Edgard Frederico Leuenroth (Mogi Mirim, 31 de outubro de 1881 – São Paulo, 28 de setembro de 1968)Edgard Leuenroth (1881-1968) no Kate Sharpley Library foi um tipógrafo, jornalista, arquivista e propagandista, um dos mais notáveis anarquistas do período da Primeira República brasileira.Edgard Leuenroth. Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, Fundação Getúlio Vargas. Cópia arquivada em 8 de setembro de 2008.

Proveniente de uma família de imigrantes germanófonos originários do Alto Ádige (à época, conhecido como Tirol Meridional e pertencente ao Império Austro-Húngaro), fundou diversos jornais e colaborou em diferentes funções junto a tantos outros. Esteve envolvido com os periódicos O Boi, O Alfa, Folha do Braz, O Trabalhador Gráfico, Portugal Moderno, A Terra Livre, A Lucta Proletária, A Folha do Povo, A Lanterna, A Guerra Social, O Combate, A Capital, Eclectica, Spartacus, A Plebe, Jornal dos Jornaes, A Noite, Ação Libertária e Ação Direta.A voz dos operários: Edgard Leuenroth. Revista Fenae Agora Cópia arquivada em 25 de dezembro de 2005. Foi também fundador de diversas entidades vinculadas a imprensa, entre estas o Centro Typographico de São Paulo, a União dos Trabalhadores Gráficos, a Associação Paulista de Imprensa e a Federação Nacional da Imprensa.O Fundador, Federação Nacional da Imprensa

Em 1917 foi julgado e condenado como um dos articuladores da Greve Geral. Com o surgimento do Partido Comunista Brasileiro passou a ser criticado por Astrojildo Pereira, comunista ex-anarquista que tinha como meta ampliar a influência do partido através do alinhamento com os sindicatos e os meios de imprensa operários, com a proposta bolchevique, considerada autoritária por Leuenroth e outros anarquistas.

Foi responsável direto pela constituição de um dos maiores arquivos existentes sobre a memória dos movimentos operário e anarquista que hoje está sob os cuidados da Universidade de Campinas, levando o seu nome.

Biografia Primeiros anos thumb|250px|left|Casa da Chácara do Morro onde nasceu Edgard Leuenroth Edgard Leuenroth nasceu na cidade de Mogi Mirim, interior de São Paulo, filho do médico-farmacêutico Waldemar Eugênio Leuenroth e de Amélia de Oliveira Brito. Sua mãe era sobrinha do Visconde de Rio Claro. Aos cinco anos de idade, após o falecimento de seu pai mudou-se com sua mãe e irmãos para a cidade de São Paulo.Arquivo Edgard Leuenroth. UNICAMP, biografia de Edgard Leuenroth. Resgate de arquivos: o caso Edgard Leuenroth.Sua família se mudou para o bairro paulistano do Brás, a época um dos mais populosos bairros operários. Passando por dificuldades financeiras, aos dez anos de idade o jovem Edgard abandonaria os estudos e arranjaria um emprego como menino de recados e auxiliar de limpeza. Mais tarde trabalhou também como vendedor ambulante (caixeiro-viajante) de uma loja de tecidos pelo estado de São Paulo. Ofício de tipógrafo Leuenroth durante sua infância e adolescência passou um tempo ínfimo na escola aprendendo quase que por conta própria noções de escrita e matemática.

Aprendeu o ofício de tipógrafo ao conseguir seu primeiro emprego formal nas Oficinas da Companhia industrial. Em 1897 passou a fazer parte dos quadros do jornal O Commercio de São Paulo, na função de tipógrafo, permanecendo nesse emprego por doze anos. No mesmo ano fundaria o jornal quinzenal de crítica literária, O Boi, cujo título se dera mais pelo acaso do que por uma escolha racional, já que, como parte de uma velha máquina tipográfica adquirida viera junto um clichê de impressão onde se lia O Boi. Dois anos depois, em 1899 O Boi passaria a se chamar Folha do Braz. Leuenroth colaborou com este jornal, bem como com o jornal O Alfa de Rio Claro até 1901.

