Francisco Barreto (Faro, 1520 – Sena, 9 de julho de 1573) foi um militar português que se distinguiu pela expedição militar que comandou tendo como alvo as minas do Império Monomopata.
Biografia Era filho segundogénito de Rui Barreto, alcaide-mor de Faro e de sua mulher Branca de Vilhena, da casa dos Melos alcaides de Olivença.
A sua linhagem tinha-se distinguido por gerações na defesa do Algarve, desde que o seu antepassado Gonçalo Nunes Barretto assumira o cargo de alcaide de Faro e comandante militar do Algarve. O seu irmão mais velho, Nuno Rodrigues Barreto herdou o cargo de alcaide de Faro e as propriedades da família na Quarteira. Como filho segundo, sem herança, Francisco Barreto seguiu a carreira militar, embarcando para a Índia em 16 de novembro de 1547, no comando de uma pequena frota, com o propósito de, como mais tarde escreveria em carta a D. João III, "criar uma reputação entre os nobres, de forma a melhor servir sua Majestade".
Mais tarde, em 1552, foi enviado para Cochim a fim de controlar o comércio da pimenta que a guerra impedia de ser embarcada nas naus portuguesas.
Em 16 de Junho de 1555 assumiu o cargo de 18.º Governador da Índia, em substituição de D. Pedro Mascarenhas, entretanto falecido.
Incêndio da Armada
Governador da Índia No seu governo na Índia, opôs-se à aplicação plena das políticas da contra-reforma, como se pôde observar no seu apoio à comunidade hindú de Goa, na sua resistência a políticas eclesiásticas persecutórias e, antes da chegada da Inquisição a Goa, na não aplicação de medidas contra as comunidades judaicas e cristãs-novas de Cochim e de Goa.
Manteve-se no cargo até setembro de 1558, partindo de Cochim, em viagem de regresso ao reino, a 28 de janeiro de 1559, pretendendo chegar a Portugal ainda nesse ano.
A sua viagem foi porém extremamente acidentada, só tendo conseguido chegar a Lisboa muito mais tarde, devido a contratempos de toda a ordem. Em abril, foi forçado a parar em Moçambique, para reparar o seu navio. Depois de ter conseguido pagar todas as despesas das reparações, bem como a manutenção dos fidalgos que o acompanhavam, seguiu viagem em novembro; mas um segundo naufrágio obrigou-o a voltar a Moçambique. Comprou um novo navio e dirigiu-se de regresso a Goa, não sem primeiro, confirmando a sua reputação de gostar de extravagâncias, percorrer a costa suaíli na procura de um animal exótico, que pudesse oferecer de presente ao rei D. Sebastião.
Quando finalmente chegou a Goa, em maio de 1560, foi entusiasticamente recebido pelos fidalgos que compunham o séquito do novo vice-rei, D. Constantino de Bragança. Teve também a honra de ser convidado para padrinho cristão de dois renomados médicos hindus. O vice-rei teve em conta os desastres que haviam assolado a sua viagem e ofereceu-lhe a quantia de 4 mil pardaus, bem como um novo barco para poder seguir, finalmente, até Portugal.
A 20 de dezembro partiu para Lisboa, onde chegou a 13 de junho de 1561, ou seja, quase três anos após a sua primeira partida de Cochim.
Foi recebido com grande entusiasmo, pois anos sem qualquer notícia a seu respeito tinham criado em Portugal a convicção de que havia falecido entretanto.
A regente na menoridade de D. Sebastião, Catarina de Áustria, recebeu-o "com muitas honrarias, não só pela qualidade e valor da sua pessoa, como também pelos muitos serviços que havia prestado aos reis de Portugal". Na ocasião, Barreto ofereceu à rainha uma jóia do Ceilão português, com fama de fazer milagres, que D. Catarina apreciou ao ponto de passar a usá-la sempre.
A expedição ao Monomopata Em Portugal foi nomeado general das galés do reino até 1569, ano em que foi enviado para Moçambique como governador de Monomotapa para conquistar as minas de ouro.
O rei D. Sebastião solicitou um parecer prévio sobre a expedição à Mesa de Consciência e Ordens, onde os jesuítas tinham grande influência, que emitiu uma opinião de carácter vinculativo.
Nele se estipulava que o principal objetivo deveria ser a evangelização do Monomotapa, além de procurar fazer justiça ao assassínio do missionário português Gonçalo da Silveira, vitimado no Monomopata anos antes. A Mesa de Consciência estipulou que Portugal teria legitimidade para declarar guerra ao imperador do Monomotapa Negomo, se este não aceitasse cumprir quatro condições, a saber: expulsão dos muçulmanos da sua corte, entrega dos responsáveis pelo assassinato de Gonçalo da Silveira, reconversão do soberano à fé católica, que havia entretanto abjurado, e entrega aos portugueses de terras, tributo e ouro, em compensação pelos custos da expedição.
O parecer da Mesa de Consciência foi incorporado na ordem régia e Barreto recebeu ainda um regimento (que detalhava essa ordem), cujo conteúdo se perdeu. Pairando sobre tudo, havia o objetivo de encontrar minas de ouro, que pudessem ajudar a resolver as dificuldades financeiras da coroa.
A jornada de Francisco Barreto ao Monomotapa é vista como a primeira grande expedição organizada ao interior de Moçambique, no século XVI. miniaturadaimagem|Francisco Barreto, no Livro de Lisuarte de Abreu Partiu de Lisboa em 16 de abril de 1569, à frente de uma frota de três navios e mais de mil homens "entre os melhores do reino", comandando o seu próprio barco. Com as outras duas embarcações, comandadas por Lourenço de Carvalho e Vasco Fernandes Homem, logo perdeu contacto, o que o forçou a fazer uma escala de vários meses na Baía, onde chegou a 5 de agosto de 1569. Tinha 637 homens no seu barco, dos quais 60 resolveram ficar no Brasil. Muitos dos seus homens chegaram doentes, tendo Barreto assumido o encargo do seu tratamento.
