Paraceratherium (na forma aportuguesada, paraceratério) é um gênero extinto de rinocerontes sem cornos e um dos maiores mamíferos terrestres que já existiram. Viveu durante o Oligoceno, entre 34 e 23 milhões de anos, e seus restos foram encontrados na Eurásia, entre a China e os Bálcãs. É classificado como um membro da família Paraceratheriidae. Paraceratherium significa "próximo da besta sem corno", em referência ao gênero Aceratherium, onde a espécie-tipo P. bugtiense foi originalmente classificada.

O tamanho exato dos paraceratérios é desconhecido por conta da incompletude dos fósseis. Estima-se que seu peso tenha sido no máximo 15 a 20 toneladas ( a libras), com a altura do ombro estimada em cerca de , e o comprimento em cerca de . As pernas eram longas e pareciam pilares. O longo pescoço suportava um crânio que tinha cerca de de comprimento.

Tinham grandes incisivos que pareciam presas e incisões nasais que sugerem que tinham um lábio superior preênsil ou uma probóscide. O estilo de vida dos paraceratérios pode ter sido similar ao de grandes mamíferos modernos existentes como o elefante e rinocerontes. Por conta de seu tamanho teriam poucos predadores e uma taxa baixa de reprodução. Era um animal herbívoro com uma dieta de folhas e arbustos relativamente tenros,Salienta-se aqui a diferença de dieta entre alguns herbívoros ruminantes. Esses animais alimentavam-se de folhas e arbustos relativamente tenros, em contraste com os animais que se alimentam principalmente de pasto. Em inglês, existem os termos browser e grazer, que referem-se especificamente a essa diferença. comendo muitas folhas, plantas tenras e arbustos. Viviam em habitats que variavam de desertos áridos com algumas árvores dispersas a florestas subtropicais. As razões para a extinção destes animais são desconhecidas, mas vários possíveis fatores foram propostos.

A taxonomia do gênero e das espécies dentro dele tem uma história longa e complicada. Outros gêneros de indricotérios do Oligoceno, como Baluchitherium, Indricotherium, e Pristinotherium foram nomeados mas nenhum espécime completo existe, tornando comparações e classificações difíceis. A maioria dos cientistas modernos consideram esses gêneros sinônimos juniores de Paraceratherium,Sinônimo júnior, em taxonomia, é um sinônimo publicado quando já havia um táxon válido, um sinônimo sênior. e que contém pelo menos quatro espécies discerníveis; P. bugtiense, P. transouralicum, P. lepidum, e P. huangheense. A espécie mais profundamente conhecida é P. transouralicum, então a maior parte das reconstruções do gênero baseiam-se nela. Diferenças entre P. bugtiense e P. transouralicum podem ser devidas ao dimorfismo sexual, o que as tornariam a mesma espécie.

Taxonomia thumb|esquerda|Ilustração de 1911 da mandíbula inferior de P. bugtiense, que foi a base para a sua separação do gênero Aceratherium. A história taxonômica do gênero Paraceratherium é complexa devido à natureza fragmentária dos fósseis conhecidos e porque cientistas ocidentais, soviéticos e chineses passaram grande parte do século XX trabalhando em isolação entre si e publicaram pesquisas principalmente em suas respectivas línguas.Prothero, 2013. pp. 17–34 Cientistas de diferentes partes do mundo tentaram comparar seus resultados para obter uma ideia mais completa, mas foram impedidos por obstáculos políticos e por guerras. O uso de métodos taxonômicos diametralmente opostos de "agrupamento e discriminação" também contribuíram para o problema.Prothero, 2013. pp. 67–86 Dados geocronológicos errôneos conduziram cientistas a acreditar que várias formações geológicas que hoje se tem ciência de que são da mesma época eram de diferentes épocas. Vários gêneros foram nomeados com base em sutis diferenças no dente molar — características que variam entre populações de outros rinocerontes — e portanto não são aceitos pela maioria dos cientistas para diferenciar espécies.

