Dique do Tororó (comumente chamado apenas de Dique) é o único manancial natural da cidade de Salvador, no estado da Bahia, no Brasil, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. possui uma lagoa de 110 mil metros cúbicos de água. É delimitada, atualmente, pelo bairro do Tororó em sua margem esquerda; pelo do Engenho Velho de Brotas em sua margem direita; ao Norte, pelo bairro de Nazaré e pelo estádio Arena Fonte Nova; e, ao Sul, pelo bairro do Garcia.
É margeado pelas avenidas Presidente Costa e Silva e Vasco da Gama — que, ao Sul, convergem para a avenida Centenário e o Vale dos Barris.
Uma de suas principais características são as oito esculturas de orixás flutuando no espelho d'água. Elas foram instaladas em 1998 e são assinadas pelo artista plástico Tatti Moreno. Representam os orixás Oxum, Ogum, Oxóssi, Xangô, Oxalá, Iemanjá, Nanã e Iansã. À noite, possuem uma bela iluminação cênica.
O termo "Tororó" vem do tupi antigo tororoma, que significa "jorro" (de água).
É um "cartão-postal", atração turística e espaço de lazer em Salvador. Também é um lugar sagrado para o Candomblé, em que ocorrem práticas religiosas, geralmente associadas a Oxum, e, por isso, leva o nome de Bacia de Oxum.
História Os sistemas de diques em Salvador tiveram início com a invasão holandesa de 1624 na medida em que soldados da Companhia das Índias Ocidentais construíram o Dique Velho (ou Dique Pequeno) a partir de projeto do engenheiro e capitão Joos Coecke baseado no represamento do Rio das Tripas, dividindo as cumeadas dos atuais Largo do Pelourinho e Largo da Saúde. Com a finalidade de proteger o território recém-invadido, executaram a maior obra hidráulica do Brasil à época. Após a retomada luso-espanhola, o Governo-Geral do Brasil iniciou a construção do Dique Novo (ou Dique Grande) em 1642 com a exploração da mão de obra indígena. Sua concepção foi responsabilidade do engenheiro João Coutinho, que seguiu a escola holandesa de engenharia militar, criando fortificações a partir do represamento de corpos aquáticos, nesse caso, represando o Rio Lucaia (ou Urucaia). Com função defensiva, foi sendo erguido até meados do século XVIII para defesa complementar dos limites de Salvador. O dique delimitava as defesas do norte da Cidade Alta de Salvador, então capital do Brasil. O lago formado pelas águas represadas alcançava desde o Forte do Barbalho até o Forte de São Pedro. Em algum momento do século XVIII o Diques Pequeno e Grande se tocavam, como mostra a planta da cidade de Salvador feita pelo brigadeiro João Massé.
miniatura|direita|Vista aérea da região quando da demolição do Estádio Octávio Mangabeira em 2010, com o Dique à esquerda e a Baía de Todos-os-Santos no alto à direita
Na realidade, o primitivo dique constituía-se em uma ampliação do dique de defesa da Cidade Alta, executada durante o governo do vice-rei e capitão general de mar e terra do Estado do Brasil, dom Vasco Fernandes César de Meneses (1720-1735), dentro do plano de fortificação de Salvador. Esse projeto havia sido elaborado em 1714 pelo capitão de engenheiros francês João Massé, que, após as invasões do Rio de Janeiro por corsários franceses em 1710 e em 1711, por determinação do rei João V de Portugal (1705-1750), em 1712, passou com o posto de brigadeiro ao Brasil para examinar e reparar as fortificações daquele Estado. A concepção baseada na escola holandesa e a confusão com o Dique Velho fizeram algumas fontes atribuírem sua construção aos holandeses. Pesquisas em Haia e o mapa descoberto em 2022 revelaram a autoria de Coecke quanto ao Dique Pequeno, o verdadeiro dique holandês. A autoria holandesa do Dique do Totoró transformou-se em uma lenda urbana em Salvador, assim como a existência de azulejos cobrindo o leito aquático.
Por estar imediatamente fora do perímetro urbano ao longo do século XVIII, era uma área que escapava da fiscalização das autoridades coloniais. Isso permitiu a instalação de terreiros de candomblé nas redondezas, assim como a realização de encontros clandestinos e revolucionários preparatórios à Revolta dos Búzios, conjuração de 1798 contra o comando colonial português sobre a Capitania da Bahia. Similarmente, os aspectos naturais foram preservados até ser alcançado pela expansão urbana. A exuberância natural da região do Dique foi descrita em Viena como a "joia da Bahia" pelo então arquiduque Maximiliano da Áustria, que visitou seu primo, Pedro II do Brasil, e passou pela Bahia em 1860.
