O hipopótamo-pigmeu (nome científico: Choeropsis liberiensis, do grego khoiros, porco; e opsis, parecido com; e liberiensis, relativo a Libéria) é uma espécie de mamífero da família Hippopotamidae, nativo das florestas e pântanos da África Ocidental. É uma das duas espécies viventes da família dos hipopótamos, e a única espécie atual do gênero Choeropsis.

Ao contrário do hipopótamo-comum, é uma espécie mais adaptada ao ambiente terrestre, motivo pelo qual apresenta diversas características morfológicas distintas e mais relacionadas com os habitats florestais em que vive. Devido aos hábitos furtivos e noturnos, pouco se conhece a respeito do comportamento social, reprodutivo e alimentar do hipopótamo-pigmeu.

É uma espécie ameaçada de extinção, sendo considerada em perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN). Sua área de distribuição diminuiu drasticamente nos últimos trinta anos, principalmente pelo desmatamento, que fragmentou as populações. A guerra civil na região também influenciou negativamente as populações de hipopótamos, principalmente na Libéria.

Duas subespécies são conhecidas, cujas populações estão separadas, por cerca de 1800 km, pelo corredor Togo-Daomé. A subespécie nigeriana encontra-se possivelmente extinta, sendo registrada somente por alguns crânios coletados na década de 1940 pelo explorador colonial britânico I. R. P. Heslop.

Distribuição e habitat O hipopótamo-pigmeu é endêmico da África Ocidental, sendo registrado na Serra Leoa, Guiné, Costa do Marfim, Libéria e Nigéria. Um registro do rio Corubal na Guiné-Bissau feito por Cristino (1958), que sustentou ter atirado em um indivíduo, é quase certamente um espécime jovem de hipopótamo-comum. É uma espécie florestal, preferindo as matas densas próximas a cursos d'água, mas que também pode ser encontrada em matas ciliares que se estendem aos bosques transicionais e ao sul da savana da Guiné.

A área original de distribuição do hipopótamo-pigmeu não difere significativamente da atual, apesar de as populações terem se fragmentado e desaparecido de algumas regiões. As maiores populações da espécie são encontradas na Libéria, onde é registrada nos condados de Grand Cape Mount, Lofa, Grand Bassa, Nimba, Grand Gedeh, Sinoe, Grand Kru e Maryland. As populações estão dispersas em diversas áreas florestais no interior do país, como o Parque Nacional de Sapo, Floresta de Cestos-Senkwehn, Floresta Nacional Krahn-Bassa, Floresta Nacional Gibi, Floresta Nacional Grebo e em diversas áreas no condado de Grand Kru. Não há informações sobre as populações do noroeste do país, que pode abrigar um substancial número de hipopótamos. Estudos sobre essas populações, contudo, têm sido complicados por causa dos conflitos civis no país, tais como a Primeira e a Segunda Guerra Civil da Libéria.

thumb|190px|left|Ilha Tiwai, na Serra Leoa, onde pode ser encontrada uma pequena população de hipopótamos-pigmeus

Na Serra Leoa populações remanescentes podem ser encontradas na região da Floresta de Gola na fronteira com a Libéria, na ilha Tiwai, localizada no rio Moa e nas Montanhas Loma. Outras populações reportadas na década de 1960 estão agora presumivelmente extintas.

A Guiné contém fragmentos populacionais de hipopótamos-pigmeus ao longo das fronteiras com a Libéria e a Costa do Marfim, na Reserva de Ziama. Evidências também sugerem uma população pequena na Reserva Florestal Diécké, ao sudoeste de Ziama. A Floresta Déré, onde era reportada a existência de animais, encontra-se atualmente degradada e com muitas áreas convertidas para a agricultura.MATSUZAWA, T. Chimpanzees of Bossou e Nimba. Other Sites: Déré (Guinea) . Acessado em 27 de outubro de 2008.

A Costa do Marfim perdeu grande parte de sua cobertura florestal, e a população de hipopótamos tornou-se fragmentada, podendo ser encontrada principalmente na fronteira com a Libéria, na região de Fresco, no Parque Nacional de Taï, e possivelmente na Reserva Florestal Cavally, Reserva Natural do Monte Nimba, Reserva Florestal N'Zo, Floresta Taipleu, Lagoa Tatigbo e ao longo dos rios Gagbe, Bolo e Niouniourou.

