Sumé é uma entidade mítica da cosmologia tupi-guarani que teria ensinado aos indígenas a agricultura,NAVARRO, 2013, p. 448. o uso do fogo e a organização social.
Um dos heróis civilizadores da antiga linhagem dos Maíras, ele é o pai dos gêmeos Tamanduaré e Aricuté, envolvidos com o segundo dilúvio e que se tornaram os ancestrais dos tupinambás e temiminós, respectivamente.MÉTRAUX, 1927, p. 45.
Registros coloniais Nas suas Cartas do Brasil, escritas em 1549 na recém-fundada cidade de Salvador, Bahia, o padre jesuíta Manuel da Nóbrega descreveu as andanças da entidade de nome Zomé, já associando-o a São Tomé da tradição cristã. Os indígenas teriam lhe dito que Zomé havia passado por ali, uma história transmitida por seus antepassados, e que suas pegadas estavam marcadas perto de um rio; o padre foi vê-las para verificar a veracidade e encontrou quatro pegadas muito nítidas, mostrando os dedos dos pés, as quais o rio às vezes cobria quando subia. Disseram-lhe também que, ao deixar essas marcas, ele fugia dos indígenas que queriam alvejá-lo com flechas e, ao chegar àquele local, o rio se abriu, permitindo-lhe atravessar para a outra margem sem se molhar, e de lá, prossegue o padre, "São Tomé" seguiu para a Índia. Da mesma forma, relataram os indígenas que, quando estes tentaram disparar contra ele, as flechas voltaram-se contra eles mesmos, e a floresta abriu caminho para sua passagem. Disseram-lhe também que ele prometeu voltar e vê-los novamente.
O frade franciscano, explorador e cosmógrafo francês André Thevet, em sua La Cosmographie Universelle (1575), cita "Sommay" (como ele grafou segundo a fonética francesa) incidentalmente como um "grande pajé e caraíba" e pai dos irmãos Tamanduaré e Aricuté, que se odiavam mortalmente e causaram o segundo dilúvio dos mitos tupis (o primeiro foi o causado por Monã, o Criador e ancestral dos Maíras, para apagar as chamas que aniquilaram a primeira humanidade).THEVET, 1575, p. 914v.
O padre jesuíta português Simão de Vasconcelos, estando na capital do Brasil em meados do século XVII, descreveu a própria figura de Sumé, que era um dos "homens brancos, vestidos e com barba" que falavam de Deus e da outra vida, igualmente afirmando ser ele o apóstolo Tomé, que também lhes ensinaram a plantar e a colher a mandioca, principal mantimento dos indígenas, antes de irem embora para outros lugares do mundo, não tendo sido bem recebidos pelos seus antepassados.VASCONCELLOS (1663), 1865, p. 61. O padre também testemunhou as pegadas nas, então fora da cidade, praias de Itapuã (mais precisamente na praia de Piatã,BACELAR, Jonildo. Lenda, Capela, Cruzeiro, Pegadas e Procissão de São Tomé. Guia Geográfico de Salvador, 2015, atualizado em 2018. Cópia arquivada em 11 de agosto de 2026. antigamente parte da região de Itapuã) e de São Tomé, como há, diz ele, em toda o litoral da América portuguesa e pelo restante da América.VASCONCELLOS (1663), 1865, p. 103. Num monte da região da praia de São Tomé foi erguida a igreja de São Tomé, ainda existente hoje, por causa da história da passagem de Sumé na região, onde também há a milagrosa "fonte de São Tomé" por onde o "santo" desceu, fugindo de seus perseguidores, surgida do toque de seus pés;VASCONCELLOS (1663), 1865, p. 104. e também ainda pode ser vista uma pedra à beira-mar com a pegada de Sumé/"São Tomé" na praia de Piatã, diante de um cruzeiro que marca o local.
Mitologia O profeta e demiurgo Sumé era também conhecido como Mair-sumé ou Mair-zumane, filho de Mair-umuanaMÉTRAUX, 1950, p. 69 (nota de Estevão Pinto). (às vezes ambos são considerados um só,MÉTRAUX, 1927, p. 50. pois Mair-zumane seria o mesmo que Mair-humane,STADEN, Hans. Hans Staden: suas viagens e captiveiro entre os selvagens do Brazil. Tradução de Alberto Löfgren. São Paulo: Typ. da Casa Eclectica, 1900. p. XXXI das notas de Theodoro Sampaio. enquanto os omáguas ou cambebas, povo tupi do Amazonas e do Peru, falavam de um deus chamado Zumi-Topana,MÉTRAUX, 1927, p. 59. aparentemente igualando Sumé a Tupã, que é o mesmo Mair-umuana transfigurado no deus do trovão após a morte). Ele divulgou o cultivo da mandioca e o uso do fogo por onde passou,MÉTRAUX, 1927, p. 54. deixando as marcas de seus pés por todo Pindorama, mas, ao chegar ao lugar que depois seria a Bahia, o povo quis devorá-lo e, acossado contra o mar, teve, para salvar a vida, de dar um extraordinário salto, indo cair na Ilha de Maré na Baía de Todos os Santos e deixando no local onde tomara o impulso mais traços de seus pés.MÉTRAUX, 1927, p. 52.
Sumé teria aparecido de forma misteriosa e, segundo alguns registros, tratava-se de um homem branco, de barba e cabelos longos, capaz de dar grandes passadas de longa distância, mas os traços europeus constituem elementos superpostos, posteriormente, ao mito primitivo, sugeridos pela convicção da volta do ancestral lendário.MÉTRAUX, 1927, pp. 56-57.
