Gastroenterite é uma inflamação do trato gastrointestinal que afeta o estômago e o intestino delgado. Os sintomas mais comuns são diarreia, vómitos e dor abdominal. Outros possíveis sintomas incluem febre, falta de energia e desidratação. Geralmente os sintomas manifestam-se durante menos de duas semanas. Embora por vezes seja denominada "gripe intestinal", a doença não tem relação com a gripe.

A gastroenterite pode ser causada por infeções por vírus, bactérias, parasitas ou fungos. A causa mais comum são vírus. Em crianças, o rotavírus é a causa mais comum dos casos graves da doença. Em adultos, os mais comuns são os norovírus e Campylobacter. A transmissão pode ter origem na ingestão de alimentos que não foram devidamente preparados, em beber água não potável ou pelo contacto direto com uma pessoa infetada. Geralmente não são necessários exames para confirmar o diagnóstico.

As medidas de prevenção incluem lavar as mãos com sabonete, beber apenas água potável, saneamento e amamentar os bebés em vez de usar fórmula infantil. Em crianças está recomendada a vacina contra rotavírus. O tratamento consiste na ingestão de líquidos em quantidade suficiente. Em casos ligeiros ou moderados, isto é feito com solução de reidratação oral, que consiste numa combinação de água, sais e açúcar. Em bebés a ser amamentados, está recomendado continuar a amamentação. Em casos mais graves pode ser necessária a administração de líquidos por via intravenosa. Os líquidos podem ainda ser administrados por uma sonda nasogástrica. Em crianças, está recomendada a suplementação de zinco. Geralmente não são necessários antibióticos.

Em 2015 ocorreram dois mil milhões de casos de gastroenterite que causaram 1,3 milhões de mortes em todo o mundo. A doença afeta sobretudo crianças nos países em vias de desenvolvimento. Em 2011, ocorreram cerca de 1,7 mil milhões de casos em crianças com menos de cinco anos de idade que causaram cerca de mortes. Nos países em vias de desenvolvimento, é frequente que as crianças com menos de dois anos contraiam seis ou mais infeções por ano. A doença é menos comum em adultos, devido em parte ao desenvolvimento de imunidade adquirida.

Sinais e sintomas

A gastroenterite manifesta-se normalmente através de diarreia e vómitos, e menos frequentemente através de apenas um dos sintomas. Podem também ocorrer cólicas abdominais. Os sintomas têm normalmente início entre 12 a depois de se contrair o agente infeccioso. Quando tem origem viral, a doença desaparece normalmente ao fim de uma semana. Alguns agentes virais podem estar na origem de sintomas associados como febre, fadiga, dores de cabeça e dores musculares. No caso das fezes conterem sangue, é pouco provável que a causa seja viral e muito provável que seja bacteriana. Algumas infecções bacterianas podem estar associadas a cólicas abdominais muito intensas e podem persistir por várias semanas.

As crianças infectadas por rotavírus recuperam normalmente após três a oito dias. No entanto, em regiões menos desenvolvidas onde o acesso a cuidados de saúde é difícil, é comum que a diarreia persista por um período de tempo maior. A desidratação é uma complicação frequente da diarreia, e crianças com um grau significativo de desidratação podem apresentar teste de re-enchimento capilar lento, turgor da pele reduzido e respiração anormal. No lactente a depressão da fontanela superior é um sinal precoce de desidratação. Em regiões sem condições sanitárias, é comum a ocorrência repetitiva de infecções, o que a longo prazo pode dar origem a desnutrição, crescimento deficiente e atraso cognitivo.

Cerca de 1% dos infectados com espécies de Campylobacter desenvolvem artrite reativa e 0,1% desenvolvem a síndrome de Guillain-Barré. As infecções por Escherichia coli ou espécies de Shigella, produtoras da toxina Shiga podem dar origem à síndrome hemolítico-urémico, que se manifesta pela baixa contagem de plaquetas, insuficiência renal e baixa contagem de glóbulos vermelhos. As crianças são mais predispostas a contrair a síndrome do que os adultos. Algumas infecções virais podem dar origem a convulsões epilépticas infantis benignas.

