Mário Dias Ferreira dos Santos (Tietê, 3 de janeiro de 1907 — São Paulo, 11 de abril de 1968) foi um filósofo, tradutor, advogado, editor, professor, jornalista e escritor brasileiro, reconhecido por suas contribuições à filosofia, por ter introduzido no Brasil a venda de livros a crédito e pela divulgação de diversos autores que considerava relevantes para a formação do povo brasileiro, chegando a comercializar mais de um milhão de exemplares.
Publicou livros e estudos sistemáticos sob o título Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais e desenvolveu um sistema próprio denominado Filosofia Concreta. Atuou como militante anarquista e se destacou como um dos poucos estudiosos brasileiros do anarquismo cristão, participando de forma ativa no Centro de Cultura Social (CCS), um dos principais núcleos anarquistas de São Paulo na primeira metade do século XX. Sua obra foi lida, citada e recomendada por importantes figuras do anarquismo brasileiro, como Edgard Leuenroth e Jaime Cubero.Jaime Cubero, em entrevistas a Rodrigo Rosa da Silva (Imprensa Marginal) e Antonio José Romera Valverde (Educação e Pesquisa, USP)
Biografia miniaturadaimagem|Mário Ferreira dos Santos, aproximadamente em 1914.
Primeiros anos (1907-1924) Mário Dias Ferreira dos Santos nasceu em 3 de janeiro de 1907, na cidade de Tietê, estado de São Paulo. Descendente de uma família de advogados e juristas, era filho de Maria do Carmo dos Santos e Francisco Dias Ferreira dos Santos, natural do Norte de Portugal e afilhado de Camilo Castelo Branco. Francisco Santos veio ao Brasil em 1903 com a Companhia Teatro do Príncipe Real. Enquanto a companhia se dissolveu por causa de um surto de febre amarela e muitos membros regressaram a Portugal, Francisco permaneceu no Brasil e fundou a Grande Companhia Dramática Francisco Santos, passando por Tietê, São Paulo, em 1907, ocasião do nascimento do filósofo.
Quando Mário tinha quatro anos de idade, se mudaram para Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde Francisco empreendeu com a criação de uma gráfica, uma rede de cinemas, o Teatro Guarany e uma produtora de filmes, a Guarany Filmes, considerada a maior iniciativa do gênero da época em solo brasileiro e onde iniciou a filmagem de jornais de tela, comédias e a primeira longa-metragem de ficção do cinema brasileiro e da América Latina: O Crime dos Banhados (1914). No ano anterior, em 1913, Mário Ferreira dos Santos participou do curta-metragem de ficção Os Óculos do Vovô, dirigido por seu pai e considerado o filme brasileiro mais antigo com fragmentos ainda preservados. miniaturadaimagem|Mário Ferreira dos Santos no curta Os Óculos do Vovô (1913). Em 1916, seu pai o inscreveu no Gymnasio Gonzaga (atual Colégio Gonzaga), próximo a Catedral de Pelotas, uma escola jesuíta onde estudou até 1924. Mário conta que:“Meu pai, português de nascimento, caracterizava-se por acentuado ateísmo e por uma marcante tendência anti-clerical. Revelava, em todas as ocasiões, a sua oposição ao clero. Entretanto, tendo eu, desde cedo, mal aprendera a ler, me interessado por temas filosóficos (e a consciência que tenho de mim mesmo nasceu de colocação de um problema filosófico que tentei resolver), um dia meu pai me chamou e disse: “Meu filho, para teu bem vou fazer uma coisa que vai escandalizar os meus amigos: tu vais estudar com os jesuítas.”. No dia seguinte, dirigiu-se ao ginásio Gonzaga e, segundo o que ele me relatou depois, disse-lhes: “Todos sabem que sou adversário da Igreja Católica e que tenho combatido desde moço, mas sei que, para educar, vós, jesuítas, sois os mais capazes. Meu filho revela propensão para temas filosóficos; não quero exercer sobre ele a minha ação. Julgo que sois mais competentes do que eu para guiá-lo no conhecimento. De minha parte, prometo-vos que, em casa, respeitarei sempre as suas idéias.” miniaturadaimagem|Gymnasio Gonzaga em Pelotas, RS.