Na Nigéria, os hipopótamos-pigmeus são conhecidos do Delta do Níger a leste, até as proximidades do rio Cross. Essa população está isolada em mais de 1800 quilômetros a leste, da outra população, do outro lado do corredor Togo-Daomé.

Características Ficha técnicaNOVAK, R. M. Walker’s Mammals of the World. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1999.HUFFMAN, B. Hexaprotodon liberiensis. Ultimate Ungulate (v. 22-04-2004). Acessado em 13 de outubro de 2008 Altura <center>75 – 83 cm Comprimento <center>150 – 177 cm Cauda <center>15 cm Peso <center>180 – 275 kg Tamanho de ninhada <center>1 Desmame <center>6 - 8 meses Maturidade sexual <center>4 - 5 anos Gestação <center>192 - 210 dias Longevidade <center>43 anos (em cativeiro)

thumb|right|200px|Hipopótamo-pigmeu no Zoológico Louisvile, detalhe para a anatomia facial thumb|left|200px|Crânio de um hipopótamo-pigmeu.

O hipopótamo-pigmeu só tem a metade da altura e pesa menos de um quarto do que seu primo o hipopótamo-comum (Hippopotamus amphibius). O corpo quase não possui pelos, com exceção de algumas cerdas nos lábios e na cauda. Sua coloração é preto-esverdeada no dorso e cinzenta nos flancos, e o ventre varia de cinza-claro ao verde-amarelado. Os machos tendem a ser ligeiramente maiores que as fêmeas.SCHIMDT, C. R. Hexaprotodon liberiensis. Appendix II. CITIES, 1986.

Hipopótamos-pigmeus compartilham a mesmo formato geral dos hipopótamos, um esqueleto graviportal com quatro pernas curtas apoiando uma armação corpulenta, e superficialmente parecem miniaturas do hipopótamo-comum, mas há diferenças estruturais notáveis entre eles. A cabeça é proporcionalmente menor e arredondada e não tão larga ou achatada, e os olhos são menos protuberantes e estão localizados lateralmente na cabeça. As narinas são largas e quase circulares, e os dedos estão bem separados e com garras afiadas. Os membros e o pescoço são relativamente mais longos e o dorso é inclinado para frente ao invés de ser paralelo com o solo, como no hipopótamo-comum. Muitas dessas adaptações estão relacionadas aos hábitos mais "terrestres" dos hipopótamos-pigmeus.JABLONSKI, N. G. (2004). The hippo’s tale: how the anatomy and physiology of Late Neogene Hexaprotodon shed light on Late Neogene environmental change. Quaternary International 117: 119–123. Em adição, o gênero Choeropsis geralmente tem um único par de incisivos inferiores, quando comparado com o Hippopotamus que tem dois ou três pares. A fórmula dentária é: .GRZIMEK, B.; SCHLAGER, N.; OLENDORF, D. Grzimek's Animal Life Encyclopedia. Detroit: Thomson Gale, 2003. As fêmeas possuem um par de mamas.

A sua pele é muito semelhante à do hipopótamo-comum, e apresentam o mesmo suor excepcional, que dá uma cor rosada ao corpo, e que muitas vezes é descrito como "suor de sangue", embora a substância secretada não seja nem suor nem sangue. Acredita-se que a substância, altamente alcalina, tenha função antisséptica e de proteção contra os raios solares, visto que a pele do hipopótamo resseca e racha facilmente à exposição solar.

Hábitos thumb|right|200px|Hipopótamo-pigmeu descansando na água, Zoológico de Aalborg A maior parte do seu comportamento é semelhante ao da anta, embora isto seja um efeito da evolução convergente.ROBINSON, P. T. River Horses and Water Cows . Hippo Specialist Group of the World Conservation Union . Acessado em 30 de julho de 2007. O comportamento do hipopótamo-pigmeu diferencia-se do hipopótamo-comum de muitos modos. Enquanto o hipopótamo-comum é gregário, o pigmeu vive solitário ou em pequenos grupos, tipicamente aos pares ou então uma fêmea e seu filhote.

