Correntina é um município brasileiro no interior do estado da Bahia, Região Nordeste do país.

Fica localizada na região econômica do MATOPIBA (acrônimo para os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que é descrita como região de alto potencial em agricultura, mas ainda com grandes falhas em infraestrutura, em fase de início de desenvolvimento. Da qual o Estado da Bahia é destaque.

Topônimo Seu nome vem do rio homônimo (o Rio Correntina), chamado também de Rio das Éguas.

História

Ocupações humanas antigas e povos indígenas

A ocupação humana da região correspondente ao atual município de Correntina é muito anterior à formação do povoado colonial que deu origem à cidade. Pesquisas realizadas no âmbito do Projeto Serra Geral, desenvolvido no sudoeste da Bahia e no leste de Goiás, identificaram diferentes formas de ocupação pré-colonial na bacia dos rios Corrente, Correntina e Formoso. Os levantamentos registraram sítios associados a caçadores-coletores do Holoceno, conjuntos de pinturas rupestres classificados pelos pesquisadores na chamada tradição São Francisco e assentamentos cerâmicos relacionados, segundo a terminologia arqueológica empregada nesses estudos, às tradições Una e Tupiguarani.

O vale do rio Correntina foi uma das áreas diretamente investigadas. Entre os sítios conhecidos encontra-se o Cajueiro (BA-RC-19), situado às margens do córrego Cajueiro, próximo à sua confluência com o rio Correntina e a cerca de 50 quilômetros da cidade. O sítio apresenta um expressivo conjunto de artefatos de pedra lascada e foi posteriormente objeto de pesquisa específica destinada à análise das técnicas de produção e utilização desses instrumentos e das escolhas técnicas realizadas pelos grupos responsáveis por sua fabricação.

Outros sítios demonstram a diversidade do registro existente no município. No baixo curso do rio Correntina foram pesquisados, entre outros, Remanso (BA-RC-25), Brejo dos Aflitos (BA-RC-26) e Ponte Velha (BA-RC-30). Em Brejo dos Aflitos foram registradas pequenas figuras antropomorfas nas paredes do abrigo e fragmentos cerâmicos na várzea situada à sua frente. Em Ponte Velha, uma escavação identificou materiais cerâmicos relacionados pelos pesquisadores à tradição Una, artefatos líticos, moluscos, ossos, carvão e pinturas rupestres.

Essas evidências representam diferentes formas e momentos de utilização da paisagem e não um único episódio de povoamento. Abrigos rochosos, áreas abertas, cursos d'água e locais de obtenção de matérias-primas foram utilizados por diferentes populações ao longo do tempo.

Uma síntese publicada em 2023 pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) registrou cerca de 40 sítios arqueológicos na Bacia dos rios Corrente e margem esquerda do Carinhanha, com presença especialmente significativa em Correntina, Cocos e Sítio do Mato. Na relação apresentada pela publicação constam onze registros localizados em Correntina, predominantemente classificados como pré-coloniais. A mesma publicação registra ainda a existência, no Museu Municipal de História Natural Raimundo Sales, de materiais provenientes de sítios da região.

Fontes histórico-regionais mencionam também diferentes povos indígenas no território mais amplo da Bacia do Rio Corrente. Uma síntese da SEI registra os Massacrás, Pontás, Aracujás, Pimenteiras e Cariris entre os povos relacionados à ocupação da região anteriormente à expansão colonial.

Essas denominações históricas não devem ser automaticamente identificadas com as classificações empregadas pelos arqueólogos. Termos como Una, Tupiguarani e tradição São Francisco correspondem a categorias construídas a partir de características da cultura material ou das manifestações rupestres, enquanto Massacrás, Pontás, Aracujás, Pimenteiras e Cariris são etnônimos provenientes de fontes históricas e etno-históricas. As pesquisas disponíveis não permitem estabelecer uma correspondência direta entre cada uma dessas categorias arqueológicas e os povos mencionados nas fontes escritas.