As primeiras descobertas paleontológicas sobre os indricotérios foram feitas através de várias ligações coloniais com a Ásia. Os primeiros fósseis conhecidos dos indricotérios foram coletados no Baluquistão (região atualmente localizada no Paquistão) em 1846 por um soldado chamado Vickary, mas esses fragmentos não eram identificáveis naquele momento.Prothero, 2013. pp. 35–52 Os primeiros fósseis agora classificados como Paracetherium foram descobertos pelo geólogo britânico Guy Ellcock Pilgrim no Baluquistão entre 1907 e 1908. Seu material consistia em uma mandíbula superior, dentes inferiores e a parte traseira de uma mandíbula. Os fósseis foram coletados na Formação de Chitarwata de Dera Bugti, onde Pilgrim já havia explorado anteriormente. Em 1908, ele usou os fósseis como base para classificar uma nova espécie do extinto gênero de rinocerontes Aceratherium, A. bugtiense. Aceratherium era um "táxon lixeira", que tinha a finalidade de classificar espécies que não se encaixavam em gênero algum — incluía uma série de espécies de rinocerontes sem cornos que não tinham relação alguma entre si, muitos dos quais foram reclassificados para outros gêneros. Mais tarde foi mostrado que, os incisivos fósseis que Pilgrim havia atribuído anteriormente ao gênero Bugtitherium — um gênero não relacionado — de fato, pertenciam às novas espécies. thumb|upright|Ilutração de 1913, de um tálus — osso das patas — e um atlas, que foram parte da base para a classificação do Baluchitherium osborni.

Em 1910, mais fósseis parciais foram descobertos em Dera Bugti durante uma expedição do paleontólogo britânico Clive Forster-Cooper. Baseado nesses fósseis, Foster-Cooper moveu A. bugtiense para o novo gênero Paraceratherium que, em latim, significa "próximo à besta sem corno", em referência ao gênero Aceratherium. Essa classificação foi embasada nas presas inferiores da espécie, que eram curvadas para baixo. Em 1913, Forster-Cooper nomeou um novo gênero e espécies, Thaumastotherium ("besta magnífica") osborni, baseada em fósseis maiores encontrados em algumas escavações, mas ele renomeou o gênero para Baluchiterium após aquele ano, porque o nome formal Thaumastotherium já era usado por um inseto hemiptera. Os fósseis de Baluchitherium eram tão fragmentados que Foster-Cooper só conseguiu identificá-lo como um tipo de perissodáctilo, mas ele mencionou a possibilidade de confusão com Paraceratherium. O paleontólogo americano Henry Fairfield Osborn, após a classificação de B. osborni, sugeriu que a espécie poderia ter sido um Titanotheriidae.

Uma expedição posterior da Academia de Ciências da Rússia encontrou fósseis na Formação de Aral, próxima ao Mar de Aral, no Cazaquistão; foi o mais completo esqueleto de indricotério conhecido encontrado, mas faltava o crânio. Em 1916, baseado nesses fósseis, Aleksei lekseeivich Borissiak erigiu o gênero Indricotherium, nomeado em referência a um monstro mitológico, Indrik. Ele não atribuiu um nome de espécie, I. asiaticum, até 1923, mas Maria Pavlova já nomeara I. transouralicum em 1922. Também em 1923, Borissiak criou a subfamília Indricotheriinae para incluir as várias formas relacionadas que ele tinha conhecimento. Em 1939, Borissiak também nomeou um gênero e uma espécie do Cazaquistão, Aralotherium prohorovi.

