A Monarquia do Norte foi uma contrarrevolução ocorrida na cidade do Porto, em 19 de janeiro de 1919, pelas juntas militares favoráveis à restauração da monarquia em Portugal em plena 1.ª República portuguesa. Este breve período, também apelidado de «Monarquia do Quarteirão», por só ter durado 25 dias (de 19 de janeiro a 13 de fevereiro), e de «Reino da Traulitânia» foi, em traços gerais, a última profunda manifestação de revolta monárquica com utilização da força depois da implantação da República em Portugal em 1910.

A partir deste efémero acontecimento, que restaurou a monarquia na cidade do Porto e por quase todo o norte do país, o espírito realista parece ter adormecido, ficando restrito a pequenos grupos.

Antecedentes Face às transformações ideológicas, politicas e sociais que resultaram do 5 de outubro de 1910, muitos monárquicos decidiram emigrar para outros países monárquicos. Outros acabaram por ficar em Portugal, e destes, muitos acabaram por aderir ao novo regime. Paiva Couceiro, vendo recusado o seu pedido de se fazer um plebiscito para que o povo escolhesse em que regime queria viver, entregou a sua espada e em 1911 exilou-se na Galiza, planeando a partir do exílio as "incursões monárquicas", duas incursões militares falhadas a partir da Galiza em prol de restaurar o antigo regime.

Quando Couceiro começa a pôr em prática aquilo que defendia, o próprio ex-rei de Portugal declara o seu desagrado e envia um comunicado em que deixa claro que não iria apoiar uma revolução de causa monárquica. A opinião monárquica fica assim dividida, entre os partidários do monarca que querem restaurar a monarquia pela via parlamentar e os integralistas que a querem restaurar pela força das armas. Graças a esta divisão, a causa monárquica foi incapaz de abalar a república nos anos que se seguiram à sua instauração.

Verificar-se-iam, no entanto, pontuais sublevações populares, como a de 5 a 7 de julho de 1913 em Vieira do Minho; populares armados com espingardas e vara-paus, liderados pelo Padre Júlio Barroso, tentam tomar controlo da região, sem derradeiro sucesso. Parte dos sublevados teriam ligações a Paiva Couceiro. Deste período, outras actividades de contra-revolução infrutíferas ficaram registradas no monárquico "Álbum dos Vencidos", publicado entre 1913 e 1914.

A 5 de dezembro de 1917 aparece o embrião daquilo que poderá ser um novo regime e, possivelmente, a restauração da Monarquia. Sidónio Pais toma o poder através da Junta Militar Revolucionária e a ele se juntaram monárquicos e integralistas, católicos, republicanos presidencialistas (como Tamagnini Barbosa), republicanos parlamentares (como Egas Moniz), e machadistas (seguidores de Machado Santos). Desde cedo, os monárquicos começam a aperceber-se que Sidónio não era a esperança restauracionista que tanto queriam acreditar. Os monárquicos mais radicais depressa deixam de ver o presidente-rei como uma esperança e no verão de 1918 aderem às correntes revolucionárias que planeavam acabar com a República Nova.

Os monárquicos apoiados pelo ex-rei D. Manuel, com o aproximar do final da grande guerra, recebem indicações do próprio para apoiar o governo de Sidónio para que fosse instaurada um governo militar ou uma continuação do governo de Sidónio, atendendo às causas monárquicas, mas os mais radicais continuavam a querer derrubar a República Nova. Começam a ocorrer choques estratégicos entre outubro e dezembro, entre os monárquicos passivos e os revolucionários, motivo que fragilizaria "mortalmente" o regime de Sidónio Pais, já totalmente dependente da vontade dos monárquicos.

Os acontecimentos

O presidente da República Sidónio Pais é assassinado no dia 14 de dezembro de 1918. A Junta Militar do Norte faz a 18 de dezembro uma proclamação ao país, exigindo uma «intensificação do combate à demagogia, através de um governo com capacidade e energia». Todos os regimentos do Porto concordavam com estabelecimento de um governo de força, exigência que a Junta do Norte fazia em tom de ameaça. Já em Lisboa a concordância era diferente, onde apenas o Regimento de Artilharia de Queluz e dois regimentos de cavalaria de Belém (Lanceiros 2 e Cavalaria 4) pareciam concordar com a linha de pensamento do norte.

