Composição étnica e racial da sociedade brasileira é resultado de uma confluência de pessoas de várias origens étnicas diferentes, dos povos indígenas originais, negros africanos, dos colonizadores portugueses, e de posteriores ondas imigratórias de europeus,Jansen, Roberta. Um Brasil europeu. O Globo. 18 de fevereiro de 2011. p. 36. Prof. Sérgio Danilo Pena. árabes e japoneses, além de outros povos asiáticos e de países sul-americanos.

Há diferença entre os conceitos de raça e etnia, onde Raça é uma construção social utilizada para distinguir pessoas em termos de uma ou mais características físicas, dentre elas a cor da pele, que são socialmente significativas; a raça é um termo sociológico e não biológico. Em termos biológicos considera-se que há apenas uma, a raça humana (com o projeto Genoma Humano o conceito biológico de "raças humanas" tornou-se desacreditado entre os biólogos e antropólogos). Um grupo étnico, por outro lado, corresponde a uma categoria de pessoas cujas marcas culturais percebidas são consideradas socialmente significativas e os grupos diferem entre si em termos de língua, religião, costumes, valores, ancestralidade entre outras marcas culturais. O Brasil pode ser apontado como um exemplo de que o conceito de raça é uma construção social,Guido Bolaffi, Dictionary of Race, Ethnicity and Culture (London: Sage, 2003; ISBN 0761969004), s.v. "Race", p.244. Here at Google Books (accessed 12 December 2009) e que o entendimento de raça pode variar em diferentes sociedades.

Nos séculos XIX e XX, a cultura brasileira tem promovido uma integração e miscigenação racial.Zaluar, Alba. Integração perversa: pobreza e tráfico de drogas. FGV Editora, 2004. p.39 No entanto, as relações raciais no Brasil não têm sido harmônicas, especialmente em relação ao papel de desvantagem dos negros brasileiros e indígenas, grupos fortemente explorados no período colonial do país, que tendem a ocupar posições menos prestigiadas na sociedade brasileira moderna, além das questões de choque cultural e dificuldade de preservação étnico-racial no país.

A análise de marcadores genéticos revela que o brasileiro médio possui, de forma decrescente, ancestralidades europeias, africanas e ameríndias.

Classificações por cor, raça e etnia Histórico 230px|thumb|direita|"Menino Índio", 1880 - Marc Ferrez.

Cientistas e geneticistas afirmam que raças humanas não existem, uma vez que, do ponto de vista genético, não é possível dividir seres humanos em raças diferentes. Pessoas de uma mesma população são tão geneticamente diversas quanto em relação a pessoas de outras populações. Todos os seres humanos compartilham um ancestral comum muito recente, não existindo diferenças biológicas profundas entre humanos. Muito embora o conceito de raça já tenha sido derrubado pela ciência desde pelo menos a década de 1940, o seu uso persiste à margem da antropologia, em livros de ciências populares e na imaginação não científica, que são taxonomias populares. Essas classificações raciais são frequentemente feitas com base em características físicas escolhidas arbitrariamente, como cor da pele e textura do cabelo. Qualquer tentativa de classificar seres humanos em raças diferentes é arbitrária e subjetiva, porquanto varia de sociedade para sociedade e depende dos interesses envolvidos.O Uso da Variável “Raça” na Pesquisa em SaúdeLuigi Luca Cavalli-Sforza, a giant in population genetics and professor emeritus, dies at 96"Raças não existem. Trata-se de um conceito inventado", garante o geneticista Sérgio PenaIs Race Real?The Origins and Demise of the Concept of Race Charles Hirschman Population and Development Review Vol. 30, No. 3 (Sep., 2004), pp. 385-415

A terminologia e a categorização de populações humanas em grupos varia entre diferentes autores, de acordo com o critérios adotados (cor, raça e etnia), cujas definições também variam. Enquanto o conceito de cor refere-se a um traço do fenótipo, o conceito de etnia refere-se principalmente a caracteres culturais (língua, religião, etc.). Já o conceito de raça é mais ambíguo, podendo ser entendido de forma biológica ou cultural, envolvendo critérios de ascendência, de aparência, ou socioeconômicos.GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Preconceito racial: modos, temas e tempos. São Paulo: Cortez, 2008. 144 p. Por exemplo, nos Estados Unidos, há predomínio de critérios de origem. Enquanto isso, no Brasil, a distinção racial faz-se principalmente por traços fenotípicos: cor da pele, formato do rosto, tipo de cabelo, etc.

