Jetsün Milarepa ou U-Jetsün Milarepa (; n Kyansa-Tsa, Ngari, 1040 — m. 1123), mais conhecido simplesmente como Milarepa, nascido Mila Thöpaga ou Mila Thö-pa-Ga, foi um mágico, iogue, poeta tibetano, um mestre do budismo tibetano. Juntamente com Padmasambhava, outro mestre tibetano do , é um dos santos budistas mais venerados pelos tibetanos.

Foi discípulo Marpa, o Lotsawa, que por sua vez foi discípulo de Naropa. No , Marpa foi uma figura central na segunda e mais importante difusão do budismo no Tibete (Sarma-pa) e Milarepa é considerado um dos principais mestres históricos da tradição Kagyüpa, que ainda hoje inclui numerosas linhagens espirituais tibetanas. Os seus discípulos mais célebres são Gampopa (também conhecido como Dhagpo Lhaje, Dhakpo Rinpoche e Sönam Rinchen) e (ou Retchung-pa, também conhecido como Rechung Dorje Dragpa e Rechung Dorje Drakpa). No Tibete, é o padroeiro dos atores e saltimbancos ambulantes.

A sua vida e ensinamentos são relatados no ("Vida de Milarepa") e no Gourbum (“Cem Mil Cânticos”), duas hagiografias em forma de lendas cuja importância para o budismo tibetano as faz comparar aos evangelhos cristãos.

Milarepa na cultura tibetana No budismo tibetano, Milarepa é considerado um grande iogue, poeta e santo do Tibete. Segundo alguns relatos que constam nas suas biografias, ele aprendeu feitiçaria na juventude e, por vingança, usava magia negra contra os seus inimigos. No entanto, impulsionado pelos remorsos e purificado pelas provas impostas por Marpa, a quem pediu para ser discípulo, conseguiu atingir a iluminação graças aos ensinamentos recebidos e a uma vida de eremita. O seu percurso de vida inspirou numerosas pessoas ao longo dos séculos.

Fontes Milarepa é conhecido no Ocidente principalmente através de várias traduções de duas obras reputadas: o ("Vida de Milarepa"), datado de 1488 e o Gurbum (“Cem Mil Cânticos”). No entanto, há outros documentos tibetanos com valor histórico aos quais alguns estudos fazem referência. Há ainda uma tradição oral, que foi iniciada no Tibete por Marpa e o seu discípulo Milarepa, a qual se trata de um conjunto de ensinamentos espirituais, doutrinários e técnicos, considerados esotéricos, nos quais as informações são raras.

O Namtar ou “Vida de Milarepa” thumb|upright|Pintura thangka retratando Milarepa, da autoria do pintor mongol ; 2008

O Namtar ou Rnam-thar "a mais célebre das Vidas de Milarepa" é a principal fonte biográfica escrita publicada no Ociente. A tradução do seu nome varia conforme os autores: "a vida", "a biografoa" ou "a história duma vida" O seu sentido exato é "completa realização", que significa que uma vida exemplar e completa leva a uma realização espiritual total. O Namtar de Milarepa é por vezes chamado Jetsum Kabhum (“As Cem Mil Palavras do Venerável [Milarepa]”), da mesma forma que os “Cem Mil Cânticos” (Gurbum ou mGur-'gum) é o título da recolha dos poemas de Milarepa.

Conteúdo O Namtar de Milarepa discorre sobretudo sobre a infância, a busca espiritual e à morte de Milarepa. Os últimos trinta anos da sua vida, passado a ensinar, só são abordados num único capítulo. Essa fase da biografia é o tema principal dos Cem Mil Cantos. O Namtar está dividido num prólogo e duas partes, que compreendem doze "Grandes Atos" ou "Altos Feitos". Desta forma é criado um paralelo com o relato da vida do Buda histórico A primeira parte tem três atos: nascimento, juventude e vingança. A segunda parte está dividida em nove atos; sete discorrem sobre o seu arrependimento, as provações e as "terríveis austeridades" a que ele se sujeitou para obter a iluminação; o oitavo informa, sob a forma de enumeração, os locais (grutas e eremitérios) onde durante trinta anos ele conhece, converte os seus discípulos e prepara o Gurbum. Por fim, o último ato, o 12.º do Namtar e 9.º da segunda parte, diz respeito à morte e ao nirvana de Milarepa.

