Alberto Guerreiro Ramos (Santo Amaro da Purificação, 13 de setembro de 1915 — Los Angeles, 6 de abril de 1982) foi um sociólogo e político brasileiro.
Como proeminente sociólogo e intelectual afro-brasileiro, Alberto Guerreiro Ramos foi figura de grande relevo da ciência social no Brasil no século XX. Suas ideias influenciaram intelectuais de todo o mundo na sociologia, na política e na administração. Em 1956, Pitirim Sorokin, ao analisar a situação da sociologia, incluiu Guerreiro Ramos entre os autores que mais contribuíram para o progresso da disciplina.
Guerreiro Ramos desenvolveu conceitos fundamentais para sua análise da sociedade e das organizações, como a Redução Sociológica, a Síndrome Comportamental e a Racionalidade Substantiva.
Biografia Alberto Guerreiro Ramos nasceu em 13 de setembro de 1915, na cidade de Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Filho de pequenos agricultores, mudou-se para Salvador ainda na infância e, após o falecimento de seu pai, começou a trabalhar aos onze anos de idade para ajudar no sustento da família. Posteriormente, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde deu continuidade aos seus estudos e formação intelectual.
Na capital fluminense, Guerreiro Ramos ingressou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde obteve duas graduações: uma em Ciências Sociais pela Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), em 1942 e outra em Direito pela Faculdade de Direito. Essa formação dual nas ciências sociais e jurídicas seria fundamental para sua posterior atuação interdisciplinar e sua análise crítica da sociedade e das instituições brasileiras.
Sua trajetória profissional inicial incluiu atuação no serviço público. Em 1943, Guerreiro Ramos começou a trabalhar como técnico de administração no Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), órgão central do governo federal na época, responsável pela modernização e racionalização da administração pública no Brasil. Sua experiência no DASP proporcionou um contato direto com os desafios e as práticas da burocracia estatal brasileira.
Em 1949 assumiu a direção do Instituto Nacional do Negro e teve forte atuação em defesa de maior integração social dos afrodescendentes e da positivação de seus valores, criticando o padrão estético europeu artificialmente adotado pelo Brasil, em detrimento de outras contribuições étnico-culturais.
Em 1950, Guerreiro Ramos teve atuação destacada no I Congresso do Negro Brasileiro, tanto na sua organização quanto na sua direção e debate público, utilizando a imprensa como instrumento central de mobilização e reflexão crítica. Entre 1949 e 1953, publicou diversos textos em jornais como Vida Política, A Manhã, Quilombo e Diário de Notícias, nos quais apresentava o temário, os objetivos e a relevância do congresso. Dentre essas publicações, criticou a sociologia racial dominante por seu viés eurocêntrico e por produzir uma "falsa consciência" sobre as relações raciais no Brasil, defendendo abordagens fundamentadas nas experiências da população negra.
Durante o congresso, teve participação como autor e debatedor, especialmente com a tese "A Unesco e as relações de raça", na qual propôs uma sociologia comprometida com transformações práticas e valorizou o Teatro Experimental do Negro (TEN) como experiência inovadora e agente de mudança social. Sua atuação articulou forte crítica acadêmica e produção intelectual, contribuindo para redefinir os rumos dos estudos sobre relações raciais no país.
Em 1952, começou a trabalhar na Assessoria Econômica da Casa Civil do segundo governo de Getúlio Vargas (1951–1954). Durante esse período, juntou-se à Escola Brasileira de Administração Pública, criada no âmbito da Fundação Getulio Vargas.
A ligação de Alberto Guerreiro Ramos com a Fundação Getulio Vargas (FGV), especialmente com a Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP), foi duradoura e significativa para o desenvolvimento do pensamento administrativo no Brasil. A FGV, particularmente através da EBAP, tornou-se um centro importante para a modernização da administração pública e a formação de gestores no país, e Guerreiro Ramos foi uma figura chave nesse processo.
Na FGV, Guerreiro Ramos atuou como professor e pesquisador, influenciando gerações de estudantes e contribuindo para a produção de conhecimento na área de administração.
O Período no ISEB: Atuação, Debates e Contribuições Entre 1955 e 1959, Alberto Guerreiro Ramos dirigiu a área de sociologia do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), um dos períodos mais significativos na trajetória. Fundado em 1955, o ISEB tornou-se rapidamente um centro nevrálgico de debates intelectuais e políticos sobre o desenvolvimento do Brasil, reunindo importantes pensadores engajados na formulação de um projeto nacional.
Guerreiro Ramos teve um papel central e proeminente no ISEB, contribuindo ativamente para as discussões que visavam compreender a realidade brasileira e propor caminhos para o seu desenvolvimento autônomo. Sua participação no instituto foi fundamental para a consolidação e divulgação de suas ideias sobre o problema nacional do Brasil e o nacionalismo desenvolvimentista.
Durante este período, ele aprofundou suas análises sobre as estruturas sociais e políticas do país, criticando a dependência intelectual e a adoção acrítica de modelos estrangeiros, e defendendo a construção de uma ciência social enraizada na realidade brasileira. O ISEB foi o palco para a gestação ou consolidação de conceitos importantes de sua obra. A obra Introdução Crítica à Sociologia Brasileira, fundamental para sua crítica à sociologia vigente, está intimamente ligada às reflexões desenvolvidas nesse ambiente. O livro O Problema Nacional do Brasil também é uma expressão marcante de suas preocupações e propostas desse período.
