Henrique de Barros Gomes GCC; GCTE (Sacramento, Lisboa, 14 de setembro de 1843 — Alcanhões, Santarém, 15 de novembro de 1898), político português, ligado ao Partido Progressista, que entre outras funções foi: deputado, diretor do Banco de Portugal e ministro dos Negócios da Fazenda, dos Negócios Estrangeiros e da Marinha e Ultramar.
Reformador e impulsionador do novo regime de Contabilidade Pública, que no essencial predominaria até à atualidade e que introduziu importantes inovações tributárias: décima de jurosContribuição de decima de juros e o imposto de selo.
Notabilizou-se pela forma como lidou com a crise colonial suscitada pelas questões emergentes da recusa do mapa cor-de-rosa e do ultimato britânico de 1890.
Foi sócio fundador da Sociedade de Geografia de Lisboa (1875), vice-presidente da Associação Comercial de Lisboa e da Cruz Vermelha Portuguesa. Membro honorário de "La Société Académique Franco-Hispano-Portugaise de Toulouse".
Foi agraciado com diversas condecorações nacionais e estrangeiras.
Biografia Henrique de Barros Gomes nasceu em Lisboa, na freguesia do Sacramento, a 14 de setembro de 1843, filho de Bernardino António Gomes, médico da Real Câmara e introdutor do uso do clorofórmio em Portugal, e de D.ª Maria Leocádia Fernandes Tavares de Barros Gomes. O seu avô paterno era Bernardino António Gomes, um conhecido médico e especialista em botânica brasileira, introdutor das técnicas vacínicas em Portugal. Um seu irmão foi o engenheiro florestal e cientista Bernardino António de Barros Gomes.
A 21 de janeiro de 1875, casou na igreja paroquial de Nossa Senhora da Encarnação, em Lisboa, com Rita Pinheiro Pessoa de Barros e Sá (Mártires, Lisboa, 26 de outubro de 1856 — Socorro, Lisboa, 29 de outubro de 1932), filha de António José de Barros e Sá, conselheiro, deputado, ministro e par do Reino, e de Clara Pinheiro Pessoa de Barros e Sá, ambos naturais de Montalegre. Deste casamento teve três filhos: António Pessoa de Barros Gomes, Advogado e exerceu o cargo de Administrador do antigo 2.º Bairro de Lisboa. Casado (teve 3 filhos) com Maria Adelaide da Graça Oliveira Monteiro de Barros Gomes, filha do seu amigo e correligionário do Partido Progressista do Porto, António de Oliveira Monteiro. Bernardino António Pessoa de Barros Gomes, casado com Maria Luísa de Aragão e Brito (teve 3 filhos), e casado (sem filhos) em segundas núpsias com D.ª Maria Theresa José de Mello de Barros Gomes; Henrique de Barros Gomes Maria Leocádia Pessoa de Barros Gomes.
Os anos formativos (1843-1869) Depois de estudos preparatório, matriculou-se em 1861, aos 18 anos de idade, na Escola Politécnica de Lisboa, onde fez, com distinção, o curso preparatório para oficiais do Estado-Maior e de Engenharia Militar, assim como de Engenharia Civil, terminando o curso em 1865 e obtendo o primeiro prémio em cinco cadeiras e a qualificação para premiado em todas as outras do curso geral.
Durante esta fase da sua vida, interessou-se pelo estudo da Matemática e da Astronomia, sendo autor de diversos escritos sobre esses temas, com destaque para os artigos A Astronomia Moderna e a Questão das Paralaxes Siderais, que publicou no Jornal de Sciencias Mathematicas, Physicas e Naturaes da Academia Real das Ciências de Lisboa, sendo feito seu sócio correspondente. Esse interesse levaria também a que em 1875 fosse um dos fundadores da Sociedade de Geografia de Lisboa, da qual foi sócio efetivo, mantendo profícua participação nos seus órgãos e atividades.
Com apenas 25 anos, foi eleito deputado círculo de Torres Novas nas eleições gerais que se realizaram a 11 de abril de 1869 (17.ª legislatura), iniciando assim o seu percurso parlamentar e a sua participação na vida política ativa.