Contato com o Anarquismo Em 1900 começou a frequentar as reuniões do Círculo Socialista interessando-se pelas reflexões propostas pelo socialismo. No ano seguinte tem contato com o poeta libertário Ricardo Gonçalves, que lhe apresentou os princípios da filosofia anarquista, atraindo-o para o movimento libertário do qual jamais se afastaria. Na condição de operário tipógrafo e consciente da importância da associação de classe, fundou o Centro Typográphico de São Paulo, que um ano depois passaria a se chamar União dos Trabalhadores Gráficos e posteriormente Sindicato dos Gráficos. Na ocasião fundou também o jornal O Trabalhador Gráfico, que serviria como órgão de imprensa desta organização.

Passagem pelo Rio de Janeiro Em 1905 mudou-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como tipógrafo do jornal Imprensa e no periódico lusitano Portugal Moderno. Ainda que vivendo em outro estado neste mesmo ano fundou junto com o anarquista português Neno Vasco o jornal libertário paulistano A Terra Livre, para o qual escreveria utilizando pseudônimos como Frederico Brito, Palmiro Leão, Len, Leão Vermelho, entre outros. Neno Vasco o auxiliaria a melhorar seus conhecimentos de língua portuguesa bem como em seus estudos sobre as diferentes correntes de pensamento libertário. Em 1906 participou do Primeiro Congresso Operário Brasileiro que tinha como sua principal reivindicação a jornada diária laboral de oito horas. Naquele mesmo ano foi redator do jornal A Lucta Proletária, órgão de imprensa da Federação Operária de São Paulo.

Casamento e primeira prisão Ainda no ano de 1906 Edgard Leuenroth se casou com Aurora da Costa Reis com quem viveria por toda vida. Eles tiveram, juntos, quatro filhos - Nilo, Nair, Germinal e Anteu. Leuenroth retornou para São Paulo em 1908 quando fundou o periódico A Folha do Povo. No ano seguinte passou a dirigir o jornal libertário anticlerical A Lanterna, fundado por Benjamin Motta em 1901. Na direção deste periódico no ano de 1912 denunciou junto com outros jornalistas libertários os crimes sexuais cometidos pelo padre Faustino Consoni, acusado de assassinar uma criança recém chegada ao Orfanato São Cristóvão após tê-la violentado sexualmente. O Caso Idalina como ficou conhecido a época acabou desencadeando manifestações populares organizadas pelos anarquistas contra a Igreja Católica. Durante as manifestações Leuenroth foi preso, e posteriormente liberto graças às rápidas ações do escritor e advogado Evaristo de Morais, um dos grandes nomes da defesa da causa operária nos tribunais da época.A essa mesma época funda junto com Neno Vasco, Oreste Ristori & Gigi Damiani a Escola Moderna de São Paulo. Baseada na pedagogia proposta pelo educador libertário Francisco Ferrer Y Guardia (assassinado em 1909) a escola moderna no Brasil buscou gerar um ambiente de educação racional contrária às posturas autoritárias, servindo de refúgio aos muitos abusos e violências existentes nos colégios religiosos, a servir de alternativa para crianças de diversas idades.

Neste mesmo ano fundou e dirigiu o jornal A Guerra Social. Em 1913 participou como delegado do jornal A Lanterna do Segundo Congresso Operário Brasileiro realizado na cidade do Rio de Janeiro. Um de seus irmãos, João Leuenroth, era na época tesoureiro da Comissão Executiva Confederação Operária Brasileira. Em 1915 Edgard Leuenroth deixou de publicar o periódico A Lanterna para colaborar ativamente em outros meios: torna-se redator do jornal O Combate, trabalhando também na redação do jornal A Capital sendo também redator-secretário da revista Eclectica. Dois anos depois fundou o jornal A Plebe. Este seria um dos mais importantes jornais anarquistas publicados no Brasil atingindo ampla tiragem, tornando-se diário no ano de 1919.

