Cornitermes cumulans (Kollar, 1832), conhecido popularmente como cupim-do-pasto, é uma espécie pertencente à ordem Isoptera e à família Termitidae, amplamente distribuída em ambientes abertos do Brasil, com ocorrência destacada no bioma Cerrado. Nessa região, seus ninhos epígeos, popularmente chamados de montículos, distribuem-se de maneira característica, muitas vezes formando padrões geométricos ao longo da paisagem, especialmente em áreas de pastagens e campos nativos. Essas estruturas não apenas se destacam pelo porte e pela densidade com que aparecem, mas também expressam a complexidade ecológica e comportamental da espécie. C. cumulans é considerado um organismo engenheiro do ecossistema, uma vez que sua atividade altera significativamente as propriedades físicas e químicas do solo, influenciando a infiltração de água, a redistribuição de nutrientes e a microtopografia da paisagem ao seu redor.

Ao contrário da concepção tradicional que o classificava como uma praga agrícola, especialmente em sistemas de pastagens intensivas, o cupim-do-pasto tem sido reinterpretado à luz de abordagens ecológicas mais recentes como um componente funcional dos ecossistemas tropicais. Sua atuação favorece a ciclagem de nutrientes, melhora a estrutura e a porosidade do solo e contribui para a criação de microhabitats utilizados por diversas outras espécies, como invertebrados, anfíbios e pequenos mamíferos. A colônia de C. cumulans apresenta uma organização social altamente especializada, com diferenciação de castas, cooperação reprodutiva, divisão de trabalho e comunicação química baseada em feromônios. Essa complexidade comportamental confere à espécie notável resiliência frente a distúrbios ambientais e à intensificação do uso da terra, permitindo sua permanência mesmo em áreas antropizadas.

Taxonomia e evolução Cornitermes cumulans pertence à subfamília Syntermitinae (mandibulados-nasutes), dentro da família Termitidae, reconhecida como a mais diversa entre os cupins, com cerca de 2.000 espécies descritas. Estudos filogenéticos recentes, que combinam morfologia detalhada e dados moleculares, revelaram que os membros da Syntermitinae não são proximamente aparentados com os da Nasutitermitinae, como se pensava, mas formam uma linhagem evolutiva distinta, com estruturas semelhantes desenvolvidas por convergência. Além disso, análises filogeográficas baseadas em marcadores mitocondriais sugerem que a diversificação de C. cumulans ocorreu entre o Mioceno e o Plioceno, acompanhando a expansão das gramíneas no Cerrado.

Distribuição geográfica Cornitermes cumulans é uma das espécies de cupins mais comuns no bioma Cerrado, onde apresenta ampla distribuição em áreas de pastagem, campo limpo e outros ambientes abertos. Essa espécie é conhecida por sua alta adaptabilidade a diferentes condições de solo, desde que haja boa drenagem e disponibilidade de material vegetal seco. Nos sistemas produtivos do Cerrado, C. cumulans pode formar grandes populações, com cupinzeiros que frequentemente servem como indicadores da fertilidade do solo e referências topográficas em áreas rurais. Sua abundância em ambientes manejados evidencia seu sucesso ecológico e a importância do manejo sustentável dessa espécie.

Habitat natural O habitat natural de Cornitermes cumulans é caracterizado por ambientes abertos com vegetação predominantemente herbácea, solos argilosos e profundos, e baixa interferência mecanizada. Pastagens antigas, campos sujos e cerradões raleados fornecem condições ideais para a construção dos ninhos epígeos dessa espécie, que podem atingir até 2 metros de altura. Os cupinzeiros são formados por uma carapaça externa endurecida, composta por argila e saliva dos operários, que protege uma zona interna mais úmida e frágil, conhecida como endoécio, local onde ocorrem as principais atividades da colônia.

A formação de novos ninhos depende de fatores como microclima favorável, disponibilidade de resíduos vegetais e ausência de perturbações intensas. Áreas com histórico de queimadas esporádicas ou baixa compactação do solo tendem a apresentar maior densidade de cupinzeiros, indicando que a espécie é capaz de conviver e até se beneficiar de distúrbios leves no ambiente.

Dieta A alimentação do Cornitermes cumulans é composta principalmente por matéria orgânica vegetal morta, como folhas secas, sementes, talos e pequenos fragmentos de madeira em decomposição. Essa dieta detritívora confere à espécie um papel central na decomposição da biomassa e na mineralização dos nutrientes em ecossistemas de campo. O comportamento alimentar dos operários sustenta a colônia e transforma os resíduos em matéria orgânica estabilizada, que é redistribuída no solo, favorecendo a fertilidade local.

No que tange a preferência por substratos, a espécie prefere alimentos com baixo teor de lignina e alta disponibilidade de celulose, facilitando a digestão pelos simbiontes intestinais presentes nos operários. Após coletar o material orgânico seco na superfície, os cupins o transportam para o interior do ninho, onde ele é processado em câmaras específicas. Esse processo é essencial para o funcionamento ecológico dos cupinzeiros, garantindo a conversão da matéria vegetal bruta em biomassa acessível para outros níveis tróficos do solo. O acúmulo constante de fezes ricas em nutrientes no interior do cupinzeiro também enriquece quimicamente o local, formando verdadeiras ilhas de fertilidade.