Em 1922, o explorador estadunidense Roy Chapman Andrews liderou uma expedição bem-documentada para a China e a Mongólia patrocinada pelo Museu Americano de História Natural. Vários fósseis indricotérios foram encontrados em formações no deserto de Gobi mongol, incluindo as pernas de um espécime mantido em pé na posição vertical — indicando que havia morrido preso na areia movediça — bem como, um crânio bastante completo. Esses fósseis foram a base para a descrição de Baluchitherium grangeri, nomeada por Osborn em 1923.Prothero, 2013. pp. 1–16

Em 2017, uma nova espécie, P. huangheense, foi nomeada baseada em elementos de mandíbula da formação de Hanjiajing na província de Gansu, na China; o nome é uma alusão ao rio Amarelo, também conhecido como Huang He. Uma multidão de outras espécies e gêneros— a maior parte baseada em diferenças de tamanho, tamanho de focinho e o arranjo do dente da frente— foram criados, baseados em vários restos de indricotérios. Fósseis atribuíveis ao gênero Paraceratherium continuam sendo descobertos através da Eurásia, mas a situação política no Paquistão se tornou muito instável para a ocorrência de novas escavações.

Espécies e sinônimos thumb|esquerda|Otto Falkenbach com um crânio de P. transouralicum (espécime AMNH 18650), formalmente atribuído a Baluchitherium grangeri, Museu Americano de História Natural. Em 1936 os paleontólogos americanos Walter Granger e William K. Gregory propuseram que o Baluchiterium osborni de Foster-Cooper seria um tipo de sinônimo júnior, porque os espécimes foram coletados na mesma localidade e eram possivelmente parte de uma mesma espécie morfologicamente variável. William Diller Matthew e o próprio Forster-Cooper expressaram dúvidas similares alguns anos antes. Apesar de já ter sido declarado um sinônimo júnior, a nomenclatura Baluchiterium para o gênero permanece popular na mídia por conta da publicidade em torno da espécie B. grangeri de Osborn. upright|thumb|Ilustração de 1911 de um incisivo de P. bugtiense em duas perspectivas.

Em 1989 os paleontólogos Spencer G. Lucas e Jay C. Sobus publicaram uma revisão da classificação taxonômica dos indricotérios, a qual é seguida pela maioria dos cientistas ocidentais atualmente. Eles concluíram que Paraceratherium, como o nome mais antigo, era o único gênero válido de indricotério do Oligoceno e continha quatro espécies válidas: P. bugtiense, P. transouralicum (originalmente em Indricotherium), P. prohorovi (originalmente em Aralotherium), e P. orgosensis (originalmente em Dzungariotherium). Eles classificaram a maioria dos outros nomes como sinônimos júnior desse táxon ou como nomen dubium, baseado em restos muito fragmentários para identificar devidamente.

Analisando as diferenças presumidas entre os gêneros e as espécies descritas, Lucas e Sobus concluíram que provavelmente eram variações dentro das mesmas populações e que a maioria dessas características não poderia ser distinguida entre um espécime e outro, como fora apontado na década de 1930. O crânio côncavo único atribuído a P. transouralicum ou Indricotherium — enquanto os outros tinham a parte superior plana — foi atribuída ao dimorfismo sexual. Portanto, existe a possibilidade de que os fósseis de P. bugtiense representem a fêmea, enquanto os de P. transouralicum representem o macho de uma mesma espécie.

De acordo com Lucas e Sobus, a espécie-tipo P. bugtiense do Oligoceno tardio do Paquistão inclui um sinônimo júnior tal como B. osborni e P. zhajremensis. P. transouralicum do Oligoceno tardio do Cazaquistão, Mongólia e Norte da China inclui B. grangeri e I. minus. Em 2013 o paleontólogo americano Donald Prothero sugeriu que P. orgosensis pode ser distinto o suficiente para justificar o seu nome original no gênero Dzungariotherium, mas essa posição requer avaliação. P. prohorovi do Oligoceno tardio do Cazaquistão pode estar muito incompleto em relação às outras espécies para ser resolvido, o mesmo se aplica às espécies propostas, tal como I. intermedium e P. tienshanensis, assim como o gênero Benaratherium.

Embora o nome do gênero Indricotherium seja agora um sinônimo júnior de Paraceratherium, o nome da subfamília Indricotheriinae ainda está em uso porque a sinonímia do nome do gênero não afeta os nomes dos táxons de nível superior derivados deles. Membros da subfamília ainda são, portanto, comumente referidos como indricotérios.