A greve de 1917

Como resultado da forte organização do movimento operário paulistano através de sindicatos de inspiração anarquistas e órgão de imprensa operária e tendo como precedentes uma série de greves parciais pelo aumento dos salários, comícios e piquetes, em 1917 estourou a Greve Geral na cidade de São Paulo. Através de suas colunas do jornal A Plebe Leuenroth não só demonstrou seu apoio a greve, mas assumiu para si a função de articulador desta.Em 9 de julho, uma carga de cavalaria foi lançada contra os operários que protestavam na porta da fábrica Mariângela, no Brás resultou na morte do jovem anarquista espanhol José Martinez. Seu funeral atraiu uma multidão que atravessou a cidade acompanhando o corpo até o cemitério do Araçá onde foi sepultado.thumb|300px|left|Funeral de José Martinez em direção cemitério do Araçá no dia 11 de Julho de 1917.Indignados os operários da indústria têxtil Cotonifício Crespi, com sede na Mooca entraram em greve, e logo foram seguidos por outras fábricas e bairros operários. Três dias depois mais de 70 mil trabalhadores já aderiram a greve. Armazéns foram saqueados, bondes e outros veículos foram incendiados e barricadas foram erguidas em meio às ruas.Edgard Leuenroth, que naquele momento fazia parte do Comitê de Defesa Proletária, passara a ser considerado pelo aparato repressor estatal o mentor "psico-intelectual" da greve.Em meio ao caos das perseguições e cercos policiais aos grevistas, as dificuldades de reuniões e emissão das reivindicações e até mesmo tiroteios e saques Edgard Leuenroth junto a outros nomes do movimento operário anarcossindicalista paulistano organizam um enorme comício no antigo Hipódromo da Mooca.thumb|right|300px|Operários e anarquistas marcham portando bandeiras negras pela cidade de São Paulo na greve de 1917.

Ao fim do comício o Comitê de Defesa Proletária do qual Leuenroth fazia parte se reuniu para garantir que as reivindicações em formato de resolução fossem transmitidas ao presidente do estado, que entre outras demandas exigia a libertação de todos os operários do movimento que haviam sido encarcerados.Atendidas as exigências a greve chegou ao seu fim.

Segunda prisão thumb|left|300px|Fotos tiradas na delegacia por ocasião da prisão em 1917.Pouco tempo depois Leuenroth seria novamente preso sob a acusação de ter liderado um grupo de operários na pilhagem do Moinho Santista ocasião em que foram roubadas algumas sacas de farinha de trigo. Tem início um longo processo onde o aparelho burocrático-estatal se utiliza de todos os meios para manter Leuenroth preso. Este foi diversas vezes adiado causando protestos entre a forte imprensa anarquista da época que passou a denunciar a má vontade e a morosidade da justiça.No início de 1918 ainda na prisão, Leuenroth recebeu a notícia de que seus amigos libertários cogitavam a possibilidade de candidatá-lo para deputado como uma forma de protesto. De sua cela na cadeia pública de São Paulo, Leuenroth escreveu uma artigo agradecendo a consideração, afirmando que não poderia aceitar uma candidatura sua pois isso iria de encontro com seus ideais anarquistas aos quais permanecia fiel, e não compactuaria com o Estado nem para fazer protesto.

Sob o impacto da Revolução Russa thumb|right|250px|Charge de Leuenroth e o jornal A Lanterna. Após a Revolução bolchevique ocorrida na Rússia em 1917 e diante da falta de informações sobre o caráter dessa revolução os anarquistas brasileiros foram tomados de um intenso entusiasmo e otimismo acreditando que as revoluções sociais começariam a acontecer em outros países.

Libertado no final de 1918 Leuenroth participou do I Congresso Brasileiro de Jornalistas no Rio de Janeiro. Naquele mesmo ano em 18 de Novembro tem início a precipitada insurreição anarquista na cidade do Rio de Janeiro cujo fim desastroso levou diversos companheiros libertários de Leuenroth para a prisão, não tendo ele próprio uma participação significativa neste sucedido.