O hipopótamo-pigmeu é um animal noturno, passando os dias descansando nos remansos, poças de lama e riachos. Alguns podem utilizar cavidades ou túneis escavados por outros animais ao longo das margens do rios. Ao anoitecer sai da água, e utiliza suas trilhas e caminhos abertos na densa floresta para procurar alimento. Estas trilhas são demarcadas através das fezes, que são espalhadas por movimentos vigorosos da cauda, e pelo ato de esfregar o corpo em troncos. Esse ato de demarcação das trilhas implica que o hipopótamo-pigmeu pode ser, ao menos, parcialmente territorialista. Estudos de campo estimaram que machos tem um território de 1,85 km², enquanto que o da fêmea é de 0,4 a 0,6 km².

Devido aos seus hábitos furtivos, o hipopótamo-pigmeu raramente é visto pela população local. Os efeitos dos predadores na população da espécie são desconhecidos, sendo o leopardo o único predador natural capaz de atacar o hipopótamo.

Hábitos alimentares e dieta Os hipopótamos-pigmeus são estritamente herbívoros, alimentando-se principalmente de brotos, folhas-largas e frutos que encontram no chão da floresta. Eles não comem a vegetação aquática e raramente alimentam-se de gramíneas, visto que estas dificilmente crescem em florestas densas.

Assim, como seu primo, o hipopótamo-pigmeu alimenta-se durante o crepúsculo e a noite, seguindo trilhas abertas na floresta densa, onde passa aproximadamente seis horas forrageando.

Reprodução thumb|right|200px|Filhote de hipopótamo-pigmeu, junto a mãe, no Zoológico de Jihlava, República Tcheca. Um estudo do comportamento reprodutivo na natureza nunca foi conduzido; as condições artificiais do cativeiro podem ser diferentes do comportamento em condições naturais.

O período de gestação para os hipopótamos-pigmeus é de aproximadamente 6,5 meses, mas não há informações sobre uma estação de procriação para a população selvagem. Geralmente, um único filhote é concebido, pesando entre 3,4 a 6,4 quilogramas, os machos geralmente nascem mais pesados. O nascimento de gêmeos é raro, e a incidência é de aproximadamente um em 200. O parto pode ocorrer em qualquer época do ano.

O parto ocorre em terra firme, e não há evidências, nos animais em cativeiro, quanto a construção de um ninho. O desmame ocorre entre seis e oito meses de idade. A maturidade sexual ocorre entre 4 e 5 anos de idade. Entretanto, no zoológico de Basileia, na Suíça, foi registrada uma fêmea que pariu com três anos e três meses de idade.

O ciclo estral dura em média 28 dias, com o estro durando de dois a três dias. Os hipopótamos-pigmeus associam-se em pares no período de acasalamento, mas a duração desse período é desconhecida. A cópula pode ocorrer em terra ou na água, e o par acasala-se de uma a quatro vezes durante o período do estro.

Classificação O hipopótamo-pigmeu foi inicialmente descrito por Samuel George Morton (1849) como Hippopotamus liberiensis. Em 1853, Joseph Leidy descreveu o gênero Choeropsis incluindo a espécie liberiensis. Coryndon (1977), baseado na morfologia da área lacrimal, sinonimizou o gênero Choeropsis com o Hexaprotodon, gênero de hipopótamos extintos nativos principalmente da Ásia,CORYNDON, S. C. (1977). The taxonomy and nomenclature of the Hippopotamidae (Mammalia, Artiodactyla) and a description of two new fossil species. Proceedings of the Koninklijke Nederlandse Akademie van Wetenschappen 80 (2): 61-88. apesar das diferenças no número de dentes entre as espécies. Muitos autores, entre eles Peter Grubb (1993; 2005) e Oliver (1995OLIVER, W. L. R. (1995). Taxonomy and Conservation Status of the Suiformes — an Overview. IBEX Journal of Mountain Ecology 3: 3-5.), seguiram as conclusões de Coryndon. Entretanto, Boisserie (2005), após exame completo da filogenia da família Hippopotamidae, constatou que o hipopótamo-pigmeu pertence a um gênero próprio, restituindo-o ao Choeropsis.BOISSERIE, J-R. (2005). The phylogeny and taxonomy of Hippopotamidae (Mammalia: Artiodactyla): a review based on morphology and cladistic analysis. Zoological Journal of the Linnean Society 143: 1-26. Apesar das mudanças na nomenclatura, o hipopótamo-pigmeu é a única espécie atual de seu gênero.