O Largo Jornalista Glênio Peres, usualmente conhecido como Largo Glênio Peres, é um espaço público da cidade brasileira de Porto Alegre. Está localizado no Centro Histórico da cidade, tendo o Mercado Público ao norte, a Praça XV de Novembro ao sul, a Rua Marechal Floriano a leste e a Avenida Borges de Medeiros a oeste. O Largo é vizinho da Praça Montevidéu e da Praça Pereira Parobé.

Antecedentes

A área onde hoje se localiza o Largo Glênio Peres é parte do núcleo primitivo da cidade e foi extensamente remodelada ao longo do tempo. Os primeiros registros de que ali havia um logradouro público datam de 1811, quando começou a ser planejada a Praça do Paraíso (atual XV de Novembro). Ainda não tinha qualquer urbanização, era um atoleiro e um depósito de lixo, ali pousavam carreteiros e vendedores ambulantes faziam seu mercado informal. Na área da Praça Parobé havia docas para atracamento de navios. O primeiro aterramento ocorreu entre 1843 e 1844, quando foi construído o primeiro Mercado Público. Este Mercado foi demolido em 1869 e um novo e maior foi erguido ao lado, na sua atual localização. Em 1879 a Câmara aprovou orçamento para construção, na Praça adjacente, de um jardim arborizado e cercado de uma grade.

No início do século XX já era intenso o tráfego de pessoas, as carretas ainda circulavam, e em 1919 foi instalado um terminal de bondes, aumentando o movimento. Nesta época o futuro Largo era uma rua. Em 1928 a Praça do Paraíso, já com o nome de XV de Novembro, começou a ser reduzida para a ampliação das ruas do entorno, e em 1930 foi construído um abrigo para os passageiros dos bondes. No fim da década de 1950 o novo Plano Diretor previu uma grande intervenção na região para a construção de uma avenida e um estacionamento, o que exigiria a demolição do Mercado Público, que não ocorreu. Essa proposta foi debatida novamente nas gestões de Célio Marques Fernandes e Telmo Thompson Flores, recebendo intensas críticas e outra vez abandonada.Franco, Sérgio da Costa. Porto Alegre: Guia Histórico. EDIUFRGS, 2006. 4ª ed. p. 313Massaro, Henrique. "Mercado Público: 150 anos de repetitivas resistências". Correio do Povo, 3 de outubro de 2019 Na década de 1960 toda a região do Centro Histórico estava congestionada e degradada, e as ruas em torno do Mercado Público começaram a ser invadidas por vendedores ambulantes.Brawers, Ana Paula et alii. Percepção do Portoalegrense sobre o Centro de Porto Alegre. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2006, pp. 15-19

Criação do Largo

As linhas de bondes foram extintas em 1970,"Bondes de Porto Alegre". TVE RS, 19 de setembro de 2013 mas o espaço continuou a ser usado como rua, tendo diversos terminais de ônibus, até que no final da década de 1980 o prefeito Alceu Collares lançou uma proposta mais concreta de transformar a área em um "largo cívico". No entanto, ele expediu muitos alvarás para autorizar vendedores ambulantes, e a situação que já era complicada se tornou caótica pelo incentivo que isso deu para a chegada de muitos mais. A degradação e o abandono do Centro continuavam, a criminalidade e a sujeira aumentavam, e a população residente e muitas lojas tradicionais começaram a se retirar. Entre 1980 e 2000 a população do Centro cairia continuamente, perdendo quase 15 mil residentes.Brawers et alii, pp. 11-12

A implantação do "largo cívico" só ocorreu na gestão seguinte, no governo de Olívio Dutra, quando o tráfego de veículos foi bloqueado e em 2 de agosto de 1991 iniciaram as obras de reforma, com a remoção dos ambulantes, transferência dos terminais de ônibus para as vizinhas Praça Parobé e Praça Rui Barbosa, e instalação de mobiliário urbano. Era então destinado como área de pedestres e manifestações populares, sem nenhum comércio, sendo inaugurado em abril de 1992. Na ocasião recebeu o nome de Glênio Peres, jornalista, compositor, poeta, vereador de Porto Alegre por vinte anos, cassado pela ditadura militar em 1977, vice-prefeito na gestão Collares, e um ativista dos direitos humanos e do meio ambiente.Scomazzon, Carlos. "Jornalista lança biografia de Glênio Peres na Câmara". Câmara de Vereadores de Porto Alegre, 16 de julho de 2008

O Largo Glênio Peres ganhou fama como tradicional local de manifestações políticas e religiosas, feiras, shows, eventos e atividade de artesãos e artistas de rua. Localizado no coração do Centro Histórico da cidade, cerca de 300 mil pessoas´passam por ele todos os dias.Garcia, Neiva Rosa. "Espetáculo de rua: manifestações culturais no Largo Glênio Peres e no Brique da Redenção na cidade de Porto Alegre-RS". In: Iluminuras, 2005; 6 (12) — Dossiê A construção destrutiva ou a destruição construtiva: territorialidades e paisagens vividas Segundo Santos & Sgarbossa, "é considerado um dos centros de efervescência cultural e política da cidade de Porto Alegre e é estratégico, uma vez que localiza-se em frente ao Mercado Público e à Praça XV de Novembro". Contudo, o logradouro tem sido centro de repetidas disputas sobre sua utilização.Silva, Rosiéle Melgarejo da. "Conflitos socioespaciais no uso dos espaços públicos de Porto Alegre: o caso do Largo Glênio Peres". In: Revista GEOUECE, 2013; 2 (2) "Qual será o destino do Largo Glênio Peres?". Jornal do Comércio, 18 de Agosto de 2026