|251x251pxEntre 1916 e 1919, dos nove aos doze anos, este foi o desempenho escolar de Mário no Curso Preliminar e no Curso Médio:“Em 1916, recebeu Menção Honrosa por Caligrafia e no Conjunto de Matérias e 1° lugar em Leitura; em 1917, Menção Honrosa no Conjunto de Matérias, Gramática, Aritmética e Geometria e 1° lugar em Ortografia e Leitura; de 1918, não temos registro, apenas que ele foi aprovado; em 1919, Menção Honrosa pelo Conjunto de Matérias e Português”. miniaturadaimagem|396x396px|No andar mais baixo, Mário Ferreira dos Santos em seu ano de formatura no Gymnasio Gonzaga (1924). Entre 1919 e 1924, dos treze aos aos dezessete anos, este foi o desempenho escolar de Mário no Curso Secundário:“Em 1920, recebeu menção Honrosa no Conjunto de Matérias e em Francês; em 1921, também menção Honrosa no Conjunto de Matérias e em Francês; em 1922, Menção Honrosa no Conjunto de Matérias, Religião, Português e 1° lugar em Francês e em Inglês; em 1923, Menção Honrosa no Conjunto de Matérias, em Francês e em Inglês; em 1924, Menção Honrosa no Conjunto de Matérias. Além disso, nesse ano é fundada a Academia Literária “Ruy Barbosa”, da qual um dos fundadores e presidente foi o Mário Ferreira dos Santos”.Mário conta sobre seus anos no Gymnasio que:“... Com os jesuítas, desde o início, recebi a orientação que me aproximou da filosofia positiva, e dela fiz a espinha dorsal da estrutura filosófica que hoje tenho: a filosofia positiva e concreta; positiva no sentido de filosofia que parte e permanece na afirmação, ao que constrói, que pertence a todos os grandes ciclos culturais da humanidade, mas que encontrou o seu desenvolvimento máximo no pensamento grego, e a sua coroação no pensamento ocidental, sob as linhas, sem dúvida, criadoras e analíticas da Escolástica".No prefácio de seu livro "Filosofia e Cosmovisão", Mário menciona um de seus professores desta época:“Um professor alemão, o primeiro a iniciar-me nos estudos da filosofia, conhecedor do nosso povo, costumava manifestar-me a sua admiração pela inteligência de nossa gente. Para ele, que percorrera tantos países, que ministrara lições em tantas universidades e escolas do Ocidente e do Oriente, era o brasileiro o aluno mais vivo, mais inteligente, mais sagaz no raciocínio, e de mais profundas intuições que conhecera. No entanto, punha uma restrição. Julgava-nos demasiadamente inquietos e desequilibrados quanto ao conhecimento. Afirmava-me ter encontrado grandes valores, homens de capacidade extraordinária, mas, em muitos aspectos, falhos de certos conhecimentos elementares, que eram como abismos por entre cumes de montanhas. Atribuía esse desequilíbrio à natural pressa dos povos americanos e à falta de disciplina mais rígida no trabalho. Nessa época, considerava eu as suas palavras um tanto exageradas. Mas, com o decorrer do temo, e através de aulas e inúmeras conferências, palestras e debates que empreendi, verifiquei assistir ao meu velho e venerando mestre uma grande soma de verdade. Atribui-se esse nosso defeito ao autodidatismo a que todos, sem exceção neste pais, estamos sujeitos. Sempre fui um admirador dos autodidatas, porque um estudo apurado da história e da biografia dos grandes homens revela-nos que, entre os maiores criadores, o número de autodidatas é sempre maior do que daqueles presos a uma escolaridade rígida, quase sempre prejudicial à capacidade criadora”
Vida adulta no Rio Grande do Sul (1925-1944): Em 1925, inscreveu-se primeiro em Medicina, mas acabou optando pelo curso de Direito e Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), em Porto Alegre, cidade onde conheceu Érico Veríssimo, Mário Quintana e Athos Damasceno Ferreira. miniaturadaimagem|Mário, Yolanda e seu irmão caçula, em uma chácara em Pelotas, aproximadamente entre 1928 e 1929. Em 1928, começou a colaborar na imprensa com o artigo “O poeta da luz e da cor”, publicado em 20 de julho no jornal “Diário Popular”, de Pelotas. No mesmo ano, sua estreia na tribuna jurídica foi noticiada no Diário Popular de 14 de novembro de 1928: “O talentoso acadêmico sr. Mário Santos, que fez brilhantíssima estreia na tribuna judiciária, mostrou reais dotes de tribuno, além de predicados de estudioso, demonstrando assim, que um futuro promissor lhe aguarda na vida prática”. Também escreveu para outros jornais de Pelotas, bem como para o Diário de Notícias e o Correio do Povo, ambos de Porto Alegre. Neste período, além de auxiliar o pai na empresa Xavier & Santos, Mário foi nomeado para o cargo de 2º suplente do juiz municipal do termo de Pelotas pelo prazo de cinco anos. No ano seguinte, em 1929, tornou-se diretor do jornal “A Opinião Pública” e casou-se com Yolanda Duro Lhullier, com quem teve duas filhas: Yolanda e Nadiejda. miniaturadaimagem|Mário, sua esposa Yolanda e suas filhas Yolanda e Nadiejda na Avenida São João, São Paulo.