A tipologia de Myers-Briggs, indicador tipológico ou ainda classificação tipológica de Myers-BriggsFábia Rímoli, Hades, o rei dos ínferos, in: (do inglês Myers-Briggs Type Indicator - MBTI) é um questionário autoaplicável de caráter introspectivo, com o objetivo de indicar diferentes preferências psicológicas na forma como as pessoas percebem o mundo ao seu redor e tomam decisões.
O MBTI foi desenvolvido por Katharine Cook Briggs e sua filha Isabel Briggs Myers, com base na teoria proposta por Carl Jung, segundo a qual os seres humanos experimentam o mundo por meio de quatro funções psicológicas principais: sensação, intuição, sentimento e pensamento.[ Página 34 em ] Em geral, uma dessas funções tende a predominar em cada indivíduo.
O MBTI foi elaborado para a população em geral e parte da ideia de que as diferenças entre as pessoas são naturais e têm valor. “A suposição básica do MBTI é que todos nós temos preferências específicas na forma como interpretamos nossas experiências, e essas preferências estão na base de nossos interesses, necessidades, valores e motivação.”
Apesar de bastante difundido no meio corporativo, o MBTI apresenta limitações psicométricas, em especial no que diz respeito à validade e à fiabilidade. As quatro escalas do MBTI mostram correlação com quatro dos cinco fatores globais de personalidade, que atualmente constituem um modelo mais amplamente aceito. A ferramenta é também alvo de críticas na literatura psicológica quanto à sua validade científica.
Introdução histórica Katharine Cook Briggs começou a pesquisar sobre personalidade em 1917. Ao observar diferenças marcantes entre o futuro genro e os demais membros da família, passou a ler biografias e desenvolveu uma tipologia com quatro temperamentos: meditativo (ou reflexivo), espontâneo, executivo e social.
Com a publicação, em 1923, da tradução inglesa de Tipos Psicológicos de Carl Jung (lançado originalmente em 1921), Briggs percebeu que a teoria junguiana era semelhante à sua, mas muito mais abrangente. Ela publicou dois artigos sobre a teoria de Jung na revista New Republic, em 1926 (“Meet Yourself Using the Personality Paint Box”) e 1928 (“Up From Barbarism”), e, depois de estudar amplamente sua obra, passou a buscar aplicações práticas para a teoria dos tipos psicológicos com sua filha.
Isabel Briggs Myers ampliou as pesquisas tipológicas da mãe, que acabaria assumindo integralmente com o tempo. Formada em primeiro lugar em sua turma no Swarthmore College em 1919, ela era autodidata em testes psicométricos, assim como Briggs. Para suprir essa lacuna de formação, Myers tornou-se aprendiz do executivo Edward Northup Hay, de quem aprendeu noções básicas de elaboração, correção e validação de testes, além de metodologia estatística.
Briggs e Myers começaram a criar o indicador durante a Segunda Guerra Mundial com a premissa de que o conhecimento das preferências de personalidade poderia ajudar mulheres que ingressavam na indústria a encontrar funções em que fossem mais eficientes. O Briggs Myers Type Indicator Handbook foi publicado em 1944, e o instrumento passou a se chamar “Myers-Briggs Type Indicator” em 1956. O trabalho de Myers chamou a atenção do Educational Testing Service, sob cuja chancela foi publicado o primeiro manual do MBTI em 1962, com apoio de pesquisadores ligados a instituições como a Universidade da Califórnia em Berkeley, a Michigan State University, a Auburn University e a Universidade da Flórida. A segunda edição do manual foi publicada em 1985, após a morte de Myers em 1980, e a terceira edição saiu em 1998.
Origens da teoria A teoria de tipos psicológicos de Jung não se baseou em estudos científicos controlados, mas em observação clínica e introspecção, métodos considerados inconclusivos na psicologia científica moderna.