Em 23 de dezembro, o almirante Canto e Castro chama Tamagnini Barbosa para chefiar o governo. Tamagnini depressa procurou estabelecer uma política dúbia, de compromisso em relação à esquerda e à direita, com a intenção de apaziguar as tensões acumuladas entre todos os sectores políticos para que se evitasse uma possível guerra civil. No mesmo dia, não havendo nenhum representante das juntas no governo formado, juntas militares no Norte e no Sul reivindicam um “governo de força” que seguisse a obra do "presidente-rei", contra o retorno à "República Velha" da Constituição de 1911. Como protesto, o coronel João de Almeida concentra em Monsanto algumas unidades da guarnição de Lisboa, mas o Governo consegue rapidamente conter esta intimidação. No Porto, constitui-se uma Junta Governativa Militar com a missão de dirigir os negócios públicos do norte do país.

Tamagnini Barbosa envia ao Porto o Tenente Teófilo Duarte e mais dois emissários para negociar com a Junta Militar do Norte. A conclusão a que as conversações chegaram foi a de que a Junta insistia que Tamagnini continuasse no governo como pessoa de confiança do Exército, mas com a condição de se libertar de qualquer influência partidária, sendo que para tal, a Junta exige a saída de Egas Moniz e de Afonso de Melo Pinto Veloso do governo (sidonistas republicanos). Como consequência, o governo há pouco constituído sofre uma remodelação e a Junta cresce, mas esta medida não acalmou os ânimos pois o novo gabinete tinha demasiadas parecenças com o anterior, era republicano mas conservador.

A 2 de janeiro, o coronel Silva Ramos (figura de destaque da Junta Militar do Norte) vai a Lisboa para se encontrar com o Presidente da República e sai de lá convencido de que o governo ouvira a vontade da Junta.

A 3 de janeiro de 1919 o governo, na realidade não estando disposto a ceder às vontades da Junta Militar do Norte, entrega o comando da Divisão Militar de Vila Real ao republicano coronel Ribeiro de Carvalho, com o objetivo de fazer frente às exigências da Junta. Esta, sentindo-se enganada, envia uma coluna militar chefiada pelo major Alberto Margaride contra a Divisão de Vila Real, enquanto se proclama herdeira e representante da herança sidonista.

Três dias depois, a 6 de janeiro, houve um breve confronto que terminou prematuramente quando Tamagnini Barbosa, vendo a possibilidade do início de uma guerra civil, decide ceder a algumas exigências da Junta Militar do Norte. No mesmo dia, chega-se a um acordo para a constituição de um novo governo. Silva Bastos entra para a pasta da Guerra, Francisco Fernandes (deputado da minoria monárquica) é colocado na Justiça no lugar que pertencia a Afonso de Melo e para a do Trabalho, o capitão Eurico Cameira, militar muito querido das juntas pela sua fidelidade ao falecido presidente-rei. Contudo, Egas Moniz permaneceu no governo. Assim, portanto, satisfeita a Junta Militar do Norte, o ataque ao governo iria iniciar-se a partir dos republicanos.

Em 8 de janeiro, Tamagnini Barbosa apresenta novo gabinete perante as Câmaras. Em defesa da "República Velha", Cunha Leal, no Parlamento, e Machado Santos, no Senado, acusam o chefe do governo de cedências às Juntas Militares.

Secundando estas acusações, Álvaro de Castro, Couceiro da Costa e António Granjo (evolucionistas), Jaime de Morais e Cunha Leal (republicanos e anti-dezembristas) e Augusto Dias da Silva (socialista), em representação de vários padrões políticos, fazem eclodir uma revolta militar com o apoio de guarnições militares de Abrantes, Santarém, Caldas da Rainha e Tomar, favorável à Constituição de 1911. Havendo luz verde do governo, que procurava livrar-se da latente ameaça monárquico-reacionária das juntas militares, a resolva é posta em andamento.