No ambiente intelectualmente dinâmico do ISEB, Guerreiro Ramos participou de intensos debates com outros intelectuais de destaque. Uma divergência notória foi com Hélio Jaguaribe, centrada em questões relacionadas ao nacionalismo e ao desenvolvimento político do Brasil, especialmente no contexto da crise de 1958. A discussão refletia diferentes concepções sobre como o país deveria construir seu futuro autônomo, podendo ser enquadrada, conforme análises, na tensão entre visões "universalistas" e "nacionalistas" na formulação de um projeto para o Brasil . Guerreiro Ramos defendia um nacionalismo forte e um desenvolvimento partindo das especificidades brasileiras, enquanto Jaguaribe propunha uma abordagem mais universalista.Periódicos FGV/RAP, TERCEIRO PAINEL - GUERREIRO RAMOS E O DESENVOLVIMENTO BRASILEIRO. Link: https://periodicos.fgv.br/rap/article/view/11128
O período no ISEB representa, portanto, uma fase crucial na trajetória de Alberto Guerreiro Ramos, onde ele consolidou sua posição como um dos principais intelectuais brasileiros engajados na busca por um projeto nacional autônomo e na construção de uma ciência social crítica e relevante para o Brasil.
Carreira Política e Institucional Após seu período no ISEB, Guerreiro Ramos intensificou sua atuação política e institucional. Ingressou na política partidária em 1960, quando se filiou ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), onde fez parte do diretório nacional. Na eleição de outubro de 1962 candidatou-se a deputado federal pelo Estado da Guanabara, na legenda da Aliança Socialista Trabalhista, formada pelo PTB e o Partido Socialista Brasileiro (PSB), obtendo apenas a segunda suplência de Leonel Brizola. Ocupou uma cadeira na Câmara dos Deputados de agosto de 1963 a abril de 1964, quando teve seus direitos políticos cassados pelo Ato Institucional nº 1.
Em sua atuação como parlamentar, Guerreiro Ramos defendeu o monopólio estatal do petróleo, a nacionalização da indústria farmacêutica e dos depósitos bancários. Para promover a reforma agrária, defendia o pagamento das desapropriações em títulos da dívida pública. Defendeu também as reformas eleitoral (voto para os analfabetos e soldados e elegibilidade de todos os eleitores), bancária e administrativa.
Guerreiro Ramos também foi Secretário do Grupo Executivo de Amparo à Pequena e Média Indústrias do BNDES, assessor da Secretaria de Educação da Bahia, e técnico de administração do Departamento Nacional da Criança. Atuou também como delegado do Brasil junto à Organização das Nações Unidas.
Como jornalista, Alberto Guerreiro Ramos colaborou em O Imparcial, da Bahia, O Diário, de Belo Horizonte, e Última Hora, O Jornal e Diário de Notícias, do Rio de Janeiro.
Reconhecimento internacional e fim da vida Em 1955, foi conferencista visitante da Universidade de Paris. Ao ser expulso do país pelo Regime Militar, foi convidado a lecionar na University of Southern California (USC) a partir de 1966, radicando-se nos Estados Unidos. Pronunciou conferências em Pequim, Belgrado e na Academia de Ciências da União Soviética. Nos anos de 1972 e 1973 foi "visiting fellow" da Yale University e professor visitante da Wesleyan University.
Em 1980, de volta ao Brasil, ele leciona na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde organiza um mestrado em Planejamento Governamental, baseado em sua teoria da delimitação de sistemas sociais.
A Universidade de Toronto publicou em 1981 a edição inglesa de sua última obra, escrita em inglês e traduzida para o português, The New Science of Organizations: a reconceptualization of the wealth of nations (A nova ciência das Organizações, uma reconceituação da riqueza das nações).
Foi autor de dez livros e de numerosos artigos, muitos dos quais têm sido publicados em inglês, francês, espanhol e japonês. Entre outros assuntos, estudou a questão racial.Appropriation and rationality in hip hop groups organization practices in Porto Alegre: an analysis on the perspective of Guerreiro Ramos Seu reconhecimento internacional está registrado em depoimentos de norte-americanos e brasileiros, em uma obra bilíngue (português-inglês): Guerreiro Ramos: Collection of Testimonials (2014).
Ao voltar aos Estados Unidos em abril de 1982, Guerreiro Ramos recebe o prêmio Phi Kappa Phi. Uma semana depois, faleceu em 6 de abril de 1982, em Los Angeles, aos 66 anos, vitimado por um câncer.
Pensamento Influências O pensamento de Alberto Guerreiro Ramos foi forjado em um intenso diálogo crítico com diversas tradições teóricas e autores, assim como com o contexto político e social de sua época. Embora avesso a filiações rígidas ou "seguismos", ele se apropriou de conceitos e problemáticas de diferentes fontes para construir sua própria abordagem da realidade brasileira e das ciências sociais.Daniel Ricardo de Castro Brasil, A Sociologia Crítica de Guerreiro Ramos: um estudo sobre um sociólogo polêmico, Site do CFA. Link: https://cfa.org.br/wp-content/uploads/2019/01/A-Sociologia-Cr%C3%ADtica-de-Guerreiro-Ramos-%E2%80%93-Um-estudo-sobre-um-soci%C3%B3logo-pol%C3%AAmico.pdf
Entre as influências teóricas identificadas em sua obra, destaca-se a de Max Weber, especialmente em sua sociologia da administração e nas reflexões sobre a racionalidade. A crítica de Guerreiro Ramos à razão instrumental, que fundamenta sua concepção de Síndrome Comportamental, dialoga com a Escola de Frankfurt, em autores como Karl Mannheim, Adorno e Horkheimer.