Dessa forma, o registro arqueológico demonstra que as paisagens posteriormente incorporadas ao município já eram ocupadas e percorridas por populações indígenas muito antes do estabelecimento do núcleo colonial de Correntina.

Entradas, bandeiras e tradições sobre a ocupação colonial

A historiografia e a memória histórica local associam a penetração colonial na região às entradas e bandeiras que percorreram os sertões em busca de metais, pedras preciosas, mão de obra indígena e novas áreas de ocupação. A narrativa atualmente preservada pelo município menciona nominalmente Bartolomeu Bueno da Silva (1672–1740), Belchior Dias Moreira e Matias Cardoso de Almeida entre os sertanistas relacionados às primeiras incursões na região.Prefeitura Municipal de Correntina. História do Município. Consultado em 25 de setembro de 2026.

A presença desses três nomes na tradição correntinense deve, contudo, ser compreendida dentro de cronologias distintas. Bartolomeu Bueno da Silva, conhecido como o segundo Anhanguera, partiu de São Paulo em 1722 em uma expedição dirigida aos sertões de Goiás em busca de ouro, integrando um movimento de exploração e ocupação do interior central da América Portuguesa.Câmara Municipal de Caldas Novas. Bartolomeu Bueno da Silva Filho. Consultado em 25 de setembro de 2026.

No caso de Belchior Dias Moreira, existe uma questão cronológica importante. Documentação conservada no Arquivo Histórico Ultramarino registra suas atividades de procura por metais na Bahia já no início do século XVII, incluindo uma carta régia de 1618 referente às minas de ouro que pretendia descobrir. Dessa forma, a atribuição local de expedições dos três personagens conjuntamente ao período entre 1700 e 1790 não pode ser aplicada literalmente a Belchior Dias Moreira.Universidad de Salamanca. Base de Dados BRASILHIS. Arquivo Histórico Ultramarino, Bahia Luísa da Fonseca, AHU_ACL_CU_005, Cx. 2, D. 169, carta régia de 28 de fevereiro de 1618. Consultado em 25 de setembro de 2026.

Matias Cardoso de Almeida, por sua vez, está documentado nas frentes de expansão colonial do vale do São Francisco durante as últimas décadas do século XVII. Documentos registram sua atuação militar e sua presença em povoações e fazendas no médio São Francisco, além de sua participação nas campanhas contra populações indígenas e na estruturação das rotas que posteriormente articularam os sertões baianos e mineiros.

A documentação atualmente utilizada permite, portanto, situar esses personagens no processo mais amplo de expansão colonial pelos sertões, mas não demonstra com o mesmo grau de certeza a passagem pessoal de cada um pelo local onde posteriormente se formaria a cidade de Correntina. A referência aos três permanece relevante como parte da tradição historiográfica municipal, enquanto a formação de um núcleo permanente no território torna-se mais claramente documentada no final do século XVIII.

Mineração e formação do povoado

A formação do núcleo colonial que deu origem a Correntina esteve estreitamente relacionada à mineração de ouro. João Pandiá Calógeras registra que a mais antiga notícia de mineração aurífera então conhecida no rio das Éguas correspondia ao ano de 1791, quando a atividade teria sido realizada pelo padre Anacleto Pereira dos Santos.

A historiografia regional registra também a atuação do baiano Francisco José Teixeira. Estudo sobre a formação dos núcleos urbanos do Oeste Baiano atribui a uma expedição chefiada por ele, por volta de 1792, em busca de ouro e pedras preciosas, papel importante no desenvolvimento do povoado de Nossa Senhora da Glória do Rio das Éguas. O mesmo processo teria estimulado atividades agropastoris destinadas ao abastecimento da população ligada às lavras.

A narrativa histórica municipal acrescenta outro elemento ao processo de crescimento populacional: a chamada Seca Grande de 1791–1793, que teria provocado deslocamentos de moradores de áreas afetadas do Nordeste para outras regiões. Na tradição histórica de Correntina, esse movimento teria se somado à atração exercida pelas áreas de mineração e pela disponibilidade de água.

