Antropologia da imagem ou antropologia visual e da imagem é um ramo da antropologia cultural, aplicada ao estudo e produção de imagens, nas áreas da fotografia, do cinema ou, desde os meados dos anos 1990, nos novos media utilizados em etnografia.

A antropologia cultural, a par da antropologia física (estudo do Homem biológico e da sua evolução), é uma subdivisão da antropologia, enquanto ciência geral do Homem. É, simultaneamente, uma reflexão sobre a utilização das novas tecnologias da imagem, com efeitos semelhantes aos que foram causados pelos processos de gravação e reprodução fonográfica na etnomusicologia.

Envolve também o conceito o estudo antropológico da representação visual, O estudo da Imagem Fotográfica na Antropologia Visual – ensaio de Ana Sofia Caldeira, Universidade Nova de Lisboa, 2013 no ritual, no espetáculo, no museu, na arte ou na produção ou receção dos meios de comunicação de massa, os media. Aplica-se a designação para exprimir a ideia de observação do real pela imagem, tida como mais “fiel” do que a palavra ou o discurso ou como prova objetiva de determinado evento ou realidade.

No fundo, o conceito de antropologia visual, embora se restrinja às aplicações que se usam nos métodos da ciência, no sentido lato é uma questão central que surgiu desde que o Homem é homem : no momento em que resolveu representar-se a si próprio pela imagem.

200px|thumb|direita| Walter Baldwin Spencer

Desenvolvimento Antes de a antropologia surgir enquanto disciplina académica, certos etnógrafos usaram a fotografia como ferramenta de pesquisa. Podemos assim considerar como precursores da antropologia visual Walter Baldwin Spencer e Rudolf Poch,Fotografia nas Ciências Sociais: Um pouco de história, esclarecimentos e de orientações para o seu uso como linguagem – artigo de Carlos Recuero em Academia.euFatimah T Rony, (1966) que pela primeira vez utilizaram a máquina fotográfica nas suas expedições, retratando os hábitos de aborígenes para a criação de arquivos na Alemanha e que logo se aperceberam das distorções de comportamento das pessoas representadas, distorções essas derivadas da simples presença de um fotógrafo e da sua ferramenta, a câmara fotográfica.

Cultivam a antropologia visual, cada um a seu modo, Robert Flaherty (cineasta e não cientista, mas inspirador do movimento), Margaret Mead, Gregory Bateson, Marcel Griaulle, Germaine Dietrerlen, Jean Rouch, este numa perspetiva menos convencional, misturando documentário etnográfico e ficção (etnoficção) em muitas das obras etno-cinematográficas que realiza, abrindo novas portas à pesquisa antropológica e à modernidade do cinema em novas áreas. Há imagens (sempre as houve) em que o real se transfigura em arte, ao pôr a nu a beleza da verdade.A antropologia e o cinema – artigo de Tiago Resende em Cinema, sétima arte, 27 de janeiro 2013Antropologia e práticas artísticas em Portugal – artigo de Sónia Almeida em Journals Open EditionAntropologia visual, práticas antigas e novas perspectivas de investigação – paper de José da Silva Ribeiro na Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 2005, V. 48 Nº 2.,

Marcel Mauss (1872 - 1950), no seu Manual de Etnografia (1947),Manual de Etnografia de Marcel Mauss refere o uso da fotografia entre os métodos de observação no trabalho de campo. Destaca o valor da fotografia aérea, como auxiliar da cartografia e o recurso à teleobjetiva para se evitar o efeito de pose (a postura artificial da pessoa fotografada). Recomenda também o uso da documentação fotográfica para registo de objetos com interesse etnográfico e evita o recurso excessivo a imagens fotográficas sem registo detalhado (hora, local, distância, etc.) e sem que sejam descritas as circunstâncias da utilização de tais objetos. Insiste sobre a necessidade de comentar cada foto e de incluir todas elas num diário de campo.Diário de campo – conceito Nessa perspetiva, merece ser destacada a qualidade dos registos e anotações de Bronisław Malinowski (1884 - 1942) no trabalho de pesquisa que fez sobre os nativos dos arquipélagos da Nova Guiné e Melanésia.

