Da Lama ao Caos é o primeiro álbum de estúdio da banda brasileira Chico Science & Nação Zumbi, lançado em 1994.

Gravações Em 1993, o movimento manguebeat ganhou força e repercussão em todo o Brasil. Depois de alguns shows em Recife e região, e apenas uma apresentação em São Paulo e outra em Belo Horizonte, o grupo assina contrato com a Sony Music, em julho do mesmo ano.

Inicialmente, Chico Science tinha em mente o nome de Arto Lindsay ou Bill Laswell para a produção do disco. No entanto, a Sony Music indicou Liminha. Após ouvir uma demo em fita cassete enviada pelo diretor da Sony Music, Jorge Davidson, Liminha aceitou produzir o álbum.

O grupo foi para o Rio de Janeiro gravar no estúdio Nas Nuvens, propriedade de Liminha, onde o material para o álbum foi gravado em sessões de 12 horas, de segunda a sábado. Neste momento, o grupo era composto por Chico Science, Jorge Du Peixe, Gilmar Bolla 8, Gira, Canhoto e Toca Ogan. Muitos destes músicos faziam parte do grupo Lamento Negro.

Os percussionistas Canhoto, Gira, Gilmar Bolla 8, Jorge du Peixe e Toca Ogan não tinham baquetas próprias e acabaram gravando com as de João Barone. A falta de experiência do grupo em estúdio e o uso de instrumentos incomuns à indústria fonográfica, como as alfaias, tornaram a produção do álbum complexa. O álbum foi lançado em abril de 1994, meio à segunda edição do festival Abril Pro Rock, onde a banda se apresentou.

Poucos meses após o lançamento de Da Lama ao Caos, a faixa "Rios, Pontes e Overdrives", parceria entre Chico Science e Fred Zero Quatro, foi gravada pela banda Mundo Livre S/A e lançada junto ao álbum Samba Esquema Noise.

Projeto gráfico A capa foi feita artesanalmente a partir uma fotografia tirada por Fred 04 e editada por Hilton Lacerda e Hélder Aragão utilizando fotocópias, recortes, montagens, e colagens. Ilustra um caranguejo com imagens que parecem estar "granuladas", sendo que cada pequeno quadrado é uma colagem. A contracapa traz o detalhe de uma pata de caranguejo, propositalmente aproximada de maneira excessiva para que os pixels fiquem bem visíveis e assim fique claro que ela foi desenvolvida em computador.

A primeira versão da arte era em preto-e-branco, com alguns tons azulados, mas a gravadora recusou, exigindo cores, e assim nasceu a versão final. O encarte do álbum incluiu o primeiro manifesto do Movimento Manguebeat, intitulado "Caranguejos com cérebro".

Conteúdo lírico É possível perceber a influência da obra de Josué de Castro, principalmente Geografia da Fome e Homens e Caranguejos, sobre as composições de Chico Science. Para Túlio Velho Barreto, versos de "Rios, Pontes e Overdrives", "Antene-se", "Da Lama ao Caos" e "Risoflora" podem ser entendidos como releituras do romance Homens e Caranguejos. A faixa-título cita nominalmente o geógrafo autor dos livros. Castro já havia sido mencionado como pessoa de interesse do movimento Manguebeat em 1992, no manifesto dos Caranguejos com cérebro.

Além disso, o álbum aborda assuntos como ficção científica, teoria do caos, a urbanização e a desigualdade social na Região Metropolitana do Recife. Na primeira faixa, identifica-se uma demanda por mudanças sociais em Pernambuco, saudando revolucionários como Emiliano Zapata, Augusto César Sandino, Antônio Conselheiro, o Partido dos Panteras Negras e Zumbi dos Palmares. Tanto em "Monólogo ao Pé do Ouvido" quanto em "Banditismo por Uma Questão de Classe" há menções ao cangaceiro Lampião.

A faixa "Salustiano Song" faz referência a Mestre Salustiano, rabequeiro pernambucano que serviu de inspiração para Chico Science durante sua juventude. Em alguns trechos da faixa, a guitarra foi tocada por Lúcio Maia utilizando um EBow, a fim de tornar o som das cordas semelhante ao de uma rabeca.

Faixas Todas as faixas foram compostas por Chico Science, exceto onde indicado.

Versão CD

Versão LP Lado A

Lado B

Samples À época, não era comum bandas de rock utilizarem samplers em suas canções. Um dos primeiros exemplos na música brasileira seria a faixa "Advogado do Diabo", incluída no álbum de 1988 Psicoacústica, da banda Ira!, que tinha a admiração de Jorge du Peixe e posteriormente passaria a fazer parte do repertório ao vivo de Chico Science & Nação Zumbi. Para a direção dos samplers em Da Lama ao Caos, foi chamado o produtor Chico Neves, creditado em seis faixas. Os samplers da faixa "Lixo do Mangue" estão creditados a Chico Science.