Apesar do propósito inicial militar, o lago do Dique passou a servir à pesca e à navegação. Em embarcações pequenas, pescadores não só obtinham peixes, como também transportavam pessoas entre as margens. Com o espelho-d'água em tamanho maior, sem os aterramentos que reduziram sua área, foi se formando uma rede de rotas fluviais estendidas inclusive pelo Rio Lucaia. Com o desenvolvimento urbano da cidade, assim como o Dique Velho foi aterrado, partes do Dique do Tororó deixaram de existir pelos aterros realizados. Na segunda metade do século XX, o processo de aterramento e urbanização do entorno do Dique do Tororó levou à diminuição no transporte de passageiros e em seu lugar foram surgindo os passeios turísticos.
miniatura|À noite, decoração natalina em 2007 O então vereador Jânio Natal propôs, em 1989, à Prefeitura de Salvador a transformação do Dique em área de lazer, com parque aquático, ciclovia, pedalinhos e restaurante. Dentro da Prefeitura, na então Secretaria da Infraestrutura Municipal, o engenheiro Robério Bezerra elaborou o projeto "Parque do Tororó" e apresentou ao prefeito Renan Baleeiro. As obras tiveram início na década de 1990, incluindo a despoluição. O peixamento das águas foi iniciado em 1997. Em 1998, foi finalizada a revitalização do Dique do Tororó pela Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (CONDER), o que incluiu a instalação das esculturas de orixás elaboradas pelo artista Tatti Moreno e a inauguração em 2 de abril de 1998 pelo então governador do estado Paulo Souto.
Em outubro de 2017, no Dique foram verificados níveis altos de fósforo e nitrogênio na água e um mau cheiro intenso, o que impediu a realização de rituais religiosos do Candomblé.
Conjunto escultórico do Parque do Dique do Tororó
O conjunto escultórico do Parque do Dique do Tororó foi criado pelo escultor Tatti Moreno e instalado em 1998. São oito esculturas de orixás no espelho-d'água do Dique e outras quatro nas margens. A quantidade e a seleção dos oito orixás decorreram de orientação dada por Mãe Cleusa de Nanã, do Terreiro do Gantois, a Moreno. Dois anos após o início da confeção daquelas oito, uma comissão da Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro (FENACAB) solicitou a concepção de outras quatro escultras de orixás para serem colocadas em terra, ao redor do lado.
No espelho do lago, formando uma roda, estão as estátuas de Oxalá, Iemanjá, Oxum, Ogum, Oxóssi, Xangô, Iansã e Nanã. Já nas margens do Dique estão as esculturas de Oxumaré, Ossaim, Logunedé e Ieuá. De propriedade do Governo da Bahia, as esculturas foram elaboradas com a laminação de fibras de vidro, com altura de 3,25 metros e diâmetro de 1,40 metro somados ao pedestal de 0,60 metro de altura e 2,50 metros de diâmetro.
As esculturas são associadas ao sincretismo religioso característico de Salvador, embora sejam representações de figuras especificamente do Candomblé. Nesse âmbito, o Dique constitui lugar sagrado e costuma ser referido como Bacia de Oxum. As doze esculturas fazem referência às práticas religiosas historicamente desenvolvidas naquele ambiente, que, muito embora não contenha todos os elementos como o Parque São Bartolomeu (isto é, cachoeiras, mata e flora extensa), geograficamente foi um ponto periférico na cidade ao longo do século XVIII, portanto, com menos perseguição religiosa, o que permitiu a fundação do Casa Branca do Engenho Velho nas redondezas do Dique e outros tantos terreiros subsequentes que tratam o Dique como sacro.
No entorno do Dique, na Praça Jardim das Rosas, há outro conjunto escultórico, feito de mármore branco e em pedra lavada, porém. São quatro esculturas de figuras femininas, originárias do século XIX e da Europa, com autoria desconhecida e em estilo neoclássico, pertencentes à Prefeitura de Salvador.
Cultura popular
Desde a época colonial, a população de Salvador tinha, por hábito, se abastecer nas águas do dique. Uma tradicional quadrinha, popular até os dias de hoje, canta: Eu fui ao TororóBeber água e não achei Encontrei linda morenaQue no Tororó deixei...
Já o historiador Olavo Rodrigues sustenta que a cantiga refere-se à Bica de Itororó, na cidade paulista de Santos.RODRIGUES, Olavo. Cartilha da História de Santos. Santos: 1980.
Ver também Lista de fortificações da Bahia Lista de acidentes geográficos de Salvador Apaches do Tororó Dique neerlandês de Salvador Tororó Fonte do Dique do Tororó Fonte do Vale do Tororó Arena Fonte Nova
Bibliografia
Ligações externas
Tororo Categoria:Acidentes geográficos de Salvador Categoria:Hidrografia de Salvador Tororo Categoria:Barragens da Bahia Categoria:Fundações no Brasil do século XVII