco de ambos os sexos são semelhantes, embora a fêmea seja maior. O macho e fêmea pesam, respectivamente, 950 e gramas (ou 900 a gramas, segundo outras fontes). A envergadura da asas é de 115-148 centímetros. O comprimento total varia entre 57 e 71 centímetros, conforme diferentes fontes: 57–68 centímetros segundo Wetmore (1965), 58–71 centímetros segundo Bierregaard (1994) e 64–71 centímetros de acordo com Hilty e Brown (1986). A íris é de cor laranja brilhante ou amarelo-dourado. O bico é azul-preto, com a cera de tonalidade acinzentada. Os tarsos são revestidos por penas, enquanto os dedos são amarelos. Na cabeça, exibe um penacho em forma de coroa.
Os machos da subespécie S. t. serus apresentam, em média, asas mais curtas (380,2 milímetros) e caudas significativamente menores (309,2 milímetros) em comparação aos da subespécie S. t. tyrannus, cujas asas têm média de 398,3 milímetros e caudas de 366 milímetros. A variação de medidas em serus vai de 354 a 401 milímetros à asa e de 291 a 325 milímetros à cauda (n=11), enquanto em tyrannus os dados disponíveis indicam um intervalo de 362 a 422 milímetros à asa e de 365 a 367 milímetros à cauda, sugerindo que tyrannus tende a ser maior e mais robusto. Por sua vez, as fêmeas da subespécie S. t. serus apresentam asas com comprimento médio de 400,4 milímetros e caudas de 320,1 milímetros, com variação entre 353 a 445 milímetros para as asas e 289 a 386 milímetros à cauda (n=8). Em contraste, as fêmeas de S. t. tyrannus são significativamente maiores, com asas médias de 443,7 milímetros e caudas de 388,8 milímetros, variando entre 428 a 460 milímetros para as asas e 370 a 405 milímetros à cauda. Isso reforça a tendência geral de que tyrannus apresenta um porte corporal maior que serus em ambos os sexos.
A plumagem é inteiramente preta e sedosa, com as penas da crista occipital pretas com bases brancas, e apresenta padrões variados nas asas e no corpo, incluindo manchas brancas em algumas áreas. As asas são muito largas, barradas e de formato ligeiramente elíptico, com as partes inferiores das primárias e secundárias apresentando faixas brancas largas, e as coberteiras inferiores também amplamente marcadas de branco. A cauda é longa, estreita e arredondada, raramente abanada, com pontas cinza-amarronzadas e três a quatro faixas largas ou cinzentas transversais que são características distintivas da espécie. Durante o voo, a largura e a brevidade das asas tornam-se evidentes, e a cauda geralmente permanece fechada. Os tarsos e as coxas, revestidos por penas, exibem barras brancas estreitas. Os juvenis têm testa, garganta, pontas das penas da crista e a sobrancelha brancas; a cabeça é branca com tonalidades bege-amareladas, o peito é rajado de preto e marrom, e o ventre é salpicado de preto e branco. Imaturos apresentam as partes superiores em preto-amarronzado com manchas esbranquiçadas, garganta branca, faixa branca sobre os olhos, faces escurecidas e partes inferiores branco-amareladas com fortes estrias negras; os flancos e os lados do corpo são uniformemente escuros, e o abdome e as coxas exibem barras pretas.
Distribuição e habitat
O gavião-pega-macaco tem ampla distribuição e ocorre desde o sul do México, na América do Norte, atravessa toda a América Central (Guatemala, El Salvador, Costa Rica, Honduras, Nicarágua, Belize e Panamá) e boa parte da América do Sul (Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Paraguai, Argentina, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Brasil). É uma das três espécies (as outras são o gavião-de-penacho e o gavião-pato) do grupo chamado águias-açores a ocorrer no Brasil e está distribuído em todo o território, exceto as regiões áridas do Nordeste e no Pampa do Rio Grande do Sul.