Jung postulou a existência de quatro funções cognitivas (pensamento, sentimento, sensação e intuição), cada uma com uma de duas orientações polares (extroversão ou introversão), totalizando oito funções possíveis. O MBTI se baseia nessas funções hipotéticas, ainda que com algumas diferenças de expressão em relação ao modelo junguiano. Enquanto o modelo de Jung oferece evidências empíricas para três dicotomias, não está claro se Briggs e Myers dispunham de evidências para a preferência julgamento–percepção (J–P).
Diferenças em relação a Jung A principal contribuição de Myers e Briggs ao pensamento de Jung foi a ideia de que a quarta letra do tipo (J ou P) indica qual é a função extravertida preferida da pessoa, dominante nos tipos extrovertidos e auxiliar nos tipos introvertidos. Em contraste, Jung entendia que a função dominante atuaria sozinha na sua orientação preferida, enquanto as demais funcionariam em conjunto na orientação oposta.
Com base nos conceitos originais de Jung, Briggs e Myers desenvolveram sua própria teoria de tipos psicológicos, sobre a qual o MBTI se fundamenta. O psicólogo Hans Eysenck considerou o MBTI uma quantificação moderadamente bem-sucedida dos princípios junguianos apresentados em Tipos Psicológicos, mas criticou o fato de o instrumento omitir a parte do modelo que postula combinações inconscientes correspondentes às combinações conscientes, o que, segundo ele, dificulta a identificação direta entre o questionário e a teoria de Jung. Ambos os modelos são considerados hipotéticos, sem estudos controlados que validem nem o conceito original de tipo em Jung nem a variação proposta por Myers e Briggs.
Conceitos O Manual do MBTI afirma que o indicador "foi concebido para implementar uma teoria; portanto, é necessário compreender a teoria para compreender o MBTI". A base do MBTI é a teoria dos tipos psicológicos de Carl Jung, segundo a qual existem dois pares dicotômicos de funções cognitivas: Funções "racionais" (de julgamento): pensamento e sentimento Funções "irracionais" (de percepção): sensação e intuição
Jung defendia que, em cada pessoa, essas funções se expressam predominantemente em forma introvertida ou extrovertida. A partir desses conceitos, Briggs e Myers elaboraram uma sistematização própria de tipos, que é a base do MBTI.
Tipo O modelo tipológico de Jung compara o tipo psicológico à lateralidade manual: as pessoas nascem com, ou desenvolvem, maneiras preferenciais de perceber e decidir. O MBTI organiza algumas dessas diferenças em quatro pares opostos, ou "dicotomias", resultando em 16 tipos possíveis. Nenhum desses tipos é considerado "melhor" ou "pior"; Briggs e Myers, porém, propuseram que as pessoas tendem a preferir, de forma inata, uma combinação específica dessas preferências.
Os 16 tipos são designados por uma sigla de quatro letras, formada pelas iniciais de cada preferência de tipo (com a exceção da intuição, que usa a letra "N" para se distinguir da introversão). Por exemplo: ESTJ: extroversão (E), sensação (S), pensamento (T), julgamento (J) INFP: introversão (I), intuição (N), sentimento (F), percepção (P)
Essas abreviações se aplicam aos 16 tipos descritos pelo MBTI.
Quatro dicotomias + Carl Jung Subjetivo Objetivo Percepção Intuition/Sensing Introversion/Extraversion 1 Julgamento Feeling/Thinking Introversion/Extraversion 2
+ Myers-Briggs Subjetivo Objetivo Dedutivo Intuition/Sensing Introversion/Extraversion Indutivo Feeling/Thinking Perception/Judging Os quatro pares de preferências, ou "dicotomias", são mostrados nas tabelas ao lado.
Os termos usados em cada dicotomia têm significados técnicos específicos no contexto do MBTI, diferentes do uso cotidiano. Por exemplo, pessoas que preferem julgamento em vez de percepção não são necessariamente mais "julgadoras" ou menos "perceptivas", e o MBTI não mede aptidão; ele apenas indica preferência entre duas alternativas. As pontuações podem ser mais altas ou mais baixas em cada escala, mas Isabel Myers considerava mais importante a direção da preferência (por exemplo, E vs. I) do que sua intensidade. A expressão do tipo psicológico é entendida como o resultado da combinação e interação dessas quatro preferências.