De qualquer forma, tais categorias não devem ser entendidas de modo essencialista, como se tivessem limites claros entre si ou existissem formas puras. Ainda que os estudos e pesquisas ocasionalmente as tratem como categorias bem delimitadas por motivos práticos, os agrupamentos humanos se caracterizam melhor como gradientes ou mosaicos. A seguir, são apresentadas algumas esquemas de classificação, a título de ilustração de sua diversidade, embora possam ser consideradas defasadas ou inadequadas. Ainda no período colonial, diversos termos como "mamelucos", "pardos", "mulatos", "crioulos", "mouriscos", "cristãos-novos", etc., eram utilizados, mas não em sentido biologizante, e sim como forma de distinção social.MAIO, Marcos Chor, SANTOS, Ricardo Ventura (orgs.). Raça como questão. História, ciência e identidades no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz/Faperj, 2010. 316 pp. link.

Segundo Von Martius Em 1844, o naturalista alemão Von Martius, baseado nos desenvolvimentos da antropologia europeia então em voga, definiu o esquema clássico de três raças formadoras da nação mestiça, depois retomado por Varnhagen, com base nas cores de pele:MARTIUS, Carlos Frederico Ph. von. "Como se deve escrever a história do Brasil". RIHGBT. 6, p. 381-403, 1844. link.VARNHAGEN, F. A. de. Historia geral do Brazil. Rio de Janeiro: Laemmert, 1854-1857. [Tomo Primeiro, 1854, link; Tomo Segundo, 1857, link.]SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças. Cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930. São Paulo: Companhia das. Letras, 1993. linkFLORES, M. B.; MELO, S. F. A libertação de Cam: discriminar para igualar. Sobre a questão racial brasileira. In: RODRIGUES, C. C.; LUCA, T. R.; GUIMARÃES, V. (Org.). Identidades brasileiras: composições e recomposições. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2014. link. a raça "cor de cobre ou americana"; a raça "branca ou caucasiana"; a raça "preta ou ethiopica".

Von Martius foi também pioneiro no estudo dos indígenas. Entre a "raça americana", distinguia apenas dois tipos, em termos de antropologia física: os de estatura pequena e os de estatura elevada.ROQUETTE-PINTO, E. Anthropologia: guia das collecções. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 1915. link. [Cf. p. 30.] Entretanto, em termos de línguas, classificou os indígenas em oito grupos:Martius, Carl Friedrich Philipp von. Beiträge zur Ethnographie und Sprachenkunde Amerikas zumal Brasiliens. I. Zur Ethnographie. II. Glossaria linguarum Brasiliensium. Leipzig: Friedrich Fleisher, 1867. [Vol. 1, link; vol. 2, link.] Tupis e Guaranis Gês ou Crans Guck, ou Coco Crens ou Guerengs Parexis ou Poragis Goyatacâz Aruac ou Aroaquis Lengoás ou Guaycurûs

Segundo Roquette-Pinto Em 1929, Roquette-Pinto propôs quatro "tipos antropológicos" para o Brasil, a partir de características físicas:SOUZA, Vanderlei Sebastião de. Retratos da nação: os "tipos antropológicos" do Brasil nos estudos de Edgard Roquette-Pinto, 1910-1920. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 7, n. 3, p. 645-669, set.-dez. 2012.ROQUETTE-PINTO, Edgar. Ensaios de antropologia brasiliana. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1933. [Cf. p. 127] Leucodermos: o "tipo branco"; Phaiodermos: mestiços do "cruzamento" entre brancos e negros; Xanthodermos: mestiços de brancos e índios; Melanodermos: o "tipo negro".