Evolução thumb|Comércio ambulante na parte leste do Largo, 2007

Em 2005 seis obras monumentais de Amilcar de Castro foram instaladas no Largo durante o período da 5ª Bienal do Mercosul. O local foi escolhido "por ser um local configurado para um fluxo extremo de pessoas, as quais tiveram suas automatizadas trajetórias rotineiras interferidas pela poética, de grande densidade e escala, da obra Amilcar de Castro". O objetivo foi familiarizar a população com obras de arte contemporânea, e podiam ser tocadas. A proposta teve boa receptividade e muitos transeuntes se detinham a observá-las e interagir com elas.Alves, José Francisco (curador). "A Bienal do Mercosul e a arte pública temporária: as esculturas monumentais de Amilcar de Castro". In: Transformações do Espaço Público. Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, 2006, p. 28

Nesta época a região ainda estava tomada por vendedores ambulantes, que voltaram a ocupar partes do Largo. Eles foram removidos para o Camelódromo em 2009, possibillitando a reorganização do espaço, e logo depois a Prefeitura proibiu manifestações artísticas sem autorização prévia. Ao mesmo tempo, percebendo uma mudança na visão oficial sobre os usos do espaço, começaram a ser articulados movimentos de resistência.Heberle, Gabriela. Apropriações dos espaços públicos como forma de comunicação em Porto Alegre. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2016, p. 73-75 Em 2010, dentro do Programa Viva o Centro, a Prefeitura iniciou obras de requalificação do espaço em parceria com a Coca-Cola/Vonpar, prevendo um investimento superior a 1 milhão de reais ao longo de vários anos.Simon, Gilberto. "Grafitagens com imagens do Centro Histórico vão colorir tapumes". Porto Imagem, 22 de julho de 2012 A Coca-Cola assumiria a administração do espaço por três anos. A primeira etapa envolveu troca de postes de iluminação, recuperação do pavimento de basalto e pedras portuguesas, instalação de câmeras de monitoramento para segurança e rede de internet wireless,Simon, Gilberto. "Vonpar conclui etapa inicial das obras no Largo Glênio Peres". Porto Imagem, 9 de dezembro de 2010Simon, Gilberto."Prefeito Fortunati inaugura os decks do Mercado Público, 1ª Fase da revitalização do Largo Glênio Peres". Porto Imagem, 10 de dezembro de 2010 e um largo corredor junto à fachada sul do Mercado foi cercado para a instalação de deques cobertos, com refletores de piso e mesas para clientes dos bares do Mercado, mas depois de dois anos a Prefeitura considerou que a manutenção era precária.Simon, Gilberto. "Prefeitura sanciona lei que restringe atividades no Largo Glênio Peres". Porto Imagem, 14 de fevereiro de 2012Silva, Claiton & Rodrigues, Dayanne. "Recuperação do Largo Glênio Peres inicia com a instalação de novos deques do Mercado Público". Prefeitura de Porto Alegre, 3 de janeiro de 2022 Na segunda etapa, foi instalado um chafariz linear de chão com 50 metros de extensão e 19 jatos d'água, junto com um sistema de iluminação cênica,"Chafariz do Largo Glênio Peres volta a funcionar após recuperação estrutural". Prefeitura de Porto Alegre, 25 de maio de 2026 e na terceira, finalizada em 2014, foi instalado o Painel Afrobrasileiro no muro de contenção da Praça XV de Novembro, integrando o Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre, um projeto de Pelópidas Thebano com execução de Vinícius Vieira. Fischer, Luís Augusto. "O mercado, memória negra". Matinal Jornalismo, 5 de junho de 2021Painel Afrobrasileiro. Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre, 2014

Enquanto isso, em 2011 o prefeito José Fortunati enviou à Câmara de Vereadores um projeto de lei restringindo a ocupação do Largo, gerando críticas.Santos, Cristiano Lange dos & Sgarbossa, Marcelo. "Projeto de Lei do Largo Glênio Peres: um sinal de que a democracia em Porto Alegre está a perigo". Sul 21, 22 de dezembro de 2011 A lei foi aprovada em dezembro, proibindo a realização de feiras, exceto a Feira do Peixe e a Feira Estadual da Economia Solidária. Quaisquer outros eventos e atividades precisariam ter autorização prévia da Prefeitura.Castro, Fernando Cibelli de. "Aprovado projeto que regulamenta eventos no Largo Glênio Peres". Câmara de Vereadores de Porto Alegre, 14 de dezembro de 2011 Um grupo de ativistas encaminhou ao Ministério Público uma representação alegando que a lei era inconstitucional e pedindo sua revogação.Simon, Gilberto. "Querem revogar a lei do Largo Glênio Peres".Porto Imagem, 17 de maio de 2012 O prefeito defendeu a lei alegando que a restrição era necessária para proteger o pavimento de pedras portuguesas, mas isso não impediu que o local continuasse a ser usado como estacionamento,Tietboehl, Lúcia Karam. Política na Rua: modos de subjetivação e resistência nos movimentos de ocupação dos espaços públicos. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015, p. 66 o que vinha ocorrendo desde antes de 2002."Ordem de serviço nº 016". Prefeitura de Porto Alegre, 15 de julho de 2002 Na análise da pesquisadora Rosiéle Melgarejo da Silva, os critérios de seleção dos eventos que receberiam permissão eram questionáveis, e a burocracia tendia a inibir a livre ocupação de um espaço que é público. Mais tarde também foram permitidas outras feiras.Canto, Andressa de Bem e. "Projeto veda realização de feiras no Largo Glênio Peres, exceto Feira do Peixe". Câmara de Vereadores de Porto Alegre, 7 de julho de 2025