Numa perspetiva mais recente, cabe aos antropólogos destacar as contribuições de real valor etnográfico dentro da profusão de imagens da época em hoje vivemos, perante o evoluir dos meios de comunicaçãoImagem e tecnologias visuais em pesquisa social: tendências e desafios – artigo de Ricardo Campos, Análise Social, vol. XLVI (199), 2011, 237-259Antropologia dos Media: perspectivas e leituras – artigo de Sónia Ferreira, FCSH – Universidade Nova de LisboaSobre o lugar e os usos das imagens na antropologia: notas críticas em tempos de audiovisualização do mundo - Etnográfica vol.17 no.2 Lisboa, junho. 2013, em Scielo Portugal tal como convém ser feito por exemplo na análise do trabalho resultante das expedições etnográficas de pintores e desenhadores naturalistas, tais como John Webber ( 1751- 1793 ), Jean-Baptiste Debret (1768 – 1848), Rugendas (1802 - 1858). A propósito desses documentaristas historiadores disse Etienne Samain o seguinte: " (...) sabemos, antes de mais, que abundam investigadores sem formação antropológica consistente que, mau grado a sua incipiência, se lançam de corpo e alma na aventura visual antropológica, deitando a mão a toda a tralha audiovisual. São empreendimentos generosos, é claro, mas logo nos dececionam, ou porque não sabem discernir suficientemente bem o que vislumbram ou porque se excedem na economia da complexidade dos factos antropológicos que pretendem registar"A fotografia nos anos 40, 50 e 60, Marcos Fernandes, Arquivo Municipal de LisboaAntropologia visual, práticas antigas e novas perspetivas de investigação – artigo de José da Silva Ribeiro, Revista de Antropologia, vol.48 no.2 São Paulo Julho//Dezembro 2005Imagens que pensam, que sonham, que sentem. Uma proposta ousada?, Galaxia, (São Paulo, Online), n. 25, p. 211-216, jun. 2013

Jean Rouch, criador da antropologia visual 200px|thumb|direita|Marcel Mauss Um dos temas maiores da moderna antropologia é o estudo de personagens míticos ou reais que encarnam valores da civilização. Certos desses valores foram estudados por Marcel Mauss. No seu livro Ensaio sobre a DádivaEnsaio sobre a dádiva de Marcel Mauss – texto original : Essai sur le don. Forme et raison de l'échange dans les sociétés archaïques argumenta que as sociedades rurais (como as retratadas em alguns dos filmes portugueses dos anos sessenta e setenta do século XX, em particular na região de Trás-os-Montes) praticam «(…) antigos sistemas de troca centrados na obrigação de dar, de receber e sobretudo em práticas recíprocas» (…) Assim pensando, Mauss recusa a tradição inglesa do pensamento liberal, como o utilitarismo, enquanto distorções das práticas humanas de troca, que desde sempre se praticam.A sociologia de Marcel Mauss: Dádiva, simbolismo e associação – ensaio de Paulo Martins, Revista Crítica de Ciências Sociais, 73, dezembro 2005: 45-66 Por esse motivo exclui implicitamente as sociedades mercantis do campo de estudo da antropologia cultural.

No caso da antropologia visual a questão põe-se de outro modo visto ter começado a ser praticada uns anos depois do final da Segunda Grande Guerra Mundial, ensaiando práticas inovadoras durante o seu rescaldo, numa Europa em convulsão. É na França do pós-guerra que Jean Rouch realiza o primeiro filme desse género, Chronique d'un été (Crónica de um Verão), corealizado com Edgar Morin, em 1961.Crônica de um verão – artigo de Frederico Cabala em CinemascopeJean Rouch and the Birth of Visual Anthropology: A Brief History of the Comité international du film ethnographique – artigo de Luc de Heusch, 21 de setembro, 2007Between the sensible and the intelligible: anthropology and the cinema of Marcel Mauss and Jean Rouch – artigo de Ruben de Queiroz