Reprodução A reprodução em Cornitermes cumulans inicia-se com o voo nupcial, geralmente no início da estação chuvosa, quando os alados reprodutores deixam suas colônias para buscar parceiros e fundar novos ninhos. A maioria das colônias é estabelecida por um único par reprodutor (monogamia), embora a poliginia primária ocorra ocasionalmente, sendo menos estável. Após a fundação, a rainha começa a postura dos primeiros ovos, e a colônia se desenvolve com castas permanentes, incluindo operários, soldados e reprodutores. Os cupinzeiros podem apresentar organização policálica, com múltiplas estruturas interligadas pertencentes à mesma colônia, o que confere maior estabilidade e capacidade de expansão territorial.

Arquitetura dos ninhos Os cupins-de-montículo da espécie Cornitermes cumulans constroem ninhos epígeos, também chamados de murundus, que podem alcançar até dois metros de altura. Em áreas de cerrado e pastagens, a densidade desses cupinzeiros pode chegar a 90 ninhos por hectare, evidenciando sua importância ecológica e o potencial impacto em sistemas agropecuários.

Uma característica marcante desses ninhos é a presença da paraécia, um espaço vazio entre o solo e o interior do ninho que atua como um sistema regulador térmico e de umidade, protegendo a colônia das variações ambientais. As paredes da paraécia são constituídas por partículas de solo aglutinadas com excrementos e secreções salivares, formando uma barreira física e microclimática eficaz para a colônia.

A composição dos cupinzeiros depende da presença de partículas finas de solo, principalmente argila e materiais coloidais, que conferem resistência e estabilidade à estrutura. Em solos arenosos e pobres em argila, essa consolidação é dificultada, reduzindo a ocorrência e o desenvolvimento dos ninhos.

Cornitermes cumulans é especialmente favorecido em ambientes antropizados, como pastagens cultivadas e áreas abandonadas, onde a disponibilidade abundante de matéria orgânica e gramíneas, aliada à diminuição de predadores naturais e distúrbios ambientais como queimadas e pastoreio intenso, favorece sua proliferação. Dessa forma, a densidade e distribuição dos cupinzeiros são fortemente influenciadas pelo histórico do uso da terra, tipo de vegetação, clima e composição do solo, criando condições ideais para o sucesso dessa espécie em ecossistemas alterados.

Comportamento As colônias de Cornitermes cumulans apresentam uma organização social complexa e altamente cooperativa, com estratégias eficazes voltadas para defesa, forrageio e comunicação entre os indivíduos. Um dos principais mecanismos de proteção da colônia é a capacidade dos operários reconhecerem membros da própria colônia, mantendo a agressividade direcionada apenas a intrusos provenientes de outras colônias. Contudo, quando submetidos a condições de estresse, como longos períodos afastados do ninho, essa coesão social pode ser comprometida, resultando em aumento da agressividade até mesmo entre indivíduos pertencentes à mesma colônia.

Essa quebra na coesão facilita a invasão de espécies inquilinas, que exploram a desorganização para estabelecer-se dentro do ninho. Observações indicam que ninhos maiores ou sem a presença de alados tendem a abrigar maior número dessas espécies invasoras, sugerindo que a saúde e a estabilidade da colônia são cruciais para a manutenção da defesa eficiente. A organização das castas é igualmente essencial, com os operários desempenhando múltiplas funções, como defesa, busca de alimento e construção de túneis. Essa coordenação é mediada por sinais químicos, principalmente hidrocarbonetos cuticulares, que funcionam como uma “identidade química” garantindo a comunicação e o reconhecimento dentro da colônia.

Distribuição temporal (atividade sazonal) A atividade biológica de Cornitermes cumulans está diretamente associada ao regime sazonal típico do Cerrado brasileiro, com flutuações entre os períodos chuvoso e seco. Durante a estação das chuvas, observa-se um aumento significativo na atividade da colônia, com maior forrageamento, expansão dos ninhos e ocorrência de voos reprodutivos. Nessa época, a disponibilidade de alimento, especialmente gramíneas secas, é maior, o que favorece a coleta e o armazenamento de matéria vegetal pelos operários.

No período seco, por outro lado, a atividade externa é reduzida, e a colônia tende a adotar estratégias de conservação energética, utilizando os nódulos de material armazenado como fonte de alimento. Essa variação na atividade comportamental está relacionada à regulação da temperatura e umidade interna dos ninhos, favorecendo a sobrevivência da colônia mesmo sob condições adversas. A distribuição temporal da atividade de C. cumulans reflete sua alta capacidade de adaptação ao ambiente sazonal do Cerrado, sendo um dos fatores que contribuem para seu sucesso ecológico.

Papel ecológico na comunidade O Cornitermes cumulans é amplamente reconhecido como um engenheiro do ecossistema, por seu papel ativo na modelagem do ambiente físico e biológico ao seu redor. Os montículos que constrói, além de servirem como abrigo da colônia, modificam a topografia local, alteram a infiltração de água e influenciam a distribuição de nutrientes. Esses cupinzeiros apresentam concentrações elevadas de elementos como cálcio, magnésio, fósforo e matéria orgânica, criando microambientes com fertilidade superior à do solo adjacente.

Outro aspecto fundamental está na intensa ciclagem interna de nutrientes promovida pela espécie. Os resíduos orgânicos transportados ao ninho são degradados, misturados à saliva e às fezes dos operários, e posteriormente reincorporados ao solo em forma de húmus rico e estável. Esse processo é altamente benéfico para os ecossistemas onde o cupim-do-pasto se estabelece, pois enriquece o solo, melhora sua estrutura física e química, favorece o crescimento vegetal e sustenta cadeias tróficas subterrâneas. Essas funções demonstram que a espécie vai muito além do estigma de “praga” e assume uma posição central na dinâmica ecológica das paisagens tropicais abertas.

Relações ecológicas