Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 é um álbum de estúdio do cantor, compositor e produtor Raul Seixas, do cantor e compositor Sérgio Sampaio, do cantor, compositor, ator, dançarino, produtor teatral, apresentador de televisão e artista plástico Edy Star e da cantora, compositora e apresentadora de televisão Miriam Batucada, lançado em 21 de julho de 1971 pela gravadora Discos CBS e gravado entre a última semana de junho e a primeira semana de julho de 1971 nos Estúdios CBS, no Rio de Janeiro. Este disco é a segunda tentativa de Raul Seixas de iniciar uma carreira artística de sucesso, após o fracasso com o único disco lançado pelo seu primeiro grupo, já no final da Jovem Guarda. É, também, a estreia discográfica de Sérgio Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada, embora apenas o cantor capixaba fosse continuar em uma linha próxima a deste disco.

Recolhido cerca de 2 meses após o seu lançamento, o disco não teve tempo de ter vendagens expressivas ou de receber muitas críticas da mídia especializada. Ainda assim, recebeu tratamento favorável por parte do público relacionado à contracultura brasileira da época, bem como dos críticos identificados com essa faixa do público, como o poeta Torquato Neto e o filósofo Luiz Carlos Maciel. Entretanto, com o passar do tempo tornou-se objeto de interesse cult, especialmente por contar com a participação de Raul Seixas e Sérgio Sampaio e por ter ficado mais de 20 anos fora de catálogo.

Antecedentes Transição na carreira de Raul Seixas Após o insucesso do lançamento de Raulzito e os Panteras, álbum de estreia e único disco da primeira banda de Raul Seixas, o grupo ficou trabalhando no Rio de Janeiro como banda de apoio de Jerry Adriani até meados de 1969, quando separaram-se e voltaram para a Bahia por não ter mais dinheiro para se manter na capital fluminense e pela falta de perspectivas para sua carreira artística. Raul ficou deprimido pela volta à sua terra natal, mas ela não foi duradoura. Alguns meses depois, Jerry Adriani convence o diretor da Discos CBS, Evandro Ribeiro, a contratar o amigo como produtor musical para produzir os seus discos. Assim, Raul volta ao rio para trabalhar não como artista, mas fazendo trabalho técnico para a gravadora. Logo de início, o cantor baiano emplaca composições suas em gravações de Jerry e outros artistas contratados da gravadora, como Trio Ternura, Renato e Seus Blue Caps, Tony & Frankye, Diana, e passa a assinar produções de compactos e álbuns de estúdio como "Raulzito".Rada Neto, 2013-B, p. 14.Mendes, 2003, p. 15.Jorge, 2012, pp. 126-127.

Apesar do sucesso financeiro que passa a experimentar, Raul não estava contente com o tipo de música que compunha e produzia: baladas românticas - comumente classificadas como "bregas" pela crítica especializada brasileira da época - para artistas oriundos do movimento cultural brasileiro que ficou conhecido como Jovem Guarda, como Jerry Adriani e Wanderley Cardoso. Desse modo, Raul nutria, ainda, os sonhos de sucesso na carreira artística como cantor e compositor, mas sentia-se preso a um esquema financeiro de sucesso e sem alternativas. Uma primeira tentativa de dar uma guinada em sua carreira se deu com a produção de um disco para Leno lançar no início do ano de 1971. Raul e o cantor e compositor potiguar haviam se tornado amigos após se conhecerem nos corredores da gravadora, com Leno registrando em disco canções de Raul Seixas. Existia uma admiração mútua, que o cantor baiano deixaria registrada em diários e entrevistas. Nesta primeira tentativa, Raul e Leno compuseram canções que fugiam das baladas românticas que a gravadora queria lançar: canções que emulavam a última fase dos Beatles ou que remetiam ao rock psicodélico; e canções com letras existenciais ou de protesto. Entretanto, a maior parte do material teve problemas com o Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP) e a gravadora resolveu abortar o projeto e lançar um compacto duplo, frustrando artista e produtor. O álbum Vida e Obra de Johnny McCartney só seria lançado no formato concebido por Leno e Raul no ano de 1995, de forma independente, pelo primeiro.