Na Baía recebeu a notícia de que sua mulher, D. Brites de Ataíde, havia falecido dois dias após a sua partida de Portugal. Ficou profundamente abalado, tendo passado vários dias em reclusão, para ultrapassar o choque emocional. Recomposto, recrutou mais soldados e suprimentos, como madeira e outros materiais, que calculou fossem necessários para a sua expedição africana. Prosseguiu a viagem só em janeiro de 1570, tendo chegado a Moçambique com a sua frota em maio do mesmo ano.
Antes de se dirigir ao Monomotapa, Francisco Barreto decidiu-se por uma expedição à costa Suaílí (Zanguebar), a fim de cobrar pagamentos devidos pelos potentados locais e ainda obter suprimentos e madeira para os seus barcos.
Acabou por só partir para o Monomopata em 4 de novembro de 1571 e navegando o rio Zambeze chegou à vila de Sena - então um importante centro de comércio, sob a chefia de um governante muçulmano - no Natal desse ano, à frente de uma força de cerca de 700 homens. Lá começou a construção de um forte, denominado São Marçal, mas logo se deparou com múltiplos problemas. A estação do ano era a pior para as doenças tropicais, para as quais as tropas portuguesas não estavam preparadas; e Barreto logo teve que enfrentar a morte do seu filho e de mais 80 soldados, pouco após a sua chegada.
Foi também pressionado pelos jesuítas que o acompanhavam a vingar a morte de Gonçalo da Silveira, com repressão generalizada à comunidade muçulmana. Acabou por ceder a essas pressões e após oito meses em Sena, com suas tropas sofrendo de malária, decidiu partir para Tete, a fim de combater um povo local, os Samungazi, renomados guerreiros, apelidados de "Turcos de Itália" pela sua eficácia em combate.
Os Samungazi eram acusados de ter massacrado comerciantes portugueses. Depois de várias batalhas mortíferas (perdeu mais de 40 homens, além de muitos feridos, com as baixas nos inimigos calculadas na faixa dos milhares) mas no final inconclusivas, em que conseguiu compensar a inferioridade numérica portuguesa com o uso decisivo de arcabuzes e artilharia, regressou a Sena. Porém, em novembro de 1572, teve que voltar à ilha de Moçambique, para enfrentar uma rebelião do comandante por ele designado para a fortaleza, António Pereira Brandão. Antes disso, recebeu em Sena um enviado do imperador do Monomopata, a quem deu a conhecer as quatro exigências apresentadas pela Mesa de Consciência e Ordens a esse soberano, e encarregou três portugueses de acompanhar o enviado no seu regresso, para apresentar e negociar in loco essas condições.
Durante os seis meses que passou na ilha de Moçambique, Francisco Barreto demitiu o comandante da praça e recrutou reforços para o acompanhar no regresso a Sena.
Entretanto, foi informado que as forças portuguesas em Sena tinham sofrido mais de 150 baixas e que a maioria dos sobreviventes estava gravemente doente. Muito preocupado com estas notícias, decidiu apressar o seu regresso a Sena, "triste com a morte de tantos bons soldados e a perda de tantos barcos".
Ao chegar, apercebendo-se da desastrosa situação das suas tropas e da impossibilidade de avançar nesse ano em direção ao Monomotapa, adoeceu também com febres tropicais e morreu poucos dias depois, em 9 de julho de 1573. Antes de falecer, teve conhecimento de que o imperador do Monomopata havia aceitado, no essencial, os quatro pedidos da Mesa de Consciência.
Sucedeu-lhe no comando Vasco Fernandes Homem.
Balanço da expedição O balanço dos resultados da expedição de Francisco Barreto ao Monomopata é ambiguo e sujeito a controvérsia, sobretudo porque se desconhece qual o conteúdo e os termos do regimento detalhado, que recebeu em Lisboa para a sua missão.
Para quem considere que esse regimento apenas traduzia, em maior detalhe, o parecer da Mesa de Consciência, impondo quatro condições ao imperador Negomo, a missão de Barreto pode ser vista como um sucesso, visto que o soberano do Monomotapa informou estar pronto a aceitá-las. Porém, para os historiadores que consideram ter Francisco Barreto recebido da coroa a missão de conquistar o Monomotapa, a expedição deve ser vista como um fracasso.
Os restos mortais de Francisco Barreto foram posteriormente repatriados para Portugal e sepultados na Igreja de São Lourenço, em Lisboa, ao lado dos da sua mulher.
Foi casado em primeiras núpcias com D. Francisca de Meneses, da casa dos condes de Tarouca. Enviuvou, e voltou a casar com D. Brites de Ataíde (já viúva de Cristóvão de Brito), irmã de D. Luís de Ataíde, 3.º conde de Atouguia e vice-rei da Índia; sem geração que subsistisse.
Outro Francisco Barreto foi governador de Pernambuco.
Bibliografia Vila-Santa, Nuno, Do Algarve a Marrocos e à Índia: Francisco Barreto e Casa de Quarteira (Séculos XV-XVI) Pinto, Pedro, Vila-Santa, Nuno, Documentos inéditos para a expedição Barreto-Homem ao Monomotapa (1569-1577): D. Sebastião, o Estado da Índia e a gestão do Império
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