é um filme américo-brasileiro de 1985 do gênero drama dirigido por Hector Babenco e adaptado por Leonard Schrader através de um romance homônimo escrito por Manuel Puig. O filme é estrelado por William Hurt, Raúl Juliá e Sônia Braga, com José Lewgoy, Milton Gonçalves, Miriam Pires, Nuno Leal Maia, Fernando Torres e Herson Capri no elenco de apoio.
O filme estreou no Festival de Cannes de 1985, onde Willian Hurt ganhou o prêmio de Melhor interpretação masculina e Babenco sendo indicado para a Palma de Ouro, sendo posteriormente lançado nos Estados Unidos em 26 de julho de 1985 e no Brasil em 13 de abril do ano seguinte. O Beijo da Mulher Aranha recebeu elogios da crítica; com Hurt vencendo o Óscar e o BAFTA de Melhor Ator, além do filme ser nomeado ao Óscar de Melhor Filme (perdendo para Out of Africa). Em novembro de 2015, o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ocupando a posição de número 61.
Enredo
O filme conta a história do prisioneiro político de esquerda Valentín Arregui e Luís Molina, um homossexual efeminado condenado por "corrupção de menor". Os dois dividem uma cela numa prisão brasileira durante a ditadura militar.
Luís relembra, na prisão, um de seus filmes favoritos, um suspense romântico de guerra que também é uma propaganda nazista. Ele tece os personagens do filme numa narrativa que traz conforto a Valentín para distraí-lo da dura realidade da prisão e da separação de sua namorada Marta, a quem ele ainda ama. Valentín permite que Luís penetre sua autodefensiva intimidade e se abre para ele. Apesar de suas discussões sobre a política por trás do filme assistido por Luís, uma improvável amizade se desenvolve entre os dois prisioneiros.
À medida que a história se desenvolve, fica claro que Valentín está sendo envenenado pelos carcereiros para que ele revele o que sabe sobre o seu grupo guerrilheiro. Os agentes da prisão posteriormente prometem uma liberdade condicional a Luís desde que ele consiga arrancar informações de Valentín para as autoridades conseguirem capturar o grupo revolucionário.
Quando Luís se declara apaixonado por Valentin, uma relação sexual ocorre entre os dois na última noite de Luís na prisão. No dia seguinte, Luís é libertado pelos carcereiros, mas é espionado pelos agentes da polícia com o intuito de se descobrir algum paradeiro dos guerrilheiros; antes de sair da prisão, Valentin fornece a Luís um número de telefone e uma mensagem para ser passada aos seus camaradas. A princípio, Luís se recusa a aceitar a tarefa, mas ele cede, despedindo-se de Valentin com um beijo.
Agora fora da prisão, Luís liga para o número de telefone que Valentin lhe passara e marca uma reunião com o grupo revolucionário, mas a polícia secreta, que está o vigiando, surge no local do encontro, originando um tiroteio, com os revolucionários atirando em Luís. Enquanto ele vagueia pelas ruas do centro de São Paulo ferido, a polícia secreta o captura e exige o contato dos guerrilheiros, mas Luís se recusa a passar e morre sem falar uma única palavra. Por ordem do chefe de polícia, os policiais jogam o corpo de Luís em um depósito de lixo e inventam uma história sobre sua morte e sua suposta colaboração com o grupo revolucionário.
Na prisão, Valentín está sendo tratado no corpo médico da penitenciária após ser torturado. Um médico simpático arrisca seu trabalho, administrando-lhe morfina para ajudá-lo a dormir; durante o sono, Valentin sonha que está em uma ilha tropical idílica se encontrando com Marta.