Causas As principais causas da gastroenterite são os vírus, em particular o rotavírus, e a espécie bacteriana E. coli e as espécies do género Campylobacter. Existem, no entanto, vários outros agentes infecciosos que podem causar a doença. São por vezes registadas causas não-infecciosas, mas são muito menos prováveis de ocorrer. O risco de infecção é maior em crianças devido à sua pouca defesa imunitária e relativa falta de higiene.

Viral Entre os vírus que se sabe estarem na origem da gastroenterite contam-se os rotavírus, os norovírus, os adenovírus e os astrovírus. Os rotavírus são a causa mais comum da gastroenterite em crianças, com taxas de incidência semelhantes nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Os vírus são responsáveis por cerca de 70% dos episódios de diarreia infecciosa em pediatria. O rotavírus é uma causa menos comum em adultos devido à imunidade adquirida ao longo da vida.

Os norovírus são a principal causa de gastroenterite entre adultos na América do Norte, sendo responsáveis por mais de 90% dos surtos. Este tipo de epidemias localizadas ocorre quando grupos de indivíduos passam tempo em relativa proximidade física, como em cruzeiros, hospitais ou restaurantes. Os indivíduos podem permanecer infectados mesmo depois da diarreia ter cessado. Os norovírus são também responsáveis por cerca de 10% das ocorrências infantis.

Bacteriana

Nos países desenvolvidos a principal causa de gastroenterite bacteriana é a Campylobacter jejuni. Metade destes casos estão associados com a exposição a aves de criação. Em crianças, as bactérias são responsáveis por cerca de 15% dos casos, sendo as espécies mais comuns a Escherichia coli, Salmonella, Shigella e a Campylobacter. Se determinado alimento for contaminado por bactérias e se se mantiver à temperatura ambiente durante várias horas, as bactérias não multiplicam-se e potenciam o risco de infecção dos eventuais consumidores. Entre os alimentos normalmente associados com a contaminação estão a carne, marisco e ovos crus ou mal cozinhados; rebentos crus; leite não pasteurizado, queijos moles, fruta e sumos de vegetais. Nos países em desenvolvimento, sobretudo na Ásia e na África sub-Sariana, a cólera é uma das principais causas de gastroenterite, sendo transmitida através da água ou alimentos contaminados.

O bacilo toxigénico Clostridium difficile é também uma das causas de diarreia, o que se verifica sobretudo em idosos. As crianças podem ser portadoras desta bactéria sem que manifestem sintomas. Causa também diarreia entre aqueles hospitalizados e é frequentemente associada ao uso de antibióticos. A diarreia causada por Staphylococcus aureus pode também ocorrer em consumidores de antibióticos. A diarreia do viajante é normalmente um tipo de gastroenterite bacteriana. Os medicamentos antiácidos aparentam aumentar o risco de infecção após exposição a uma série de organismos, entre os quais a Clostridium difficile e as espécies de Salmonella e Campylobacter. O risco é maior naqueles que tomam inibidores da bomba de protões do que nos que tomam anti-histamínicos H2.

Parasitas A gastroenterite pode ser provocada por uma série de protozoários, sobretudo pela Giardia lamblia, mas também por Entamoeba histolytica e pelas espécies de Cryptosporidium. No total, estes agentes são responsáveis por cerca de 10% dos casos em crianças. A Giardia é mais frequente nos países em desenvolvimento, mas este agente etiológico está na origem de infecções praticamente em qualquer região. É, no entanto, mais comum em pessoas que tenham viajado para regiões com grande prevalência do parasita, em crianças que frequentam jardins de infância, relações homossexuais e na sequência de desastres.