Um idealista da criação de uma Universidade Católica para Portugal, escreveu sobre os progressos do catolicismo na sociedade Norte Americana, coroando-os com a inauguração da Universidade Católica de Washington em 13 de Novembro de 1889, conforme explica o Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente em "Universidade Católica Portuguesa: Uma realização de longas expectativas"
A primeira experiência parlamentar (1869-1871) Eleito deputado do Partido Reformista pelo círculo de Torres Novas, prestou juramento a 4 de maio de 1869, iniciando nesse dia a sua carreira parlamentar. Em sinal de destaque, logo nesta legislatura, apesar de estreante, já exerceu as funções de segundo secretário da Mesa da Câmara dos Deputados.
Na sua primeira intervenção como deputado, feita a 10 de julho de 1869, discorreu sobre a distribuição pelos distritos da contribuição predial, causando sensação o seu conhecimento e a profundidade da investigação que realizara sobre o tema. Este discurso lançou-o, no parlamento e na imprensa, como o grande especialista em matérias fiscais e de finanças públicas, temáticas que, a par das matérias coloniais, dominariam toda a sua atividade parlamentar e boa parte da sua atividade governativa. Também lhe abriu as portas da eleição para diretor do Banco de Portugal, que ocorreria em 1873.
Seria de novo eleito deputado para as legislaturas seguintes, 1870 e 1870-1871, pelo círculo de Santarém.
Como deputado, fez parte da Comissão da Fazenda (1870 e 1871) e da Comissão dos Expostos (1870), havendo sobressaído, nessa primeira experiência parlamentar, a forma como tratou a questão das contribuições de rendas de casas e sumptuária, a discussão do Orçamento de Estado para 1870, os seus relatórios sobre as reformas fiscais, em especial do real de água, da abolição das isenções fiscais às empresas financeiras e sociedades anónimas de Portugal e Ilhas Adjacentes, e sobre as contas da Junta do Crédito Público. Outra matéria em que se destacou foi na discussão do controverso empréstimo de 18 000 contos de réis que o Governo pretendeu realizar em 1870.
Por esta altura ligou-se à gestão da Sociedade das Casas de Asilo da Infância Desvalida de Lisboa, atividade que manteria durante toda a vida.
A direção do Banco de Portugal (1873-1898) miniaturadaimagem|300x300px|Nota de 500 réis
Em 1873 foi eleito diretor do Banco de Portugal, cargo que exerceu, com algumas interrupções, até 1898. No ano de 1887 foi presidente da respetiva direção, sendo em 1891, face à crise monetária que então se desenvolveu, temporariamente vice-governador da instituição. Voltou a ser vice-governador em 1897.
Teve um papel relevante na direção do Banco de Portugal, em especial em 1874, quando contribuiu para o sucesso do empréstimo nacional português e para a renegociação do contrato entre o Banco e o Estado português.
Ainda em 1874, foi eleito vereador do pelouro dos Negócios da Fazenda da Câmara Municipal de Lisboa, sendo simultaneamente presidente da Associação Comercial de Lisboa.
Em 1876 teve um papel importante no debelar da crise bancária que então ocorreu, tenso publicado um extenso relatório sobre o sucedido. Nesse mesmo ano foi enviado ao Funchal, por ocasião da crise comercial que ameaçava a ilha da Madeira, desempenhando aí um importante papel na conciliação dos interesses do Banco de Portugal com os das casas de comércio madeirenses.
Em 1876, foi um dos fundadores do Partido Progressista, que resultou da fusão dos Partido Histórico e Partido Reformista no célebre Pacto da Granja e foi eleito, em 1878, procurador à Junta Geral do Distrito de Lisboa.
Quando em 29 de Maio de 1879 o Partido Progressista foi chamado a formar governo, tendo como presidente do ministério Anselmo José Braamcamp, foi nomeado ministro dos Negócios da Fazenda, cargo de que tomou posse a 1 de Junho de 1879, demitindo-se nessa data do lugar de diretor do Banco de Portugal.