Elenco
William Hurt como Luís Molina Raúl Juliá como Valentín Arregui Sônia Braga como Leni Lamaison / Marta / Mulher Aranha José Lewgoy como guarda Milton Gonçalves como policial Miriam Pires como mãe de Molina Nuno Leal Maia como Gabriel, amigo de Molina Fernando Torres como Américo Patricio Bisso como Greta Herson Capri como Werner Denise Dumont como Michelle Miguel Falabella como tenente Ana Braga como Lídia Antônio Petrin como Torto Wilson Grey como Fiasco Cláudio Curi
Produção Desenvolvimento Como observado na biografia de Puig em 2001, Manuel Puig and the Spider Woman: His Life and Fictions, seu romance El beso de la mujer araña havia sido proibido na Argentina e a edição traduzida para o inglês precedeu uma publicação generalizada em espanhol. O romance foi considerado para uma adaptação cinematográfica por vários diretores, incluindo Rainer Werner Fassbinder. Em 1981, o diretor argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco esteve em Los Angeles para receber um prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles por seu longa-metragem Pixote, a Lei do Mais Fraco; na recepção, o crítico do Los Angeles Times Kevin B. Thomas perguntou a Babenco sobre seus futuros projetos e o diretor mencionou seu desejo de adaptar o romance de Puig, inicialmente previsto para ser estrelado por Burt Lancaster. O ator estava presente no evento e Thomas o apresentou a Babenco.
Quando Lancaster manifestou interesse em atuar numa possível produção, Babenco prometeu enviar-lhe uma cópia do romance. Vários dias depois, o assistente de Lancaster telefonou para Babenco para garantir que El beso de la mujer araña fosse enviado via correio para o ator e o diretor o enviou imediatamente. Os dois se conheceram melhor nas próximas semanas na cerimônia de premiação do New York Critics e Lancaster se comprometeu com o papel de Molina.
Babenco conheceu o produtor americano David Weisman no início de 1982, através de um amigo em comum, para discutir a introdução do "realismo mágico latino-americano" no mainstream. Embora Lancaster tenha se apegado ao romance, dando-lhe uma maior possibilidade de comercialização do filme por sua fama, a narrativa não-tradicional do livro se tornou um desafio para o ator poder se adaptar, além de seu tema homossexual ser encarado como um obstáculo para atrair um público amplo; Babenco, uma vez radicado no Brasil, temia uma reação xenofóbica contra a produção de atores norte-americanos. Obstáculos adicionais à produção incluíram o antagonismo de Manuel Puig em relação a Babenco; o escritor não gostava de Pixote e suspeitava que o diretor fosse um "oportunista".
Pré-produção Babenco continuou a desenvolver a trama, apesar das dúvidas do autor, e atraiu potenciais investidores, incluindo o cineasta alemão Frank Ripploh. Richard Gere estava pronto para interpretar Valentin, aumentando ainda mais as expectativas em relação a um eventual sucesso comercial do filme. A socialite da cidade de Nova York Jane Holzer, que apareceu em vários filmes de Andy Warhol e era conhecida por David Weisman, concordou em financiar os custos iniciais de produção, e Leonard Schrader, que havia colaborado com seu irmão Paul Schrader em The Yakuza, foi contratado para escrever o roteiro. No entanto, Babenco permaneceu cauteloso em anglicizar o material de origem e ficou aliviado com a convocação do ator porto-riquenho Raúl Juliá, que substituiu Richard Gere.
Enquanto isso, circulavam rumores na imprensa de que Lancaster tinha uma notória propensão a se vestir como homossexual e Babenco tentou dissipar o escândalo no Festival de Cannes dizendo a um tabloide gay francês que ele não sabia que Lancaster era realmente homossexual quando foi escalado. Embora Babenco pretendesse sugerir que Lancaster não era gay e que sua orientação sexual nada tinha nada a ver com o envolvimento do ator com o filme, sua declaração foi tirada de contexto quando foi publicada e levou a uma investigação mais aprofundada da vida pessoal de Lancaster. Isso, junto com o avanço da idade de Lancaster e uma operação de ponte de safena feita por este em abril de 1983, atrasou a produção, e os cineastas decidiram investir em William Hurt para substituir Lancaster. Na manhã seguinte à aprovação de Hurt, Weisman e Babenco se encontraram com o produtor independente Ray Stark, cuja empresa, Rastar Productions, havia sido adquirida pela Columbia Pictures. Stark concordou em assumir o projeto naquele momento, embora tanto a Rastar quanto a Columbia não são creditadas na produção do filme.