Ele começou por ensinar, ao povo da selva, a arte da agricultura e, depois, habilidades como a de transformar mandioca em farinha e alguns espinhos em anzol, além de regras morais. Curava feridas e diversos males sem pedir nada em troca. Tanta gentileza e poder despertou, sobre si, o ódio dos caciques, culminando com a recepção de Sumé a flechadas numa certa manhã, armas que misteriosamente retornaram e feriram de morte os arqueiros atiradores. Causou espanto pela facilidade com que extraía as flechas de seu corpo sem escorrer sangue algum. Sumé ainda teria andado de costas para o mar até atingir as águas. A entidade teria desaparecido num voo sobre as ondas para nunca mais voltar.
Sumé também é conhecido na mitologia guarani, onde o herói civilizador dos guaranis usava o mesmo nome.MÉTRAUX, 1950, p. 58. No Paraguai ele é conhecido pelo nome de Pay Zomé, atribuindo-lhe a introdução da cultura da mandioca, contando que, em virtude de desavenças entre o povo e os seus ancestrais, o mesmo punira-os com o retardamento do tempo necessário para a maturidade daquele tubérculo. De acordo com a tradição corrente na costa, os habitantes do Paraguai consideravam os fenômenos erosivos, ou outros quaisquer fatos que tivessem deixado marcas nas pedras vizinhas aos cursos de água, como pegadas provenientes da permanência de Sumé entre os homens. Certas sendas naturais, que se podem seguir em diversas regiões paraguaias, estão ligadas à tradição das peregrinações errantes do pretenso São Tomé, que os colonizadores identificaram com Sumé.MÉTRAUX, 1950, p. 51.
Os antepassados dos guaraius-pausernas, ou itatins, pretendiam também ter herdado de Pai-Çuma (Pa'i Sumé) o costume da tonsura, mostrando, a quem os quisesse ver, sinais deixados pelos pés desse personagem.MÉTRAUX, 1950, p. 59.
Sincretismo religioso Os colonos católicos acreditavam na fantasia de que Sumé era o apóstolo cristão São Tomé, que, segundo a lenda, teria viajado para a Índia. A fortuita semelhança existente entre os nomes de Sumé e Tomé contribuiu bastante para o êxito dessa fantasia, identificação que só surgiu tardiamente. André Thevet, Yves d'Évreux e Claude d'Abbeville consideram Sumé um caraiba puramente indígena.MÉTRAUX, 1927, p. 57.
Segundo o mito posteriormente contado por jesuítas, Sumé teria sido expulso pelos tupinambás ao ter proibido a poligamia e o canibalismo.
Influência cultural O poema épico Caramuru, do frei Santa Rita Durão, de 1781, contou a lenda de Sumé e suas quatro pegadas em um penedo, em um rio, como referido por Manuel da Nóbrega.
O personagem literário Tumé Arandu foi criado pelo poeta paraguaio Narciso R. Colmán (Rosicrán) para seu poema épico Ñande Ypykuéra, de 1922, como uma adaptação do profeta Sumé e do santo Tomé. Nessa obra, ele morreu na gruta de Santo Tomás em Paraguarí, no Paraguai.COLMÁN, Narciso R. Nuestros Antepasados (Ñande Ypykuéra): El Arte", 1922.
Sumé é um personagem importante no romance de ficção histórica Peabiru: uma aventura quinhentista (2010), de Marcos Cruz Alves, onde se diz que se encontram características relativamente parecidas a São Tomé na divindade de Viracocha, entidade cultuada por povos incas exatamente onde termina a trilha de Peabiru, ligando o deus inca ao profeta tupi. Tal mito existiria, segundo essa obra, não só no Brasil e no Paraguai, mas também no Peru, difundido principalmente por missionários. Quando Sumé foi para o Paraguai, e depois para o Peru, teria aberto o caminho de Peabiru, que se traduz por "Caminho das Montanhas do Sol", embora haja controvérsia com a versão "Caminho ao Peru"). Tal caminho, que ia do litoral de São Paulo até Assunção no Paraguai, cruzando o atual estado do Paraná, teria servido posteriormente aos europeus em expedição organizada em 1769 pelo capitão-mor Afonso Botelho de Sampaio e Sousa.
Toponímia Diversos lugares do Brasil possuem nomes que fazem referência ao grande profeta Sumé:
A praia de São Tomé de Paripe em Salvador recebeu esse nome por causa da passagem de Sumé/"São Tomé" por lá, onde deixou pegadas e foi erguida uma igreja em 1552 em honra do "santo".
O nome do município de Maracaçumé, no Maranhão, vem originalmente do nome do rio Maracaçumé, que banha o município, figurando em documentos do século XIX, cuja etimologia seria maraká + Sumé, "chocalho de Sumé".NAVARRO, 2013, p. 585.
Também é o nome do município de Sumé, na Paraíba, dado em 1951 ao antigo distrito de São Tomé, tornado município.NAVARRO, 2013, p. 598.
Ligações externas
Bibliografia MÉTRAUX, Alfred. A religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis. Tradução de Estevão Pinto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. 412 p. (Brasiliana, v. 267). NAVARRO, Eduardo de Almeida. Dicionário de tupi antigo: a língua indígena clássica do Brasil: vocabulário português-tupi, dicionário tupi-português, tupinismos no português do Brasil, etimologias de topônimos e antropônimos de origem tupi. São Paulo: Global, 2013. THEVET, André. La cosmographie universelle. Paris, França: Pierre l’Huillier, 1575. VASCONCELLOS, Simão de (1663). Chronica da Companhia de Jesu do estado do Brasil. 2. ed. corr. e aum. Lisboa: A. J. Fernandes Lopes, 1865. Volume 1.
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