Ministro da Fazenda (1879-1881) thumb|Caricatura do Ministro da Fazenda Henrique de Barros Gomes da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro.|399x399px Tendo tomado posse a 1 de junho de 1879 do cargo de ministro dos Negócios da Fazenda, manteve-se à frente dessa pasta até 23 de março de 1881, data em que o Partido Regenerador, capitaneado por António Rodrigues Sampaio, assumiu o poder. Nesse período empenhou-se em algumas reformas, como a da décima de juros e do imposto de selo, e criou a Caixa Económica Portuguesa no âmbito da Caixa Geral de Depósitos.
Foi um ministro cauteloso e técnico, com marcada tendência reformista, conseguindo manter as depauperadas finanças públicas portuguesas em relativo equilíbrio.
A segunda fase parlamentar (1880-1886) O regresso à Câmara dos Deputados deu-se na sequência das eleições gerais de 19 de outubro de 1879, para a 23.ª legislatura (1880-1881), quando foi eleito pelo círculo de Santarém e acessoriamente pelo de Montalegre. Como na altura da eleição era ministro da Fazenda, apenas tomou posse do lugar em abril de 1881, após a sua saída do governo.
Na 25.ª legislatura (1884-1887) foi novamente eleito por Montalegre, o mesmo acontecendo nas eleições gerais que se realizaram em 6 de março de 1887, não chegando contudo a prestar juramento por entretanto ter sido nomeado par do Reino por carta régia de 31 de março daquele ano.
Nesta sua segunda passagem pela Câmara dos Deputados voltou a integrar a Comissão da Fazenda, destacando-se na discussão de matérias orçamentais e fiscais, nomeadamente a reorganização das alfândegas (1885) e o estabelecimento da contribuição industrial (1885). Também defendeu o Tratado do Zaire (1885) e a criação do distrito do Congo, em Angola.
O governo de José Luciano de Castro (1886-1890) thumb|O Ocidente: revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro.|398x398px Voltou a ter funções governativas no governo presidido por José Luciano de Castro, o qual se demitiu em bloco na sequência do ultimato britânico de 1890. Nesse governo assumiu a pasta dos Negócios Estrangeiros, entre 20 de fevereiro de 1886 e 14 de janeiro de 1890, a pasta da Marinha e Ultramar, entre 9 de maio e 15 de setembro de 1887, e, interinamente, a pasta dos Negócios da Fazenda, entre 23 de Fevereiro e 9 de novembro de 1889.
No desempenho do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros teve um importante papel em matérias referentes às colónias africanas de Portugal, então sob grande pressão por parte das potências europeias, em especial da Grã-Bretanha e da Alemanha, na sequência das deliberações da Conferência de Berlim sobre o conceito de efetiva ocupação.
Deve-se a Barros Gomes o sucesso nas negociações com a Alemanha que permitiram acordar os limites das esferas de influência de cada um dos Estados no continente africano.
Também durante o seu mandato foi celebrada uma Concordata com a Santa Sé, que permitiu apaziguar as tensões existentes entre a Igreja Católica Romana e o Estado português e melhorar a articulação em matéria missionária nas colónias de África.
Como Ministro da Marinha e Ultramar empenhou-se na promoção de expedições que pudessem comprovar a efetiva ocupação dos territórios pretendidos por Portugal em África. Foi neste contexto que apareceu oficialmente o chamado mapa cor-de-rosa, com a pretensão portuguesa de um território que se estendesse de Angola à contra-costa, em colisão frontal com o objetivo britânico de um território do Cairo à Cidade do Cabo. Embora Barros Gomes sempre tenha negado a paternidade do famigerado mapa, foram-lhe sempre assacadas as responsabilidades pelo seu intempestivo aparecimento.
O Ultimato Britânico de 1890 thumb|Caricatura da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro de John Bull (personagem Inglesa personificada) e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Henrique de Barros Gomes.|459x459px O resultado do mapa cor-de-rosa foi o ultimato britânico de 1890, com o rei D. Carlos I de Portugal a apressar-se a comunicar a cedência portuguesa a todas as exigências britânicas, o que causou uma tempestade na opinião pública, com um generalizado sentimento de ultraje nacional. Em resultado o governo demitiu-se, sendo Barros Gomes, apesar de não ter objetivamente responsabilidades pelo sucedido, a sofrer múltiplas manifestações públicas de hostilidade.