miniaturadaimagem|Texto na língua sidética, inscrito em placas de pedra, exibidas no Museu Arqueológico de Side, Turquia

As línguas anatólias (também conhecidas como anatólicas ou anatolianas) eram línguas indo-europeias outrora faladas na península da Anatólia, parte da atual Turquia. Atualmente, todas as línguas anatólias estão extintas, dentre elas, a língua melhor atestada é a língua hitita.

Origens

O ramo anatólio é geralmente considerado o mais antigo a se separar da língua proto-indo-europeia, a partir de um estágio também conhecido como indo-hitita, ou "proto-indo-europeu médio" e tipicamente presume-se que tenha ocorrido na metade do .

De acordo com a hipótese Kurgan ou estépica, há duas possibilidades de quando os falantes de anatólio poderiam ter alcançado a Anatólia: a partir do norte via Cáucaso, e a partir do oeste, via Balcãs.G. Steiner, The immigration of the first Indo-Europeans into Anatolia reconsidered, JIES 18 (1990), 185–214

No entanto, há outros linguistas, filólogos e arqueólogos, tais como Colin Renfrew e Allan Bomhard, que levam a hipótese duma terra de origem (Urheimat) para o proto-indo-europeu na península da Anatólia, pelo que naturalmente não presumem qualquer migração.

Há ainda um outro modelo que presume uma terra natal armênia, e teorizam uma migração direta a partir do leste, com a rota dos Balcãs sendo considerada de certa forma mais provável por Steiner (1990).

Características

A morfologia hitita e de outras línguas anatólicas é menos complicada do que outras línguas indo-europeias antigas registadas por escrito, mas, apesar disso, compartilham muitas semelhanças com o latim, o grego clássico, o sânscrito, o avéstico e o persa antigo. Tal característica pode ser interpretada ou como um arcaísmo ou como uma inovação, assim, algumas características indo-europeias ou desapareceram nas línguas anatólicas ou as outras línguas de outros ramos indo-europeus inovaram. Estas línguas contêm vários arcaísmos de grande importância.

Vocabulário

O vocabulário das línguas anatólicas era claramente indo-europeu e tinha uma morfologia e fonética mais arcaicos do que em relação a outros ramos. Por exemplo, em luvita ou lúvio o vocábulo para "ovelha" era hawi (conf. latim ovis) pelo que manteve um som laríngeo gutural que foi perdido pelas línguas de outros ramos indo-europeus. Outro exemplo é hanta ("ante", "diante"), que também manteve um som laríngeo gutural (conf. hipótese laríngea de Ferdinand de Saussure). Também há vocábulos para termos semelhantes que são cognatos com outros ramos, caso do hitita, mu (monte), parku (lugar alto) e kur (montanha) que são, respetivamente, cognatos com o latim mons/montem (monte), com o alemão berg (montanha), com o eslavo gora (montanha), e talvez com o grego oros (montanha). Tal tem sido interpretado como um arcaísmo (para além da morfologia ser foneticamente mais antiga, ex: p > b; k > g; a > e) pois são vocábulos cognatos com vários ramos linguísticos indo-europeus que estão presentes nas línguas anatólicas mas que não existem com tanta diversidade em outros ramos.

As línguas anatólicas também têm empréstimos de vocabulário de outras línguas quer indo-europeias quer não indo-europeias. Esses empréstimos são sobretudo de hatita (não confundir com o hitita ou nesita) e de hurrita, mas são em pequeno número e sobretudo referentes a termos especializados, caso, por exemplo, de libações e de teónimos, nomes de deuses e de deusas integrados no panteão dos povos anatólicos indo-europeus, tais como Texupe/Texube (um deus originalmente adorado pelos hurritas); a palavra hitita (nesita) para "trono" era de origem hatita.

