é um livro do escritor japonês Yasunari Kawabata, escrito entre 1949 e 1952.
No Brasil, foi traduzido com os títulos Mil Tsurus (pela Estação Liberdade) e Nuvens de Pássaros Brancos (pela Nova Fronteira); em Portugal, ficou conhecido como Chá e Amor (pela Vega).
Este romance foi um dos três citados pelo comitê que concedeu o Prêmio Nobel de Literatura para Kawabata em 1968.
Sumário O romance é composto por cinco capítulos, intitulados "Mil tsurus", "O pôr do sol no bosque", "Cerâmica Shino", "A marca de batom" e "A estrela dupla".
Kikuji, um funcionário de escritório de Tóquio de 28 anos, frequenta as aulas de cerimônia do chá da senhora Chikako Kurimoto, com quem seu falecido pai teve, outrora, um breve caso amoroso. Ele ainda se lembra vividamente de um grande nevo no peito dela, que viu certa vez quando era criança. Kikuji fica impressionado com a beleza de uma das alunas da senhora Kurimoto, Yukiko Inamura, que carrega um furoshiki com o padrão dos mil tsurus do título do romance. A aula de cerimônia do chá também conta com a presença da senhora Ota, uma viúva de 45 anos e amante de longa data de seu pai, e de sua filha, Fumiko. A senhora Kurimoto fala de forma depreciativa da senhora Ota, ao mesmo tempo em que tenta despertar o interesse de Kikuji pela senhorita Inamura.
Kikuji e a senhora Ota passam uma noite apaixonada juntos, e Kikuji se pergunta se a senhora Ota vê nele uma imagem de seu pai. Quando ela o visita novamente após um longo intervalo, ele descobre que a filha dela, Fumiko, tentou impedi-la de se encontrar com ele. Apesar de seu profundo sentimento de vergonha, ela volta a dormir com Kikuji. Tarde da noite, Fumiko liga para ele para contar que sua mãe cometeu suicídio. Ele concorda em ajudar Fumiko a encobrir o suicídio da mãe para preservar a reputação dela.
A senhora Kurimoto aparece repetidamente na casa de Kikuji, falando mal da senhora Ota e, ao mesmo tempo, lembrando-o da senhorita Inamura. Kikuji, irritado com a intromissão dela, responde que não está interessado na jovem. Fumiko lhe deixa em herança um jarro de cerâmica Shino que pertencia à mãe e, mais tarde, uma tigela de chá de Shino, que supostamente traz um traço indelével do batom da mãe. Kikuji passa a se interessar por Fumiko, perguntando-se se vê a mãe dela nela.
Quando Kikuji volta de uma viagem ao lago Nojiriko, a senhora Kurimoto lhe traz a notícia de que tanto a senhorita Inamura quanto Fumiko se casaram com outro homem durante sua ausência. Ele descobre que a história dela era uma mentira quando Fumiko liga para informá-lo de que vai começar um novo emprego e se mudar para um apartamento mais distante dele. Fumiko o visita mais tarde naquela noite e insiste que a tigela de chá de sua mãe tem pouco valor e deve ser destruída. Kikuji coloca a tigela de chá de seu pai ao lado da da senhora Ota, e ambos sabem que essas eram as tigelas das quais seu pai e a mãe dela bebiam enquanto mantinham um caso. Fumiko acaba quebrando a tigela de sua mãe contra um prato de pedra. Mais tarde, Kikuji e Fumiko passam a noite juntos.
No dia seguinte, Kikuji tenta ligar para Fumiko no trabalho, mas ela não apareceu. Ele vai procurá-la em seu novo apartamento, onde é informado de que ela anunciou que iria passar férias com uma amiga. Kikuji se pergunta se Fumiko terá cometido suicídio, como sua mãe.
Título Senbazuru é traduzido literalmente como "mil tsurus", ou mais especificamente "mil grous". Tsuru é uma palavra japonesa que significa a família de aves dos grous, mas é mais frequentimente utilizada para se referir ao grou-da-manchúria em específico.
O tsuru (grou-da-manchúria) é uma ave considerada símbolo de sorte, amor, longevidade, fidelidade e poder de cura na cultura japonesa e asiática em geral.
Também pode se referir a um dos origâmis mais tradicionais da cultura japonesa. Os japoneses acreditavam que dobrar mil tsurus de papel para um paciente poderia ajudar em sua recuperação. Também é dito que um desejo é realizado para mil pássaros dobrados, um para cada ano de vida da ave na mitologia japonesa. Atualmente, essa prática de dobrar mil tsurus simboliza esperança em tempos difíceis.
Personagens Kikuji, o protagonista Chikako Kurimoto, uma ex-amante do pai de Kikuji Senhora Ota, uma ex-amante do pai de Kikuji Fumiko, filha da senhora Ota Yukiko Inamura, aluna da senhora Kurimoto
Temas Em sua resenha de 2015 para o The Japan Times, Stephen Mansfield destacou a "belíssima linguagem, a sexualidade obsessiva e o desprezo pela época" do romance, bem como a repetida justaposição do "feio e venal" com imagens de beleza, chamando-o de "uma obra impregnada de solidão e desorientação diante do fracasso da arte, da literatura e até mesmo da cerimônia do chá em criar um mundo mais ideal". Boyd Tonkin, no The Independent, identificou "paixões caóticas" atuando por trás de "uma superfície lírica e discreta", com os rituais e os utensílios da cerimônia do chá representando simbolicamente "a culpa, a dor e a saudade" dos protagonistas.
Em sua análise de Mil Tsurus, David Pollack traçou paralelos entre Kawabata e a escritora francesa Marguerite Duras, identificando "um senso semelhante de destinos predeterminados, de realidades oníricas e incipientes, de resignação lírica diante de um destino que avança inexoravelmente, em relação ao qual […] a vida parece assumir seu significado mais importante". Ao comentar sobre a personagem da senhora Kurimoto, ele vê a cerimônia do chá em suas mãos como tendo se tornado "pervertida e grotesca" e "um ritual de poder e vingança". Para Pollack, o retrato totalmente negativo da senhora Kurimoto é um sinal do antagonismo de Kawabata – e da maioria dos escritores japoneses do sexo masculino – em relação à ideia de "uma mulher com interesses 'masculinos' e com a disposição e a capacidade de agir de acordo com eles".
O próprio Kawabata rejeitou a ideia de que seu romance fosse "uma evocação da beleza formal e espiritual da cerimônia do chá", explicando que se tratava de "uma obra negativa, uma expressão de dúvida e um alerta contra a vulgaridade em que a cerimônia do chá havia caído".
Adaptações Mil Tsurus foi adaptado em um filme de longa-metragem em 1953 por Kōzaburō Yoshimura e em 1969 por Yasuzo Masumura.
Prêmios Mil Tsurus é um dos três romances citados pelo Comitê do Nobel ao conceder a Yasunari Kawabata o Prêmio Nobel de Literatura de 1968, sendo os outros dois O País das Neves e Kyoto. O romance foi selecionado para tradução e inclusão na Coleção de Obras Representativas da UNESCO.
Ver também Literatura japonesa
Notas
Categoria:Livros de Yasunari Kawabata