Afrociberdelia é o segundo álbum de estúdio da banda brasileira de manguebeat Chico Science & Nação Zumbi, lançado em 15 de maio de 1996. O álbum foi produzido por Eduardo BiD (seu primeiro trabalho nessa função) e gravado no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro.

Foi o último disco da banda com Chico Science, que morreria pouco menos de um ano após seu lançamento. Foi também o primeiro disco com Pupillo, que introduziu a bateria ao som grupo.

Foi situado em 18° lugar na lista de 100 melhores discos da música brasileira da revista Rolling Stone Brasil e em 2° na eleição dos melhores discos nacionais dos anos de 1990, realizada pelo site Scream & Yell.

Antecedentes e produção Em 1994, Chico Science se tornaria próximo a Eduardo Bid, guitarrista da banda Professor Antena, após um festival organizado pelo SESC Bauru que contaria com apresentações de suas respectivas bandas. Em um primeiro momento, Chico e Bid compuseram em parceria a faixa "Macô" e gravaram um cover de "Roda, Rodete, Rodeano", de Caju & Castanha.

Apesar de Da Lama Ao Caos ter sido um sucesso de vendas e na crítica, o trabalho de Liminha na produção do álbum foi questionado por uma parcela dos fãs que acreditavam que o disco não conseguiu trazer a verdadeira sonoridade da banda. Esta situação foi suficiente para que Chico Science chamasse Bid para produzir o próximo álbum da Nação Zumbi. Esta decisão contrariou os interesses da Sony Music, que pretendia contratar um produtor estrangeiro e experiente. Bid já era conhecido nacionalmente por tocar guitarra nos álbuns Humanos, da banda Tokyo, e Samba Pra Burro, do cantor pernambucano Otto, mas nunca havia trabalhado como produtor musical em um álbum completo. Além de "Macô", Bid consta como coautor de "Cidadão do Mundo".

Desde 1995, a banda também passou a contar com o baterista Pupillo, que permaneceu com o grupo até 2018. Para Afrociberdelia, o técnico de som G-Spot foi convidado para as gravações e mixagens por sua experiência com grupos de rap. Os membros da banda afirmaram preferirem a timbragem dos tambores em Afrociberdelia, que finalmente teria se aproximado do som que o grupo fazia nos palcos. A faixa "Macô" contou com a participação de Gilberto Gil e Marcelo D2, "Um Satélite na Cabeça" contou com os teclados de Marcelo Lobato, enquanto "Samba de Lado" teve o acréscimo de Fred Zero Quatro tocando cavaquinho.

Em 1994, Chico Science realizou um show ao lado de Jorge du Peixe, Dengue e da tecladista Stela Campos em homenagem à banda de pós-punk Fellini, a qual Science era fã. Após esta apresentação, a Nação Zumbi passou a planejar a inclusão de uma composição de Cadão Volpato para o seu próximo álbum. A faixa em questão seria "Criança de Domingo", gravada originalmente por Funziona Senza Vapore, projeto paralelo formado por membros do Fellini e Stela Campos.

A fim de garantir um hit, Jorge Davidson, diretor musical da Sony Music, sugeriu que a banda gravasse mais um cover, a canção Maracatu Atômico, originalmente lançada em 1974 por Jorge Mautner. Além da faixa, três remixes desta canção foram adicionados ao álbum como faixas bônus, sem o consentimento do grupo. As faixas Manguetown e Maracatu Atômico ganharam videoclipes dirigidos por Gringo Cardia e Raul Machado, respectivamente.

Conteúdo lírico Afrociberdelia, o título do álbum, é um neologismo composto pela aglutinação do prefixo "Afro" e das palavras "cibernética" e "psicodelismo", refletindo as muitas influências da banda, que ia de ritmos africanos a rock psicodélico e música eletrônica. A palavra já havia figurado numa faixa bônus do disco anterior: "Coco Dub (Afrociberdelia)", sendo ali descrita como "Imprevisibilidade de comportamento / O leito não-linear segue para dentro do universo / Música quântica".

No encarte original do disco, um texto do escritor e compositor paraibano Bráulio Tavares definia Afrociberdelia como "a arte de cartografar a Memória Prima genética (o que no século XX era chamado "o inconsciente coletivo") através de estímulos eletroquímicos, automatismos verbais e intensa movimentação corporal ao som de música binária."