300px|thumb|direita|Germaine Dieterlen 300px|thumb|direita|Jean Rouch

Aluna de Marcel Mauss tal como Rouch, sua companheira nas incursões africanas com Marcel Griaule, Germaine DieterlenMarcel Maus revisitado: o homem e seu tempo – artigo de Airton Cavenaghi é uma das figuras maiores da moderna antropologia cultural, com ensaios cautelosos na antropologia visual. Foi professora nessa área na École pratique des hautes études (Escola Prática de Altos Estudos). Trabalhou sob a orientação de Mauss no estudo dos Dogons e dos Bambaras juntamente com Marcel Griaule, Jean Rouch, Solange de GanaySolange de Ganay – biografia em francês e Denise Paulme.Denise Paulme. Les Gens du Riz (The Rice People) – referência em inglês Centrou-se em particular na investigação com Griaule do estudo das noções de realeza sagrada, do papel do primogénito na família, do parentesco entre tios maternos e sobrinhos, da divisão do trabalho, do estatuto do manda-chuva na sociedade. Fez um trabalho exaustivo sobre as cerimónias do Sigui,País Dogon: a origem da vida nas escarpas de Bandiagara – artigo em UOL ciência que culminou na obra monumental Le renard pâle (O Raposo branco), uma das figuras prediletas do endiabrado Rouch, que não resiste a identifica-se com ele.A outra face do espelho.Jean Rouch e o “outro” – artigo de Ricardo Costa na página da UBI, 11 de março 2000

Sendo cada episódio deste ritual encenado apenas de sessenta em sessenta anos, levaram os estudos de Dieterlen sobre o ciclo de Sigui a que qualquer dogon se desse conta que durante a toda a sua vida a cerimónia a que assistia era apenas um pequeno episódio de um evento intemporal, num ciclo de eterno retorno.Mircea Eliade – biografia O que neste caso está em causa é o significado de sociedade arcaica, designação proveniente do pressuposto de “sociedades baseadas na oralidade, não dotadas de práticas de escrita e de técnicas modernas; daí a expressão de arcaicas.” Sociedade primitiva – artigo na Infopédia Noutra perspetiva, está em causa o pensamento ocidental, decorrente da crença na superioridade do cristianismo: outro pressuposto contrariado pelo facto de os mitos dogons da criação do mundo por AmmaAmma – artigo na Enciclopédia britânicaA Filosofia dogon e a origem do mundo – artigo em Afreaka estarem inscritos em mitos africanos primordiais, que estão na raiz também das crenças cristãs da existência de um Deus único e todo poderoso.Mitologia na Enciclopédia britânicaMito na Infopédia

Estuda a antropologia a condição do Homem numa perspetiva diacrónica e arcaica da História, enquanto a sociologia o faz numa perspetiva sincrónica e moderna, “em função do meio e os processos que interligam os indivíduos em associações, grupos e instituições”.Sincronia e diacronia – nota explicativa

Antropologia visual no Brasil

Fundamentos No Brasil,A Antropologia Visual no Brasil – artigo de Clarice Peixoto, Cadernos de Antropologia e Imagem n. 1, 1995, p. 75-80 entre os precursores desta ciência, não podemos deixar de apreciar a beleza e perfeição técnica da obra de Marc Ferrez (1843 - 1923) e, mais recentemente, do também franco-brasileiro Pierre Verger (1902 - 1996).

O primeiro era filho dos franceses Alexandrine Caroline Chevalier e de Zéphyrin Ferrez, gravador de medalhas e escultor, membro da Missão Artística Francesa, homónimo do tio e escultor Marc Ferrez, participante nessa mesma missão, que retratou cenas dos períodos do Império e início da República do Brasil, entre 1865 e 1918. Poderia ser considerado um pioneiro da Antropologia Visual brasileira. Não sendo essa a sua vocação, por influência da sua época. Naturalista, historiador e, mais que tudo fotógrafo, deixou um legado sobre a vida urbana, rural e selvagem do Brasil, que nos obriga a uma reflexão sobre a antropologia e a história. Destaca-se no trabalho que fez a identificação das etnias formadoras, do processo histórico da colonização e, por força de sua inserção social enquanto documentarista do governo, a sua aptidão em captar o progresso e o avanço tecnológico de seu país.