Exemplos de vocabulário (em caso nominativo singular)http://humanities.uchicago.edu/orgs/xstar/eCHD/ - dicionário on-line de hititaAdams, D. Q.; Mallory, J. P. (1997). Encyclopedia of Indo-European Culture. London, Chicago: Fitzroy Dearborn Publishers.AAVV. (1977). "Anatolian languages" in The New Encyclopedia Britannica, in 30 volumes. Chicago, London, Toronto, Geneva, Sydney, Tokyo, Manila, Seoul: Encyclopedia Britannica, Inc. ISBN: 0-85229-315-1 Português Proto-Indo-Europeu Proto-Anatólico Hitita (Nesita) Luvita/Lúvio Pronomes Pessoais eu uk amu(k) mim ammuk tu zik (tsik) ti ti tuk ele/ela as, apas nós anzas (antsas) anunza (anuntsa) vós unzunz(a) (untsuntsa) eles/elas ata, apinzi (apintsi) Interrogativos quem kuis kuis o quê kuit kui Demonstrativos isto zas (tsas) aquilo apas Advérbios Afirmação sim Negação não natta nawa Interrogativos Tempo quando kuwati Lugar onde kuwar(i) Causa porque kuiza (kuitsa) Parentesco pai attas tatis mãe annis filho filha tuwatra irmão irmã marido zitis (tsitis) esposa Ser Humano humano zitis (tsitis) homem zitis (tsitis) mulher kuinna wanattis, wanas criança (menino/menina) nimuwizas (nimuwitsas)

Fonética

Em termos fonéticos, as línguas anatólicas pertenciam ao grupo centum (kentum) das línguas indo-europeias e não ao grupo satem. Estes dois grandes grupos só se referem à fonética e não à filiação, pois não significam um maior parentesco dos ramos linguísticos entre si (há ramos centum e satem mais aparentados entre si do que com outros ramos centum ou satem).

Tal significa que eram línguas que mantiveram o fonema "k" antes de determinadas vogais ou de uma semivogal, o que é um outro indício de arcaísmo.

Gramática

As línguas indo-europeias do ramo anatólico eram de estrutura gramatical flexionada com casos gramaticais indicados no sufixo dos vocábulos. Devido a essa característica, não utilizavam preposições ou artigos e a ordem das palavras na frase era bastante livre (mais livre do que nas frases das línguas de estrutura analítica), embora, na maior parte das vezes, a ordem fosse sujeito-objeto-verbo (sov).

Havia dois géneros gramaticais, o género animado ou comum e o género inanimado ou neutro, não havendo género masculino e feminino, ao contrário de outros ramos indo-europeus.

Tal característica tem sido interpretada por diversos linguistas e filólogos como um indício de arcaísmo pois, de acordo com estes, os géneros gramaticais masculino e feminino desenvolveram-se posteriormente em outros ramos linguísticos indo-europeus com base no género animado, enquanto o género inanimado deu origem ao género neutro em outros ramos da família indo-europeia.

Estrutura Gramatical

Línguas flexionadas sintéticas com uso de casos gramaticais, indicados por sufixos (i.e. no fim dos vocábulos), sem preposições ou artigos.

Casos gramaticais

Oito ou nove — nominativo, acusativo, genitivo, dativo, locativo (com tendência a fundir-se no dativo), caso alativo, ablativo e o caso instrumental. Há ainda vestígios de um nono caso gramatical, o vocativo (indicado por "u" no sufixo das palavras) , mas, quando estas línguas começaram a ser registadas por escrito, este caso já estava quase em desuso, por isso, era pouco utilizado.

Ordem das palavras na frase

Livre, mas era maioritariamente Sujeito-Objeto-Verbo (SOV).

Número gramatical

Singular Plural

Género gramatical

Animado (comum) Inanimado (neutro)

Verbo

Dois modos - Indicativo e Imperativo Dois tempos - Presente e Passado Duas vozes - Ativa e Passiva

Lista

Regiões do Oeste

pisida. O pisida é conhecido através de cerca de 30 inscrições, em escrita pisida, majoritariamente inscrições tumulares (estelas tumulares), datando de cerca de 100 a .

panfílio (cidade de Side). O sidético é conhecido através de 6 inscrições em escrita panfília, de cerca de 200 a .

lício, falado na Lícia na Idade do Ferro, descendente do luvita ou de uma língua parente, extinto por volta do , fragmentário. Esta língua é conhecida através de cerca de 200 inscrições, em escrita lícia, maioritariamente inscrições tumulares (estelas tumulares), de cerca de 500 a (séculos V e ).

cário, falado na Cária, atestado fragmentariamente de grafites feitos por mercenários cários no Egito a partir do . Extinto por volta do . Esta língua é conhecida através de cerca de 100 inscrições, maioritariamente em pedra, em escrita cária, de cerca de 500 a (séculos V e ).

miliano, (também pode ser um dialeto do lício) conhecida através de duas inscrições.

lídio, falado na Lídia, extinto por volta do , fragmentário. Esta língua é conhecida através de cerca de 100 inscrições, maioritariamente em pedra, mas também em moedas, em escrita lídia, de cerca de 500 a (séculos V e ).

