A Linha de Cascais é uma ligação ferroviária que interliga os municípios de Lisboa, Oeiras e Cascais, em Portugal. Tem os seus términos em Lisboa, na estação do Cais do Sodré, e em Cascais, na estação de Cascais, situada nas proximidades do centro desta vila. É representada a amarelo nos diagramas dos serviços USGL.Diagrama oficial, 2012
O primeiro troço, entre Cascais e Pedrouços, foi aberto à exploração em , tendo a linha sido concluída com a ligação ao Cais do Sodré em . Foi a primeira ferrovia pesada a ser electrificada em Portugal, em , e a última a ser integrada na CP, em .
A Linha de Cascais constitui uma importante via de comunicação suburbana, tendo desempenhado um papel relevante no desenvolvimento da orla costeira entre Lisboa e Cascais, ao permitir um rápido acesso por parte dos habitantes da capital às zonas balneares e residenciais do litoral.SANTOS e CABRAL, p. 104
Descrição thumb|left|Linha de Cascais sob o viaduto de Caxias. Via É uma das quatro linhas da rede de comboios suburbanos de Lisboa, detendo características técnicas únicas que a distinguem do resto da rede ferroviária portuguesa, tal como o sistema de electrificação, e uma regulamentação ligeiramente diferente da restante rede; esta situação deve-se ao facto de, até 1976, esta linha ter estado concessionada a uma empresa privada, a Sociedade Estoril. Em inícios de 2010, os serviços eram agrupados em três famílias, centradas nas Estações de Cascais, Oeiras, e São Pedro. A electrificação funciona a 1500 V em corrente contínua, que em Portugal apenas é utilizado nesta linha. Embora isto resulte num certo isolamento em relação ao resto da rede, este problema é minimizado devido à circunstância de que a Linha de Cascais tem um esquema de exploração quase independente da restante organização ferroviária nacional.MARTINS et al, p. 99
Serviços Em dados de 2023, circulando apenas na Linha de Cascais, o serviço do mesmo nome opera apenas com 1 conjunto de itinerários regular:Horário da Linha de Cascais Cais do Sodré - Cascais — Circula todos os dias a cada 20 minutos (excetos os primeiros e últimos horários, onde circula a cada 30 minutos), parando em todas as estações e apeadeiros. Nas horas de ponta dos dias úteis no entanto, o serviço divide-se em 2 serviços: Cais do Sodré - Oeiras (TODAS), da qual faz paragem em todas as estações e apeadeiros entre as duas estações. Cais do Sodré - Cascais (SEMI-RÁPIDO), da qual entre o Cais do Sodré e Oeiras, apenas faz paragem em Alcântara-Mar e Algés, seguindo depois diretamente até Oeiras, onde depois faz todas as paragens até Cascais. Isto acontece de modo a permitir uma utilização mais prática dos comboios. Desta forma nos dias úteis na hora de ponta os comboios rápidos, com destino a Cascais, saem do Cais do Sodré de 12 em 12 minutos, seguidos de um comboio que pára em todas as estações até Oeiras 2 minutos depois. Todos os dias circula entre as 05h30min (primeira saída no Cais do Sodré e em Cascais) e a 01h30min (última saída no Cais do Sodré e em Cascais).Horários no sítio oficial: página e facsimile
Material circulante thumb|right|600px|Composição da série renovada 3150-3250. Série 3100-3200
Série 3150-3250
História Os antecedentes da ligação ferroviária a Cascais A zona costeira de Lisboa a Cascais ganhara, ao longo do século XIX, uma crescente atratividade na qual se destacou a vila de Cascais. Graças ao seu clima ameno e relativa calma, foi um dos locais prediletos para o repouso e banhos de mar por parte da realeza, dando origem a um «triângulo do lazer» ao qual se unia a própria capital e a vizinha vila de Sintra.
Por então, também os Estoris se foram tornando cada vez mais relevantes, neste caso pela existência de termas e águas medicinais, e em particular pelos banhos da Poça. Foi aí que D. José I curou as chagas de que padecia nos membros inferiores, hospedando-se no palácio do seu ministro, Marquês de Pombal, em Oeiras. Acresce que, desde o século XVIII, esta região era um chamariz para a classe médica e doentes, não existindo ainda, todavia, explicação para os poderes curativos da água.