Caraterísticas e génese da obra thumb|left|upright|Estátua de Milarepa na gompa de Samye, Tibete

O texto tibetano está escrito do início até ao fim sem estruturação; nada separa as questões dos discípulos das respostas de Milarepa ou dos poemas, nada há que individualize as duas partes ou os doze atos. Os diferentes tradutores incorporaram capítulos e uma paginação, de forma mais ou menos arbitrária, a fim de melhorar a legibilidade. Os capítulos seguem geralmente as divisão dos "Altos Feitos", mas variam de autor para autor.

À exceção do último capítulo (a morte) e do penúltimo (o anúncio do Gurbum), o texto do Namtar está escrito sob a forma do relato da sua vida, feito pelo próprio Milarepa numa , na parte ocidental do Tibete, perto do monte Everest. O Mestre, tendo já atingido o estado de Buda, está rodeado por um grupo importante de discípulos, humanos e não humanos, e responde às perguntas que lhe coloca o seu principal aluno, , numa narrativa de "experiência de vida". Alguns tradutores antigos, como Jacques Bacot et Walter Evans-Wentz, consideraram por isso a obra como uma autêntica autobiografia transcrita por Rechungpa, que remonta ao .

Os estudos mais recentes, como a “História e Filologia Tibetana” da académica Ariane Spanien, onde também é citada a opinião concordante de Rolf Stein, mostram que o verdadeiro autor do texto como o conhecemos é, de facto, Tsang Nyön Heruka , um monge budista, mestre da tradição Kagyüpa, que também redigiu a biografia de Marpa, o Tradutor. O Namtar foi composto e completado, sob a forma de xilografia, em La-stod Lho em 1488, ou seja, «365 anos depois da morte de Milarepa».

Para A. Spanien, não há qualquer dúvida que o material usado para essa obra provém principalmente de documentos escritos anteriores que o autor do Namtar reorganizou sob a influência de um mestre espiritual "aparecido em visão pura". A forma de autobiografia seria, quanto a ela, uma ficção adotada por Heruka. No seu trabalho de 2006, M.J. Lamothe segue esta atribuição, bem como a importância de fontes antigas escritas, mas não deixa de sugerir que Nyön Heruka não faz mais do que respeitar uma autobiografia mais antiga escrita por Rechungpa.

Valor Como grande mestre da tradição de Kagyüpa, Heruka, que alguns discípulos gostariam de ver como uma encarnação de Retchung-pa, conferiu à sua versão do Namtar uma importância religiosa e mística que a distingue das versões anteriores.

Os diferentes tradutores e historiadores destacaram o aspecto lendário e hagiográfico desta biografia de Milarepa e apreciaram de diferentes formas o valor histórico deste documento em algumas de suas partes, por vezes deixando para o leitor a avaliação da veracidade dos factos que são relatados. O aspeto lendário ou mítico do texto e do herói que é descrito é uma das caraterísticas frequentemente salientadas pelos diferentes autores que abordaram o Tema.

O Gurbum ou “Os Cem Mil Cânticos”

thumb|405px|Manuscrito tibetano do Gurbum

“Os Cem Mil Cânticos” constituem uma importante recolha de poemas atribuídos a Milarepa. Os cânticos (ou canções, poemas ou hinos, conforme as traduções) estão referenciados cronologicamente e geograficamente e estão ligados entre eles por textos, descrições ou diálogos. O conjunto forma 72 capítulos divididos em três partes, onde são descritos os ensinamentos de Milarepa durante os trinta anos que durou a vida de mestre espiritual. Esta obra é assim o complemento bibliográfico direto do Namtar, que se intercala cronologicamente ente o 11.º "Grande Ato" e 12.º (a morte).

Mais imponente e menos narrativo que o Namtar, o Gurbum foi também menos frequentemente traduzido de forma integral. Marie-José Lamothe publicou em 2006 uma tradução em francês feita diretamente a partir do . Em , a tradução de Garma C.C. Chang é muito citada. Como no Namtar, o texto é apresentado em tibetano sem qualquer divisão interna e deve-se aos tradutores a divisão em diferentes livros e capítulos, com as opções tipográficas pondo em evidência a parte em verso. Nas edições integrais tibetanas, o texto dá seguimento ao Namtar sem qualquer corte ou separação.