Atitudes: extroversão/introversão A literatura do Myers-Briggs usa os termos extroversão e introversão tal como formulados por Jung: extraversion indica orientação para fora (pessoas, atividades, objetos) e introversion, orientação para dentro (ideias, reflexão).
Pessoas que preferem extroversão tendem a se energizar pela ação e pelo contato frequente com outras pessoas; períodos longos de inatividade ou isolamento podem levá-las a se sentir desmotivadas. Já quem prefere introversão tende a se recarregar em momentos de silêncio e recolhimento, e pode se sentir drenado por excesso de estímulos externos. Em termos gerais, extrovertidos costumam ser descritos como mais orientados à ação e à amplitude de contatos, enquanto introvertidos tendem a buscar mais profundidade e interações menos frequentes, porém mais substanciais.
Funções: sensação/intuíção e pensamento/sentimento thumb|Diagrama representando, de forma esquemática, as funções cognitivas associadas a cada tipo. Jung identificou dois pares de funções psicológicas: Funções de percepção: sensação (sensing) e intuição; Funções de julgamento: pensamento (thinking) e sentimento (feeling).
Sensação e intuição descrevem como as pessoas recebem e organizam informações. Quem prefere sensação tende a focar em dados concretos, detalhes e evidências acessíveis pelos sentidos, enquanto quem prefere intuição costuma dar mais peso a padrões, possibilidades e significados implícitos. Pensamento e sentimento, por sua vez, descrevem modos de chegar a decisões: a preferência por pensamento está associada a critérios como lógica, consistência e regras explícitas, ao passo que a preferência por sentimento enfatiza valores, impacto sobre as pessoas e busca de harmonia. Em todos os casos, o MBTI descreve estilos preferidos, e não capacidades “melhores” ou “piores” de pensar ou sentir.
Função dominante Segundo o modelo junguiano, todas as quatro funções são usadas, mas uma tende a ser mais consciente e desenvolvida (função dominante), apoiada por uma função auxiliar. A função menos desenvolvida recebe o nome de função inferior ou "sombra". No MBTI, essas funções são combinadas com as atitudes de extroversão e introversão para descrever padrões típicos de atenção e tomada de decisão.
Preferências de estilo de vida: julgamento/percepção Myers e Briggs acrescentaram ao modelo de Jung a distinção entre preferência por julgamento (J) ou por percepção (P) na forma de se relacionar com o mundo externo. Pessoas com preferência por julgamento tendem, em linhas gerais, a gostar de planejamento, estrutura e decisões mais definidas; já aquelas com preferência por percepção tendem a valorizar flexibilidade, abertura a novas informações e adiamento de decisões sempre que possível.
Para tipos extrovertidos, a letra J ou P indica qual função (de julgamento ou de percepção) é predominante na interação com o ambiente; para tipos introvertidos, a mesma letra indica qual função é mais visível externamente, ainda que a função dominante atue principalmente no mundo interno. Exemplos como ENTJ e INTJ são frequentemente usados na literatura para ilustrar essas combinações de funções e atitudes.
Formato e aplicação A versão atual em inglês norte-americano do MBTI Step I contém 93 itens de escolha forçada (88 na versão em inglês europeu), em que o respondente seleciona uma entre duas alternativas em cada pergunta. As opções foram elaboradas para refletir preferências opostas nas quatro dicotomias, e algumas questões podem ser deixadas em branco.
Após a aplicação, técnicas psicométricas, como a teoria de resposta ao item, são usadas para calcular as pontuações e indicar a preferência em cada escala, bem como o grau de clareza dessa preferência. Em geral, os participantes recebem um relatório com o tipo indicado e um índice de clareza, e são convidados a verificar se a descrição corresponde à forma como se percebem, em um processo chamado de “melhor ajuste” (Best Fit).