A fama de Cascais começa um crescendo aquando da primeira estadia de D. Maria Pia (1847-1911) na vila, suplantando a importância até então detida por Sintra, pelo cada vez maior gosto pela vilegiatura marítima. Mais tarde, D. Luís I converte a Cidadela de Cascais na sua residência sazonal, algo que atrai também a corte e restante aristocracia (e que teve continuidade com D. Carlos I), tornando a vila na primeira estância de turismo do país e imbuíndo-a de uma atmosfera turística e cosmopolita.
Esta nova realidade implicava a existência de ligações entre Cascais, Sintra e Lisboa para o pleno usufruto do conceito de vilegiatura, agora tripartido, dividido entre a praia (compreendendo o espaço costeiro entre Lisboa a Cascais), as termas (com os Estoris) e o campo (Sintra). As deslocações entre estas localidades eram feitas pelas estradas existentes, as de Cascais a Oeiras (completada em 1862 por iniciativa do Visconde da Luz) e a Sintra (inaugurada em 1868). Deste modo, era possível às famílias que passavam o verão nas quintas em Sintra ir tomar banhos a Cascais. Já o caminho para Lisboa estava associado a movimentos excursionistas (de ida e retorno num mesmo dia), o que implicava o desenvolvimento de meios de transporte de ligação urbana, suburbana e rural. As viagens entre a capital e a vila eram morosas e desagradáveis, enfrentando um importante obstáculo na ribeira de Alcântara. Tornou-se assim pertinente a ideia da ligação destas zonas através do caminho de ferro, surgindo a ideia de ligação a Cascais com base na Linha de Sintra, desta forma unindo a tríade sob o signo das ferrovias.
Primeiros projectos thumb|left|Inauguração dos trabalhos no primeiro projecto para um caminho de ferro entre Lisboa e Sintra, em Portugal, em 1855, junto à Torre de Belém. O primeiro projecto para a construção de uma ligação ferroviária a Cascais foi apresentando pelo Conde Claranges Lucotte. Para tal, criara a Sociedade Anónima dos Caminhos de Ferro e Docas de Lisboa, e propunha que o traçado, com início no Forte de São Paulo, em Lisboa, seguisse pela margem direita do Tejo até Algés (o que implicava a retificação e conquista de terrenos ao rio, os quais passariam para sua posse), seguindo aí pelo vale da ribeira até Barcarena, daí ligando ao Palácio Real de Sintra. Aí, seria completada por dois ramais distintos em direção a Colares e Cascais. O contrato foi elaborado em 30 de Setembro de 1854 e aprovado por uma lei de 26 de Julho do ano seguinte, estando a sociedade obrigada à edificação de um cais entre o Arsenal da Marinha e Belém e de docas na praia do Bom Sucesso e entre o Cais do Sodré e Alcântara. Qualquer uma das construções não contava com subvenção estatal, devendo as obras ter início um mês após a aprovação dos planos e serem concluídas em 20 meses, sob pena de rescisão do contrato, o que acabou por acontecer pelo não cumprimento desta última cláusula, tendo tal acontecido em 27 de Março de 1861. Em 1856, a Câmara Municipal de Lisboa fica encarregue das obras, tendo sido efetuados alguns trabalhos junto da Torre de Belém (em cuja praia se deu o ato inaugural da construção desta via férrea), mas várias dificuldades impediram este projecto.
Nos anos de 1860, foram propostos outros projetos dos quais, porém, não existe grande informação. Um dos mais relevantes terá sido o de Gilberto Gomes, em 1861, do Chemin de Fer et Doks de Lisbonne, que apostava pela conquista de terrenos portuários e particulares. Outras propostas seriam apresentadas por Notman e Clear, pelo conde de Lucotte, Herbert Debrousse e João Evangelista de Abreu, não sendo claro se apostavam pela ligação direta de Lisboa a Cascais ou pela ligação indireta através de Sintra.
No dia 25 de Outubro de 1869, o Duque de Saldanha foi autorizado a construir um sistema ferroviário em sistema Larmanjat para unir as localidades de Lumiar, Torres Vedras, Caldas da Rainha e Alcobaça; apesar do contrato ter sido expandido até Sintra e Cascais em 1871, e da concessão ter sido transferida para uma companhia de origem britânica no ano seguinte, os graves problemas de exploração levaram ao encerramento das linhas em 1877.