Segundo Nina Rodrigues No início do , ainda havia poucos estudos sobre as origens dos africanos trazidos ao Brasil, questão esta que começou a ser esclarecida a partir de trabalhos de Nina Rodrigues nos anos 1930, que identificou dois grandes grupos: "sudaneses" (isto é, do centro-oeste africano, nagôs, jejes, etc.) e os bantos.NINA RODRIGUES, Raimundo. Os Africanos no Brasil. 6. ed. São Paulo: Ed. Nacional; [Brasília]: Ed. Universidade de Brasília, 1982. [1. ed., 1932.]RAMOS, Arthur. O negro brasileiro: ethnographia religiosa e psychanalyse. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1940. p. 22. link. [1. ed., 1934.] Neste mesmo período, a noção biológica de raça passou a ser substituída pela noção cultural de raça, e logo tal termo foi substituído por etnia.

Segundo Aroldo de Azevedo Aroldo de Azevedo, autor de um livro didático de geografia nos anos 1960, estabeleceu as seguintes "etnias brasileiras":RODRIGUES, Luis de Mello. "As Etnias Brasileiras". In: Azevedo, Aroldo de (coord.). Brasil: a terra e o homem: vol. 2: a vida humana. p. 159-208. 1a. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964. link. [2a. ed. 1970]. o elemento branco: portugueses, italianos, espanhóis, alemães, eslavos, etc.; o elemento mestiço: mulatos, caboclos (mamelucos), cafuzos, ainocôs; o elemento negro: culturas sudanesas, guineano-sudanesas islamizadas, e bantas; o indígena brasileiro: grupos tupi-guarani, jê, nuaruaque ou maipuré, caraíba ou cariba, bororo, nambiquara, carajá, tucano ou betoia, e pano. os elementos mongólicos: japoneses, coreanos e chineses.

Segundo Marvin Harris Em 1964, o antropólogo americano Marvin Harris definiu 40 "tipos raciais" no Brasil: "branco, preto, sarará, moreno claro, moreno escuro, mulato, morena, mulato claro, mulato escuro, negro, caboclo, escuro, cabo verde, claro, araçuaba roxo, amarelo, sarará escuro, cor de canela, preta claro, roxo claro, cor de cinta, vermelho, caboclo escuto, pardo, branco sarará, mambebe, branco caboclado, moreno escuro, mulato sarará, gazula, cor de cinza claro, crioulo, louro, moreno claro caboclado, mulato bem claro, branco mulato, roxo de cabelo bom, preto escuro, pelé".HARRIS, M. Patterns of race in the Americas. Nova York: Walker and Company, 1964. link. [Padrões raciais nas Américas, 1967, link.]

Segundo Darcy Ribeiro Em 1995, Darcy Ribeiro definiu cinco "variantes principais da cultura brasileira tradicional":RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. link. a cultura sertaneja; a cultura crioula; a cultura cabocla; a cultura caipira; a cultura sulina.

Segundo Censo Com relação aos censos demográficos, no primeiro deles, em 1872, foram utilizadas quatro categorias de "raças": branco, preto, pardo (termo problemático, uma espécie de "sobra do censo") e caboclo (para contabilizar a população indígena). Em 1890, retornando com o sistema de "cores", substituiu-se o termo "pardo" por "mestiço". Assim, nestes censos e nos de 1950 em diante, verifica-se a existência, para um mesmo quesito, de dois critérios simultâneos: ascendência e cor.

Nos censos de 1900 e 1920, não foram coletadas informações sobre cor ou raça e, em 1910 e 1930, não foram realizadas censos no Brasil. No censo de 1940, modificou-se "raça" por "cor", e redefiniram-se as quatro categorias: branco, preto, amarelo (para imigrantes japoneses) e uma "categoria residual" (depois codificada como "pardo", para classificar os que utilizaram outros termos de cor ou raça, e para os indígenas).

Nos censos de 1950 e 1960, o grupo pardo foi reabilitado como categoria de cor. Além disso, pela primeira vez, esteve presente o princípio de respeito à autodeclaração da pessoa recenseada. Em 1970, a categoria parda foi excluída outra vez, sendo novamente incluída em 1980. No censo seguinte, de 1976, o IBGE fez uma pesquisa no país, sem categorias pré-definidas, visando testar a adequação do sistema de "cores" adotado na pesquisa. Foram coletadas 136 cores diferentes, auto-declaradas pela população.