No dia 12 de janeiro, quase simultaneamente em Lisboa, Covilhã e Santarém. Na capital, civis comandados por alguns oficiais do Exército entram no Castelo de S. Jorge para conseguir o apoio das tropas de Infantaria e Artilharia que ali se encontravam, porém, o tenente-coronel Schiappa de Azevedo não aceitou pactuar com tal revolta e ocorreu a tropa de alguns tiros, provocando o falhanço dos propósitos dos revoltosos. Também no Arsenal da Marinha em Lisboa, civis e cerca de 300 marinheiros, orientados pelo tenente Prestes Salgueiro (ministro da marinha demitido), tentaram a sua sorte, acabando também no fracasso. No dia 13, Lisboa é vencida. Na Covilhã os revoltosos foram também rapidamente dominados, perante a ameaça das tropas das guarnições de Castelo Branco e da Guarda.

Diferente fim só deve a revolta em Santarém, que contou com chefes políticos categorizados como o coronel Jaime de Figueiredo, o coronel Ramos de Miranda e o capitão Triboulet, apoiados por um número avultado de tropas. A partir desta força, pediram ao presidente da República a demissão de Tamagnini Barbosa e a formação de um “governo de concentração republicana”, onde ficassem representados os partidos da “República Velha”.

Ação do Integralismo Lusitano

Com a reação dos partidos da "República Velha" a ganhar expressão militar em Santarém, os monárquicos do Integralismo Lusitano, que haviam apoiado o Sidonismo, resolvem agir. Enquanto no sul ainda predominavam os republicanos sidonistas, no norte do país era nítido o predomínio dos monárquicos.

As Juntas Militares, que haviam sido criadas com o propósito de impedir o retorno ao regime dos partidos da "República Velha", teriam agora de aderir ao propósito restauracionista. O Governo ainda terá chegado a discutir a possibilidade de substituir alguns comandos na capital, mas logo que é dada como falhada a tentativa de constituição de um governo militar em Lisboa, Hipólito Raposo redige, em 14 de janeiro, com Rui da Câmara e José de Avelar Fróis, um memorando em que o Lugar-Tenente de D. Manuel II, conselheiro Aires de Ornelas, vem a escrever a expressão inglesa «go on!» que o rei lhe dera um dia para, em certas condições, se poder levantar em Portugal a bandeira da Monarquia.

Um célebre Memorando

Os revoltosos de Santarém depõem as armas no dia 15, perante o tenente Teófilo Duarte, mas o papel que Hipólito Raposo apresentou na véspera a Aires de Ornelas dizia o seguinte:

Aires de Ornelas escreveu à margem do documento:

A restauração da Monarquia

No dia seguinte, 15 de janeiro, o governo de Tamagnini toma posse e, em 17, nos termos da Constituição de 1911, o Congresso elege o almirante Canto e Castro presidente da República. Ou seja, liquidado Sidónio Pais em 14 de dezembro, cerca de um mês bastara para que os sidonistas de Lisboa deitassem por terra o regime presidencialista esboçado na “República Nova”.

Enquanto em Lisboa, sidonistas de véspera, democráticos, unionistas, e socialistas, se iam unindo ao governo de Tamagnini Barbosa, Paiva Couceiro seguiu para o Porto onde o terreno era mais propício à restauração da Monarquia.

A Junta Central do Integralismo Lusitano reuniu-se no dia 17 à noite, tomando-se a decisão de António Sardinha e Luís de Almeida Braga seguirem para o Porto com a missão de “procurar suster o pronunciamento, até se ultimarem as ligações que viriam dar-lhe maior carácter de unanimidade em Lisboa e na Província”.

António Sardinha chegou ao Porto na manhã do dia 18, mas a Monarquia foi proclamada logo no dia seguinte, 19 de janeiro, após uma parada militar, hasteando-se a bandeira portuguesa do tempo da Monarquia (Azul e Branca) e cantando-se o hino da Carta Constitucional.