Em 1870, o engenheiro Aimé Thomé de Gamond exibiu um plano para a construção de uma ligação ferroviária, de propriedades metropolitanas, entre Lisboa e Colares, passando por Cascais e Sintra; este projecto renasceu em 1874, no Plano Geral das Obras, aonde se pretendia construir o troço entre o Beato e a Torre de Belém, e num parecer da Junta Consultiva de Obras Publicas e Minas, baseada no relatório da comissão formada para estudar este caminho de ferro, que o pretendia ligar aos diversos cais e docas e gares marítimas de Lisboa. Em 1879, é aprovada a primeira lei ferroviária nacional que recomenda a construção de uma linha entre Lisboa, Sintra e Cascais pela «(…) carência de comunicações para os arrabaldes aprazíveis que o crescimento da população, tornava patente.», dotando estes projetos de uma preocupação não apenas turística, mas agora também de planeamento e urbanística. Seriam estas linhas os meios essenciais para o crescimento da cidade de Lisboa, em processo de suburbanização.
Em Junho de 1888, Pedro Inácio Lopes retomou, numa conferência da Associação dos Engenheiros Civis de Portugal, a ideia de construir uma linha urbana em Lisboa ao longo do Rio Tejo, devido à expansão da rede ferroviária na capital portuguesa, e ao acréscimo no movimento que se estava a sentir do Porto de Lisboa; com efeito, nesta altura já estavam a decorrer as obras na futura Linha de Cintura, e um caminho de ferro entre Alcântara e Santa Apolónia, articulado com uma segunda linha até Cascais, atrairia uma elevada procura, devido ao movimento que se sentia nesta secção da costa atlântica, especialmente na zona de Caxias, durante a época balnear. Posteriormente, voltaria a ser contemplado um prolongamento da Linha de Cascais até Colares, projecto que foi abandonado.
Construção e inauguração thumb|right|A zona do Cais do Sodré, em Lisboa, nos finais do século XIX. A estação primitiva do Cais do Sodré está no lado esquerdo da fotografia. A Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses foi autorizada, pelo artigo 33.º de um contrato celebrado em 5 de Maio de 1860, pelo alvará de 9 de Abril de 1887, e por uma carta de lei publicada no mesmo mês, a proceder à construção e exploração de uma ligação ferroviária entre a Estação de Santa Apolónia, no Cais dos Soldados, em Lisboa, e Cascais, passando por Alcântara, onde seria instalada uma estação; o primeiro troço a construir deveria ser entre Cascais e o limite Oeste das obras que nesse momento se estavam a realizar no Porto de Lisboa. Um parecer da Junta Consultiva de Obras Públicas e Minas, datado de 21 de Agosto de 1879, considerou esta ligação ferroviária como um ramal da Linha do Leste. O primeiro troço, entre Pedrouços e Cascais, foi aberto ao serviço em 30 de Setembro de 1889.REIS et al, 2006:38
A linha chegou até Alcântara-Mar em 6 de Dezembro de 1890, e ao Cais do Sodré em 4 de Setembro de 1895. Entretanto, em 10 de Agosto de 1891 entrou ao serviço o lanço entre Alcântara-Mar e Estação de Alcântara-Terra.MARTINS et al, 1996:251
Duplicação O troço entre Pedrouços e Caxias foi logo construído em via dupla, sendo a via duplicada até ao Estoril em 1 de Outubro de 1890, Cascais em 21 de Maio de 1892, Belém em 25 de Maio de 1896, Alcântara-Mar em 28 de Julho do mesmo ano, e até ao Cais do Sodré no dia 4 de Julho de 1897.
thumb|left|Horários dos comboios em Janeiro de 1902, incluindo a Linha de Cascais. Século XX Décadas de 1900 e 1910 Em 1902, foi aprovada a instalação de gradeamentos metálicos em toda a extensão da via, entre as estações de Cais do Sodré e Alcântara-Mar, e instaladas sinetas em várias estações e apeadeiros da Linha, que tocavam cinco minutos antes da passagem de uma composição, para avisar os passageiros.