Montagem do grupo Sérgio Sampaio No final de 1970, Sérgio Sampaio morava no Rio de Janeiro com o irmão, Dedé Caiano, e passava os dias procurando formas de iniciar sua carreira artística, após ter largado o trabalho como locutor de rádio. Assim, frequentando rodas de compositores novatos, Sérgio conhece Odibar, parceiro do cantor pernambucano Paulo Diniz em um dos grandes sucessos daquele ano, "Quero Voltar pra Bahia", e o compositor, ao ver a habilidade de Sampaio no violão, convida-o para acompanhá-lo em um teste na gravadora Discos CBS. Ao chegarem na gravadora, Raul recebe ambos e pede para que Odibar apresente suas músicas. O produtor baiano não gostou muito das composições de Odibar e Sérgio pediu uma oportunidade para mostrar uma composições suas, tocando "Chorinho Inconsequente" e "Coco Verde". Raul ficou muito impressionado com a qualidade do material e pediu para que Sérgio retornasse no dia seguinte.Moreira, 2003, pp. 32-34. Em janeiro de 1971, o compositor capixaba já estaria contratado pela gravadora e assinaria diversas parcerias com Raul, Mauro Motta - ex-membro de Renato e Seus Blue Caps e também produtor da Discos CBS - e Ian Guest - arranjador da gravadora - em discos do Trio Ternura ("Sol 40 Graus", um sucesso do conjunto naquele ano, e "Vê se Dá um Jeito Nisso"), de José Roberto ("Amei Você um Pouco Demais"), e de Tony & Frankye ("Hoje É Quarta-Feira").Moreira, 2003, pp. 35-38.

Desse modo, com o naufrágio do projeto da produção de um álbum para Leno e o aparecimento de Sampaio, Raul começou a afastar-se um pouco do cantor potiguar e a tornar-se um grande amigo do compositor capixaba. O primeiro projeto dos dois foi a gravação de um compacto para Sampaio. Assim, em março sairia o compacto com "Coco Verde" e "Ana Juan", produzidas por Raul, com arranjos de Ian Guest, e contando com músicos de Renato e Seus Blue Caps - além do irmão de Sampaio, Dedé Caiano, no coro. Catapultada pelas conexões de Sampaio nas rádios devido ao seu trabalho anterior como locutor, o lado A tornaria-se em um moderado sucesso naquele ano.Moreira, 2003, pp. 40-41. Logo após, Sérgio e seu irmão voltariam para sua cidade natal para participarem do II Festival de MPB de Cachoeiro de Itapemirim, onde levariam o prêmio principal com "Pequeno Mistério (Little Mistery)".Moreira, 2003, pp. 42-43. Na volta ao Rio, Raul conta para Sérgio de seus planos de lançar um álbum conceitual, nos moldes de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos The Beatles; de Freak Out!, do The Mothers of Invention; e de Tropicalia ou Panis et Circencis, de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Os Mutantes e Tom Zé.Moreira, 2003, pp. 44-45.

Edy Star Em 1970, Edy ainda não utilizava o nome artístico "Edy Star" e era mais conhecido como ator, apresentador de televisão e artista plástico no Nordeste, do que cantor, apesar de já ter defendido a canção "Dia Cheio de Ogum", do compositor Capiba, no festival O Brasil Canta no Rio (que foi lançada em um LP, em 1969). Entretanto, quando resolveu cobrar salários atrasados no ar durante o programa que apresentava e produzia na TV Itapoan, de Salvador, Edy foi despedido. Neste dia, encontrou Raul Seixas - um velho amigo, colega do programa de rádio Só para Mulheres, produzido por Waldir Serrão e apresentado pelo radialista Pacheco Filho, na Rádio Cultura - em um bar próximo e ele ofereceu-lhe um contrato com a gravadora na qual ele havia se tornado produtor. Em alguns meses, Edy já gravaria e lançaria um compacto com "Aqui É Quente, Bicho", do próprio Raul Seixas, e "Matilda", uma versão de Leno para o sucesso de Harry Belafonte.Moreira, 2003, pp. 45-47.