"Rios, Pontes & Overdrives" "Light/Fireworks" por The Fall

"Samba Makossa" "Brown Rice" por Don Cherry "Soul Makossa" por Manu Dibango

"A Cidade" "Boa Noite do Velho Faceta" por Velho Faceta "Boa Noite" por Baianas de Ipioca

"Coco Dub (Afrociberdelia)" "Vitamin C" por Can

Ficha técnica Chico Science & Nação Zumbi Chico Science – voz; samplers em "Lixo do Mangue" Lúcio Maia – guitarra Alexandre Dengue - baixo Toca Ogan - percussão e efeitos Canhoto - caixa Gira - alfaia Gilmar Bola 8 - alfaia Jorge du Peixe - alfaia; voz em "Maracatu de Tiro Certeiro"

Convidados André Jung - berimbau em "Maracatu de Tiro Certeiro" Chico Neves - samplers em "Rios, Pontes & Overdrives", "A Cidade", "Samba Makossa", "Antene-se" e "Côco Dub (Afrociberdelia)" Liminha - grito em "Lixo do Mangue"

Recepção Na mesma época, a Sony Music havia lançado também os álbuns Gabriel o Pensador e Skank, que rapidamente receberam o disco de ouro. O produtor Paulo André Pires entende que, em um primeiro momento, o disco não foi compreendido, o que justificaria o moderado número de apenas 10 mil cópias vendidas. Uma parcela dos fãs da banda acreditou que a produção de Liminha fez com que o álbum perdesse a sonoridade pesada presente nos shows.

Mesmo assim, "Da Lama ao Caos" progressivamente tomou espaço no cenário musical brasileiro, consolidando-se como um dos álbuns mais importantes do país. Retroativamente, Jorge Du Peixe afirmou que Da Lama ao Caos poderia ter alcançado notoriedade mais rápido caso as redes sociais já existissem. Apesar de as vendas não terem correspondido às expectativas da Sony Music, a banda conseguiu iniciar uma carreira internacional a partir de shows nos Estados Unidos e na Alemanha, encontros entre Chico Science e Nick Cave, e o relançamento de Da Lama ao Caos para o mercado norte-americano pelo selo de David Byrne, Luaka Bop.

As faixas "A Praieira" e "A Cidade" alcançaram bastante sucesso nas rádios, sendo incluídas nas trilhas sonoras das novelas Tropicaliente e Irmãos Coragem, respectivamente. Por Da Lama ao Caos, Chico Science & Nação Zumbi são frequentemente citados como os precursores de uma geração que fez a população brasileira voltar a se interessar por rock nos anos 1990, junto a Skank, Raimundos, Charlie Brown Jr. e O Rappa.

Legado

O álbum está na 13ª posição da lista dos 100 maiores discos da música brasileira pela Rolling Stone Brasil e na 17ª colocação na lista dos 500 maiores discos da música brasileira pelo Discoteca Básica.

Da Lama ao Caos é citado como um dos precursores do subgênero nu metal. O álbum Roots, lançado em 1995 pela banda Sepultura, foi influenciado por Da Lama Ao Caos, incorporando ao death metal elementos percussivos das culturas indígena e afrobrasileira. O vocalista e guitarrista Max Cavalera publicamente dedicou o álbum ao movimento Manguebeat e participou de um show em homenagem a Chico Science, em 1997, ao lado da Nação Zumbi.

A divulgação da cultura popular e de ritmos como o maracatu rural que Chico Science e Nação Zumbi propuseram com Da Lama ao Caos foi comparada ao Movimento Armorial de Ariano Suassuna na década de 1970. A faixa "A Cidade", por exemplo, inclui amostras de músicas dos grupos folclóricos Velho Faceta e Baianas de Ipioca.

Em 2019, o álbum foi incluído no projeto "Discos da Música Brasileira", série de e-books sobre álbuns importantes da música brasileira sob a organização do jornalista Lauro Lisboa Garcia.correiobraziliense.com.br/ Livro revela bastidores e explica conceitos do álbum "Da lama ao caos" O livro lançado sobre o álbum foi intitulado “Da Lama ao Caos: que som é esse que vem de pernambuco?” (selo "Edições Sesc").diariodonordeste.verdesmares.com.br/ Álbum clássico de Chico Science & Nação Zumbi, “Da Lama ao Caos” ganha livro sobre seus 25 anos No ano seguinte, a jornalista Lorena Calábria publicou o livro "Da Lama ao Caos - O Livro do Disco", elaborado a partir de conversas com músicos, familiares e outras pessoas que fizeram parte do álbum.

Em 2022, foi eleito o melhor disco da música brasileira dos últimos 40 anos em uma enquete do jornal O Globo que reuniu 25 especialistas, incluindo Charles Gavin, Vera Magalhães, Leonardo Bruno, Nelson Motta, Rodrigo Faour, Tárik de Souza, Ricardo Alexandre, Arthur Dapieve, Paulo Cesar de Araújo e Roberta Martinelli, entre outros nomes.

As canções do álbum frequentemente são regravadas por outros artistas: a faixa "Computadores Fazem Arte" foi incluída no álbum Vivo Feliz, de Elza Soares; "A Praieira" consta no álbum Sou de Qualquer Lugar, de Daniela Mercury; a faixa-título foi regravada pela banda Sepultura em seu álbum The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart; "Risoflora" consta no álbum Do Meu Olhar pra Fora, de Elba Ramalho. A faixa "Samba Makossa" foi incluída nos álbuns Acústico MTV e Baseado em Fatos Reais: 30 Anos de Fumaça, por Charlie Brown Jr. e Planet Hemp, respectivamente.

Em 2023, na décima temporada do programa Masterchef, a chef Helena Rizzo apresentou uma sobremesa chamada Da Lama ao Caos. Em 2025, o álbum inteiro foi regravado para o programa "Projeto Replay", do Canal Bis, com a participação de músicos como Marcelo D2, Chico Chico, FBC e Louise, filha de Chico Science.

Ver também Lista dos 100 maiores discos da música brasileira pela Rolling Stone Brasil Manguebeat

Categoria:Álbuns de Nação Zumbi Categoria:Álbuns de 1994 Categoria:Chico Science Categoria:Álbuns produzidos por Liminha (produtor musical) Categoria:Álbuns em língua portuguesa na década de 1990