A exploração mineral exigia abastecimento, animais, alimentos e serviços, favorecendo a fixação de moradores e a diversificação das atividades econômicas. Dessa forma, mineração, agricultura e criação de animais passaram a integrar o processo de formação do núcleo de povoamento.

Segundo Calógeras, por volta de 1800 moradores das margens do curso d'água então denominado Rio Rico chegaram a modificar seu leito para a exploração dos depósitos auríferos. O autor menciona locais conhecidos como Buraco do Gusmão, Riacho do Cotovelo, Tamarana e Riacho Vermelho e informa que as aluviões do rio continuaram sendo trabalhadas durante o século XIX.

Rio Rico, Rio das Éguas e Nossa Senhora da Glória

A memória local preserva uma tradição específica para a mudança do nome Rio Rico para Rio das Éguas e para a origem da devoção a Nossa Senhora da Glória. Segundo a narrativa registrada pela Prefeitura de Correntina, um grupo de éguas pertencente ao fazendeiro Joaquim Amorim Castro da Gama teria desaparecido. Sua esposa, Caetana C. Brandão, de Carinhanha, teria então feito uma promessa a Nossa Senhora da Glória, comprometendo-se a construir uma igreja no local onde os animais fossem encontrados. As éguas teriam sido localizadas às margens do Rio Rico e, de acordo com essa tradição, o episódio estaria relacionado tanto à construção da primeira igreja dedicada a Nossa Senhora da Glória quanto à denominação posterior do curso d'água.

A narrativa possui caráter de tradição histórica local e deve ser distinguida das informações documentalmente estabelecidas sobre a mineração. Calógeras confirma que o curso posteriormente denominado rio das Éguas havia sido conhecido como Rio Rico, mas não relaciona a mudança do topônimo ao episódio dos animais.

Com o crescimento da povoação, em 1806 foi instalada a paróquia de Nossa Senhora da Glória do Rio Rico. Posteriormente, a denominação Rio das Éguas passou a ser empregada para o povoado e para a unidade administrativa que nele se formou.

Disputas territoriais entre Bahia e Goiás

A exploração aurífera ocorreu numa região próxima à atual divisa entre Bahia e Goiás, quando os limites administrativos internos da América Portuguesa ainda passavam por processos de definição.

A tradição histórica municipal registra um conflito entre exploradores baianos e autoridades de Goiás em torno da jurisdição sobre as áreas auríferas. Segundo essa narrativa, o ouvidor de Goiás teria autorizado a entrada de mineradores goianos na área, provocando conflito com os grupos anteriormente estabelecidos. A disputa entre as duas jurisdições teria sido submetida ao Conselho Ultramarino, cuja intervenção teria favorecido a jurisdição da Bahia.

Por se tratar de episódio preservado principalmente nas sínteses históricas municipais utilizadas para a história de Correntina, a narrativa deve ser apresentada como uma versão historiográfica local enquanto não forem individualizados no verbete os documentos coloniais que fundamentam cada etapa do litígio.

O episódio, independentemente de seus detalhes ainda sujeitos a aprofundamento documental, insere-se num contexto regional mais amplo de articulação entre os sertões do São Francisco e Goiás, cujas rotas de circulação, mineração e criação de gado atravessavam territórios que posteriormente seriam separados por limites provinciais e estaduais.

Freguesia, vila e formação do município

Durante o século XIX, o antigo núcleo minerador consolidou-se como centro religioso e administrativo. Pela Lei Provincial nº 973, de 15 de maio de 1866, foi criado o município, com território desmembrado de Carinhanha, e a povoação foi elevada à categoria de vila com o nome de Vila de Nossa Senhora da Glória do Rio das Éguas. A instalação do município ocorreu em 13 de maio de 1867.