Transmissão A transmissão pode dar-se através do consumo de água contaminada ou da partilha de objectos pessoais. Em regiões com estações secas e chuvosas, a qualidade da água deteriora-se frequentemente durante a estação húmida, o que tem relação directa com a ocorrência de surtos. Em regiões de estações temperadas, as infecções são mais frequentes durante o Inverno. O uso de biberões com recipientes mal esterilizados é uma das mais significativas causas de transmissão a nível global. As taxas de transmissão estão igualmente relacionadas com maus hábitos de higiene, sobretudo entre crianças, em habitações sobrelotadas, e em indivíduos que apresentem já sintomas de má nutrição. Depois de desenvolverem imunidade, os adultos podem ser portadores de determinados patogéneos sem demonstrar quaisquer sinais ou sintomas, agindo como reservatórios de contágio. Enquanto que alguns agentes, como a Shigella, são exclusivos dos primatas, outros, como a Giardia, podem contaminar uma série de animais.

Não-infecciosa Existe uma série de causas não-infecciosas capazes de provocar inflamações do trato gastrointestinal. Entre as mais comuns estão: medicamentos como os anti-inflamatórios não esteroides, determinados alimentos como a lactose (naqueles que são intolerantes) ou o glúten (naqueles com doença celíaca). A doença de Crohn pode igualmente estar na origem de gastroenterites, por vezes bastante severas. Pode também verificar-se o aparecimento da doença como consequência de determinadas toxinas. Entre os sintomas relacionados com a ingestão de alimentos para além das náuseas, vómitos e diarreia estão: a intoxicação por ciguatera, em consequência do consumo de peixe contaminado; a intoxicação por tetrodotoxina associada à ingestão de tetraodontídeos; e o botulismo associado à conservação imprópria da comida.

Fisiopatologia A gastroenterite define-se pela manifestação de vómitos ou diarreia causados pela infecção do intestino delgado ou grosso. As alterações no intestino delgado normalmente não são inflamatórias, enquanto que as do intestino grosso são. O número de patogénios necessários para iniciar uma infecção varia entre apenas um (no caso da Cryptosporidium) e 108 (no caso da Vibrio cholera).

Diagnóstico A gastroenterite é diagnosticada clinicamente com base nos sinais e sintomas do paciente. Normalmente, não é necessária a determinação exacta da causa, já que não influencia o tratamento ou a gestão da doença. No entanto, devem ser feitos exames às fezes quando se verifique sangue nas mesmas, quando se suspeite de intoxicação alimentar e em indivíduos que tenham viajado recentemente para países em desenvolvimento. Podem também ser feitos exames de diagnóstico durante a fase de monitorização da doença. Uma vez que cerca de 10% das crianças sofre de hipoglicemia, recomenda-se que para este grupo sejam verificados os níveis de glicose no soro. Caso haja suspeitas de desidratação severa, devem ser analisados os níveis de eletrólitos e de creatinina.

Desidratação Uma das parte importantes na avaliação é determinar se a pessoa sofre ou não de desidratação, sendo esta normalmente dividida em três graus: leve (3-5%), moderada (6-9%) e grave (≥10%). No lactente o sinal mais precoce de desidratação é a depressão da fontanela superior e a reposição de líquidos é uma urgência pois a desidratação pode ser letal em 24 horas num lactente. Em crianças, os indicadores mais precisos de desidratação moderada ou grave são o enchimento capilar lento, turgor da pele reduzido e respiração acelerada. Outros sintomas complementares, eventualmente úteis quando conjugados com os anteriores, incluem a enoftalmia, pouca actividade, ausência de lágrimas e boca seca. Um fluxo urinário normal e a capacidade de ingestão de líquidos por via oral sem os vomitar de imediato são sinais tranquilizadores. Os exames laboratoriais são de pouca ou nenhuma utilidade para se determinar o grau de desidratação.

Diagnóstico diferencial