Raul via em Edy alguém debochado, com presença de palco e muitas ideias, além de gostos musicais em comum - ambos foram membros do Elvis Club Rock, em Salvador, por exemplo. Logo, quando Raul e Sampaio resolveram montar um grupo para tocar o novo projeto do primeiro para dar uma guinada em sua carreira artística, Edy foi o primeiro nome que Raul sugeriu.

Miriam Batucada Miriam vivia uma fase de transição da sua carreira no início da década de 1970. Após um bom início de carreira na RecordTV, no ano de 1966, quando apresentou-se diversas vezes nos programas de Blota Júnior, Sônia Ribeiro e Hebe Camargo, além de ter se tornado uma atração permanente no programa de Ronnie Von, juntamente com Os Mutantes. Ficou famosa como uma espécie de "show-woman": fazia imitações, contava "causos" e piadas, e cantava e tocava instrumentos musicais.Petillo, 2012, 34-36. Iniciou sua carreira de cantora ainda em São Paulo, pela pequena gravadora Rozenblit, no ano seguinte. Então, procurando prosseguir com a carreira de cantora, mudou-se para o Rio de Janeiro onde chegou a lançar um compacto duplo pela Odeon Records e a realizar diversas apresentações, mas não conseguiu emplacar uma carreira de sucesso. Uma revista da época chegaria a publicar que ela e Ronnie Von não tinham talento algum, sendo apenas "invenções da Record".Moreira, 2003, pp. 48-49.

Entretanto, foi numa apresentação no Rio de Janeiro, em 1970 - na Boate Drink, de Djalma Ferreira -, que Batucada causou boa impressão em um jovem artista baiano que havia chegado naquele ano ao Rio: Edy. Após recrutarem o ator e cantor, Raul e Sampaio queriam uma voz feminina para o grupo e pensaram em chamar Diana - então namorada de Odair José - ou Lilian - da dupla com Leno. Ambas foram descartadas pela linha romântica que seguiam. Outra cogitada foi a cantora piauiense Lena Rios, em começo de carreira, e que viria a defender uma canção composta por Raul no Festival Internacional da Canção 1972, "Eu Sou Eu, Nicuri É o Diabo". Após recusarem esta última também, Edy sugeriu a cantora que o havia impressionado na Boate Drink, Miriam. Quando Batucada apareceu, os três já a apelidaram de Doutor Silvana, por causa dos grandes óculos. Em seguida, sua voz rouca e suas respostas bem-humoradas às perguntas do trio garantiram ela no conjunto.

Produção Concepção do álbum

O disco foi concebido através das contribuições centrais de Sampaio e Seixas. Raul buscava um trabalho anárquico e iconoclasta, que arrasasse com todas as convenções musicais e sociais vigentes. Sérgio, por sua vez, queria um disco que "fedesse", que "desse nojo", enfim, um álbum que fizesse com que as pessoas se sentissem realmente incomodadas com ele. Assim, ambos viam um no outro o parceiro ideal para concretizar essa ideia: a de um disco conceitual brasileiro, que misturasse influências de música nacional e estrangeira, sacudindo o conformismo do cenário musical brasileiro. Cada detalhe do álbum deveria desafiar qualquer padrão de bom gosto.Moreira, 2003, p. 51. Então, inicialmente, em reuniões no apartamento de Raul Seixas, os quatro buscaram selecionar repertório para o disco. A ideia inicial era que cada um cantasse duas músicas sozinhos e que mais uma ou duas canções fossem cantadas por todos em conjunto. Nessas mesmas reuniões chegaram ao nome do grupo porque discutiam muito sobre como seria o mundo depois de uma guerra nuclear: todos voltariam às raízes, isto é, a viver nas cavernas.Moreira, 2003, p. 49.