Regiões do Sul

luvita ou luviano (luwili), um parente próximo do hitita falado nas regiões adjacentes às vezes sob controle hitita. Luvita cuneiforme, (escrito em escrita cuneiforme, neste caso é um silabário) é conhecido através de notas e pequenas passagens em textos hititas. Esta escrita, que regista a língua luvita, está atestada em vários milhares de tabuletas ou tabuinhas de argila e fragmentos de tabuinhas, de cerca de 1600 a (séculos XVI a ). Luvita hieroglífico, escrito em hieróglifos anatólios em selos e inscrições em pedra. Esta escrita, que regista a língua luvita, está atestada em várias centenas de inscrições, de cerca de 1300 a (séculos XIII a ).

Regiões do Norte

palaico ou palaíta, falado na Anatólia norte-central extinto por volta do , conhecido apenas fragmentariamente, por citações de orações em textos hititas. Esta língua é conhecida através de cerca de 200 inscrições (escritas em escrita cuneiforme hitita, neste caso é um silabário), em tabuletas ou tabuinhas de argila e fragmentos de tabuinhas, em escrita hitita (cuneiforme), datando de cerca de 1600 a (séculos XVI a ).

Regiões do Centro

hitita (nešili), atestada de c. 1650 a (séculos XVII a ), língua oficial do Império Hitita. Esta língua é conhecida através de mais de 30 mil tabuletas ou tabuinhas de argila e fragmentos de tabuinhas ou ainda em centenas de inscrições em pedra, em escrita cuneiforme hitita (era um silabário). Esta maior quantidade de inscrições conhecidas (que chegaram até à atualidade) faz da hitita a língua do ramo anatólico indo-europeu melhor atestada.

Também foi descoberta em 2023 uma nova língua do ramo anatólico, chamada de Kalašma (el).

Havia provavelmente outras línguas da família que não deixaram registros escritos.

Tal é o caso do isauro (falado na Isáuria, região de montanhas e de lagos do Sudoeste da Ásia Menor), do (falado na Licaónia, região do Centro-Sul da Ásia Menor), do ciliciano ou cilício (falado na Cilícia, região do Sul e Sudeste da Ásia Menor) e do cataónio (falado nas montanhas e nos planaltos a norte da Cilícia), isto na região do Sul da Anatólia.

Na região da Cária, no Sudoeste da Anatólia, há autores (tais como Heródoto) que referem a língua lelegue, falada pelos lelegues, mas não se sabe se era um dialeto do cário ou uma língua diferente. Estas línguas, faladas na Antiguidade Clássica, são, muito provavelmente, descendentes diretas não da língua luvita, como durante algum tempo se pensou, mas de uma língua antepassada comum com esta, por isso, estas línguas do Oeste da Anatólia parecem estar mais estreitamente relacionadas com a língua luvita do que com o palaico e o hitita.

Nas regiões do Norte e do Noroeste da Ásia Menor era falado o paflagónio, na Paflagónia, (provavelmente descendente direto do palaico ou palaíta). Na região do Noroeste da Ásia Menor, na região do sul do Mar de Mármara (antiga região da Propôntida) era falado o lutescano, o troiano, na Tróade e o mísio, na Mísia.

A filiação do mísio nas línguas anatólicas ainda não pode ser determinada, pois é possível que fosse uma parente mais próxima das línguas paleo-balcânicas, faladas na Península das Balcãs, (relacionada com o mésio, na Mésia) e menos com as da Ásia Menor. No entanto, também se pode verificar o contrário pois Heródoto afirmava que os mésios eram descendentes de uma migração de mísios para as Balcãs a partir do Noroeste e Oeste da Anatólia.

Na região do centro da Ásia Menor era falado o capadócio (provavelmente descendente direto do hitita), na região da Capadócia e do oeste do Ponto.

Possíveis línguas do ramo anatólico indo-europeu