As três partes do Gurbum são apresentadas no início do último capítulo do Namtar da seguinte forma: «a secção que diz respeito à submissão dos demónios não humanos. Aquela que conta como ele [Milarepa] introduziu os seus discípulos na via da libertação. E aquela que conta como ele rodou a roda da lei para os espectadores e discípulos em diversos lugares e momentos.»

O Gur é um poema com refrão, cujos versos são geralmente compostos por sete sílabas, embora haja alguns mais longos. As rimas, repetições e aliterações conferem aos poemas um ritmo vivo e tocante.

Enquanto Marpa Lotsawa, o seu guru, era um sábio erudito e mundano, Milarepa abandonou tudo para viver nu, como um perfeito anacoreta, nas cavernas dos Himalaias. Ele negligenciou e chegou mesmo a rejeitar as especulações filosóficas para se dedicar exclusivamente à experimentação prática. Nos Cânticos, os ensinamentos originados por essa contemplação exprimem as bases da via tântrica para o "Despertar". O Gurbum é assim um «texto fundador tibetano» que vai dar a sua doutrina a uma «corrente budista chamada Linhagem de Transmissão Oral ou Linhagem da Prática». Os novos tantras ligados ao budismo indiano tardio introduzidos no Tibete por Marpa e outros tradutores-comentadores tibetanos de textos sânscritos (lotsawas) devem muita da sua audiência à forma que Milarepa lhes soube conferir nos seus cânticos. Juntando à mística das melodias indianas o fundo cultural do seu país, a sua obra foi adotada pelos saltimbancos e contadores de histórias errantes que se reclamam da sua tradição, que o fizeram seu padroeiro e que afirmam que cantam e dançam seguindo a tradição expressa por Milarepa nos seus Cem Mil Cânticos.

Outras fontes Gampopa, discípulo de Milarepa, escreveu uma das suas primeiras biografias. Nos últimos anos têm vindo a ser encontradas outras biografias antigas de Milarepa e do seu discípulo que se consideravam perdias, como as dos lamas Donmo Ripa (don mo ri pa; ), Gyaltangpa Dechen Dorje (rgya ldang pa bde chen rdo rje; ), Montsepa Kunga Palden (mon rtse kun dga' dpal ldan), e Rangjung Dorje Os ” (em tibetano: Depter Ngonpo ou deb ther sngon po), escritos alguns anos antes do Namtar pelo historiador , um documento exaustivo de grande valor histórico, contém também uma biografia curta mas completa de Milarepa. Nesta obra, Milarepa é chamado Mid-la-ras-pa, Mid-la ou rJe-btsun (Jetsün, que significa "o Venerável").

À exceção dos Anais Azuis, aparentemente não há versões traduzidas publicadas desses documentos.

Biografia Família e juventude thumb|Estatueta tibetana de Milarepa do em exposição no Museu Linden de Estugarda, Alemanha

Na sua obra La Civilisation tibétaine, Rolf Stein relata que um antepassado de Milarepa era um feiticeiro duma tribo de pastores do norte do Tibete. Após ter curado um doente que estava possuído por um demónio (mi-la) particularmente arisco, a sua família tomou o nome de Mila. Mas a sua fortuna, assegurada pelas suas curas, foi delapidada pelo seu filho (avô de Milarepa) num jogo de dados em que perdeu todos os bens da família. O pai e os filhos partiram então para a fronteira do Nepal, onde reconstituíram a fortuna dedicando-se ao exorcismo e ao comércio de lã. O filho casou com uma boa família local e comprou um grande terreno, onde transformou a casa que lá existia num palácio. O pai de Milarepa casou com uma filha do clã nobre de Myang.

Segundo Igor Kononenko, o pai de Milarepa chamava-se Mila Sherab Gyaltsen e a mãe Nyangtsa Kargyen. A família do pai era da tribo Khyungpo e um dos seus ancestrais era um iogue e mágico chamado Josay Khyungpo. Milarepa recebeu o nome de Thöpaga ("Boa Voz") ou Mila Thöpaga ("aquele que se ouve com alegria"; Mila o nome de família) quando nasceu na aldeia de Kya Ngatsa (Tsa), na região de , no Tibete Ocidental, junto ao Nepal. Quando Milarepa tinha quatro anos, nasceu uma irmã, chamada Peta Gonkaj.