O orçamento esperado para O Beijo da Mulher Aranha de US$ 1 milhão foi financiado em parte pela empresa estatal brasileira Embrafilme, que comprou direitos de distribuição no Brasil por US$ 160.000 na época. Outras despesas técnicas foram financiadas pela HB Filmes, de propriedade de Babenco, e os serviços internacionais de produção foram financiados pela Sugarloaf Films, Inc., de Weisman. A equipe do filme era majoritariamente brasileira, acompanhada por vários artesãos nascidos na Argentina; as filmagens ocorreram em uma penitenciária de São Paulo que havia sido desocupada anteriormente devido à rebeliões de detentos, além de outras sequências serem gravadas nos antigos estúdios da Vera Cruz, então abandonados.
Roteiro O cenário do filme foi transferido da Argentina para o Brasil, com o contexto político adicional da então ditadura militar brasileira. A história apresenta um "filme dentro de um filme", com o personagem Luis Molina dizendo episodicamente a Valentin Arregui o enredo de um fictício filme de ficção chamado "Her Real Glory" ("A Verdadeira Glória Dela" em português), produzido ostensivamente na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial pelos nazistas.
Enquanto o romance original faz alusão a cinco filmes, a adaptação cinematográfica se concentra em um único filme de propaganda nazista. A biógrafa de Puig, Suzanne Jill Levine, identificou o filme como uma compilação de várias produções sobre o Terceiro Reich como o estadunidense Paris Underground e o austríaco Die große Liebe, sendo o segundo um filme de Otto Preminger lançado em 1931 estrelado por Zarah Leander como uma cantora de cabaré que se apaixona por um tenente nazista alemão; Leander serviu de inspiração para Leni Lamaison, a personagem central do filme contado por Molina, que recebeu o mesmo nome da atriz de filmes-propagandas da Alemanha Nazista, Leni Riefenstahl.
Ensaio e filmagens Durante os ensaios preparatórios, Hurt e Juliá tiveram problemas para encontrar a química necessária para as cenas de seus personagens. Assim sendo, Hurt sugeriu que eles experimentassem trocar de papéis, com Hurt interpretando Valentín e Juliá interpretando Molina; a técnica deu tão certo que Hurt sugeriu a Babenco que os atores deveriam trocar de papéis nas filmagens do filme também. O diretor não aceitou a troca, mas Hurt disse que foi uma experiência muito útil e que isso ajudou os atores a entenderem mais sobre os próprios personagens.
A fotografia principal do filme teve início em 13 de outubro de 1983 em São Paulo, Brasil. Como Babenco não falava inglês fluente, Hurt tomou a direção dele através de um diretor assistente. Hurt e Julia concordaram em trabalhar seguindo a escala de remuneração da Screen Actors Guild e diferiram a maior parte de seus salários por uma participação nos lucros na venda dos direitos de distribuição do filme, bem como em suas bilheterias. Enquanto Babenco e Weisman também trabalhavam para o mesmo "plano de investimento diferido", outros atores, incluindo a atriz brasileira Sônia Braga, optaram por receber o pagamento antecipadamente. Ainda sobre Braga, a atriz não sabia falar inglês na época das filmagens e todas as suas falas tiveram que ser decoradas foneticamente. Durante as filmagens no Brasil, Hurt e um amigo foram sequestrados e ameaçados à mão armada, mas foram libertados várias horas depois.
Recepção Resposta crítica O Beijo da Mulher Aranha recebeu críticas positivas. O site agregador de críticas Rotten Tomatoes dá uma classificação de 86% de aprovação ao filme com base em comentários de 28 usuários.