Diferentemente do seu antecessor, todas as faixas de Afrociberdelia foram compostas em parcerias. As faixas lidam com temas pertinentes ao movimento manguebeat, incluindo a promoção da arte de Pernambuco, crítica aos modelos sociais vigentes e estímulo à "transgressão cultural e artística".

A faixa "Manguetown", que ganhou clipe dirigido por Gringo Cardia, retoma a ideia inicial do movimento Manguebeat de chamar a atenção para o dito "progresso" que levou Recife ao posto de "metrópole do Nordeste", destruindo parte dos mangues e dando início a um processo de gentrificação.

A letra de "Um Passeio no Mundo Livre" foi inspirada por um episódio em que os percussionistas Gilmar Bolla 8 e Gira, ambos negros, foram abordados por policiais na volta do estúdio. Foi vista como uma "reafirmação do compromisso sociopolítico do manguebeat em questionar problemas sociais que corrompem as cidades" e como uma obra sobre humanidade, liberdade, opressões e preconceitos.

"Macô" fala sobre o consumo de cannabis. O guitarrista Lúcio Maia afirma que a banda já buscava mencionar o uso de maconha em 1994, na faixa "A Praieira", mas o medo de enfrentar adversidades como as represálias que a banda Planet Hemp estava sofrendo fez com que Chico Science alterasse o verso para falar sobre cerveja. Para a gravação de "Macô" foram convidados o vocalista do Planet Hemp, Marcelo D2, e Gilberto Gil, que já havia sido preso por porte de maconha dem 1976.

Segundo um estudo de 2014 da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, as canções "Mateus Enter", "O Cidadão do Mundo" e "Etnia" (as três primeiras do disco) desarticulam ou afrouxam os nós da diferença colonial. Para isso, dialoga-se sobretudo com a compreensão de crioulização de Édouard Glissant (2005 e 2011), a qual trata do hibridismo a partir de uma perspectiva pós-colonial.

Recepção

A mistura sonora presente no álbum entre elementos do maracatu e do hip-hop foi novamente elogiada, sendo considerada a principal obra do movimento manguebeat e a responsável por colocar a Nação Zumbi em destaque no cenário musical. Afrociberdelia foi considerado menos coeso que seu antecessor, mas foi identificada uma melhora nos arranjos e na produção musical.

Chico Science e Nação Zumbi foram convidados a lançar o álbum internacionalmente pelo selo de David Byrne, Luaka Bop. Afrociberdelia chegaria ao disco de ouro em abril de 1997, dois meses depois da morte de Chico Science. Em outubro de 2007, a Rolling Stone Brasil incluiu o álbum no décimo oitavo lugar na lista dos 100 maiores discos da música brasileira.

Jorge Mautner, compositor de Maracatu Atômico, afirmou que ele e o coautor Nelson Jacobina se sentiram maravilhados e muito emocionados pela interpretação de Chico Science à sua música.

Legado Algumas canções, como "Manguetown" e "Macô" acabaram se tornando clássicos do grupo. No mesmo ano do lançamento do álbum, um remix de "Maracatu Atômico" pelo DJ Soul Slinger foi incluído na coletânea Red Hot + Rio, que se destina a promover a conscientização sobre a AIDS. A faixa "Sangue de Bairro" foi incluída na trilha sonora do filme Baile Perfumado. Além desta, foram incluídas no disco a faixa "Salustiano Song", presente em Da Lama Ao Caos, e a inédita "Angicos".

Em 2002, a faixa "Sangue de Bairro" foi regravada pelo grupo Soulfly e lançada em seu álbum 3.

Após Chico Science e Nação Zumbi, diversos artistas também regravaram "Maracatu Atômico", como Caetano Veloso, Emicida, Sergio Mendes, Zélia Duncan e Fatboy Slim. A música seria, ainda, performada por BNegão, Seu Jorge e Marisa Monte no encerramento dos Jogos Olímpicos de Verão de 2012. Em 2013, o clipe de "Maracatu Atômico" foi o último exibido pela MTV Brasil como canal aberto antes da conversão em um canal fechado.

Em 2016, a Nação Zumbi realizou uma série de shows em comemoração aos 20 anos do lançamento do disco. Nesta ocasião, as faixas "O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont" e "Baião Ambiental" foram apresentadas ao vivo pela primeira vez.