A espécie ocorre principalmente em terras baixas em florestas tropicais, embora possa ser encontrada em altitudes mais elevadas em algumas regiões. No México, atinge até mil metros na vertente atlântica e, localmente, até metros na vertente pacífica. Na Costa Rica, seu “centro de abundância” situa-se entre 200 e mil metros, embora possa ocorrer até metros. Na Colômbia, é registrada até 500 metros; na Venezuela, até metros; no Equador, até metros no leste e até metros no oeste; e, no Peru, localmente até metros.
Ecologia
O gavião-pega-macaco é o mais facilmente detectável entre os rapinantes de seu grupo, sendo frequentemente observado planando sobre a floresta durante as horas mais quentes da manhã, às vezes cruzando áreas abertas ou sobrevoando bordas de mata. Esses voos, que podem durar cerca de 10 minutos e alcançar grandes altitudes, parecem ter função de exibição e são acompanhados por batidas de asas lentas e vocalizações frequentes, retornando à mata ao final da exibição. Quando não está planando, permanece pousado no dossel da floresta, adotando uma estratégia de caça baseada na técnica de espera: move-se entre poleiros e, a partir deles, lança-se rapidamente para emboscar a presa. Ocasionalmente pousa em galhos mais baixos. Durante o período reprodutivo, realiza voos de exibição que incluem contato físico e manobras de capotamento. A espécie costuma ser observada sozinha, embora às vezes forme pares.
Vocalização
Foram registrados dois tipos de chamados de machos adultos. O primeiro é o vocal típico da espécie, com variações descritas por E. Willis como whit, whit whit wheeeeeer ou wheep-wheep-wheep-waHEEE-er, sendo claro, sonoro e com a última sílaba acentuada. O segundo é um assobio suave, ocasionalmente emitido próximo ao ninho, aparentemente em resposta a vocalizações da fêmea ou do filhote. Em uma ocasião, observei um macho emitir um som baixo pit pit quando empoleirado ao lado da fêmea antes da cópula. As fêmeas adultas apresentam três chamados distintos: um durante a cópula; outro semelhante ao assobio de mendicância dos juvenis (hui hui hui hui), emitido quando o macho se aproxima com presa, geralmente até que ele se afaste; e um terceiro, compartilhado com os machos, para defesa do ninho, descrito como pi-pii pit pit pi-pii, às vezes seguido de um huiiiiiio prolongado. Filhotes também emitem três vocalizações principais. O primeiro é um chamado alto e insistente de mendicância (hui hui hui hui), geralmente acompanhado de comportamento defensivo da presa quando o macho chega ao ninho. O segundo ocorre quando o macho se aproxima sem alimento, interpretado como desejo de que a fêmea deixe o ninho, uma vez que o filhote já se alimenta sozinho. O terceiro, descrito como pipipipi repetido, é emitido em contextos de estresse ou defesa, como durante a manipulação no ninho para marcação e medição.
Dieta
Embora leve e pequeno em comparação com outras águias, o gavião-pega-macaco é um poderoso predador que frequentemente caça presas relativamente grandes. Alimenta-se principalmente de grandes roedores, gambás e macacos, bem como, ocasionalmente, morcegos, pássaros e alguns répteis. As aves que captura podem ser bem grandes, como tucanos e Ortalis. Robinson (1994) registrou um gavião-pega-macaco capturando esquilos do gênero Sciurus a dois metros do solo. Há também registros de captura de pequenos pássaros como o bentevizinho-de-penacho-vermelho (Myiozetetes similis). Como a fêmea é maior que o macho, as presas capturadas por eles são de tamanhos diferentes, de modo que não competem entre si por comida, podendo permanecer na mesma área, o que facilita o encontro para o cruzamento. Funes et al. (1992) registraram 75 tipos de presas entregues a fêmeas e filhotes em dois ninhos no Parque Nacional de Tikal, Guatemala. Os pesquisadores descobriram que 68% das presas eram mamíferos (14 esquilos pequenos, oito gambás da América Central (Caluromys derbianus), um esquilo de tamanho médio e cinco mamíferos não identificados), 2,6% eram aves (duas aves não identificadas) e 29,3% eram presas não identificadas.