Faixas

A versão LP tinha apenas 13 músicas, começando em "O Cidadão do Mundo" e terminando em "Amor de Muito", omitindo as faixas entre "Sangue de Bairro" e "Criança de Domingo". Uma reedição em vinil pela Polysom em 2010 para a coleção "Clássicos em Vinil" incluiu as faixas "Mateus Enter" e "Sangue de Bairro" como primeira e oitava faixa do lado A, respectivamente. Afrociberdelia, de Chico Science, será relançado em vinil - Música - R7

Samples "O Cidadão do Mundo" "Bat Macumba" por Os Mutantes "Cuidado com o Bulldog" por Jorge Ben "Louvação" por Gilberto Gil

"Etnia" "Hold It Now, Hit It" por Beastie Boys (não creditado)

"Macô" "A Minha Menina" por Os Mutantes "Take Five" por Paul Desmond

"Manguetown" "Loose" por The Stooges (não creditado)

Ficha técnica Chico Science & Nação Zumbi Chico Science - voz Dengue - baixo, baixo fretless em "Um Passeio no Mundo Livre" e "Samidarish" Gilmar Bolla 8 - alfaia Gira - alfaia Jorge du Peixe - alfaia Lúcio Maia - guitarra, viola em "Criança de Domingo" Pupilo - bateria Toca Ogam - percussão e voz

Participações Especiais Fred 04 - cavaquinho em "Samba do Lado" Gilberto Gil - vocal em "Macô" Marcelo D2 - backing vocals em "Macô"

Músicos convidados Bidinho - trompete em "Etnia" e "Um Passeio no Mundo Livre"; flugelhorn em "Amor de Muito" Eduardo BiD - guitarra dub em "Etnia"; arranjos de metais Gustavo Didalva - percussão em "Samba do Lado" Hugo Hori - flauta em "Macô" e "Amor de Muito"; sax em "Etnia" e "Um Passeio no Mundo Livre" Lucas Santana - flauta em "Manguetown" Marcelo Lobato - teclados em "Um Satélite na Cabeça (Bitnik Generation)" Serginho Trombone - trombone em "Etnia", "Um Passeio no Mundo Livre" e "Amor de Muito"; arranjos de metais Tiquinho - trombone em "Etnia", "Um Passeio no Mundo Livre" e "Amor de Muito"

Produção musical Eduardo BiD - produtor Chico Science & Nação Zumbi - produtor G-Spot - gravação e mixagem Luis Paulo Serafim - gravação ("Maracatu Atômico") e mixagem ("Maracatu Atômico", "Um Satélite na Cabeça (Bitnik Generation)" e "Baião Ambiental") Mario Caldato Jr. - mixagem ("O Encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no Céu") Marcos "Golden Ears" Eagle - masterização Jorge Davidson - direção artística Ronaldo Viana - coordenação artística Paulo André Pires - produção executiva Andrea Alves - assistente de produção Heloisa Rodrigues - apoio à produção Jorge Maurell - apoio à produção Marcelo Seródio - apoio à produção Gravado no Estúdio Nas Nuvens, Rio de Janeiro-RJ, no verão de 1996; exceto "Maracatu Atômico", gravada no Estúdio Mosh, São Paulo-SP Mixado no Estúdio Mosh; exceto "Manguetown", mixada no Impressão Digital, Rio de Janeiro-RJ Masterizado na Cia. de Audio, São Paulo-SP

Produção gráfica H. D. Mabuse - projeto gráfico Vavá Ribeiro - fotografia Carlos Nunes - coordenação gráfica

Equipe Nas Nuvens Paulo Lima - direção técnica Bruno - assistente de estúdio Marco Aurélio - assistente de estúdio Renato Muñoz - assistente de estúdio

Equipe Impressão Digital Geraldo Tavares - direção técnica Marcelo "Load" Hoffer - assistente de estúdio Marcos Hoffer - assistente de estúdio

Equipe Mosh Osvaldo Malagutti Jr. - direção técnica Paula Gaio - programação Keko "Antroposófico" Mota - assistente de estúdio Rico "Suave" Romano - assistente de estúdio

Equipe Cia. de Audio Carlos Freitas Marcos Eagle Ricardo "Franja" Carvalheira

Certificações

Ver também Psicodelia Cibernética Manguebeat

Categoria:Álbuns de Nação Zumbi Categoria:Álbuns de 1996 Categoria:Chico Science Categoria:Álbuns em língua portuguesa